sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Véu e erotismo



Tarde de verão em Montreux, Suiça
Foto de Leneide Duarte-Plon



O véu das mulheres muçulmanas continua a ser debatido na França. Três centenas de mulheres que usam o véu integral (nicab, chamado indevidamente de burca por alguns jornais) servem de pretexto para desviar o debate dos reais problemas do país : o desemprego, a falta de habitações decentes para todos os franceses e um certo desencanto com os políticos, a um mês das eleições regionais. Nessa eleição de março, os franceses vão eleger os presidentes das 22 regiões. Atualmente, 20 dos presidentes são socialistas.
Segundo Georges Vigarello, grande especialista da história do corpo, autor do livro “Love me”, nos países muçulmanos sempre existiu uma estética do véu, da retirada do véu, do erotismo do rosto e do olhar. Pelo olhar, tudo pode ser dito. Daí a preocupação de algumas seitas muçulmanas de cobrirem totalmente as mulheres, inclusive os olhos.
Um dado curioso: a República islâmica do Irã, onde as mulheres só podem mostrar em público as mãos e o rosto, tem o mais alto índice de operações plásticas do nariz do mundo. Já que só resta o rosto, as iranianas se maquiam muito e fazem o que podem para valorizá-lo.
Depois que recebeu o relatório da comissão parlamentar que estudou o problema, o governo francês pretende editar uma lei para proibir o uso do véu integral no espaço público. Mas vai com calma para não correr o risco de votar uma lei que pode vir a ser considerada inconstitucional pelo Conselho Constitucional, guardião da Constituição.
A propósito: o prêmio Nobel da paz de 2006, o indiano Muhammad Yunus, criador do microcrédito, é contra a proibição. O jornal Libération, o convidou, como já fez outras vezes com filósofos como Alain Badiou, a participar da edição do jornal de 4 de Janeiro. Todas as páginas tinham um comentário de Yunus sobre a principal notícia da página. Ele conta que no início de sua atividade com o microcrédito, em Bangladesh, só emprestava a mulheres.
“Todo mundo era contra e dizia que eu iria destruir a cultura de Bangladesh. Depois, ganhei o Nobel. Não compreendo que a França queira proibir o véu integral. Para mim, a mulher deve ter a liberdade de escolher”.

Arte islâmica e sonho de paz

Até o dia 14 de março quem passar por Paris pode ver uma das mais maravilhosas exposições dos museus franceses: Arts de l’Islam, no Instituto do Mundo Árabe, cujo prédio de Jean Nouvel já vale a visita. Todas as obras expostas pertencem à coleção do milionário Nasser David Khalili, um judeu iraniano que vive na Inglaterra desde 1978. O milionário colecionador possui 20 mil objetos em sua coleção de arte islâmica, milita para a paz e a compreensão entre judeus e muçulmanos e para isso criou a Fundação Maimônidas.
A exposição Artes do Islã consta de 500 obras de arte da coleção Khalili provenientes de diversos países islâmicos : desenhos, objetos de uso quotidiano, como vasos, cofres, jóias, ligados ou não à religião muçulmana (há também muitas cópias ilustradas do Corão, datando de diversos séculos com iluminuras absolutamente fantásticas). Os objetos são provenientes da Síria, do Irã, do Iraque, do Afeganistão, da Tunisia, do Marrocos e da Argélia, entre outros. Para os curadores da mostra, Aurélie Clémente-Ruiz e Eric Delpont, duas obras já valeriam a visita: o Shah Namah, Livro dos Reis, a grande epopéia persa, de 60 mil versos e 258 miniaturas realizadas entre 1520 e 1540 pelos melhores artistas e notável pela precisão do desenho, infinita nuance de cores e sutileza das sombras.
O outro é o manuscrito original da história universal de Rashid-Al-Din (1247-1318), um judeu de Hamadan, que se converteu ao Islã para ser vizir. Al-Din era um estudioso de teologia, história e agricultura e é o autor do Jami al-tazarikh, “o compilador da História”, escrito em persa e publicado em Tabriz, no Irã, em 1314-1315. As páginas expostas são da edição original e tratam dos costumes, da geografia, guerras, mitologias e crenças. As cenas ilustradas tratam da vida de Buda e da Bíblia : a Arca de Noé, Jonas e a baleia ou a morte de Moisés no monte Nebo.

Guerre en Orient ou paix en Méditerranée ?

O filósofo Etienne Balibar e o físico Jean-Marc Lévy-Leblond assinaram um texto com esse título no Le Monde em 2006, antes, portanto, da guerra que Israel fez contra Gaza, para aproveitar os últimos dias de governo do “padrinho” da colonização, George Bush, em dezembro de 2008 e começo de 2009.
Balibar e Lévy dizem em certo trecho: “O Estado sionista desenvolveu uma forma de democracia política (regime parlamentar, garantias constitucionais, liberdade de opinião) e atinge, apesar de grandes desigualdades sociais, um nível de sucesso econômico e cultural elevado (graças também a uma ajuda americana maciça e permanente como nenhum outro Estado jamais teve). Mas ele instituiu nos diferentes territórios que controla uma forma de apartheid (que o geógrafo Oren Yiftachel chama de etnocracia) cuja condição de existência é a completa prisão das populações dominadas, o controle de seus recursos materiais, a destruição progressiva de suas instituições culturais e a violência assassina contra suas ações de resistência mesmo não-violentas e contra suas direções políticas autônomas”.
Esta semana, o jornal L’Humanité (comunista) publicou uma longa entrevista com Gideon Levy, jornalista do jornal israelense Haaretz, de passagem por Paris para lançar um livro com suas crônicas. O título da entrevista era: “Como falar de paz e construir colônias?”.
Comentário e trechos da entrevista ficam para a semana que vem.


Água, um bem comum da humanidade

Vi Danièle Mitterrand sendo entrevistada na TV sobre seu último livro. Que mulher admirável. A viúva de François Mitterrand criou a ONG France Libertés que milita no mundo inteiro por um mundo mais justo, a começar pelo direito de todo ser humano de acesso à água potável, como um direito inalienável. A luta de Danièle Mitterrand é no sentido de fazer com que os que vivem da exploração da água como uma mercadoria cessem de ganhar dinheiro com o que ela considera um bem comum da humanidade.
Os principais pontos dessa luta são: a instauração de um governo público internacional para a gestão e o acesso à água para todos; auxílio a todas as prefeituras que quiserem aderir a essa gestão pública democrática e transparente da água.
Aos 86 anos, Danièle Mitterrand continua sua militância política pela justiça social.


O bonapartismo de Sarkozy

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Véu integral : proibido proibir

Mulheres que se escondem por trás de alguns metros de tecido podem representar uma ameaça à République Française? Quem são? Perigosas terroristas? Não, apenas poucas centenas de mulheres muçulmanas que usam o véu integral chamado indistintamente de burqa (burca) ou niqab (nicab) pela imprensa. Muitos dos articulistas chamados a escrever sobre o tema na mídia francesa veem no debate uma islamofobia que não é admitida por quem defende uma lei que proibirá o uso do véu integral. Os defensores da lei alertam contra o fundamentalismo islâmico do qual essas mulheres seriam a ponta do iceberg.
Burca é o véu total, aquele que faz uma muçulmana parecer um fantasma com uma pequena tela no lugar dos olhos. Esse é o “uniforme” das mulheres do Afeganistão, quase sempre azul, imposto pelos fundamentalistas talibãs. Nicab é outro tipo de véu muçulmano total, em geral preto, que cobre o corpo e a cabeça, deixando uma fina abertura para os olhos. Até mesmo as mãos são cobertas com luvas pretas. Nenhum centímetro de pele pode estar à mostra.
A imprensa francesa e os políticos resolveram batizar o nicab definitivamente de “burca” e foi essa denominação que se impôs para designar o véu negro que deixa apenas os olhos de fora. Mas a verdadeira burca afegã é tão rara na França quanto um urso polar nas ruas do Rio de Janeiro.
No ano passado, os políticos franceses, sob a iniciativa de um deputado comunista, resolveram criar uma comissão parlamentar para estudar o assunto e discutir a oportunidade de uma lei proibindo o véu total (nicab), rebatizado de “burca”.
A comissão parlamentar se reuniu durante seis meses (de junho de 2009 a 26 de janeiro de 2010), audicionou mulheres muçulmanas, teólogos, sociólogos, associações feministas e imãs (religiosos muçulmanos). No dia 26 de janeiro, a comissão divulgou um relatório que preconiza uma lei proibindo o véu integral nos serviços públicos e nos transportes.
Durante seis meses os jornais e as revistas não pararam de discutir o uso da “burca” nos espaços públicos (escolas, universidades, transportes públicos). Não havia crise, desemprego, nada se passava de importante no país. O futuro da França depende de uma lei proibindo a burca.
Há argumentos para proibir o véu total: a segurança pública, a dignidade e a liberdade das mulheres. E há argumentos para liberar seu uso : a liberdade individual de se servir de símbolos religiosos para professar uma fé, o caráter inofensivo do uso de uma determinada vestimenta.
Confesso que ao ver uma mulher totalmente escondida sob um manto preto tenho pena dela por ter interiorizado a mentalidade misógina da religião muçulmana. Mas e a misoginia da religião judaica que relega a mulher a um papel subalterno? Não foi o judaísmo que criou Eva, o agente da tentação de Adão? E a misoginia da igreja católica que afastou as mulheres de toda participação na hierarquia da igreja e que impede as mulheres de dirigirem uma missa? A misoginia precisa ser combatida com pedagogia e não com leis restritivas. As mulheres devem se libertar pela razão, pelos estudos, pela argumentação. Proibir o véu é proibir a proibição de mostrar o corpo feminino ao olhar masculino.
Não seria mais fácil fazer pedagogia para libertar as mulheres do jugo machista de todas as religiões mostrando que o véu já é ele mesmo uma proibição ao olhar masculino? Esse mesmo machismo original de todos os mitos e interditos que veem na mulher e no seu corpo a origem de todo mal? O corpo da mulher causa medo aos homens e por isso é preciso escondê-lo. Para quem se interessa pelo assunto recomendo o excelente livro “La psychanalyse à l'épreuve de l'Islam”, do psicanalista Fethi Benslama.
O presidente Sarkozy chegou a declarar que “a burca não tem seu lugar na França em nome da dignidade das mulheres”. Em nome da liberdade e da dignidade da mulher muitas associações feministas se declaram favoráveis à lei proibindo o véu. As mulheres que usam o véu integral são vistas como oprimidas por fundamentalistas islâmicos.
Para combater o fundamentalismo islâmico, a França pode tomar a pior decisão. Ao proibir o uso do véu total, a lei pode impor a prisão domiciliar a muitas mulheres que se recusarem a retirar o véu. Muitas declaram que preferem não mais sair de casa a retirar o véu. Outras falam em emigrar para países islâmicos. Outras, como Oum Aldina recorrerão ao Parlamento Europeu contra uma lei que julgam liberticida:
“A lei pode ser votada mas não tirarei meu véu”, diz essa muçulmana que mora na França e usa o nicab que só deixa os olhos à mostra. Por cima, ela ainda usa um outro véu de tecido negro muito fino. Oum Aldina promete ir buscar Justiça no Parlamento Europeu pela liberdade de usar o véu integral. “Ninguém pode me impedir de me vestir como eu decidi”.
O “New York Times” fez um editorial criticando a possível adoção de uma lei francesa. Certamente ela não vai passar despercebida pelos fundamentalistas islâmicos que terão mais um motivo para se sentirem perseguidos no Ocidente.

Daniel Bensaïd

Ele pertenceu a uma geração militante que participou ativamente de maio de 68 na França. O filósofo marxista Daniel Bensaïd morreu este ano em Paris, aos 64 anos sem ter abandonado a bandeira da resistência, foi até morrer um defensor do marxismo e um crítico do capitalismo. Autor de diversos livros sobre marxismo, um dos fundadores com Alain Krivine da “Liga Comunista Revolucionária”, rebatizado no ano passado de Novo Partido Anticapitalista, Bensaïd mereceu um elogio de meia hora no seminário mensal de duas horas que o filósofo Alain Badiou dá na Ecole Normale Supérieure. Badiou saudou a coerência do “companheiro distante”, a inteligência e a luta do filósofo desaparecido. Badiou foi maoísta na juventude e Bensaïd, trotskista.
Um dos últimos trabalhos de Daniel Bensaïd foi o livro “Un nouveau théologien B-H Lévy”, uma resposta ao livro de Bernard-Henri Lévy “Ce grand cadavre à la renverse”. Além disso, ele escreveu o prefácio da nova edição do livro de Karl Marx “Sur la question juive” (Sobre a questão judaica, La Fabrique, Paris, 2009).



sábado, 23 de janeiro de 2010

Haiti : colonialismo e neocolonialismo

A história da miséria do Haiti é a ilustração perfeita da mistura de colonialismo praticado pelo “país dos direitos humanos”, a pátria de Voltaire e Sartre, com as distorções da política dos grandes organismos internacionais (FMI e Banco Mundial) responsáveis pelo controle da economia dos países do que se convencionou chamar Terceiro Mundo.
Pouca gente lembra que ao deixar o poder em 1986, derrubado por uma rebelião popular, o ditador haitiano conhecido como Baby Doc veio se refugiar na França, antiga potência colonial, onde vive até hoje com o estatuto de “refugiado político”. Ao fugir com 900 milhões de dólares, soma maior que a díivida total do Haiti naquele momento, o ditador tinha essa fortuna bem guardada em bancos suíços. Segundo o site Mondialisation.ca um processo na Suíça tenta restituir ao Haiti os bens depositados em nome dos Duvalier. O banco UBS congelou o dinheiro e dificulta como pode a restituição dos 900 milhões de dólares ao verdadeiro dono, o povo haitiano.
O cinismo de Baby Doc, apelido de Jean-Claude Duvalier, atualmente com 58 anos, é chocante. Esse senhor, que mora na Côte d’Azur com todo o luxo que o dinheiro (do povo haitiano) pode pagar, divulgou esta semana num site em inglês chamado Daily Beast que “fez uma doação de 5 milhões de dólares ao povo do Haiti através da Cruz Vermelha americana”. Esse dinheiro estaria na Suíça em nome de uma fundação que leva o nome de sua mãe, Simone Ovide-Duvalier. Mas há um pequeno detalhe: essa conta está bloqueada pelas autoridades suíças e o dinheiro não pertence mais ao ex-ditador, filho do velho Papa Doc que governou de 1957 a 1971, quando começou o (des)governo de Baby Doc. De 1957 a 1986, quando Baby Doc fugiu do país, a dívida externa do Haiti foi multiplicada por 17,5.
Na França existe um “Comitê para julgar Duvalier” cujo presidente, Gerald Bloncourt, se declarou escandalizado com o cinismo de Baby Doc.
Mas por que a França abriga Baby Doc? Por que os Estados Unidos apoiaram o governo de seu pai e o seu até o fim?
Logo depois de declarar sua independência da França em 1804, numa luta ao mesmo tempo antiescravagista e anticolonial, o Haiti tornou-se a segunda república independente das três Américas e a primeira república negra do continente. Mas o país foi obrigado a pagar à França uma espécie de resgate, correspondente a 150 milhões de francos ouro (o orçamento anual da França na época). Em 1825, a mesma França decidiu que a ex-colônia teria que pagar por cinco anos a soma equivalente hoje a 21 bilhões de dólares como indenização aos ex-colonos. Essa dívida era uma garantia do acesso da antiga metrópole aos recursos naturais do país.
A França, antiga potência colonial, e os Estados Unidos, que ocuparam o país em 1915, são plenamente responsáveis pelo atual estado do Haiti. Mas a Comissão Régis Debray, instituída em 2004, preferiu afastar a idéia de restituir a soma fabulosa paga pelos haitianos a partir de 1825. A Comissão argumentou que “isso não tinha fundamento jurídico e poderia abrir uma caixa de Pandora”.
A França até hoje não reconheceu seu erro ao dar de presente ao ditador Baby Doc o status de refugiado político garantindo, portanto, sua imunidade. Não li em nenhum jornal francês uma crítica ao país dos direitos humanos por abrigar como refugiado político o ex-ditador que deixou o país em ruínas.
Segundo Sophie Perchellet et Éric Toussaint, autores do texto do site mondialisation.ca os planos de ajuste estrutural impostos pelo FMI e pelo Banco Mundial são os responsáveis pela atual miséria do país. “A agricultura camponesa do Haiti sofreu o dumping dos produtos agrícolas dos Estados Unidos. As políticas macro-econômicas sustentadas por Washington, pela ONU, FMI e pelo Banco Mundial não se preocupam nem um pouco com a necessidade de desenvolvimento nem com a proteção do mercado nacional. A única preocupação dessas políticas é produzir a preços baixos para a exportação para o mercado mundial.”

Cuba, o reverso da medalha



Ao lado do Haiti, outra ilha, outra realidade.
Voltei de Cuba entusiasmada pelo (pouco) que vi durante os (poucos) dias que passamos em Havana. Na semana em que voltei, a revista Le Monde Magazine fez uma matéria sobre a blogueira cubana que se tornou célebre no mundo inteiro. Leia aqui um comentário que fiz para o Observatório da Imprensa, do qual sou correspondente na França.

Como não tenho competência nem argumentos suficientes para defender Cuba e a revolução que completou 51 anos em 1° de janeiro, usei como contraponto às críticas da blogueira algumas informações de uma excelente entrevista de Frei Betto dada a Andrea Duffour, membro da Associação ATTAC e coordenadora da Associação Suíça-Cuba.
O socialismo em Cuba tem partido único, economia socializada, Fidel Castro eleito e reeleito. Mas o povo se alimenta, tem um sistema de saúde de excelente nível e educação obrigatória, gratuita e universal. O povo do Haiti tem, em tese, direito de sair do país, viajar, votar, eleger seus governantes. Mas viajam apenas os poucos privilegiados e os governantes impuseram ao povo a miséria do FMI e do Banco Mundial.
A seguir, um trecho da entrevista com Frei Betto a Andrea Duffour. A íntegra se encontra neste link

O senhor lembra num artigo que a fome mata cerca de mil pessoas por hora. Como o senhor explica que um país pobre como Cuba não tenha tais estatísticas e que depois de meio século não haja uma só criança morrendo de fome ou de doença curável?
Frei Betto: Em Cuba garantiu-se ao conjunto da população os três direitos fundamentais do homem que são o alimento, a saúde e a educação. Em Cuba há pobreza mas não há miséria e os cubanos podem se dar ao luxo de dizer o que está num cartaz no aeroporto de Havana: “Esta noite 200 milhões de crianças vão dormir na rua, nenhuma delas é cubana”.
Os cubanos dizem que têm um partido único mas que ele defende os interesses da maioria das pessoas e que na Europa temos muitos partidos com nomes diferentes mas que não representam senão um partido, o do capital...
Frei Betto: Exatamente. No mundo capitalista, há vários partidos com nomes diferentes mas um único modelo, o capitalismo liberal. Em Cuba, temos uma democracia participativa na qual o povo não somente partilha os direitos políticos mas também os direitos econômicos. Os cubanos participam das decisões governamentais e fizeram uma escolha pelo sistema socialista com um partido que defende os interesses da maioria. A escolha deles é soberana. Por isso Cuba é diabolizada pela imprensa internacional.


Lula “Homme de l’année”


Ao chegar em Paris no início de janeiro encontrei a revista Le Monde Magazine com data de 25 de dezembro com um Lula sorridente na capa, em big close. Uma grande reportagem repleta de fotos traça o perfil de Lula. As fotos mostram o presidente com Obama e Angela Merkel, com Pelé festejando a escolha do Rio para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, com populares saudando uma criança que se joga sobre ele e com o vice-presidente subindo a rampa em janeiro de 2007. O excelente texto do perfil é do correspondente Jean-Pierre Langellier, do Rio de Janeiro, e abre com a foto de Lula no nordeste em outubro de 2009, no meio da barragem do Rio São Francisco.
“Lula, homme de l’année” é o título do perfil que explica como epígrafe: “Ele colocou decididamente seu país numa dinâmica de desenvolvimento. Soube se manter um democrata, lutando contra a pobreza sem descuidar de um crescimento mais respeitoso do equilíbrio natural. Presidente do Brasil desde o dia 1° de janeiro de 2003, no final de seus dois mandatos ele terá dado um novo rosto à América Latina. Razões suficientes para que a redação do Le Monde o escolha como a personalidade do ano 2009”.
Além disso, Lula receberá o prêmio de Estadista Global do Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), no dia 29 de janeiro. Esta é a primeira edição da homenagem, criada para marcar o aniversário de 40 anos do Fórum.
Em 2008, a A UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Ciência, Educação e Cultura - outorgou ao presidente Lula o Prêmio de Fomento da Paz Félix Houphouët-Boigny. Já receberam esse prêmio, entre outros: Nelson Mandela, Yitzhak Rabin, Shimon Peres, Yasser Arafat, Jimmy Carter e o rei Juan Carlos I da Espanha.
Só falta o Nobel da Paz pelo combate à fome no Brasil...

Juliette Gréco amou um brasileiro

A Folha de São Paulo publicou uma entrevista feita por mim com Juliette Gréco, a cantora que tem 82 anos e foi musa dos existencialistas franceses. Saiu em dezembro de 2009 e pode ser lida no link (apenas para assinantes Folha ou Uol)





terça-feira, 24 de novembro de 2009

Fellini e seu double



O outono parisiense trouxe Fellini ao Jeu de Paume. Era domingo e o chão estava coberto de folhas amarelas no dia em que fui vê-lo.
Parei um longo momento diante do título “Fellini et son double”. Na tela se sucediam fotos de Marcello Mastroianni e do diretor que foi mais que um amigo e companheiro de trabalho : Fellini foi o autor de alguns dos melhores filmes do ator. Uma moça parada atrás de mim e do meu marido, falava ao ouvido de seu filho. O menino devia ter uns 11 anos, ela uns 40. Reconheci Chiara Mastroianni, a filha do grande ator com Catherine Deneuve. Ela estava completamente anônima, no meio da multidão que visitava o Musée du Jeu de Paume para ver Fellini, la Grande Parade, uma das imperdíveis exposições do outono parisiense.
Ao descobrir aquela moça e seu filho a comentar discretamente fotos do avô do menino, eu estava num raro estado de plenitude, daqueles momentos de prazer estético em que o mundo parece ter parado no tempo. A Itália de Fellini ficou para trás, hoje Berlusconi é uma triste realidade. Mas a exposição consegue nos transportar para uma Itália mais inteligente, o mundo do cineasta e de seus sonhos, que ele desenhava com incrível talento (ele foi desenhista de jornal, antes de se tornar cineasta) em cadernos expostos ao lado de fotos, cartazes, trechos de filmes e de entrevistas. A exposição mostra como foram criadas algumas das cenas mais famosas do cinema italiano. Roma, Anita Ekberg, Marcelo Mastroianni, Giulietta Masina, Federico estão todos no Jeu de Paume nos esperando.

Chaplin no museu


Charles Chaplin passou os últimos anos de vida em Vevey, na Suíça, às margens do Lago Léman. Esta semana seu filho Michael Chaplin anunciou que a casa vai se transformar em museu dedicado à obra do pai, com abertura prevista para 2011. A vista do lago e dos Alpes que Chaplin descortinava de sua casa é de tirar o fôlego.
O museu será um bom motivo para voltar a Vevey, onde passamos alguns dias no verão de 2008 e onde existe uma estátua de Carlitos em frente ao lago. Não preciso dizer que quase todo mundo que a vê faz uma pose ao lado do vagabundo. Mas como Vevey não tem torre Eiffel nem Louvre, o turismo por lá é soft e passa a anos-luz da agitação da capital mais visitada do mundo. Há até pequenas praias em torno do Léman mas no verão a maioria dos europeus prefere a agitação das “verdadeiras” praias de mar. A Suíça só se agita no verão durante o Festival de Jazz de Montreux, a poucos quilômetros de Vevey, outra jóia do Léman.
Fotos de Leneide Duarte-Plon

Harry Connick Jr. e Carla B.

Harry Connick Jr lançou seu novo disco “Your Songs” em Paris. O cantor convidou Carla Bruni para gravar em dueto a música dos Beatles “And I love her”. Ouvido pela revista Le Monde Magazine, o cantor justificou: “A indústria do disco está num estado tal que tudo o que pode criar um evento é bom. E minha mulher, que tinha desfilado como manequim e conhecia Carla, me deu força. Realmente, ela tem uma voz de pouca extensão mas cantar com ela foi excitante, como se fosse a versão feminina de mim mesmo”.
Boa idéia de presente de Natal. Por Harry Connick Jr., evidentemente.


Libération e a mão santa de Thierry Henry


Os jornalistas de Libération fizeram na semana passada uma edição histórica num genial exercício do que os franceses chamam de “autodérision” (auto-zombaria).

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A bossa nova, Henri Salvador e a grande lorota

Na exposição extraordinária que a Cité de la Musique consagra ao genial jazzman Miles Davis, descobri um pequeno livro chamado “Jazz Quiz”, de Jean-Marie Villemot e Yannis Perrin. O subtítulo diz: “300 questões para (re)descobrir o jazz divertindo-se”.
Ao abrir o capítulo 14 chamado Un air de bossa encontro a pergunta 158: “Uma música de filme composta por um músico francês contribuiu decisivamente ao nascimento da bossa nova. Quem é o autor? Michel Legrand, Joseph Kosma, Henri Salvador. Nas respostas vemos que a “certa” é a C, Henri Salvador. E o comentário diz: “Essa doce e sensual música brasileira (a bossa nova) deve muito a Salvador. Sua canção “Dans mon île” foi descoberta pelos músicos brasileiros em 1958 num filme italiano “Noites da Europa”. Nessa ocasião, Antonio Carlos Jobim exclama: “É isso que se deve fazer, diminuir o tempo do samba e colocar belas melodias”. A bossa foi popularizada em 1958 pelo disco “Chega de Saudade” composta por Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes e interpretada por João Gilberto".
Isso poderia parecer desinformação dos autores do livro se não representasse uma “informação” repetida exaustivamente na televisão e nos jornais franceses. A cada vez que apresentavam Henri Salvador (morto no ano passado) na TV repetia-se a "informação" de que ele inventou a bossa nova. Quando os jornais franceses falam da Bossa Nova vem a "informação" (muitas vezes no condicional) de que Salvador teria inventado a bossa nova com a canção "Dans mon île".... Inúmeras vezes ouvi Henri Salvador ser apresentado como o verdadeiro pai da bossa nova. Num programa especial sobre a Canção Francesa, ele chegou a cantar em francês “Eu sei que vou te amar”, que não é propriamente uma canção da bossa nova, sem informar o nome dos compositores. Nem ele nem os apresentadores do programa disseram de quem era a canção que foi ouvida como mais uma canção francesa. Nesse dia, decidi entrevistar o compositor. A Folha de São Paulo publicou minha entrevista com Salvador em que o grande mitômano, gentil e simpático como um bom malandro, disse que não gostava que lhe atribuíssem a invenção da bossa nova. Como se ele não tivesse nada a ver com isso. Mas para ele chegar a esse ponto, tive que provocá-lo com perguntas que o levaram a dizer o que disse.
A seguir a íntegra da entrevista da Folha para quem gosta de bossa nova e para quem aprecia a verdade dos fatos:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u69379.shtml

Lula, secretário-geral da ONU?

A ideia é do presidente Sarkozy.
Quem garante é um jornalista francês que acrescenta que como a França vai presidir o G20 em 2011, Sarkozy gostaria de ver Lula como secretário-geral da ONU, um aliado para a construção do mundo novo que deve emergir dessa crise. Sarkozy acha a ideia formidável. Principalmente porque é dele.
Seria por amor a Lula e às ideias ele representa ou não passa de cálculo para vender seu lote de Rafale ao Brasil?


Literatura na TV

Outro dia, alguém contava num documentàrio a história do início da televisão na França e comentava: ao criar a primeira grade de programação da ORTF (Office de Radio et Télévision Française) os responsáveis pensaram logicamente em criar um telejornal, um programa de divertimento, um programa político de entrevistas e ... um programa literário.
Os livros, a literatura, os intelectuais não poderiam estar ausentes da programação da televisão francesa. Não poderia ser diferente uma vez que a França é um país da cultura, dos livros, das ideias e do debate político, encarnado no século XX por Sartre, intelectual que foi ícone da geração de franceses do pós-guerra.
Infelizmente, a televisão francesa também se globalizou, na pior direção, aderiu ao programas do tipo big brother (Loft e outros) e os programas de cultura são cada vez menos numerosos. Bernard Pivot, que fez durante anos o melhor programa literário da TV francesa (Apostrophes e Bouillon de culture) parou. Os cineclubes para cinéfilos na televisão são coisa do passado e apenas alguns programas perdidos no meio da geleia geral garantem momentos de inteligência e informação. Felizmente, o canal franco-alemão Arte é ainda uma ilha de inteligência e bom gosto na programação audiovisual.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Nefertiti de volta ao Egito?

Zahi Hawas, secretário-geral do Conselho das antiguidades egipcias, conseguiu uma vitória e tanto: a França vai devolver cinco fragmentos faraônicos conservados no Louvre e reclamados pelo Cairo. Essas pinturas murais foram compradas há poucos anos pelo museu francês em leilões parisienses mas foram comprovadamente roubadas há mais de 30 anos de um túmulo da 18a dinastia, em Luxor, no Egito. Os fragmentos conseguiram sair do país graças a documentos falsos.
Hawas, que faz parte da lista das 100 pessoas mais influentes do mundo feita pelo Time Magazine, lançou uma campanha para levar de volta ao Egito todas as obras de peso atualmente em museus estrangeiros e saídas ilegalmente do país, como o busto de Nefertiti, exposta em Berlim como a peça mais importante do Neues Museum, que ganhou este mês uma nova sede, projeto do arquiteto britânico David Chipperfield.
Além de Nefertiti, o Cairo quer ver de volta a pedra de Roseta conservada no British Museum e outros tesouros guardados no Louvre.
Para conseguir o repatriamento das cinco peças do Louvre, Zahi Hawas ameaçou suspender as pesquisas arqueológicas em associação com o museu parisiense no sítio de Saqqara. Quanto a Nefertiti, os alemães alegam que sua cabeça saiu legalmente, no século XIX, fruto de um contrato assinado entre o alemão Henri James Simon com o Estado egípcio autorizando as escavações arqueológicas e o repatriamento dos objetos encontrados.
Affaire à suivre, como dizem os franceses.
Foto de Leneide Duarte-Plon

Guerrilha urbana

A violência no Rio continua fazendo estragos para o turismo.
As imagens que os jornais de televisão passam aqui na França é de uma cidade em guerra. Aliás era de guerra que falava o título da primeira página do Le Monde que circulou segunda (datado de terça, 20): “A Rio de Janeiro, scènes de guerre entre policiers et trafiquants”. Na página interna o título:“Cenas de guerrilha urbana nas favelas do Rio de Janeiro”. A matéria do correspondente do Le Monde, Jean-Pierre Langellier termina informando que o governador do Rio lançou uma ofensiva sem precedentes contra o crime organizado, em 2007, que resultou na inegável “pacificação” (as aspas são do jornal) de quatro favelas ocupadas permanentemente pela polícia. “Quatro favelas entre as 1020 da cidade”, conclui o jornalista fechando sua matéria.
Langellier não precisa acrescentar nenhum comentário.
A tarefa de “pacificação” é um trabalho de Hércules.

Direito à vida

Outra guerra , a de Gaza, marcou tragicamente a vida de Ezzedine Aboulaïch, o médico palestino diplomado de Harvard que trabalhava num hospital israelense de Tel Aviv e perdeu três filhas e uma sobrinha, todas adolescentes, durante os bombardeios israelenses. A explosão de dor do médico na TV israelense ao ter notícia da morte das filhas na tragédia de Gaza despertou muitas consciências em Israel.
Ezzedina Aboulaïch veio a Paris lançar sua Fundação para a educação das meninas e mulheres palestinas. Seu perfil na última página do Libération continha um alerta aos cidadãos de Israel: “Eles deveriam se perguntar por que os palestinos são hostis aos israelenses. Mas eles não querem ultrapassar o medo. Eu digo uma única coisa aos israelenses : vocês vivem num estado independente, têm uma vida livre e confortável. Os palestinos só querem poder ter o mesmo. Defender os direitos dos palestinos é defender o direito de vocês próprios à vida e à felicidade”.
Os judeus fanáticos que estão expulsando os moradores palestinos de Jerusalém-Leste e os colonos que constroem novas colônias na Cisjordânia sob proteção do governo israelense estão interessados no direito dos palestinos à vida e à felicidade?

Nobel da Paz

O prêmio Nobel da Paz atribuído a Barack Obama suscitou reações extremas. Os entusiasmados aplaudiram. Os críticos acharam prematuro premiar promessas e intenções. Os jornais listaram todos os americanos que já receberam o Nobel da paz, de 1906 até hoje.
Quando vejo que em outubro de 1973 o Nobel da Paz foi atribuído a Henry Kissinger, diplomata e secretário de Estado americano, tenho vontade de rir. Nobel da paz, o homem que manipulara habilmente, naquele mesmo ano, as peças do jogo político, juntamente com o presidente Nixon, para que Pinochet e seus asseclas destituíssem o presidente Allende com um banho de sangue no Chile, inaugurando a ditadura que todos conhecemos...
Obviamente, o Nobel da paz foi atribuído a Kissinger por outros motivos. Foram seus “esforços pela paz no Oriente Médio” que lhe valeram o prêmio. A paz no Oriente Médio entre palestinos e israelenses não chegou até hoje, mas isso é uma outra historia. A ironia é que o Nobel da paz de Kissinger veio penas um mês depois do golpe e da morte de Allende.
Mas, somente alguns anos depois, a participação da dupla Nixon-Kissinger no golpe chileno, através da CIA, foi revelada e provada.

Lady Di inspira livro de ex-presidente da França
colaboração para a Folha de S.Paulo, publicada em 3 de outubro de 2009
LENEIDE DUARTE-PLON
Ele descende da aristocracia, tem um castelo e foi presidente da República. Foi eleito para a Academia Francesa em 2003 e presidiu a comissão que elaborou o texto da Constituição Europeia. Esse pedigree deveria lhe bastar aos 83 anos. Mas não.
Valéry Giscard d'Estaing, um especialista da obra de Guy de Maupassant, quer se afirmar como romancista.
Ele lançou o romance "La Princesse et le Président" (a princesa e o presidente, pela editora XO-de Fallois), no qual uma princesa britânica, Patricia ou Lady Pat, se apaixona por um presidente francês, Jacques-Henri Lambertye, viúvo e pai de dois filhos.
A princesa e o presidente se conhecem no Palácio de Buckingham, no jantar de encerramento de uma cúpula do G-7. Os encontros furtivos se sucedem nos palácios da República francesa como Rambouillet e Soucy, que Giscard d'Estaing frequentou de 1974 a 1981 como presidente, ou no palácio de Kensington.
No livro, Lambertye (que rima com Valéry) é presidente no meio da década de 80, quando, na realidade, Mitterrand governou o país em dois mandatos (de 1981 a 1995).
No romance, Patricia, princesa de Cardiff, conta ao presidente Lambertye: "Dez dias antes do meu casamento, meu futuro marido veio me dizer que tinha uma amante de quem não tinha intenção de se separar depois de casado". A história do romance segue em detalhes a verdadeira história de Lady Di.
Quem revelou com exclusividade o conteúdo explosivo do livro foi o jornal "Le Figaro" de 21 de setembro, que publicou trechos da obra.
Jornalistas franceses e ingleses começaram a especular sobre o possível romance de Giscard e Lady Di. As fotos publicadas nos jornais e na capa de "Paris Match" desta semana são de 1994, numa festa de gala promovida por Anne-Aymone Giscard d'Estaing. Diana era uma jovem princesa infeliz de 33 anos; Giscard, um ex-presidente de 65 anos.
Giscard teria sido um dos inúmeros namorados da princesa Diana? O novo livro do presidente seria um "roman à clef" no qual a cronologia foi modificada para embaralhar as cartas e narrar uma história real? Pouco provável.
Assediado pela imprensa francesa, o autor garantiu que o livro é uma ficção, mas a princesa Patricia é um duplo de Diana, a quem teria feito a promessa de transformá-la em personagem de um romance. A epígrafe do livro é "Promessa cumprida".
A imprensa britânica reagiu no dia seguinte à publicação da matéria do "Figaro". Os ingleses ressaltaram que os presidentes franceses têm casos fora do casamento e que os franceses aceitam sem problemas essas aventuras amorosas.
"Um novo personagem junta-se ao elenco dos que garantem ter tido um papel na vida amorosa de Diana", escreveu o "Times". Para o jornal, Giscard quer mesmo é ofuscar o livro de memórias que Jacques Chirac, seu inimigo, lança neste ano.
Para o "Daily Mail", o romance do presidente não passa de "produto da imaginação de um francês". O "Guardian" se pergunta se o livro não é apenas resultado "da imaginação literária de um velho senhor". Nenhum jornal britânico encarou como real a história.
Uma coisa é certa, misturando cenários reais nos quais viveu por sete anos como presidente e construindo o personagem de uma princesa muito próxima de Diana, Giscard d'Estaing se vinga da realidade: o presidente Lambertye foi reeleito - ao contrário de D'Estaing, que perdeu em 1981 para Mitterrand.

terça-feira, 6 de outubro de 2009




Mão de um macaco afagada por mão humana : metáfora de um respeito ideal do homem (espécie predadora) pelas outras espécies. Cobaias de laboratório, atração de zoológico, caça como esporte, de quantos crimes os animais são vítimas?
Foto de Viviana Meireles









Rio-Paris, uma tragédia anunciada


Por que o voo Air France 447 caiu no Atlântico ?
No Journal du Dimanche deste fim de semana duas páginas, com chamada de capa, trataram de uma investigação independente, feita por dois pilotos experientes que dizem, em suma: “O acidente Rio-Paris podia ter sido evitado”.
Para a companhia e para o fabricante Airbus, a solução para o enigma seriam as caixas pretas. Para os dois pilotos, Gérard Arnoux e Henri Marnet-Cornus, que fizeram uma investigação paralela à oficial, não há dúvida que as responsáveis pelo acidente são as sondas Pitot. Mas transformando o acidente em erro humano, a Air France, a Airbus e os órgãos franceses responsáveis pela investigação encerram a ação penal. Segundo os pilotos, o Bureau d’enquêtes et d’analyses (BEA) minimiza o papel das sondas Pitot porque deveria tê-las mudado desde que o órgão similar alemão deu o sinal de alerta, em 1999. Além disso, eles julgam que a política de segurança da Air France não está à altura de sua posição de primeiro transportador aéreo do mundo.
Business, business, business...

Jospin de bicicleta, madame Chirac e seu cãozinho...

Ao cruzar o boulevard Raspail na direção da feira orgânica (marché bio) neste domingo, atravesso o sinal com meu marido e quando olho para a direita vejo um ciclista parado no sinal. Era Lionel Jospin. Reparo que ele tem a sua própria bicicleta e não usa o Vélib, as bicicletas de aluguel de Paris. Jospin desce o boulevard Raspail e nos ultrapassa. Eu já sabia que o ex-primeiro-ministro socialista mora por perto. Apesar de ter direito a guardas na porta do seu prédio, como todo ex-primeiro-ministro e ex-presidente, ele passeia por Paris de bicicleta, completamente desacompanhado.
Esse encontro inesperado numa manhã de outono me fez pensar em outros personagens famosos que cruzei em Paris ou em outras cidades recentemente. Há sempre uma sensação de surpresa ao depararmos com um rosto conhecido, como se tivesse saído das páginas de uma revista ou de um filme. Resolvi fazer um inventário: Emir Kusturica passou por mim perto do Hôtel de Ville, num táxi, com um dedo dentro do nariz. Ele estava em Paris para apresentar uma ópera que dirigia. Isabelle Adjani com um lindo chapéu vinha em minha direção, numa calçada do 8e arrondissement, em Paris, conversando com uma senhora idosa. Só a reconheci quando cruzei com seus olhas azuis. Jean-Luc Godard era um senhor meio careca que caminhava na calçada em frente ao Café aux Deux Magots, em Saint-Germain-des-Prés. Passei a meio metro dele e demorei a me dar conta que por mim passava o gênio da “nouvelle vague”.
Michel Platini almoçava numa mesa ao lado da nossa num restaurante de La Ciotat, cidade mediterrânea, onde os irmãos Lumière filmaram a chegada do trem na gare, inaugurando o cinema mundial. Magic Johnson foi perseguido por um fotógrafo que clicava sem parar em Portofino, um lugar que costuma ver desfilar a fina flor do jet set internacional. Catherine Deneuve ajeitava os cabelos de um adolescente perto da igreja Saint Sulpice, não longe de onde ela mora, soube depois. Madame Chirac, Bernadette para os íntimos, passeava seu cãozinho de estimação na Rue de Rennes, sozinha, às 10 horas da noite de um domingo. Seguindo pela Rue Bonaparte até o Sena ela chega em casa, um apartamento onde o ex-presidente se instalou depois de deixar o Palácio do Eliseu. O apartamento onde o casal mora em Paris pertence à família do ex-primeiro-ministro do Líbano, Rafic Hariri, assassinado em 2005, num atentado em Beirute. Chirac não tem casa em Paris, segundo a imprensa.
Um dia de verão na rue Champollion, cruzei com um homem numa bicicleta, seguido de uma moça também de bicicleta. Era Raí, o nosso apolo dos gramados, que morou em Paris, jogou no Paris Saint-Germain (PSG), e deve aparecer de vez em quando para matar as saudades. Surpresa, disse “Oi, Raí”. Ele olhou e sorriu.
Saindo do Grand Palais com minha filha Viviana, depois de ver a exposição “Picasso et les maîtres”, no ano passado, ela me chamou a atenção para um senhor que chegava acompanhado de um casal. Era o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Tomei um alka-seltzer ao chegar em casa.

Millésime 2009 excepcional

Os vinicultores franceses lançam um apelo para alertar sobre os efeitos nocivos do aquecimento global sobre a produção de vinho. Os grandes vinhos correm grande risco. Segundo o Greenpeace, se nada for feito para limitar as emissões de CO2, a temperatura na França pode se elevar 6 graus até o fim do século. Isso vai modificar o solo e alterar a produção de vinhos mais nobres da região de Bordeaux, entre outras, pois os vinhedos se tornam vulneráveis com o aumento das temperaturas e as mais frequentes tempestades de granizo. Em dezembro, em Copenhague, Greenpeace quer alertar os chefes de Estado e de governo para os efeitos devastadores da mudança climática. Somente uma redução das emissões de CO2 pelos países industrializados de pelo menos 40% de hoje até 2020 e uma ajuda financeira e técnica aos países em desenvolvimento de 110 bilhões de euros poderão evitar mudanças climáticas irreversíveis e sem precedentes.
Mas antes que o pior aconteça, comemora-se um efeito benéfico do pequeno aumento da temperatura. Este ano , com os dias mais ensolarados, a colheita de uvas foi antecipada pois o mês de setembro foi o mais quente desde 1950. Para os vinhos, espera-se um millésime excepcional com uma qualidade comparável à de 2005 ou 2000.

Cuidado com os SMS

O SMS é o pior inimigo dos casais...
Uma decisão de junho deste ano da Justiça francesa incluiu o SMS como prova material para fins de divórcio. Um quarto dos franceses confessa espionar o telefone celular do cônjuge; 50% dos ingleses dizem olhar os SMS do cônjuge, um terço dos suecos e na Itália, nove entre dez relações extraconjugais são descobertas graças aos celulares.

Woman

Between my head and the sky. Este é o título do novo disco de Yoko Ono, apresentado ao vivo no telejornal das 13 horas. Ela deu uma entrevista de cinco minutos e depois cantou acompanhada ao piano por ... Sean Lennon. Um grande prazer neste começo de tarde. Há quem deteste Yoko. Acho que uma mulher que foi amada por John Lennon e que mereceu a letra que ele escreveu para a canção Woman só pode ser uma pessoa interessante.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Fête de l’Huma







No fim de semana de 11 a 13 de setembro o jornal L’Humanité realizou mais uma tradicional e imperdível reunião da esquerda francesa, a Fête de L’Huma, que dura três dias. Organizada pelo jornal do Partido Comunista Francês (que já não tem mais a foice e o martelo nem é “órgão oficial do PCF”, como antes, mas continua sua luta pelos ideais comunistas), a festa é uma mistura de Feira da Providência com Bienal do Livro multiplicadas por dez.


A Fête de l'Huma é conhecida e frequentada por um número enorme de franceses. O espaço é um grande parque de La Courneuve, uma cidade dos arredores de Paris, e este ano mais de 600 mil pessoas, entre proletários e intelectuais que acreditam que um outro mundo é possível, foram ver o que a esquerda tem a propor para mudar o status quo. Mas quem vai à Fête de l’Huma não vai só tratar de política. Ponto de encontro da gauche francesa, muitos jovens vão também para comer, beber, se encontrar e ouvir música. Tudo com muitas faixas e cartazes engajados, claro. Mas o principal objetivo é angariar fundos para o jornal e reunir simpatizantes e militantes do PCF, além dos principais políticos de esquerda que vão defender a eterna união da esquerda, uma das metas mais difíceis da gauche do mundo inteiro.


Este ano houve, como de hábito, mega-shows de artistas como Manu Chao, que dispensa apresentação, e Julien Clerc, um compositor e cantor conhecidíssmo na França e que, entre outras qualidades, faz músicas para letras de Carla Bruni.
Fui no sábado e no domingo. No sábado pude ver quando o ministro da Cultura, Frédéric Mitterrand, cercado por um enxame de cinegrafistas e jornalistas, entrava no Village du Livre. Os militantes mais exaltados gritavam: "Mitterrand dehors" (fora Mitterrand), "Mitterrand traître" (Mitterrand traidor) e outras “gentilezas”.
Quem convidou Mitterrand para a festa deve ter ficado sem saber o que fazer para conter os jovens que seguiam o grande grupo de jornalistas gritando o que pensam do fato de um sobrinho do ex-presidente socialista ter entrado para o governo Sarkozy.
*Fotos de Leneide Duarte-Plon

Niemeyer em Paris



Os franceses criaram há alguns anos dois dias chamados "Les journées du patrimoine". Nesse fim de semana de setembro, todos são convidados a visitar os prédios tombados, castelos ou símbolos do poder, normalmente fechados à visitação pública.
Aproveitei o domingo para levar minha filha para conhecer a sede do Partido Comunista Francês, na Place du Colonel Fabien, prédio tombado de Oscar Niemeyer. Fizemos a visita depois da palestra de Gérard Fournier, num dia de sol do verão que se despedia de Paris. Foi um prazer redobrado percorrer a obra de Niemeyer com todas as informações sobre as circunstâncias de sua concepção e construção.
A criação dos "dias do patrimônio" é polêmica. Valéry Giscard d'Estaing, que recebeu no fim de semana pessoalmente os interessados em visitar seu castelo d’Estaing, disse aos jornalistas que foi ele quem instituiu em 1980 a data. Já Sarkozy, ao receber a multidão que foi conhecer o Palácio do Eliseu disse achar ótima “a ideia de Jacques Lang de criar esses dias do patrimônio”.
O próprio ministério da Cultura comunicou oficialmente que essa era a 26 edição das jornadas do patrimônio, estabelecendo a criação em 1983, sob a presidência de Mitterrand.
Pobre Giscard. Até a direita atribui a Mitterrand uma ideia genial que ele diz ser sua.

Leite derramado


As fotos nos jornais são impressionantes. Mais impressionantes são as imagens nos telejornais. Os produtores de leite franceses, belgas e do Luxemburgo encheram dezenas de caminhões-cisternas em ações-relâmpago e despejaram nos campos em torno do Mont Saint-Michel o líquido branco produzido pelo trabalho de centenas de homens e mulheres. As vacas contribuíram com o principal, claro.
Na semana passada, o protesto em diversos locais diferentes serviu para chamar a atenção para as perdas que os produtores de leite sofrem com o fim da política europeia de cotas e com os preços irrisórios pagos pelos industriais.
Outros produtores menos radicais preferiram distribuir gratuitamente o leite nas fazendas a vendê-lo por um preço vil.
Segundo a FAO, organismo da ONU que cuida da agricultura no mundo, três quartos do bilhão de seres humanos subalimentados do planeta são agricultores.

France Telecom: 23 suicídios em 18 meses

Os franceses são os maiores consumidores de antidepressivos do mundo.
Agora, deram para se suicidar. Nos últimos 18 meses, 23 empregados da empresa France Telecom – que era estatal e foi privatizada parcialmente no governo Chirac - se suicidaram. A maioria no próprio local de trabalho. Saldo lamentável do capitalismo e das privatizações.
Alguns deixaram cartas alegando pressões insuportáveis, depois da privatização “à la française” (isto é, por etapas) dessa antiga companhia estatal. Há dois anos, houve outra onde de suicídios de empregados dos fabricantes de automóveis Renault e Peugeot.
Christophe Desjours, autor de Souffrance en France (A banalização da injustiça social – FGV) e Suicide et travail, que faire ? (PUF, 2009) explica que existe uma solidão e um sentimento de abandono por parte do trabalhador com os novos métodos de trabalho, configurando-se “um deserto no sentido arendtiano do termo : a solidão total”.
Segundo o psicanalista, os gestores que só olham o resultado em números não querem saber como eles são obtidos. Seria como se os assalariados estivessem loucos por não conseguirem atingir os objetivos. “Mas os objetivos que impõem são incompatíveis com o tempo de que o empregado dispõe”.
Christophe Dejours acrescenta: “As empresas constroem slogans para dar a impressão de que o que elas fazem é gerenciar recursos humanos mas na realidade trata-se de uma gestão “lenço de papel”: pegam as pessoas, espremem e as jogam fora. O ser humano no fundo é uma variável de reajuste, o que conta é o dinheiro, a gestão, os acionistas, o conselho de administração”.