quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Pompeia e a negligência berlusconiana



Em Pompeia, a casa dos gladiadores desabou. Depois de dois mil anos em pé, ela foi derrubada pelas fortes chuvas de novembro. Foi vítima indireta do plano de economia do governo, que decretou cortes de verbas de 29 bilhões de euros para o setor público.

A catástrofe no sítio arqueológico de Pompeia é consequência do (des)governo de Berlusconi em relação ao patrimônio cultural do país, a maior riqueza da Itália. Falta verba para proteger as ruínas da cidade histórica, destruída pelo Vesúvio no ano 79 de nossa era. « Quando uma empresa está em dificuldade, ela se concentra no cerne de sua atividade. Ora, o cerne na Itália é a cultura » criticou o vice-prefeito de Gênova, Andrea Ranieri.

O extraordinário sítio arqueológico de Pompeia está em risco. Resistiu quase dois mil anos à erosão do tempo e a todo tipo de pilhagem até ser totalmente protegido pelos órgãos do Patrimônio Histórico italiano. As casas, os afrescos, os objetos e as esculturas de Pompeia foram estudados por arqueólogos e parte do que podia ser transportado está hoje protegido no magnífico Museu Arqueológico de Nápoles.


Este ano visitamos Pompeia. A ida à antiga cidade balneária é uma viagem no tempo. Em alguns minutos passamos de 2010 ao primeiro século de nossa era, vemos como viviam, comerciavam, amavam e se divertiam (inclusive nos bordéis, como mostra a foto com um pênis em pedra na porta) os cidadãos da rica Pompeia. Os habitantes foram surpreendidos pelas lavas e gazes expelidos pelo Vesúvio e a vida parou.



As fotos mostram a impressionante conservação de alguns afrescos internos das casas mais ricas, as ruas, os templos, as esculturas e os mosaicos como o da entrada da casa em que se vê um cão e a expressão em latim : Cave canem (Cuidado com o cão), frase universal para afastar ladrões e visitas inoportunas.



O céu estava azul, os jardins dentro do perímetro urbano de Pompeia estavam exuberantes, em plena primavera. O verde das plantas contrasta com as pedras das colunas de mais de dois mil anos.


Os corpos calcinados estão lá, são reais, na posição em que foram imobilizados para sempre. Sic transit gloria mundi.












Fotos de Leneide Duarte-Plon




Votar ou não votar, eis a questão

O novo livro de Michel Houellebecq, La carte et le territoire (Editions Flammarion), foi premiado com o prêmio Goncourt, em novembro, poucas semanas depois de lançado. Antes do prêmio, o novo romance de Houellebecq já tinha vendido 170 mil exemplares. Agora vai triplicar ou quadruplicar esse número. Os editores franceses sabem que existe um público que lê apenas um livro por ano e este livro é o ganhador do Goncourt.

Esse prêmio, além do prestígio literário que representa para o autor, funciona como uma formidável alavanca de vendas, uma espécie de grande prêmio da loteria. A ganhadora do ano passado, Marie NDiaye, que venceu com Trois femmes puissantes (Editions Gallimard) tinha vendido 79 mil exemplares do livro antes do prêmio. Depois do anúncio do Goncourt, Trois femmes puissantes já vendeu 515 mil exemplares em um ano.

Polêmico, desagradável, mal-humorado, mas respeitado pela crítica e com um público fiel no mundo inteiro, desde que lançou seu primeiro livro, Extension du domaine de la lutte (Editions Maurice Nadeau), Michel Houellebecq não se interessa nem por política nem por políticos.

Numa entrevista depois do Goncourt ele se explicou : «Não sou um cidadão e não tenho vontade de vir a sê-lo. Essa história de ter deveres para com seu país não existe. Somos indivíduos, nem cidadãos nem súditos. A França é um hotel, nada mais. Estamos num período de relativo esgotamento da democracia representativa. Seria preciso haver mais democracia direta. Não tenho vontade de votar por alguém, eleger meu rei. Por outro lado, acho frustrante não ser consultado mais frequentemente. Gostaria que houvesse mais democracia real, mais plebiscitos ».

Longe, muito longe do nihilismo (ou seria cinismo ?) de Houellebecq, o filósofo marxista Alain Badiou, organizador com Slavoj Zizek da conferência e do livro L’idée du communisme (Londres, 2009) declarou a um jornalista francês que não vota desde 1968, por não concordar com a « falsa democracia » expressa nas eleições parlamentares e presidenciais.

Depois de ter sido impedida de votar para presidente do Brasil de 1964 a 1989, acho difícil prescindir desse direito, mesmo concordando em parte com Badiou, de quem frequento o concorridíssimo seminário há dois anos, na École Normale Supérieure, onde se formaram grandes nomes da filosofia francesa, entre eles, Sartre, Beauvoir, Derrida e o próprio Badiou.

Israel : boicotar seria a solução ?

No Le Monde, alguns dias atrás, um manifesto assinado por franceses e israelenses pede o boicote a Israel. O título é Boycotter Israël, une lutte pour une paix juste. A campanha que defende o boicote aos produtos israelenses na França se chama Boycott-Désinvestissement-Sanctions (BDS). A petição que defende o boicote é uma resposta a um outro texto publicado no mesmo jornal em que a campanha pelo boicote era considerada “injusta”.

Conheço de longa data alguns dos que assinam a petição pelo boicote, entre eles, o editor Eric Hazan, o escritor e jornalista Michel Warschawski, filho do rabino Max Warschawski e criador do site de informação “The alternative information center” (www.alternativenews.org/english/) e o cineasta israelense Eyal Sivan, que entrevistei, membro como Warschawski, da organização Boycott from Within. Michel Warschawski é também membro do comitê que criou o Tribunal Russel para a Palestina, para julgar os crimes de guerra de Israel em Gaza, cujos trabalhos começaram em 4 de março de 2009.

No texto publicado no Le Monde, os signatários explicam que a campanha Boycott-Désinvestissement-Sanctions (BDS) tem como único objetivo a exigência que Israel « honre sua obrigação de reconhecer o direito inalienável dos Palestinos à autodeterminação e respeite plenamente as diretivas do direito internacional ». Segundo o texto, Israel se recusa a cumprir mais de 30 resoluções do Conselho de Segurança da ONU « atitude no mínimo paradoxal da parte de um Estado criado por uma resolução das Nações Unidas. A cada dia, com a colonização, são as convenções de Genebra que são violadas. Em julho de 2004, a Corte internacional de Justiça (CIJ) recomendava a Israel a destruição do muro construído na Cisjordânia : o muro continua a ser construído. »

Para ler a íntegra do texto Boycotter Israël , une lutte pour une paix juste é só colocar na internet o endereço:

http://www.lemonde.fr/idees/article/2010/11/17/boycotter-israel-une-lutte-pour-une-paix-juste_1440957_3232.html

domingo, 14 de novembro de 2010

O povo unido nas ruas de Paris






























Fotos de Leneide Duarte-Plon, feitas na passeata de 28 de outubro contra a lei de reforma das aposentadorias, que partiu da Place de la République e terminou em Saint-Augustin, passando diante dos grands magasins do Boulevard Haussmann.


O Théâtre du Soleil tendo à frente a diretora e fundadora, Ariane Mnouchkine (que dirigia pessoalmente seu grupo), desfilou com a boneca gigante representando a Justiça. De vez em quando o grupo parava para uma performance com música e encenava a luta da Justiça para se livrar de aves de rapina que a atacavam.


O senhor de cabelos brancos é Alain Krivine, fundador da LCR (Ligue Communiste Révolutionnaire) que se dissolveu em 2008, dando origem ao atual NPA (Nouveau Parti Anticapitaliste).

As fotos são eloquentes e mostram a determinação dos franceses na defesa das conquistas sociais. A aposentadoria aos 60 anos foi uma lei do governo Mitterrand e a passagem a 62 anos é vista pela maioria dos franceses como um retrocesso.

A nova lei foi adotada à força e o movimento social, que promoveu greves e diversas megapasseatas, foi vencido. No dia 28 de outubro, em plena semana de férias da Toussaint, "apenas" cerca de 200 mil pessoas desfilaram em Paris. Em toda a França elas eram mais de um milhão nas ruas de dezenas de cidades. Mas Sarkozy continuou surdo e seguiu em frente.

A eleição presidencial de 2012 vai mostrar se Sarkozy ainda consegue convencer a maioria da necessidade de mudar a França, adaptando-a à mundialização neoliberal, destruindo as conquistas dos trabalhadores e o modelo social francês.

Dominique Strauss-Kahn, o big boss do FMI, pode ser o candidato do Partido Socialista. Será que é de um banqueiro que a França precisa?








quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Manifesto dos verdes europeus censurado pela patética mídia nativa


Hoje, os bilhetes estão a serviço de uma causa. A da democracia e do pluralismo da informação. "Nossa patética mídia nativa" (copyright Mino Carta), que pensa que os leitores acreditam no mito da objetividade e da neutralidade que ela tenta veicular, só tem espaço para boatos e sensacionalismo anti-PT na campanha sórdida de defesa dos interesses dos mesmos predadores que dominaram o país por 500 anos e foram desalojados do poder pelo voto democrático que elegeu o presidente Lula em 2002.

Assim, não houve espaço na imprensa brasileira para o manifesto dos verdes europeus à candidatura de Dilma Rousseff.

Yann Moulier escreveu com a ajuda de alguns brasileiros um texto de apoio dos principais líderes do Partido Verde francês à candidata Dilma Rousseff. A imprensa brasileira, « neutra e objetiva », não quis publicar o texto explicando que « os signatários não eram conhecidos e o texto não era interessante ».

Daniel Cohn-Bendit não é conhecido. José Bové não é conhecido. Deputados e senadores franceses e europeus são pessoas sem interesse para nossa imprensa.

Ah, essa nossa patética mídia nativa ! (copyright Mino Carta).

Leiam e julguem. E vejam no fim do texto os desconhecidos que o assinam.

Paris 18 de outubro de 2010

No quadro das atuais circunstâncias do Brasil, a ancoragem na esquerda é a única possibilidade real de fazer avançar a causa ecológica

« É impossível acreditar que a esperança suscitada pelos dois mandatos presidenciais de Lula acabe terminando no segundo turno com a eleição do candidato da direita »

A candidatura de Marina Silva trouxe para o eleitorado de Dilma, a pupila de Lula, a grande surpresa do primeiro turno.

É preciso saudar a novidade que representa a candidatura de Marina Silva que já lutava, desde o período de sete anos em que foi ministra do governo Lula, para fazer entrar verdadeiramente as questões ecológicas na pauta de preocupações do governo brasileiro de esquerda. Com sua presença no escrutínio, a diversidade de lutas sociais, de todas as minorias (sexuais, religiosas) encontrou uma voz.

O placar de 19% do total de votos para uma candidata independente, sem apoio de partidos poderosos, representa a segunda grande surpresa. Ele prova que o Brasil se transforma muito mais profundamente do que apenas no plano do crescimento econômico. Para a democracia e a cultura, este já é um passo considerável.

Na América Latina, da Colômbia ao Chile, e agora também no Brasil, para além dos diferentes contextos, as questões ecológicas entram definitivamente na pauta das eleições presidenciais, o que não é mais o caso na Europa. O Brasil é a sétima potência mundial. Nenhum europeu em sã consciência pode se desinteressar pelo que está em jogo para os destinos ecológicos e sociais do planeta.

Esta é a razão pela qual desejamos, através deste manifesto, expressar nossa inquietação. A batalha do segundo turno se anuncia bastante cerrada e, algo impensável até ontem, uma vitória da direita não está mais excluída. Na configuração de hoje, o partido verde está longe de ter a dimensão popular de Marina Silva. Algumas personalidades como Gilberto Gil, ele mesmo afiliado a este partido, conclamam a que se vote em Dilma sem ambiguidade. E nós compartilhamos desta posição.

Prestemos bastante atenção ao seguinte: José Serra não é um social democrata de centro. Por trás dele, a direita brasileira vem mobilizando tudo o que há de pior em nossas sociedades: preconceitos sexistas, machistas e homofóbicos, junto com interesses econômicos os mais escusos e míopes. A direita sai do porão.

- Contra as mulheres, as facções mais reacionárias das igrejas cristãs – incluindo aquela da mulher do candidato da direita que declarou publicamente que Dilma quer assassinar criancinhas – acusam a candidata de ser favorável ao aborto, mesmo que esta questão não faça parte de seu programa de governo, tampouco do programa do Partido dos Trabalhadores.

- Contra os homossexuais: o vice de Serra sustenta um discurso abertamente sexista e homofóbico.

- Contra os pobres: acusados de votar na esquerda por ignorância.

A esta panóplia, bem conhecida em toda parte, vem se juntar uma criminilização particularmente ignóbil por parte da direita das lutas de resistência contra a ditadura. Dilma tem sido alvo de campanhas anônimas na internet que acusam de terrorismo e de bandidagem por ter participado na luta contra o regime militar, ela que foi por este motivo presa e barbaramente torturada.

A mobilização da direita está completamente ligada aos interesses do agro-negócio, um vínculo sobre o qual o governo Lula tem sido ambíguo em alguns momentos. No entanto, uma vitória da direita representaria o triunfo do complexo agro-industrial e dos céticos em matéria de aquecimento global. Seria uma guinada à direita em direção à revisão do estatuto da floresta que começou a limitar a devastação na Amazônia e no Mato Grosso, e no asseguramento dos direitos indígenas sobre suas reservas, que no ano passado obtiveram uma importante vitória (Raposa Serra do Sol) referendada pela Corte Suprema do país, que reconheceu esses direitos. Vinte e duas reservas indígenas podem seguir este caminho de enfrentamento com o agro negócio da soja e do arroz transgênico.

Não permitamos que o voto libertário em Marina Silva paradoxalmente se transforme em uma catástrofe para as mulheres, para os direitos humanos e para os direitos da natureza!

No plano internacional, os aspectos mais inovadores da política Sul-Sul de Lula (certamente pelo fato de seu apoio a Ahamdinejad), seriam condenados ao ostracismo com um realinhamento com os Estados Unidos. Além de representar uma alternativa à fixação estéril em uma política de confronto entre Estados Unidos e China, esta política Sul-Sul se opõe às estratégias dos países do Norte de multiplicar as medidas de defesa dos direitos da propriedade intelectual em detrimento do acesso aos saberes, à internet (especialmente no âmbito da ACTA[1]).

Marina Silva recusou-se a manifestar apoio ao voto em Dilma. Pode-se compreender que seja um pouco difícil para ela se alinhar imediatamente com Dilma, com quem ela entrou em conflito enquanto no governo, e neste momento ela luta para evitar o alinhamento do partido verde com a direita, apesar da campanha virulenta contra ela por parte do PT.

Com efeito, os ecologistas estão travando, não só na Europa, como em vários países do mundo, um sério debate com os socialistas sobre a questão nuclear, sobre a OMC e o produtivismo agrícola e industrial, bem como o problema do aquecimento climático. No Brasil, agrega-se a todas essas questões uma dimensão – amplificada por sua urgência crucial – da luta contra as desigualdades. Pode-se compreender, portanto, a reserva de alguns ambientalistas em se alinharem com a candidata da esquerda.

Mas nossa experiência como força política e de oposição e governo na Europa nos permite afirmar a nossos companheiros brasileiros que, nas atuais circunstâncias do Brasil, a ancoragem na esquerda é a única possibilidade real de fazer avançar a causa ecológica: já vimos no que se tornou a « Grenelle » – Ministério do Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável, Energia e Transportes – na França com a direita.

Quanto às mulheres, às minorias étnicas, religiosas, sexuais, elas sabem aonde têm que se bater. A xenofobia, o racismo, a mobilização reacionária da religião são os perigosos instrumentos que a direita populista utiliza alegremente na Europa.

É impossível acreditar que a esperança suscitada pelos dois mandatos presidenciais de Lula acabe terminando no segundo turno com a eleição do candidato da direita.

Daniel Cohn-Bendit (Alemanha) co-président du groupe parlementaire des

députés Verts au Parlement Européen

Monica Frassoni (Itália) co-présidente du Parti des Verts Européens

Philippe Lamberts (Bélgica) co-président du Parti des Verts Européens

Dominique Voynet (França) Senadora, Prefeita da Cidade de Montreuil , ex-

Ministra do Meio Ambiente (gov. Jospin)

Yves Cochet – ( França) Deputado Nacional, ex-MInistro do Meio Ambiente

(Gov. Jospin)

Noël Mamère (França) – Deputado Nacional e Prefeito de Bègles (Bordeaux)

José Bové (França) - Deputado europeu

Alain Lipietz (França) - dirigente dos Verdes, ex-deputado europeu

Jérôme Gleizes (França) – Dirigente da comissão internacional dos Verdes

Yann Moulier Boutang (França) Co-diretor da Revista Multitudes (Paris)


Mais uma daquela revista

Pedro Abramovay não é meu amigo. Não o conhecia nem mesmo de nome. Mas recebi de amigos sua nota, na qual esclarece mais uma leviandade da revista “Veja”, na qual trabalhei alguns anos, quando ela ainda não tinha se tornado a revista fascista que é hoje.

NOTA DE PEDRO ABRAMOVAY

Nego peremptoriamente ter recebido, de qualquer autoridade da República, em qualquer circunstância, pedido para confeccionar, elaborar ou auxiliar na confecção de supostos dossiês partidários. Não participei de supostos grupos de inteligência em nenhuma campanha eleitoral. Nunca, em minha vida, tive que me esconder.

A revista Veja, na edição número 2188 de 2010, afirma ter obtido o áudio de uma gravação clandestina entre mim e um ex-colega de trabalho. Infelizmente a revista se recusou a fornecer o conteúdo da suposta conversa ou mesmo a íntegra de sua transcrição.

Dediquei os últimos oito de meus 30 anos a contribuir para a construção de um Brasil mais livre, justo e solidário, e tenho muito orgulho de tudo o que faço e de tudo o que fiz. Trabalhei no Ministério da Justiça como Assessor Especial, Secretário de Assuntos Legislativos e Secretário Nacional de Justiça, conseguindo de meus pares respeito decorrente de meu trabalho.

Apesar de ver meu nome exposto desta forma, não foi abalada minha fé na capacidade de transformação de nosso país e tampouco na crença da importância fundamental de uma imprensa livre para o fortalecimento de nossa democracia.

Pedro Vieira Abramovay
Secretário Nacional de Justiça

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O câncer de Mitterrand

Soube que a saúde da candidata do PT, dada como curada de um câncer, tem sido um argumento "politico" de campanha no Brasil. Nesse momento de vale tudo, vale a pena relembrar a história de outro câncer, o do presidente François Mitterrand, que governou a França de 1981 a 1995, dois mandatos de sete anos.

Eleito em maio de 1981, François Mitterrand foi o primeiro socialista a ganhar uma eleição presidencial sob a Quinta República, inaugurada pelo general De Gaulle.

O presidente Georges Pompidou morrera em abril de 74 de um câncer linfático no exercício da presidência. No mesmo ano, Giscard d’Estaing, do partido de centro-direita foi eleito presidente, vencendo Mitterrand, o candidato do Partido Socialista. Ao vencer Giscard em maio de 1981, Mitterrand se compromete a divulgar um boletim de saúde semestral. Seu médico, Claude Gubler, passa a divulgar o boletim do presidente de seis em seis meses. Acontece que em setembro de 1981, o médico descobriu que o presidente tinha um câncer da próstata. E ninguém ficou sabendo.

Falsos boletins foram divulgados pelo Palácio do Eliseu durante muitos anos. Em 1992, os franceses descobrem que o presidente vai ser operado de um câncer que viria a matá-lo em 1996, um ano depois de terminar o segundo mandato. Dez dias depois da morte do presidente, o médico lança o livro « Le grand secret », contando a mentira de Estado da qual foi cúmplice, pois teve de falsificar boletins médicos. O livro se tornou logo um best-seller, foi proibido e, depois de um processo contra o médico por desrespeito ao segredo profissional, foi relançado.

Apesar da doença, Mitterrand realizou um governo que mudou o país : graças à sua promessa de campanha, o Parlamento votou a abolição da pena de morte. O governo Mitterrand promoveu, ainda, o aumento do salário mínimo, nacionalizou empresas, aboliu o monopólio estatal sobre o audiovisual francês e instituiu o ISF, imposto sobre a fortuna. E seu primeiro-ministro Pierre Mauroy instituiu um grande avanço social, a aposentadoria aos 60 anos, que Sarkozy está alterando agora com uma lei polêmica.

A reforma das aposentadorias

A França está em greve. A maioria dos serviços estão perturbados por greves em diversos setores da economia contra a reforma da previdência. Nesta terça-feira, dia 19, os franceses vão sair em passeatas por mais de 200 cidades. Será a terceira manifestação em uma semana com milhões de pessoas nas ruas (a soma de todas as passeatas do país ).

Na terça-feira, dia 12 de outubro (que aqui não é feriado), os franceses desceram mais uma vez às ruas para protestar contra a reforma das aposentadorias, vista como um retrocesso. Até hoje, a idade legal era de 60 anos e agora passa a 62 anos. Mas para se aposentar com o teto máximo (que na França não é o salário integral) a idade minima passa de 65 a 67 anos. A lei foi votada pela Assembléia Nacional (deputados) e confirmada pelo Senado esta semana.

Contra a reforma da aposentadoria, mais de três milhões de pessoas foram às ruas dia 12 em todo o país, uma greve geral foi iniciada e neste sábado, dia 16, novas passeatas foram realizadas em toda a França. Como milhares de pessoas, a diretora do Théâtre du Solei, Ariane Mnouchkine, saiu com sua troupe na passeata parisiense. Mnouchkine se posiciona totalmente contra essa reforma vista pelos franceses como uma regressão : « Eles sabem que daqui a dez anos ela será ultrapassada. É preciso fazer uma reforma, todo mundo está de acordo. Mas não se deve sacrificar sempre os mesmos. Chega de injustiças e de arrogância ».

O geógrafo e antropólogo Emmanuel Todd é mais contundente. Todd, autor de « Après la démocratie », diz : « Um economista vindo de Marte não compreenderia porque na França se defende o aumento da duração de trabalho para as pessoas já idosas, uma vez que não se consegue criar empregos para os jovens. Em termos de economia, a reforma não tem nenhum sentido. O governo quer dar a impressão de que enfrenta a realidade, mas foge dela. O que me choca é o espaço que se dá às novas gerações. É preciso lembrar que o futuro de uma sociedade são os jovens e não os velhos ».

Mulheres no poder

As mulheres estão chegando ao poder. O Brasil é o oitavo colocado em porcentagem de mulheres nos comitês executivos de empresas, à frente da Espanha, Alemanha e Índia. O universo estudado inclui empresas que estão nas principais bolsas de valores do mundo e a fonte é uma reportagem do Le Monde sobre as mulheres.

Em 2010, a Suécia tem 17% de mulheres nesses comitês executivos, os Estados Unidos, 14%, a Inglaterra 14%, a Noruega 12%, a Rússia 11%, a China 8%, a França 7% e o Brasil 6%.

Além de estar em 8° lugar nesse ranking, o Brasil pode, em 31 de outubro, vir se juntar à Alemanha e a outros países dirigidos por mulheres.

PV também quer aborto legalizado

Já que os fariseus (os franceses diriam Tartufos) trouxeram a discussão sobre o aborto para a campanha do segundo turno, é muito bom saber que o PV tem esse artigo no seu programa. As mulheres brasileiras das classes mais desfavorecidas poderiam, caso o programa fosse implantado, ser preservadas de uma morte por aborto praticado em condições precárias.

Programa do PV, capítulo 7, letra g

Programa: 7 - Reprodução Humana e Cidadania Feminina

1. Uma política de reprodução humana deve levar em conta a necessidade de estabelecer um sistema efetivo e democrático de acesso às práticas e técnicas de planejamento familiar livre e informado, que se baseie na contínua educação de homens e mulheres para a contracepção e o combate às DST's/AIDS. Constituem elementos para essa política:

g) legalização da interrupção voluntária da gravidez com um esforço permanente para redução cada vez maior da sua prática através de uma campanha educativa de mulheres e homens para evitar a gravidez indesejada.

O aborto mal praticado é responsável por grande número de mortes no Brasil. Vale lembrar o editorial do Le Monde que dizia : “O Brasil, primeiro país católico do mundo, tem seus arcaísmos e seus tabus, que se pode, segundo o ponto de vista de cada um, aceitar ou criticar. É pena que esse grave problema, em vez de suscitar um verdadeiro debate, seja utilizado como uma máquina de guerra eleitoral ».

É preciso que o Brasil consiga fazer a real separação da Igreja do Estado e legalize o aborto para que todas as mulheres, inclusive as que morrem nas mãos de curiosas, possam ter a opção de abortar dentro da legalidade e com segurança.

É lamentável que o Brasil seja dominado por esses vendedores de ilusão, párocos, pastores, bispos, que Jesus chamaria de « sepulcros caiados », como chamou os fariseus de seu tempo. Esses que proliferam no Brasil exploram a ignorância e o obscurantismo.


Israel expulsa Nobel da Paz


A irlandesa Mairead Maguire, prêmio Nobel da Paz de 1976 por sua ação na Irlanda do Norte, ficou presa no aeroporto de Tel-Aviv de onde foi expulsa no início de outubro. Diante da Suprema Corte que julgou seu caso, Mairead Maguire acusou Israel de ser um Estado « que impõe o apartheid e a limpeza étnica » ao povo palestino.

O jornalista israelense Gideon Lévy escreveu no jornal Haaretz : « Uma detentora do prêmio Nobel da paz está numa prisão israelense e ninguém parece dar atenção. Não temos vergonha, não dizemos nada. É uma situação que só pode acontecer em Israel, na Coréia do Norte, na Birmânia e no Irã ».

Homens e deuses

O filme "Des hommes et des dieux" foi escolhido para concorrer ao Oscar, depois de receber o Grand Prix em Cannes este ano. O magnífico filme de Xavier Beauvois conta a historia história verídica do assassinato de seis monges franceses na Argélia, em 1996, trata de violência e fanatismo, (sem cenas explícitas), e da recusa dos monges de Tibéhirine de ceder ao medo e à violência daquele momento em que o exército argelino enfrentava os grupos de fanáticos islâmicos que fizeram milhares de mortos.

O filme está fazendo uma carreira extraordinária e inesperada na França, levando-se em conta a seriedade do tema, a sobriedade da direção e ausência de qualquer apelo grande público. Des hommes et des dieux é de uma rara beleza e já foi visto por quase dois milhões de espectadores. As críticas são unânimes em elogios à direção, ao roteiro e ao desempenho dos atores, sobretudo de Michael Lonsdale e Lambert Wilson.

Em tempos de padres pedófilos, o diretor Xavier Beauvois, que não é católico, fez o filme de que a igreja precisava para reabilitar certos valores do cristianismo como a solidariedade, a tolerância e a convivência com outras religiões. O filme é o quinto de Beauvois.

A imprensa francesa deu grande espaço para a análise do sucesso de grande público de um filme sem efeitos especiais, sem sexo, sem imagens espetaculares, totalmente fora dos padrões das grandes bilheterias.

Um reencontro com o grande cinema francês, em meio a tanta mediocridade produzida na terra de Truffault e Godard.

Madame Sarkozy recebe no Elysée*

Leneide Duarte-Plon, de Paris

Quando um canal de TV pública (a França tem diversos e até 1987 todos os canais de televisão eram estatais subordinados à ORTF – Office de radiodiffusion télévision française) faz um documentário sobre a esposa do presidente em exercício para mostrá-la sob ângulos desconhecidos mas sempre favoráveis, como não reagir com críticas ou com ironia ?

Pois não foi outra a reação da imprensa francesa ao documentário La voie de Carla (O caminho de Carla), título que faz um trocadilho com voix, voz. O autor do perfil da primeira-dama, Marc Berdugo, deve ter-se achado genial pela « trouvaille ». Desde o início, tem-se a impressão de que se trata de obra de encomenda. Mas nada disso. No Eliseu, ninguém nunca encomendou nada. Que perfídia. O autor diz que o filme foi uma idéia totalmente sua pois conheceu Carla há vinte anos quando ela era manequim e ele estudante de jornalismo. Ah, bom.

No texto em que comenta o documentário sobre Madame Sarkozy, o jornal Libération adotou o tom irreverente que o caracteriza. A começar pelo título, Madame est servie, frase que as empregadas ou os mordomos dizem para avisar à patroa que a mesa está posta. Mas a frase tem um duplo sentido. Alguém está a serviço dos interesses de madame.

O documentário mostra uma primeira-dama elegante e discreta em seus deslocamentos no estrangeiro ou recebendo em jantares de gala no Eliseu. Poliglota, ela conversa com a rainha da Inglaterra em inglês e se dirige aos italianos da cidade de Áquila num italiano perfeito de quem nasceu em Turim. Além do mais, ela é capaz de encantar um público americano no Radio City Music Hall ao cantar ao lado de Dave Stewart num espetáculo em homenagem aos 91 anos de Nelson Mandela, em julho deste ano. A fina flor da música americana como Aretha Franlin, Steve Wonder e Cyndi Lauper subiu ao palco naquela noite.

Quando aparece no camarim e quando a escuta na platéia, o marido presidente é um fã discreto mas subjugado pelo charme de madame. Eles trocam palavras carinhosas, carícias e atenções o tempo todo em que ele aparece.

E aparece pouco pois o filme foi feito como hagiografia de madame. Que, aliás, pode ser vista em uma saída noturna do Samu Social, grupo de trabalhadores sociais que recolhem pessoas sem-teto das ruas de Paris para levá-las para abrigos aquecidos. Carla se veste de uniforme de trabalho, põe um boné e fica ao lado dos profissionais, agachada, discreta, tentando passar despercebida, enquanto eles tentam convencer um sem-abrigo a passar a noite num local fechado e protegido. Para Madre Teresa de Calcutá é um passo.

Em recente artigo sobre a mídia brasileira, o jornalista Mino Carta escreveu : « Resta ver se o Brasil estaria maduro para uma tevê estatal, nascida do entendimento de que esta há de ser uma instituição permanente a servir à nação em lugar do governo do momento. -Sinceramente, não aposto nesta maturidade ». Leia a íntegra do artigo de Mino Carta aqui: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=611IMQ003

Pois se nem mesmo a França, uma democracia mais que calejada, berço da revolução chamada francesa que nos deu a declaração dos direitos humanos, está madura, como estaria o Brasil ? Se o diretor-geral de France Télévision, a holding que engloba todos os canais públicos, é escolhido pelo próprio Sarkozy, que independência tem ele para fazer uma televisão totalmente desvinculada do poder ?

* Publicado no Observatório da Imprensa em 13-10-10