terça-feira, 24 de novembro de 2009

Fellini e seu double



O outono parisiense trouxe Fellini ao Jeu de Paume. Era domingo e o chão estava coberto de folhas amarelas no dia em que fui vê-lo.
Parei um longo momento diante do título “Fellini et son double”. Na tela se sucediam fotos de Marcello Mastroianni e do diretor que foi mais que um amigo e companheiro de trabalho : Fellini foi o autor de alguns dos melhores filmes do ator. Uma moça parada atrás de mim e do meu marido, falava ao ouvido de seu filho. O menino devia ter uns 11 anos, ela uns 40. Reconheci Chiara Mastroianni, a filha do grande ator com Catherine Deneuve. Ela estava completamente anônima, no meio da multidão que visitava o Musée du Jeu de Paume para ver Fellini, la Grande Parade, uma das imperdíveis exposições do outono parisiense.
Ao descobrir aquela moça e seu filho a comentar discretamente fotos do avô do menino, eu estava num raro estado de plenitude, daqueles momentos de prazer estético em que o mundo parece ter parado no tempo. A Itália de Fellini ficou para trás, hoje Berlusconi é uma triste realidade. Mas a exposição consegue nos transportar para uma Itália mais inteligente, o mundo do cineasta e de seus sonhos, que ele desenhava com incrível talento (ele foi desenhista de jornal, antes de se tornar cineasta) em cadernos expostos ao lado de fotos, cartazes, trechos de filmes e de entrevistas. A exposição mostra como foram criadas algumas das cenas mais famosas do cinema italiano. Roma, Anita Ekberg, Marcelo Mastroianni, Giulietta Masina, Federico estão todos no Jeu de Paume nos esperando.

Chaplin no museu


Charles Chaplin passou os últimos anos de vida em Vevey, na Suíça, às margens do Lago Léman. Esta semana seu filho Michael Chaplin anunciou que a casa vai se transformar em museu dedicado à obra do pai, com abertura prevista para 2011. A vista do lago e dos Alpes que Chaplin descortinava de sua casa é de tirar o fôlego.
O museu será um bom motivo para voltar a Vevey, onde passamos alguns dias no verão de 2008 e onde existe uma estátua de Carlitos em frente ao lago. Não preciso dizer que quase todo mundo que a vê faz uma pose ao lado do vagabundo. Mas como Vevey não tem torre Eiffel nem Louvre, o turismo por lá é soft e passa a anos-luz da agitação da capital mais visitada do mundo. Há até pequenas praias em torno do Léman mas no verão a maioria dos europeus prefere a agitação das “verdadeiras” praias de mar. A Suíça só se agita no verão durante o Festival de Jazz de Montreux, a poucos quilômetros de Vevey, outra jóia do Léman.
Fotos de Leneide Duarte-Plon

Harry Connick Jr. e Carla B.

Harry Connick Jr lançou seu novo disco “Your Songs” em Paris. O cantor convidou Carla Bruni para gravar em dueto a música dos Beatles “And I love her”. Ouvido pela revista Le Monde Magazine, o cantor justificou: “A indústria do disco está num estado tal que tudo o que pode criar um evento é bom. E minha mulher, que tinha desfilado como manequim e conhecia Carla, me deu força. Realmente, ela tem uma voz de pouca extensão mas cantar com ela foi excitante, como se fosse a versão feminina de mim mesmo”.
Boa idéia de presente de Natal. Por Harry Connick Jr., evidentemente.


Libération e a mão santa de Thierry Henry


Os jornalistas de Libération fizeram na semana passada uma edição histórica num genial exercício do que os franceses chamam de “autodérision” (auto-zombaria).

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A bossa nova, Henri Salvador e a grande lorota

Na exposição extraordinária que a Cité de la Musique consagra ao genial jazzman Miles Davis, descobri um pequeno livro chamado “Jazz Quiz”, de Jean-Marie Villemot e Yannis Perrin. O subtítulo diz: “300 questões para (re)descobrir o jazz divertindo-se”.
Ao abrir o capítulo 14 chamado Un air de bossa encontro a pergunta 158: “Uma música de filme composta por um músico francês contribuiu decisivamente ao nascimento da bossa nova. Quem é o autor? Michel Legrand, Joseph Kosma, Henri Salvador. Nas respostas vemos que a “certa” é a C, Henri Salvador. E o comentário diz: “Essa doce e sensual música brasileira (a bossa nova) deve muito a Salvador. Sua canção “Dans mon île” foi descoberta pelos músicos brasileiros em 1958 num filme italiano “Noites da Europa”. Nessa ocasião, Antonio Carlos Jobim exclama: “É isso que se deve fazer, diminuir o tempo do samba e colocar belas melodias”. A bossa foi popularizada em 1958 pelo disco “Chega de Saudade” composta por Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes e interpretada por João Gilberto".
Isso poderia parecer desinformação dos autores do livro se não representasse uma “informação” repetida exaustivamente na televisão e nos jornais franceses. A cada vez que apresentavam Henri Salvador (morto no ano passado) na TV repetia-se a "informação" de que ele inventou a bossa nova. Quando os jornais franceses falam da Bossa Nova vem a "informação" (muitas vezes no condicional) de que Salvador teria inventado a bossa nova com a canção "Dans mon île".... Inúmeras vezes ouvi Henri Salvador ser apresentado como o verdadeiro pai da bossa nova. Num programa especial sobre a Canção Francesa, ele chegou a cantar em francês “Eu sei que vou te amar”, que não é propriamente uma canção da bossa nova, sem informar o nome dos compositores. Nem ele nem os apresentadores do programa disseram de quem era a canção que foi ouvida como mais uma canção francesa. Nesse dia, decidi entrevistar o compositor. A Folha de São Paulo publicou minha entrevista com Salvador em que o grande mitômano, gentil e simpático como um bom malandro, disse que não gostava que lhe atribuíssem a invenção da bossa nova. Como se ele não tivesse nada a ver com isso. Mas para ele chegar a esse ponto, tive que provocá-lo com perguntas que o levaram a dizer o que disse.
A seguir a íntegra da entrevista da Folha para quem gosta de bossa nova e para quem aprecia a verdade dos fatos:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u69379.shtml

Lula, secretário-geral da ONU?

A ideia é do presidente Sarkozy.
Quem garante é um jornalista francês que acrescenta que como a França vai presidir o G20 em 2011, Sarkozy gostaria de ver Lula como secretário-geral da ONU, um aliado para a construção do mundo novo que deve emergir dessa crise. Sarkozy acha a ideia formidável. Principalmente porque é dele.
Seria por amor a Lula e às ideias ele representa ou não passa de cálculo para vender seu lote de Rafale ao Brasil?


Literatura na TV

Outro dia, alguém contava num documentàrio a história do início da televisão na França e comentava: ao criar a primeira grade de programação da ORTF (Office de Radio et Télévision Française) os responsáveis pensaram logicamente em criar um telejornal, um programa de divertimento, um programa político de entrevistas e ... um programa literário.
Os livros, a literatura, os intelectuais não poderiam estar ausentes da programação da televisão francesa. Não poderia ser diferente uma vez que a França é um país da cultura, dos livros, das ideias e do debate político, encarnado no século XX por Sartre, intelectual que foi ícone da geração de franceses do pós-guerra.
Infelizmente, a televisão francesa também se globalizou, na pior direção, aderiu ao programas do tipo big brother (Loft e outros) e os programas de cultura são cada vez menos numerosos. Bernard Pivot, que fez durante anos o melhor programa literário da TV francesa (Apostrophes e Bouillon de culture) parou. Os cineclubes para cinéfilos na televisão são coisa do passado e apenas alguns programas perdidos no meio da geleia geral garantem momentos de inteligência e informação. Felizmente, o canal franco-alemão Arte é ainda uma ilha de inteligência e bom gosto na programação audiovisual.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Nefertiti de volta ao Egito?

Zahi Hawas, secretário-geral do Conselho das antiguidades egipcias, conseguiu uma vitória e tanto: a França vai devolver cinco fragmentos faraônicos conservados no Louvre e reclamados pelo Cairo. Essas pinturas murais foram compradas há poucos anos pelo museu francês em leilões parisienses mas foram comprovadamente roubadas há mais de 30 anos de um túmulo da 18a dinastia, em Luxor, no Egito. Os fragmentos conseguiram sair do país graças a documentos falsos.
Hawas, que faz parte da lista das 100 pessoas mais influentes do mundo feita pelo Time Magazine, lançou uma campanha para levar de volta ao Egito todas as obras de peso atualmente em museus estrangeiros e saídas ilegalmente do país, como o busto de Nefertiti, exposta em Berlim como a peça mais importante do Neues Museum, que ganhou este mês uma nova sede, projeto do arquiteto britânico David Chipperfield.
Além de Nefertiti, o Cairo quer ver de volta a pedra de Roseta conservada no British Museum e outros tesouros guardados no Louvre.
Para conseguir o repatriamento das cinco peças do Louvre, Zahi Hawas ameaçou suspender as pesquisas arqueológicas em associação com o museu parisiense no sítio de Saqqara. Quanto a Nefertiti, os alemães alegam que sua cabeça saiu legalmente, no século XIX, fruto de um contrato assinado entre o alemão Henri James Simon com o Estado egípcio autorizando as escavações arqueológicas e o repatriamento dos objetos encontrados.
Affaire à suivre, como dizem os franceses.
Foto de Leneide Duarte-Plon

Guerrilha urbana

A violência no Rio continua fazendo estragos para o turismo.
As imagens que os jornais de televisão passam aqui na França é de uma cidade em guerra. Aliás era de guerra que falava o título da primeira página do Le Monde que circulou segunda (datado de terça, 20): “A Rio de Janeiro, scènes de guerre entre policiers et trafiquants”. Na página interna o título:“Cenas de guerrilha urbana nas favelas do Rio de Janeiro”. A matéria do correspondente do Le Monde, Jean-Pierre Langellier termina informando que o governador do Rio lançou uma ofensiva sem precedentes contra o crime organizado, em 2007, que resultou na inegável “pacificação” (as aspas são do jornal) de quatro favelas ocupadas permanentemente pela polícia. “Quatro favelas entre as 1020 da cidade”, conclui o jornalista fechando sua matéria.
Langellier não precisa acrescentar nenhum comentário.
A tarefa de “pacificação” é um trabalho de Hércules.

Direito à vida

Outra guerra , a de Gaza, marcou tragicamente a vida de Ezzedine Aboulaïch, o médico palestino diplomado de Harvard que trabalhava num hospital israelense de Tel Aviv e perdeu três filhas e uma sobrinha, todas adolescentes, durante os bombardeios israelenses. A explosão de dor do médico na TV israelense ao ter notícia da morte das filhas na tragédia de Gaza despertou muitas consciências em Israel.
Ezzedina Aboulaïch veio a Paris lançar sua Fundação para a educação das meninas e mulheres palestinas. Seu perfil na última página do Libération continha um alerta aos cidadãos de Israel: “Eles deveriam se perguntar por que os palestinos são hostis aos israelenses. Mas eles não querem ultrapassar o medo. Eu digo uma única coisa aos israelenses : vocês vivem num estado independente, têm uma vida livre e confortável. Os palestinos só querem poder ter o mesmo. Defender os direitos dos palestinos é defender o direito de vocês próprios à vida e à felicidade”.
Os judeus fanáticos que estão expulsando os moradores palestinos de Jerusalém-Leste e os colonos que constroem novas colônias na Cisjordânia sob proteção do governo israelense estão interessados no direito dos palestinos à vida e à felicidade?

Nobel da Paz

O prêmio Nobel da Paz atribuído a Barack Obama suscitou reações extremas. Os entusiasmados aplaudiram. Os críticos acharam prematuro premiar promessas e intenções. Os jornais listaram todos os americanos que já receberam o Nobel da paz, de 1906 até hoje.
Quando vejo que em outubro de 1973 o Nobel da Paz foi atribuído a Henry Kissinger, diplomata e secretário de Estado americano, tenho vontade de rir. Nobel da paz, o homem que manipulara habilmente, naquele mesmo ano, as peças do jogo político, juntamente com o presidente Nixon, para que Pinochet e seus asseclas destituíssem o presidente Allende com um banho de sangue no Chile, inaugurando a ditadura que todos conhecemos...
Obviamente, o Nobel da paz foi atribuído a Kissinger por outros motivos. Foram seus “esforços pela paz no Oriente Médio” que lhe valeram o prêmio. A paz no Oriente Médio entre palestinos e israelenses não chegou até hoje, mas isso é uma outra historia. A ironia é que o Nobel da paz de Kissinger veio penas um mês depois do golpe e da morte de Allende.
Mas, somente alguns anos depois, a participação da dupla Nixon-Kissinger no golpe chileno, através da CIA, foi revelada e provada.

Lady Di inspira livro de ex-presidente da França
colaboração para a Folha de S.Paulo, publicada em 3 de outubro de 2009
LENEIDE DUARTE-PLON
Ele descende da aristocracia, tem um castelo e foi presidente da República. Foi eleito para a Academia Francesa em 2003 e presidiu a comissão que elaborou o texto da Constituição Europeia. Esse pedigree deveria lhe bastar aos 83 anos. Mas não.
Valéry Giscard d'Estaing, um especialista da obra de Guy de Maupassant, quer se afirmar como romancista.
Ele lançou o romance "La Princesse et le Président" (a princesa e o presidente, pela editora XO-de Fallois), no qual uma princesa britânica, Patricia ou Lady Pat, se apaixona por um presidente francês, Jacques-Henri Lambertye, viúvo e pai de dois filhos.
A princesa e o presidente se conhecem no Palácio de Buckingham, no jantar de encerramento de uma cúpula do G-7. Os encontros furtivos se sucedem nos palácios da República francesa como Rambouillet e Soucy, que Giscard d'Estaing frequentou de 1974 a 1981 como presidente, ou no palácio de Kensington.
No livro, Lambertye (que rima com Valéry) é presidente no meio da década de 80, quando, na realidade, Mitterrand governou o país em dois mandatos (de 1981 a 1995).
No romance, Patricia, princesa de Cardiff, conta ao presidente Lambertye: "Dez dias antes do meu casamento, meu futuro marido veio me dizer que tinha uma amante de quem não tinha intenção de se separar depois de casado". A história do romance segue em detalhes a verdadeira história de Lady Di.
Quem revelou com exclusividade o conteúdo explosivo do livro foi o jornal "Le Figaro" de 21 de setembro, que publicou trechos da obra.
Jornalistas franceses e ingleses começaram a especular sobre o possível romance de Giscard e Lady Di. As fotos publicadas nos jornais e na capa de "Paris Match" desta semana são de 1994, numa festa de gala promovida por Anne-Aymone Giscard d'Estaing. Diana era uma jovem princesa infeliz de 33 anos; Giscard, um ex-presidente de 65 anos.
Giscard teria sido um dos inúmeros namorados da princesa Diana? O novo livro do presidente seria um "roman à clef" no qual a cronologia foi modificada para embaralhar as cartas e narrar uma história real? Pouco provável.
Assediado pela imprensa francesa, o autor garantiu que o livro é uma ficção, mas a princesa Patricia é um duplo de Diana, a quem teria feito a promessa de transformá-la em personagem de um romance. A epígrafe do livro é "Promessa cumprida".
A imprensa britânica reagiu no dia seguinte à publicação da matéria do "Figaro". Os ingleses ressaltaram que os presidentes franceses têm casos fora do casamento e que os franceses aceitam sem problemas essas aventuras amorosas.
"Um novo personagem junta-se ao elenco dos que garantem ter tido um papel na vida amorosa de Diana", escreveu o "Times". Para o jornal, Giscard quer mesmo é ofuscar o livro de memórias que Jacques Chirac, seu inimigo, lança neste ano.
Para o "Daily Mail", o romance do presidente não passa de "produto da imaginação de um francês". O "Guardian" se pergunta se o livro não é apenas resultado "da imaginação literária de um velho senhor". Nenhum jornal britânico encarou como real a história.
Uma coisa é certa, misturando cenários reais nos quais viveu por sete anos como presidente e construindo o personagem de uma princesa muito próxima de Diana, Giscard d'Estaing se vinga da realidade: o presidente Lambertye foi reeleito - ao contrário de D'Estaing, que perdeu em 1981 para Mitterrand.

terça-feira, 6 de outubro de 2009




Mão de um macaco afagada por mão humana : metáfora de um respeito ideal do homem (espécie predadora) pelas outras espécies. Cobaias de laboratório, atração de zoológico, caça como esporte, de quantos crimes os animais são vítimas?
Foto de Viviana Meireles









Rio-Paris, uma tragédia anunciada


Por que o voo Air France 447 caiu no Atlântico ?
No Journal du Dimanche deste fim de semana duas páginas, com chamada de capa, trataram de uma investigação independente, feita por dois pilotos experientes que dizem, em suma: “O acidente Rio-Paris podia ter sido evitado”.
Para a companhia e para o fabricante Airbus, a solução para o enigma seriam as caixas pretas. Para os dois pilotos, Gérard Arnoux e Henri Marnet-Cornus, que fizeram uma investigação paralela à oficial, não há dúvida que as responsáveis pelo acidente são as sondas Pitot. Mas transformando o acidente em erro humano, a Air France, a Airbus e os órgãos franceses responsáveis pela investigação encerram a ação penal. Segundo os pilotos, o Bureau d’enquêtes et d’analyses (BEA) minimiza o papel das sondas Pitot porque deveria tê-las mudado desde que o órgão similar alemão deu o sinal de alerta, em 1999. Além disso, eles julgam que a política de segurança da Air France não está à altura de sua posição de primeiro transportador aéreo do mundo.
Business, business, business...

Jospin de bicicleta, madame Chirac e seu cãozinho...

Ao cruzar o boulevard Raspail na direção da feira orgânica (marché bio) neste domingo, atravesso o sinal com meu marido e quando olho para a direita vejo um ciclista parado no sinal. Era Lionel Jospin. Reparo que ele tem a sua própria bicicleta e não usa o Vélib, as bicicletas de aluguel de Paris. Jospin desce o boulevard Raspail e nos ultrapassa. Eu já sabia que o ex-primeiro-ministro socialista mora por perto. Apesar de ter direito a guardas na porta do seu prédio, como todo ex-primeiro-ministro e ex-presidente, ele passeia por Paris de bicicleta, completamente desacompanhado.
Esse encontro inesperado numa manhã de outono me fez pensar em outros personagens famosos que cruzei em Paris ou em outras cidades recentemente. Há sempre uma sensação de surpresa ao depararmos com um rosto conhecido, como se tivesse saído das páginas de uma revista ou de um filme. Resolvi fazer um inventário: Emir Kusturica passou por mim perto do Hôtel de Ville, num táxi, com um dedo dentro do nariz. Ele estava em Paris para apresentar uma ópera que dirigia. Isabelle Adjani com um lindo chapéu vinha em minha direção, numa calçada do 8e arrondissement, em Paris, conversando com uma senhora idosa. Só a reconheci quando cruzei com seus olhas azuis. Jean-Luc Godard era um senhor meio careca que caminhava na calçada em frente ao Café aux Deux Magots, em Saint-Germain-des-Prés. Passei a meio metro dele e demorei a me dar conta que por mim passava o gênio da “nouvelle vague”.
Michel Platini almoçava numa mesa ao lado da nossa num restaurante de La Ciotat, cidade mediterrânea, onde os irmãos Lumière filmaram a chegada do trem na gare, inaugurando o cinema mundial. Magic Johnson foi perseguido por um fotógrafo que clicava sem parar em Portofino, um lugar que costuma ver desfilar a fina flor do jet set internacional. Catherine Deneuve ajeitava os cabelos de um adolescente perto da igreja Saint Sulpice, não longe de onde ela mora, soube depois. Madame Chirac, Bernadette para os íntimos, passeava seu cãozinho de estimação na Rue de Rennes, sozinha, às 10 horas da noite de um domingo. Seguindo pela Rue Bonaparte até o Sena ela chega em casa, um apartamento onde o ex-presidente se instalou depois de deixar o Palácio do Eliseu. O apartamento onde o casal mora em Paris pertence à família do ex-primeiro-ministro do Líbano, Rafic Hariri, assassinado em 2005, num atentado em Beirute. Chirac não tem casa em Paris, segundo a imprensa.
Um dia de verão na rue Champollion, cruzei com um homem numa bicicleta, seguido de uma moça também de bicicleta. Era Raí, o nosso apolo dos gramados, que morou em Paris, jogou no Paris Saint-Germain (PSG), e deve aparecer de vez em quando para matar as saudades. Surpresa, disse “Oi, Raí”. Ele olhou e sorriu.
Saindo do Grand Palais com minha filha Viviana, depois de ver a exposição “Picasso et les maîtres”, no ano passado, ela me chamou a atenção para um senhor que chegava acompanhado de um casal. Era o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Tomei um alka-seltzer ao chegar em casa.

Millésime 2009 excepcional

Os vinicultores franceses lançam um apelo para alertar sobre os efeitos nocivos do aquecimento global sobre a produção de vinho. Os grandes vinhos correm grande risco. Segundo o Greenpeace, se nada for feito para limitar as emissões de CO2, a temperatura na França pode se elevar 6 graus até o fim do século. Isso vai modificar o solo e alterar a produção de vinhos mais nobres da região de Bordeaux, entre outras, pois os vinhedos se tornam vulneráveis com o aumento das temperaturas e as mais frequentes tempestades de granizo. Em dezembro, em Copenhague, Greenpeace quer alertar os chefes de Estado e de governo para os efeitos devastadores da mudança climática. Somente uma redução das emissões de CO2 pelos países industrializados de pelo menos 40% de hoje até 2020 e uma ajuda financeira e técnica aos países em desenvolvimento de 110 bilhões de euros poderão evitar mudanças climáticas irreversíveis e sem precedentes.
Mas antes que o pior aconteça, comemora-se um efeito benéfico do pequeno aumento da temperatura. Este ano , com os dias mais ensolarados, a colheita de uvas foi antecipada pois o mês de setembro foi o mais quente desde 1950. Para os vinhos, espera-se um millésime excepcional com uma qualidade comparável à de 2005 ou 2000.

Cuidado com os SMS

O SMS é o pior inimigo dos casais...
Uma decisão de junho deste ano da Justiça francesa incluiu o SMS como prova material para fins de divórcio. Um quarto dos franceses confessa espionar o telefone celular do cônjuge; 50% dos ingleses dizem olhar os SMS do cônjuge, um terço dos suecos e na Itália, nove entre dez relações extraconjugais são descobertas graças aos celulares.

Woman

Between my head and the sky. Este é o título do novo disco de Yoko Ono, apresentado ao vivo no telejornal das 13 horas. Ela deu uma entrevista de cinco minutos e depois cantou acompanhada ao piano por ... Sean Lennon. Um grande prazer neste começo de tarde. Há quem deteste Yoko. Acho que uma mulher que foi amada por John Lennon e que mereceu a letra que ele escreveu para a canção Woman só pode ser uma pessoa interessante.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Fête de l’Huma







No fim de semana de 11 a 13 de setembro o jornal L’Humanité realizou mais uma tradicional e imperdível reunião da esquerda francesa, a Fête de L’Huma, que dura três dias. Organizada pelo jornal do Partido Comunista Francês (que já não tem mais a foice e o martelo nem é “órgão oficial do PCF”, como antes, mas continua sua luta pelos ideais comunistas), a festa é uma mistura de Feira da Providência com Bienal do Livro multiplicadas por dez.


A Fête de l'Huma é conhecida e frequentada por um número enorme de franceses. O espaço é um grande parque de La Courneuve, uma cidade dos arredores de Paris, e este ano mais de 600 mil pessoas, entre proletários e intelectuais que acreditam que um outro mundo é possível, foram ver o que a esquerda tem a propor para mudar o status quo. Mas quem vai à Fête de l’Huma não vai só tratar de política. Ponto de encontro da gauche francesa, muitos jovens vão também para comer, beber, se encontrar e ouvir música. Tudo com muitas faixas e cartazes engajados, claro. Mas o principal objetivo é angariar fundos para o jornal e reunir simpatizantes e militantes do PCF, além dos principais políticos de esquerda que vão defender a eterna união da esquerda, uma das metas mais difíceis da gauche do mundo inteiro.


Este ano houve, como de hábito, mega-shows de artistas como Manu Chao, que dispensa apresentação, e Julien Clerc, um compositor e cantor conhecidíssmo na França e que, entre outras qualidades, faz músicas para letras de Carla Bruni.
Fui no sábado e no domingo. No sábado pude ver quando o ministro da Cultura, Frédéric Mitterrand, cercado por um enxame de cinegrafistas e jornalistas, entrava no Village du Livre. Os militantes mais exaltados gritavam: "Mitterrand dehors" (fora Mitterrand), "Mitterrand traître" (Mitterrand traidor) e outras “gentilezas”.
Quem convidou Mitterrand para a festa deve ter ficado sem saber o que fazer para conter os jovens que seguiam o grande grupo de jornalistas gritando o que pensam do fato de um sobrinho do ex-presidente socialista ter entrado para o governo Sarkozy.
*Fotos de Leneide Duarte-Plon

Niemeyer em Paris



Os franceses criaram há alguns anos dois dias chamados "Les journées du patrimoine". Nesse fim de semana de setembro, todos são convidados a visitar os prédios tombados, castelos ou símbolos do poder, normalmente fechados à visitação pública.
Aproveitei o domingo para levar minha filha para conhecer a sede do Partido Comunista Francês, na Place du Colonel Fabien, prédio tombado de Oscar Niemeyer. Fizemos a visita depois da palestra de Gérard Fournier, num dia de sol do verão que se despedia de Paris. Foi um prazer redobrado percorrer a obra de Niemeyer com todas as informações sobre as circunstâncias de sua concepção e construção.
A criação dos "dias do patrimônio" é polêmica. Valéry Giscard d'Estaing, que recebeu no fim de semana pessoalmente os interessados em visitar seu castelo d’Estaing, disse aos jornalistas que foi ele quem instituiu em 1980 a data. Já Sarkozy, ao receber a multidão que foi conhecer o Palácio do Eliseu disse achar ótima “a ideia de Jacques Lang de criar esses dias do patrimônio”.
O próprio ministério da Cultura comunicou oficialmente que essa era a 26 edição das jornadas do patrimônio, estabelecendo a criação em 1983, sob a presidência de Mitterrand.
Pobre Giscard. Até a direita atribui a Mitterrand uma ideia genial que ele diz ser sua.

Leite derramado


As fotos nos jornais são impressionantes. Mais impressionantes são as imagens nos telejornais. Os produtores de leite franceses, belgas e do Luxemburgo encheram dezenas de caminhões-cisternas em ações-relâmpago e despejaram nos campos em torno do Mont Saint-Michel o líquido branco produzido pelo trabalho de centenas de homens e mulheres. As vacas contribuíram com o principal, claro.
Na semana passada, o protesto em diversos locais diferentes serviu para chamar a atenção para as perdas que os produtores de leite sofrem com o fim da política europeia de cotas e com os preços irrisórios pagos pelos industriais.
Outros produtores menos radicais preferiram distribuir gratuitamente o leite nas fazendas a vendê-lo por um preço vil.
Segundo a FAO, organismo da ONU que cuida da agricultura no mundo, três quartos do bilhão de seres humanos subalimentados do planeta são agricultores.

France Telecom: 23 suicídios em 18 meses

Os franceses são os maiores consumidores de antidepressivos do mundo.
Agora, deram para se suicidar. Nos últimos 18 meses, 23 empregados da empresa France Telecom – que era estatal e foi privatizada parcialmente no governo Chirac - se suicidaram. A maioria no próprio local de trabalho. Saldo lamentável do capitalismo e das privatizações.
Alguns deixaram cartas alegando pressões insuportáveis, depois da privatização “à la française” (isto é, por etapas) dessa antiga companhia estatal. Há dois anos, houve outra onde de suicídios de empregados dos fabricantes de automóveis Renault e Peugeot.
Christophe Desjours, autor de Souffrance en France (A banalização da injustiça social – FGV) e Suicide et travail, que faire ? (PUF, 2009) explica que existe uma solidão e um sentimento de abandono por parte do trabalhador com os novos métodos de trabalho, configurando-se “um deserto no sentido arendtiano do termo : a solidão total”.
Segundo o psicanalista, os gestores que só olham o resultado em números não querem saber como eles são obtidos. Seria como se os assalariados estivessem loucos por não conseguirem atingir os objetivos. “Mas os objetivos que impõem são incompatíveis com o tempo de que o empregado dispõe”.
Christophe Dejours acrescenta: “As empresas constroem slogans para dar a impressão de que o que elas fazem é gerenciar recursos humanos mas na realidade trata-se de uma gestão “lenço de papel”: pegam as pessoas, espremem e as jogam fora. O ser humano no fundo é uma variável de reajuste, o que conta é o dinheiro, a gestão, os acionistas, o conselho de administração”.

sábado, 12 de setembro de 2009

A vingança de Gaia ou o fim da civilização

“Na Inglaterra ele é um dos darlings da mídia. Célebre na Alemanha, popular no Japão, traduzido na Espanha. A França seria estreita e cartesiana demais ou simplesmente provinciana?” Quem pergunta é um jornalista do Le Monde no perfil de James Lovelock, publicado no lançamento de seu livro The revenge of Gaia, em 2006. O provincianismo da França é uma alusão ao desconhecimento da obra de Lovelock no país.
Sir Lovelock, de 89 anos, construiu a hipótese científica que afirma que a Terra constitui um ser vivo que se autorregula. No início era apenas uma hipótese. Hoje, ela constitui uma teoria, aceita internacionalmente. Ele explica que “o sistema Terra se comporta como um sistema unitário autorregulado, formado por componentes físicos, químicos, biológicos e humanos”.
Quem se interessa por meio ambiente já ouviu falar dessa teoria na qual o meio ambiente e o ser humano são compreendidos como parte de um todo e o planeta como um ser em permanente busca do equilíbrio. Segundo Lovelock, a Terra é uma interação entre o vivo e o não-vivo.
O aquecimento global, consequência da ação humana, segundo o cientista, vai ser responsável por uma catástrofe, pois o processo irreversível já começou. Quando a temperatura na Terra aumentar 8° centígrados (lá pelo ano 2050) a maior parte da superfície do planeta terá se transformado em deserto e os sobreviventes irão viver em torno do polo Ártico.
“Mas não haverá lugar para todos, haverá guerras e populações desesperadas disputando espaço vital. Não é a Terra que está ameaçada mas a civilização”, diz o cientista, membro da Royal Society e cujos títulos incluem o de doutor em química e cientista da Nasa, onde trabalhou para pesquisas em Marte.
Ele não crê no desenvolvimento sustentável como solução para as ameaças que pesam sobre o planeta e prega a diminuição drástica do consumo de bens materiais. Mas para isso, será preciso, segundo Lovelock, que as sociedades industriais saiam da inércia atual.



Prisão com dignidade

A Justiça do país dos direitos humanos reconhece as deficiências do seu sistema penitenciário.
Este ano, o Estado foi condenado a pagar a três ex-detentos da prisão de Nantes por “condições de detenção que não respeitam a dignidade da pessoa humana”. Isso foi em julho e a République vai pagar 6 mil euros a um dos três ex-detentos e 5 mil aos dois outros. Já tinha havido um julgamento similar no ano passado, em Rouen.
Periodicamente lemos nos jornais denúncias de condições degradantes de algumas prisões francesas. A de Nantes, por exemplo, tem 419 presos para uma capacidade de 291 lugares. Suicídios de presos são também frequentes nas prisões do país de Voltaire.
Se a justiça brasileira obrigasse a União ou os Estados a pagarem por “condições de detenção que não respeitam a dignidade da pessoa humana”, imagino que iriam à falência.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Férias I


















Todos os anos, os franceses são convidados a pensar nos seus animais domésticos antes de sair de férias. Com a chegada do verão as sociedades protetoras de animais multiplicam os apelos aos donos de cães e gatos para que não os abandonem antes de partir para as sagradas férias de verão*.

Quem não consegue um esquema de vizinho, amigo ou local profissional para deixar o animal não pensa duas vezes: joga o fiel companheiro na rua e pega o caminho das férias.
Brigitte Bardot e outros defensores dos animais ficam furiosos com os desalmados que abandonam seus bichinhos. Tudo por causa de alguns dias de férias.
Tenho duas amigas que vieram para a Europa na década de 70 e, entre outras atividades de verão, viveram algum tempo cuidando de gatos e plantas de pessoas que viajavam de férias.

*As fotos são na Gare de Lyon, em junho.

Férias II

O açougueiro da Rue Bréa já fechou as portas por um mês. O sapateiro, idem. A nossa tinturaria do Boulevard Raspail fechou neste sábado. As padarias mais próximas estão fechadas por um mês. O chocolatier Jean-Paul Hévin (um dos melhores de Paris) aproveita o mês de agosto para fazer obras e renovar a bela loja da Rue Vavin. Assim como a padaria que fica do mesmo lado.
Paris está vazia. Os parisienses que já saíram de férias no mês de julho vivem numa cidade sem carros, sem barulho e quase sem parisienses, já que a maioria parte em agosto. Há quem curta essa Paris com um quê de cidade do interior. Eu prefiro a cidade viva, com os parisienses andando sempre com um passo apressado ou sentados nas varandas dos cafés.
Outro dia recebi uma sobrinha que vinha a Paris pela primeira vez e lhe contei como funciona a cidade em julho-agosto. Mostrei as lojas fechadas com um cartaz que anuncia o dia da reabertura. Ela, que mora em Brasília, custou a crer que esse fenômeno se repete todo ano.
Quem não conhece Paris num mês de agosto não pode imaginar boutiques e lojas fechadas para férias coletivas. As férias de verão são tão importantes que a própria língua tem duas palavras para designar quem sai de férias em julho e em agosto: “juilletistes e aoûtiens”.
Eu, uma aoûtienne convicta, interrompo o blog por um mês. Em setembro, ele reabre.

Cálice

A igreja anglicana suspendeu por um tempo a distribuição de vinho da Santa Ceia aos fiéis. Gripe A oblige. O cálice que passa de um fiel ao outro não vai mais ser usado pelos anglicanos da Inglaterra. Há algumas semanas, os fiéis participam do sacramento comendo apenas o pedaço de pão. Pela primeira vez na história da Igreja Anglicana, a igreja da Inglaterra modificou o sacramento da comunhão. Na igreja parisiense (protestante) que frequento, o cálice de metal (prata ou estanho?) ainda circulou nesse domingo e todos beberam um gole do vinho, depois de comerem o pedaço de pão. Inclusive eu. Me pergunto se os pastores franceses também vão se render ao princípio de realidade e, como os pragmáticos britânicos, suspender o vinho bebido na taça que circula entre os fiéis.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

As férias do “capitão coragem”

Fazendo cooper, o presidente Sarkozy teve um mal-estar no domingo, 26 de julho. Nesta quinta, 30 de julho, o presidente, como os ministros, troca Paris pelas anuais férias de verão. O presidente vai passar três semanas na Côte d’Azur, na propriedade da família de Carla Bruni. Os ministros, que, como a maioria dos parisienses, vão deixar a cidade deserta, têm uma única obrigação: não estar a mais de duas horas de avião de Paris. Por isso, o primeiro-ministro François Fillon passará suas férias na Toscana. Para mim, a Toscana é um dos lugares mais bonitos da Itália, da Europa e do mundo. Um paraíso onde milionários do mundo inteiro têm casa de campo. E onde eu comprarei uma casa, quando ganhar na euromilhões, a loteria que funciona em vários países europeus.
Christian Salmon, pesquisador do Centro de pesquisas sobre as artes e a linguagem e autor do excelente livro Storytelling – La machine à fabriquer des histoires et à formater les esprits (La Découverte, 2008), analisou no Le Monde o excesso de cobertura do mal-estar do presidente pela imprensa francesa:
"O mal-estar teria passado despercebido em outros tempos. Mas a superexposição de Nicolas Sarkozy, a hipercentralização do poder e sua hiperatividade em termos de agenda midiática mergulham a sociedade francesa num estado de alerta permanente. Existe uma dramatização um tanto doentia, ligada à personalização das instituições políticas e à `novelização´ da vida política. Não se trata mais somente de contar histórias (storytelling), mas de manter a opinião pública em estado de permanente mobilização. Tudo isso faz parte do sintoma de `superexcitação, hiperatividade, superexposição´. O Palácio do Eliseu fez tanto marketing do `capitão coragem´ diante da crise que um simples mal-estar toma proporções quase de um naufrágio".
Leia também
A política como ficção – Leneide Duarte-Plon entrevista Christian Salmon (17/11/2008).


Novo debate sobre o véu islâmico

Os países europeus se veem às voltas com mulheres muçulmanas que cobrem a cabeça com um véu, o hidjab. Alguns, como a França, o proíbem em repartições e escolas. Outros premitem o uso em todos os ambientes. Mas além do discreto hidjab, algumas muçulmanas usam o niqab, que cobre o corpo todo mas deixa os olhos à vista. Outras usam a forma mais radical de ocultação do corpo feminino, a burca, que cobre corpo e rosto e tem apenas uma tela no lugar dos olhos. Na França, são 367 mulheres que usam a burca, segundo o Le Monde de 30 de julho. Convenhamos, não é muito num país de 60 milhões de habitantes.
Acontece que o presidente Sarkozy, em seu discurso diante do Parlamento reunido em Versalhes em junho, inaugurando novo protocolo que permite que o presidente francês se dirija pessoalmente aos parlamentares (antes ele enviava mensagem lida e não podia falar no Parlamento), deixou claro seu ponto de vista sobre o assunto : “O problema da burca não é apenas religioso. É um problema de liberdade e dignidade da mulher. Ela é um sinal de dominação sobre a mulher. Digo solenemente: a burca não é bem-vinda no território da República francesa”.
Segundo ele, a França não pode aceitar mulheres prisioneiras sob uma grade de pano, totalmente isoladas da vida social e de qualquer identidade. “Não é essa a idéia que fazemos da dignidade da mulher”, terminou Sarkozy.
Uma missão de informação parlamentar sobre o uso desse véu integral foi nomeada pelo governo para discutir o caminho a seguir. Pode vir a proibir o uso no espaço público “em nome da laicidade, da dignidade da mulher e da segurança e da ordem pública”. Como a burca permite a alguém (mulher ou homem) se esconder totalmente por trás da roupa, é possível que uma lei seja proposta em fins de janeiro, quando a missão parlamentar concluir suas consultas a sociólogos da religião, filósofos e feministas. “Se uma muçulmana decide usar o hijab ou uma judia usar uma peruca, isso não me incomoda. Por outro lado, o véu integral aniquila a mulher”, diz Olivia Cattan, da Association Paroles de femmes, no jornal Libération e uma das dezenas de pessoas que vão ser ouvidas pela missão parlamentar.
No meu livro "Por que elas são (in)fiéis", Ediouro, 2006, escrevi na página 29:
“Nas sociedades islâmicas, o uso do véu é uma forma de manter controle sobre o corpo da mulher, visto como permanente fonte de tentação. Em nome do livro sagrado do profeta Maomé, tiranos fanáticos escondem suas mulheres sob os mantos para se convencerem de que elas não existem como seres desejantes, como iguais.
No livro "Psychanalyse à l’épreuve de l’Islam", o psicanalista Fethi Benslama diz que “o véu islâmico é uma coisa (em iltálico no texto) pela qual o corpo feminino é ocultado em parte ou totalmente porque este corpo tem um poder de encanto e fascinação. Em outras palavras, o que é ostentatório para a religião é o corpo da mulher, ao passo que o véu seria um filtro que resguarda e protege de seus efeitos perturbadores”.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Apagaram o cigarro de Alain Delon


Na França, a Lei Evin proíbe toda publicidade de fumo, em qualquer mídia.
Por isso, uma foto de Alain Delon de 1966 em que o ator tinha um cigarro na mão direita foi retocada agora para “apagar” o cigarro, na nova publicidade do perfume Christian Dior, Eau Sauvage. Não é de admirar que a Dior vá buscar uma foto dele no auge da beleza para a nova campanha do perfume. O ator é considerado por muitos o francês mais bonito de todos os tempos (quem não lembra da câmera de Visconti lambendo o rosto de Delon em Rocco e seus irmãos, literalmente subjugada pela beleza do ator?).
Delon não é o primeiro a ter uma foto adaptada pelo politicamente correto. Este ano, a cinemateca francesa organizou a retrospectiva e exposição da obra de Jacques Tati. Os cartazes que foram espalhados pela cidade e dentro das estações de metrô mostravam Tati numa bicicleta sem seu cachimbo, devidamente apagado pelos publicitários zelosos. Esse excesso de zelo foi criticado pelo próprio autor da lei, o ex-ministro Claude Evin, e também pela atual ministra da Saúde, Roselyne Bachelot. Ambos acharam ridículo apagar o cachimbo de Tati, uma de suas marcas mais fortes. Agora apagaram o cigarro de Delon, depois de terem tirado o cigarro dos dedos de Sartre para uma exposição sobre o filósofo da Biblioteca Nacional da França, há poucos anos.

120 velinhas

A velha dama de ferro comemorou 120 anos comme il faut.
Não, não estou falando de Margaret Thatcher, tão idosa que vai ficando esquecida por conta da idade, mas ainda longe dos 120. Em vez de pedir que esquecessem o que fez (ou escreveu) ela tratou de começar por si mesma. Esqueceu quase tudo por conta daquele médico alemão, Dr. Alzheimer.
Estou falando da Torre Eiffel. Para seus 120 verões ela teve direito, dia 14 de julho, aos fogos de artifício mais espetaculares de sua história. Comemorou-se a festa nacional e o aniversário de uma das mais visitadas atrações da capital, com o Louvre e a Notre Dame. Antes dos fogos, os franceses e turistas (700 mil pessoas) puderam assistir ao show do velho roqueiro francês Johnny Hallyday, de 66 anos, que se despede dos palcos em uma turnê por várias cidades. A escolha do cantor foi feita por Sarkozy, um fã incondicional. Gosto não se discute.
Por falar na Torre, no Libération podemos ler pérolas de cultura inútil por conta das matérias especiais de verão, quando a política francesa funciona no piloto automático e pouca coisa acontece. Todo mundo sai de férias, inclusive o presidente e os ministros (alternadamente, claro). Leio matéria sobre “o salto do século” feito por François Reichelt, um francês que pensava ter inventado o paraquedas. Ele morreu em fevereiro de 1912, saltando do primeiro andar da Torre Eiffel, diante de poucos curiosos e alguns jornalistas, vestido de uma espécie de macacão-capa, supostamente apto a amortecer sua queda. Não funcionou e o infeliz inventor morreu estatelado aos pés da torre.
Mais um pouco de cultura inútil: a invenção patenteada de um paraquedas foi feita pelo francês Jacques Garnerin em outubro de 1802. Ele tinha saltado pela primeira vez em 1797 no parque Monceau em Paris. Mas o nome parachute (paraquedas) foi criado pelo físico francês Sébastien Lenormand, o primeiro a saltar do primeiro andar de uma casa com um guarda-sol em cada mão!

Delito de solidariedade = estrangeiros fora!

Liberté, égalité e fraternité são palavras edificantes. Mas nem sempre fáceis de aplicar. Na defesa da lei que ficou conhecida por instaurar o “delito de solidariedade”, o governo francês está às voltas com as associações de ajuda aos imigrantes. Uma queda de braços que foi magnificamente ilustrada no filme francês Welcome, que passa no Brasil com o nome de Bem-vindo, pelo que li nos jornais. O ministro da imigração Eric Besson, ex-socialista cooptado por Sarkozy (como o ministro das Relações Exteriores, Bernard Kouchner) não gosta que chamem o artigo L 622-1 – o código de entrada de estrangeiros – de delito de humanidade, delito de generosidade ou delito de solidariedade. O artigo citado diz que “toda pessoa tendo, por ajuda direta ou indireta, facilitado ou tentado facilitar a entrada, a circulação ou a permanência irregular de um estrangeiro na França é passível de pena de cinco anos de prisão e 30 mil euros de multa”.
Associações como o Secours Catholique, Emmaüs e a Cimade querem acabar com as penas para o que chamam de “delito de solidariedade” e defendem a modificação da lei.
Na Itália berlusconiana, a direita pede a médicos e enfermeiros que atendem pessoas ilegais que os denunciem! A direita européia adota cada vez mais um discurso neofascista e o parlamento europeu deu uma guinada à direita depois das eleições européias de junho. Triste Europa!

A evitar ?

Pouco tempo antes de ter de pegar o avião para ir ao Brasil, caíram três aviões, dois no mar e um tupolev iraniano sobre o continente, abrindo uma enorme cratera. De todas as catástrofes, apenas uma sobrevivente, a jovem Bahia, de 14 anos, moradora da região parisiense.
Para meu desespero, a companhia em que vou voar, TAM, está no grupo D (a evitar) de uma classificação de 57 companhias aéreas. Desespero : o que fazer? Jogar fora a passagem já comprada? Comprar uma passagem de uma companhia do grupo A?
A lista de classificação das companhias aéreas pelo grau de fiabilidade foi publicada por um jornal francês depois do acidente da Air France na rota Rio-Paris. Os critérios da classificação foram, entre outros, a idade dos aviões, a manutenção, os incidentes e acidentes ocorridos. Esse estudo foi baseado em dados técnicos fornecidos pelo Observatório da Segurança aérea e do turismo de Genebra (Obssat, em francês). Quem fez o estudo foi François Nénin, jornalista especializado em segurança aérea.
O grupo A (bom nível) tem as companhias mais seguras, na ordem publicada: Singapore Airlines, Qatar Airways, Cathay Pacific, Emirates, Easyjet, Air Canada, Lufthansa, British Airways, Tunisair, United Airlines. No grupo B (nível correto) estão várias outras, começando pela Air France. No grupo C (sob reserva) mais uma dezena, entre elas American Airlines e Continental Airlines. A brasileira TAM abre o grupo D (a evitar) e o grupo E contém as da lista negra, proibidas na Europa ou na lista de espera da proibição.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Homem sem camisa é atentado ao pudor




















Atenção rapazes : em Paris, nunca tirem a camisa, mesmo quando no verão os termômetros resolverem ultrapassar os 30 graus. Vocês correm o risco de darem de cara com um policial que vai fazê-los pagar uma multa de 140 euros por “atentado ao pudor”. A menos que estejam no perímetro de Paris-Plage, a praia artificial criada todo ano em agosto pela prefeitura de Paris na margem direita do Sena.
A história de um americano que teve de pagar a multa me foi contada por meu cabeleireiro que ouviu de uma cliente americana. Há poucos dias, fez calor em Paris. Um amigo dela acalorado tirou a camisa e descobriu que homem sem camisa em Paris é atentado ao pudor. Pagou 140 euros.
Nas praias francesas, as mulheres pegam sol sem sutiã desde priscas eras e ninguém olha, a não ser trabalhadores imigrantes, eventualmente de passagem. Eles não estão acostumados a ver isso por suas terras.
Além de seios de fora, crianças nuas brincando na areia é muito comum nas praias francesas. As fotos foram feitas numa praia da Côte d’Azur.


Lula em Paris : prêmio da Paz na Unesco


“Ele é o representante de uma das grandes economias emergentes que parecem mais aptas a sair rapidamente da crise atual que as outras”. “Ele” é o presidente brasileiro Luiz Inacio Lula da Silva que o Le Monde apresenta como “Luiz Inacio da Silva – chamado “Lula”. O jornal francês de referência não o trata pelo apelido sem explicar aos leitores que trata-se de um apelido. Lula foi a manchete principal do jornal datado de 8 de julho: “Lula: em matéria de economia, o G-8 não tem mais razão de ser”. Na excelente entrevista, o presidente diz que teme que “certos países ricos façam do G-20 apenas um uso utilitário para superar a crise”. Ele defendeu foruns multilaterais que compreendam não somente os países do BRIC (Brasil, Rússia, India e China) mas também o México, a Africa do Sul, a Indonésia e os países árabes. Lula estava de passagem por Paris, onde encontrou o presidente Sarkozy no Palácio do Eliseu. Aplaudidíssimo ao final de seu discurso na Unesco, onde recebeu o “Prêmio Felix Houphouët-Boigny para a busca da Paz”, o presidente Lula estava acompanhado dos ministros Tarso Genro, Fernando Haddad e Celso Amorim. Da capital francesa, ele seguiu para Áquila, para o encontro do G-20. Na Unesco, depois de ouvir diversas autoridades (entre elas, o primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates e o ex-presidente Mário Soares) ressaltarem sua ação social no Brasil e sua ação pela paz e pelo Estado de direito na América Latina, Lula defendeu a paz como prerrogativa do Estado de direito para promover a dignidade humana e a justiça social. Lembrando a enorme dívida social que o Brasil tem com os mais fracos, o presidente afirmou : “Não haverá paz verdadeira enquanto houver fome, desigualdade e desemprego”.
Através de Lula e do reconhecimento internacional de sua ação em favor dos excluídos podemos sentir orgulho de ser brasileiros. Segundo informou a Unesco, um terço dos ganhadores do “Prêmio Felix Houphouët-Boigny para a busca da Paz” receberam depois o Nobel da paz. Para desespero dos tucanos, Lula tem chances de ser nosso primeiro Nobel.


Paris, capital do cinema


Embarras du choix é a melhor expressão para definir o dilema de escolher um filme em Paris, a menos que se possa ir ao cinema todo dia. Temos uma amiga, a socióloga, escritora e historiadora Régine Robin, cinéfila de carteirinha, que quando está em Paris, onde tem apartamento e mora parte do ano, vai ao cinema todo dia, às vezes duas vezes por dia. Em Paris, a festa do cinema dura 365 dias por ano. Todo mundo sabe que não há cidade mais cinéfila na face da terra, porque não há povo mais cinéfilo que o francês. Louis Lumière talvez explique essa paixão pelo cinema. A cidade tem atualmente “somente” 379 salas de cinema (em 1977 tinha 456 cinemas), entre as quais 89 são cinemas de arte. Depois de uma semana da “Fête du cinéma”, de 27 de junho a 3 de julho, na qual vi tudo o que podia, Paris entrou em ritmo de Festival Paris-Cinéma, o festival de cinema da cidade. Este ano, o festival tem a Turquia como país homenageado por ser o ano da Turquia na França. Um grande barato para quem quer ver em primeira mão o melhor da cinematografia turca. Mas tem também atores, atrizes e diretores homenageados. Este ano, retrospectiva dos melhores filmes do cineasta de Taiwan Tsaï Ming-Liang, da cineasta japonesa Naomi Kawase, da atriz Claudia Cardinale e do ator Jean-Pierre Léaud, o ator preferido de Truffaut. Além de clássicos do cinema italiano. Aproveito para ver “Divórcio à Italiana”, a obra-prima de Pietro Germi. Se eu não tivesse um jantar com amigos, teria ido à sessão no Saint-Germain-des-Prés apresentada por Chiara Mastroianni, filha do ator principal do filme, um tal de Marcello Mastroianni. Lamentei não poder ir à sessão em que Claudia Cardinale apresentou pessoalmente “La Viaccia”, de Mauro Bolognini, do qual é a atriz principal. Em compensação, há dois anos fui vê-la apresentar a nova cópia do clássico “A moça com a valise”, de Valerio Zurlini, juntamente com Jacques Perrin. Naquele dia pude constatar como o tempo é cruel com os homens. O jovem Perrin do filme tornou-se um senhor de cabelos brancos, enquanto Claudia, graças a Luc Montagnier, o prêmio Nobel de Medicina do Ano passado, inventor de pílulas à base de papaya para retardar o envelhecimento, continua linda e radiante. Ela faz a publicidade das tais pílulas de Montagnier. Mas não conta que além de pintar os cabelos deve ter passado por alguns liftings, ao contrário de Perrin que não pinta o cabelo e aceita que o tempo passe e deixe suas marcas. Entre os filmes deliciosos que passam em Paris, o novo Woody Allen, “Whatever works” um deleite para os fãs do diretor, que volta com seu personagem insuperável do intelectual neurótico nova-iorquino, interpretado pelo ator Larry David. Imperdível o ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro, Departures (A partida, no Brasil), do diretor Yojiro Takita, um dos mais belos e delicados filmes que vi em toda minha vida.

Stéphane Hessel, Monsieur droits de l'homme

Leia na revista Tropico:
Israel no banco dos réus
Por Leneide Duarte-Plon

Redator da Declaração dos Direitos Humanos, Stéphane Hessel explica tribunal para julgar crimes na Palestina. Leia aqui.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Michael Jackson, le dernier dandy

O melhor texto sobre a morte do “rei da pop” que li foi do filósofo e escritor Daniel Salvatore Schiffer que escreveu no Libération um artigo com o título acima. Ele explica por que Michael Jackson foi o último dandy, como conceituaram Oscar Wilde, Baudelaire e Albert Camus. Incrivelmente inteligente o texto de Schiffer. Wilde escreveu em “Fórmulas e máximas para o uso dos jovens”: “O primeiro dever na existência é ser o mais artificial possível”. Para Wilde, “o verdadeiro dandy deve ser ou uma obra de arte ou usar uma obra de arte”.
Baudelaire, outro dandy, em “Elogio da maquiagem” diz: “Quem ousaria limitar a arte a uma função estéril de imitar a natureza? A maquiagem não tem que se esconder, se escamotear. Ela pode, ao contrário, se exibir, senão com afetação, ao menos com uma espécie de candura”.
Schiffer escreve que essa “obsessiva e quase compulsiva vontade de criar uma aparência corporal cujas exigências formais não correspondem mais aos cânones naturais levando o rosto a se assemelhar a uma máscara (figura artística, em preto e branco de anjo e demônio) é a primeira prerrogativa da estética dandy”. A prova é que o assunto central da obra-prima da literatura dandy, ”O retrato de Dorian Gray”, de Wilde _ como também o mito eminentemente romântico de “Fausto”, de Goethe _ é uma busca permanente da juventude e da beleza. E, paradoxalmente, essa busca leva à morte.
Mas quem melhor resumiu o arquétipo do dandy foi, segundo Schiffer, Camus no livro “L’homme révolté”. Uma frase final para resumir o pensamento de Camus: “O dandy representa sua vida, já que não pode vivê-la. Ele a representa até a morte, menos em momentos em que está sozinho e sem espelho. Estar sozinho para o dandy é o mesmo que não ser nada”.
Daniel Salvatore Schiffer é autor dos livros « Philosophie du dandysme – Une esthétique de l’âme et du corps » e de « Oscar Wilde ». O que ele diz sobre o dandy cai como uma luva em Michael Jackson, um gênio atormentado. Teria sido ele o mesmo se tivesse deitado num divã?

Métro, boulot, dodo

A população francesa vive cada vez mais. Consequentemente, a Sécurité Sociale acumula um déficit monstruoso. Para remediar o rombo da Sécu, o governo estuda, sob protestos generalizados, a modificação da idade de aposentadoria, fixada atualmente em 60 anos, no mínimo. Na Suécia, a idade média de aposentadoria (não o previsto em lei mas a idade média de saída do mercado de trabalho) é de 64,2 pra os homens e 63,6 para as mulheres. Na França, essa idade média é de 59,5 para os homens e de 59,4 para as mulheres.
Todo mundo conhece a fama dos franceses. Para os estrangeiros, o francês é um “bon vivant” : gosta de beber bons vinhos, comer bem, com prazer e tempo para degustar o que come (e falar de comida, de como preparam e dos pratos e temperos exóticos que degustaram nas últimas férias). Um estudo da OCDE revelou que os franceses passam 130 minutos por dia à mesa (os pobres ingleses apenas 80 minutos!). Não preciso explicar a diferença entre o que comem os dois povos. A culinária inglesa não é conhecida por sua sofisticação e nem os ingleses pelo paladar refinado, ainda que as coisas venham mudando do outro lado do Canal da Mancha.
Mas além do recorde à mesa, os franceses também são os europeus que mais dormem. Mesmo que tenham criado a expressão métro-boulot-dodo para demonstrar o trepidante ritmo de vida urbano, os franceses dormem mais que os espanhóis, famosos pelas longas siestas. Quanto dorme em média um francês? 8 horas e 50 minutos por dia.
O jornalista Robert Solé, cuja crônica no Le Monde é uma delícia de concisão e inteligência, sugere três explicações: 1. A pátria dos direitos humanos dorme o sono dos justos e confia no seu governo. 2. O tempo passado sob os lençóis, não é apenas de sono. Há quem se divirta. 3. A França está totalmente entorpecida pelos antidepressivos. Os franceses são os maiores consumidores de antidepressivos do mundo.
Acho que a terceira é a mais plausível. Inclusive porque explica em parte o buraco da Sécurité Sociale: quem paga o antidepressivo, além das aposentadorias, é ela.

O Mitterrand de Sarkozy

De Gaulle teve André Malraux. François Mitterrand teve Jack Lang. Sarkozy estava por fora. Tinha Christine Albanel, uma ministra da cultura sem carisma, sem amigos na área artística, sem presença.
Agora, na mudança ministerial que resolveu fazer depois das eleições européias, Sarkozy entrou para o time dos presidentes que têm um ministro da cultura “in” capaz de fazer brilhar a cultura francesa. Com a nomeação de Frédéric Mitterrand, sobrinho do ex-presidente, Sarkozy tem o seu Mitterrand no governo. As más línguas dizem que ele nomeou um sobrenome e que tudo isso é para fazer mais mal ao já combalido partido socialista. Mas Frédéric, um homem de cultura e independente, nunca foi exatamente um homem de esquerda. Era sobrinho de um ícone da esquerda e tinha uma vida cultural trepidante: é escritor, teve programa cultural na TV e ocupava atualmente, nomeado por Sarkozy, o cargo de diretor da Villa Médicis, o importante centro cultural francês em Roma.
Esta semana, Mitterrand inaugurou o ano da Turquia na França, cujos eventos estiveram ameaçados depois que Sarkozy reiterou várias vezes sua oposição à entrada da Turquia na União Européia. Os turcos não gostam de Sarko, 73% deles dizem não confiar no presidente francês.
Quanto a Jack Lang, num livro de entrevistas publicado este ano, o ex-ministro da cultura de Mitterrand dizia que não entraria no governo Sarkozy. E confirmava que foi sondado para ser o ministro da Cultura de Sarko no dia da vitória do presidente, em 2007. Lang recusou o convite e explica:
“Ministro para quê? Para assumir uma orientação da qual discordo? Como eu poderia ser solidário com uma política fiscal que condenei publicamente, uma política educacional catastrófica, uma política penal que é o oposto de minha concepção dos direitos humanos?”
Isso não impediu que o ex-ministro de Mitterrand fosse a Cuba como enviado especial de Sarkozy para encontrar o presidente Raul Castro. Mas em Cuba, ele não precisa assumir a política fiscal, educacional e penal de Sarko.

De olho na mídia

Esse é o nome de um site de caçadores de antissemitas (deolhonamidia.org.br). De um amigo judeu recebo um desenho publicado no site com o texto:
Uma imagem que vale por mil palavras - A charge abaixo, publicada na coluna Dry Bones do Jerusalem Post e traduzida em conjunto com o grupo Artision caiu em nossas mãos um dia após a publicação do nosso último comentário. Ela traduz tudo que ele quis passar e muito mais em uma imagem só (uma ilustração com diálogos, mas ainda assim um desenho). Reflexo de omissões e distorções criminosas da ONU, mídia e governo Obama, ela é um protesto contra um mundo ainda intrinsecamente antissemita.
Atenção, o mundo é antissemita ! A frase já veio sublinhada.
O remetente é psicanalista e está convencido de que sou antissemita por tudo o que já escrevi no meu blog criticando a política dos sucessivos governos e governantes racistas e expansionistas de Israel.
A charge que veio junto, que infelizmente não pude copiar mostra alguém dormindo e uma voz que anuncia, “A Coréia do Norte está preparando uma guerra nuclear” e o personagem continua a dormir. Depois alguém grita “Genocídio sudanês em Darfur”, o sono continua. Novo alerta: “Risco no Paquistão, terrorismo islâmico crescendo”, ele dorme. “Loucos iranianos, traficantes de droga na América Latina, piratas na Somália”, o sono continua. No último quadrinho: “Judeus constroem casas na Margem Ocidental”. O personagem que dormia, se levanta e diz: ”Como?”
Repassei a amigos com meu comentário:
Esse desenho e o que ele expressa não estaria próximo da paranóia, definida no dicionário de psicanàlise como "delírio sistematizado" que "inclui o delírio de perseguição, a erotomania, o delírio de grandeza e o delírio de ciúme"?
O desenho é de uma enorme "mauvaise foi". A "Margem Ocidental" é nada menos que o território palestino, a Cisjordânia, que pertence (por decisão da ONU de 1948) a um povo que há 60 anos espera construir nele um Estado para viver como vizinho ao Estado de Israel.
Quem defende os "judeus que constroem casas na Margem Ocidental" seria capaz de defender a ocupação da França pelos alemães?
A resistência a essa ocupação é consagrada como uma das páginas mais nobres da história francesa.
De Maria Rita Kehl, psicanalista conhecida por sua honestidade intelectual, recebo o e-mail:
“Oi, Leneide, todo meu apoio a você. Também acho uma tremenda má fé interpretar a condenação à política racista e abusiva do estado de Israel como antissemitismo. Se quiser, pode incluir essa opinião no seu blog. Tenho visto muitos documentários onde aparecem judeus que apoiam os palestinos contra o abuso da força daqueles que, protegidos pelo exército israelense, expulsam os moradores e constroem casas na Margem Ocidental. Então esses judeus seriam antissemitas por reivindicarem justiça para seus vizinhos? Um beijo. Rita Kehl.
Aqui na França, como no Brasil, os judeus se dividem há alguns anos entre os que apoiam Israel incondicionalmente e os que criticam a política racista e colonialista do país. Tenho uma amiga, Régine Robin, socióloga e historiadora conceituada que vive entre Paris e Montréal quando não está fazendo conferências em universidades do mundo inteiro, que foi expulsa da casa de amigos judeus de Paris, porque seu marido fez restrições severas à política de Israel. O jantar foi interrompido e eles partiram. Detalhe: tanto Régine quanto seu marido, ambos professores aposentados da Universidade de Quebec-Montréal, são judeus. E ambos criticam com veemência a política expansionista e brutal de Israel.
A Anistia Internacional divulgou no dia 1 de julho um relatório sobre o bombardeio de Gaza que matou centenas de civis, entre eles 300 crianças, 115 mulheres e 85 homens idosos, entre os 1400 palestinos mortos (houve 5000 feridos). O relatório acusa o exército israelense de ter usado a população civil para formar um escudo humano para se proteger dos ataques do Hamas. Além disso, os civis palestinos eram obrigados a examinar objetos suspeitos de serem bombas. A Anistia Internacional solicita procedimentos judiciais para condenar Israel por “crimes de guerra”.
Mais um ato de um “mundo intrinsecamente antissemita”?

terça-feira, 16 de junho de 2009

Boal e Niemeyer

No mês de dezembro de 2007 passei a ter coragem de afirmar meu desejo de viver cem anos.
Nunca imaginei viver tanto e muito menos ousava expressar esse desejo. Mas a partir de 18 de dezembro daquele ano passei a dizer sem inibição que gostaria de viver cem anos. Quem desencadeou essa coragem foi Oscar Niemeyer. Ao chegarmos ao Rio para as festas de fim de ano, fomos jantar, meu marido e eu, num restaurante italiano de Ipanema, na praça General Osório, convidados por Cecilia e Augusto Boal. Ao chegarmos, vimos que a mesa redonda, à direita da porta de entrada estava ocupada pelo arquiteto, sua mulher e uns quatro amigos. Ele fumava uma cigarrilha e tinha um copo de vinho na mão.
Acontece que três dias antes, Niemeyer festejara 100 anos. Três dias depois desse acontecimento extraordinário, estava num restaurante, bebendo, conversando e festejando a vida com amigos.
Sentados à mesa, Cecilia me provocou: “Vai falar com ele. Fala da entrevista”. Eu tinha feito uma entrevista com Niemeyer por e-mail para o jornal comunista L’Humanité, publicada pouco antes. Boal também foi provocado a ir cumprimentar o centenário ilustre que, como ele próprio, sempre foi engajado na defesa do Brasil e dos oprimidos. Nem Augusto Boal nem eu tivemos coragem de interromper Niemeyer para cumprimentá-lo por seu aniversário.
Mas a partir desse dia passei a dizer sem problemas que se é possível chegar lá com saúde e com lucidez, eu também quero viver 100 anos.

Estado Palestino by Netanyahu

Robert Solé é um jornalista do Le Monde, ex-ombudsman, que assina uma pequena e deliciosa crônica diária na última página. Vale a pena reproduzir a de hoje. Num texto conciso, ele resume a questão palestina atual, depois do discurso do primeiro ministro israelense. Solé imagina uma carta aos palestinos assinada por Netanyahu: “Caros amigos palestinos, Eu, Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, reconheço solenemente que vocês têm direito a um Estado. Mas isso supõe um certo número de condições. 1. Esse Estado não terá um Exército. Não se preocupem: nós cuidaremos da defesa desse Estado com toda a atenção que vocês imaginam. 2. Esse Estado deve procurar um território. Isso é problema de vocês, nós não devemos nos envolver nisso. Em todo caso, não contem com a Cisjordânia: nossas colônias continuarão a se desenvolver lá, graças a um crescimento natural de população. 3. Vocês devem escolher a capital do Estado. Saibam simplesmente que Jerusalém nos pertence e que ela é indivisível. Eis o que tenho a dizer. Fiz um grande passo que deve acalmar Obama e vai me dar um Nobel da paz. A bola agora está no campo de vocês. Benjamin Netanyahu P.S. Se o futuro Estado puder evitar ter uma Constituição, um Parlamento, uma polícia, uma justiça, uma diplomacia e serviços públicos, isso facilitaria muito as coisas".

Monsieur le Président de la République

Recebi hoje um comunicado do « Collectif Interuniversitaire pour la coopération avec les universités palestiniennes ». No seu e-mail, o presidente do Coletivo convida pessoas interessadas a assinarem a carta que ele enviou ao presidente Sarkozy, datada de 16 de junho, na qual o coletivo protesta contra a visita do primeiro ministro de Israel, chefe de um « governo abertamente colonialista, aliado ao partido de extrema direita racista de A. Lieberman”.
A carta pergunta a Sarkozy: “Seria preciso lembrar os sessenta anos de ocupação da Palestina, sessenta anos de injustiças para com os palestinos, os entraves à livre circulação, a negação de seus direitos fundamentais e suas aspirações legítimas? Seria preciso lembrar o bloqueio intolerável a que estão submetidos os cidadãos da Faixa de Gaza, as sucessivas agressões feitas pelo exército israelense, a destruição das infra-estruturas, em particular o bombardeio das universidades?
Chegou o tempo de sancionar as violações do direito internacional e do direito humanitário por Israel. Peço-lhe que anule esse encontro enquanto o governo israelense não tiver dado provas de uma atitude para com os palestinos respeitosa do direito internacional e do direito humanitário”.
Não preciso dizer que pus meu nome abaixo da assinatura do presidente do Coletivo, Roland Lombard, e enviei o envelope com a carta assinada ao Palácio do Eliseu.
Agora que tenho todos os direitos dos cidadãos franceses, ouso protestar de todas as formas, assinando petições entre outras, sem temer que a polícia de Sarkozy me “reconduza à fonteira”, como dizem eufemisticamente os responsáveis pela expulsão de estrangeiros.

Parlamento europeu vira à direita

No domingo, 7 de junho, fui cumprir meu dever de cidadã : votei para o Parlamento europeu na lista do Front de Gauche, que reunia o Partido Comunista e o recém-criado partido de Jean-Luc Mélenchon, um ex-socialista. Ajudei com meu voto a eleger um único deputado dessa coalizão para o Parlamento europeu: Patrick Le Hyaric, atual diretor do jornal comunista L’Humanité, minha leitura obrigatória de todos os dias, além do Libération e do Le Monde.
O parlamento europeu segue a tendência européia de virada à direita. Em todos os países da União Européia as listas da direita tiveram mais votos, seja na França, na Itália ou na Inglaterra. Na França, os socialistas tiveram um resultado abaixo do medíocre, aprofundando a crise no Partido, que já vai mal desde a derrota (a terceira para a direita) de Ségolène Royal e do congresso de Reims. Os trabalhistas britânicos realizaram o pior resultado desde 1918, enfraquecendo ainda mais Gordon Brown.
Na França, a grande surpresa foi a enorme votação dos ecologistas que conseguiram eleger o mesmo número de deputados europeus que os socialistas: 14 deputados, entre eles Daniel Cohn-Bendit, ele mesmo, Dany le rouge de maio de 68, e José Bové.
A lista dos ecologistas tirou votos de eleitores tradicionais do PS e dos centristas do Modem, de François Bayrou, eterno presidenciável que sofreu uma séria derrota.
Cohn-Bendit foi capa do Libération por três dias seguidos. Ele desmente a especulação de que possa ser presidenciável em 2012. Ele responde: “Presidente? Isso não é vida”.
Quem viver verá.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Arte em Veneza


O bilionário francês François Pinault , proprietário, entre outras empresas, da Christie’s, uma das maiores casas de leilão do mundo, inaugura dia 6 de junho na Punta della Dogana, conjunto arquitetural do século XV, bem na entrada do Grande Canal, que os venezianos chamam de Canalazzo, mais um museu de arte contemporânea com obras de sua coleção particular.
Pinault, que já adquirira o Palazzo Grassi em Veneza, antiga propriedade da família Agnelli, possui agora os dois mais importantes espaços de arte contemporânea da cidade dos doges. Ambos já valeriam a visita até vazios. Com a coleção Pinault, o visitante tem um “tour d’horizon” da arte contemporânea do mundo inteiro.
Mais um bom pretexto para voltar a Veneza.
Na foto, o prédio do museu Punta della Dogana num dia de névoa do mês de abril deste ano, visto de um quarto do hotel Monaco et Grand Canal

Okinawa, um modelo de longevidade

O Japão, recordista mundial de longevidade, tem mais de 36 mil centenários. Hoje, há 1500 japoneses com mais de 105 anos e 33 com mais de 110. O número de pessoas com cem anos dobrou nos últimos 5 anos no país. Proporcionalmente à população, o arquipélago de Okinawa, que faz parte do Japão, tem duas vezes mais centenários que o resto do país. A França, o segundo colocado no mundo, tem "apenas" 20 mil centenários.
O professor Makoto Suzuki, fundador do Estudo dos centenários de Okinawa, veio a Paris falar de suas pesquisas sobre o envelhecimento da população desse arquipélago. Há 38 anos ele dirige o estudo que acompanhou 2073 casos de centenários. Hoje existem 900 centenários em Okinawa, dos quais apenas 15% são independentes.
O doutor Suzuki falou aos jornalistas acompanhado do epidemiologista Jean-Marie Robine, presidente do Comité Internacional Longévité et Santé e do médico nutriterapeuta Jean-Paul Curtay. Segundo o Dr. Suzuki, o Estudo dos Centenários de Okinawa revelou um modelo alimentar e um modo de vida que permitem a maior longevidade saudável do mundo. Okinawa é um arquipélado de 44 ilhas habitadas e tem um recorde mundial de longevidade com 87 anos em média para as mulheres e sete anos menos para os homens. Em Okinawa vivem 61 centenários para cada 100 mil habitantes, duas vezes mais que a média do Japão e três vezes mais que a França.
Para envelhecer com saúde o médico explicou que vários fatores precisam estar reunidos : a dieta, a manutenção de uma atividade física, uma vida sem excessos e a existência de um tecido social em torno da pessoa que envelhece. No caso dos alimentos, a maneira de prepará-los parece ser tão importante quanto o próprio alimento. Pelo que contam os médicos, os velhinhos de Okinawa comem coisas muito estranhas à nossa dieta para que o regime deles possa ser seguido à risca. Depois de ver os livros, spas e medicamentos que prometem combater o envelhecimento seguindo o modelo de Okinawa fiquei com a impressão que ele é, antes de mais nada, um bom filão mercadológico. O que não nega o fenômeno dos centenários da ilha mas garante uma fonte de renda a muitas indústrias que vivem do marketing em torno de Okinawa.
Mamãe, aqui não é a praia, né ?
Fazer cooper no Jardin du Luxembourg é um dos prazeres dessa primavera parisiense. Percorro a pé três vezes, num passo rápido, o perímetro do parque mas não tenho noção de quantos quilômetros tem a pista de corrida dos atletas. Ao fim da última volta, me sento numa das cadeiras verdes para pegar sol e ler por uma hora. São momentos de pura felicidade em que o corpo recebe uma boa dose de atenção.
Nesta segunda, um dia feriado, estava sentada no meu momento de leitura. Tirei a blusa, passei um creme e fiquei me bronzeando de maiô, calça comprida e tênis. Um menininho de uns três anos, de óculos escuros, como a maioria das crianças francesas em dias de sol, passou perto com o pai e a mãe. Ele repetiu duas vezes a pergunta sem que eu tenha ouvido a resposta: “Maman, ce n’est pas la plage, là?” Ele não via nem água nem areia mas via um maiô da cintura para cima, sentado numa espreguiçadeira do parque.
Formais (ou conformistas?) até a raiz dos cabelos, as francesas que fazem cooper no parque não costumam ter a idéia de pôr um maiô por baixo da blusa para, uma vez sentadas, retirá-la uns minutos ao se expor ao sol. Também nunca vi um homem sem camisa, bronzeando-se ao sol no parque. Cada momento, cada lugar tem seu código vestimentário. Roupa de praia não é roupa de parque.
Para exposição ao sol de biquíni ou sunga, o prefeito Bertrand Delanoë criou “Paris Plage”, que dura um mês e atrai os mais descontraídos que, de frente para o Sena, fingem que estão na Côte d’Azur. Lá é que é lugar de pegar sol de maiô. Em agosto, no auge do verão europeu, "Paris Plage" é uma mistura de parisienses desinibidos, suburbanos ociosos e turistas curiosos.



segunda-feira, 25 de maio de 2009

Aznavour toujours




“Le grand Charles”. Era assim que alguns jornalistas se referiam a De Gaulle, um homem alto, além de um grande homem. No mundo das artes, o “grand Charles” é baixinho mas seu talento, enorme. Um gigante no palco, Charles Aznavour completou 85 anos e teve direito a um especial na televisão, no canal líder de audiência, TF1.
Os olhos brilham cheios de inteligência e vida, a presença em cena é a mesma de sempre, a voz, um pouco mais rouca. Ele é o último monstro sagrado da canção francesa, que atravessa época de escassos talentos.
Para comemorar e cantar em dueto com Aznavour, Lisa Minelli veio dos Estados Unidos. Placido Domingo cantou uma canção com o amigo e Carla Bruni, não a Sarkozy mas a cantora, veio cantar com o grande compositor “que ela adora”. Foi a primeira vez que Carla apareceu num programa da TV francesa, como cantora, depois do casamento com o presidente. Ela havia dito que não faria mais turnês e shows enquanto fosse a primeira dama. Mas para homenagear Aznavour, não hesitou em subir ao palco e cantar em dueto uma de suas canções preferidas.
Foto de Leneide Duarte-Plon - Na parede, um cartaz de um show de Edith Piaf

Bon courage, Chouchou



Aliás, num vídeo que pode ser visto em diversos sites de jornais e revistas franceses, Carla chama o presidente de “chouchou”, quando lhe deseja um bom dia de trabalho (Bon courage, Chouchou). Sarkozy aparece de surpresa no meio de uma entrevista que ela dava como primeira dama, no Palácio do Eliseu, a jornalistas de uma revista feminina. O presidente troca algumas frases com as jornalistas e com Carla, fazendo gênero simpático e descontraído.
Barack Obama não imagina como depois de sua posse ficou difícil a vida de Sarkozy, que imaginou por algum tempo ser o presidente mais importante do planeta. Sobretudo, quando por seis meses presidiu a União Européia no ano passado.
A concorrência de Barack (Nicolas lascou “Barak” na carta de congratulações pela vitória) é uma pedra no sapato de Sarkozy que conta com o charme e a descontração de Carla Bruni para construir a imagem de um político moderno e dinâmico. Algo como um novo Kennedy, sonho que ele não esconde.
Ele já tem sua Jackie. Falta-lhe o charme e a elegância de John.



J’adore Rio



Ainda no show business, um ator e uma cantora fizeram recentemente elogios rasgados ao Rio e ao Brasil. Desta vez, sinceros.
Costumo ser muito cética quando leio elogios de estrangeiros que visitam o Brasil e dizem ter “adorado a cidade, o povo, a beleza das mulheres” e outras platitudes. O que se imagina que eles vão dizer a jornalistas brasileiros? Vão criticar a sujeira, as crianças de rua, os mendigos, as favelas, provas do nosso atraso e das desigualdades seculares?
Rrecentemente, numa revista francesa, em dois números quase seguidos, duas entrevistas me fizeram sorrir de prazer. Pelo conteúdo, um elogio ao que temos de melhor, nossa música. Mas sobretudo pela sinceridade : ambos falavam a jornalistas franceses e ao público francês.
A primeira foi com o ator Vincent Cassel, 43 anos, filho do ator Jean-Pierre Cassel, falando de seu filme mais recente. No destaque chamado carnet intime, ele tem de citar um disco. Cassel responde: “João Gilberto”, de João Gilberto. Ele virou minha cabeça quando eu tinha 17 anos e era somente um disco de bossa old school (em inglês no texto). Eu o ouço o tempo todo até hoje. Na pergunta um lugar, ele diz: “O Brasil, sem dúvida alguma”.
A outra personalidade foi a cantora e jazzwoman Diana Krall. Ela acaba de lançar um maravilhoso CD chamado “Quiet Nights”. Para quem não se recorda é o nome da canção Corcovado em inglês. O CD é uma maravilha, um deleite de A a Z. Numa entrevista sobre o disco ela diz : “No ano passado, fui ao Rio. Fiquei apaixonada por essa cidade, o país, a música, o repertório do compositor Antonio Carlos Jobim e isso se transformou num álbum. Esse disco é uma carta de amor ao Brasil, a meu marido, aos meus filhos gêmeos, a Vancouver também, a cidade onde vivo. O disco tem um certo erotismo, uma certa sensualidade. E isso é totalmente assumido.”
Maravilhosa Diana com sua voz incrível e seu piano delicioso.



Lei francesa só punirá os desinformados



Hadopi. Estranho nome para a lei francesa que pretende acabar com a pirataria na internet. Na realidade, a lei que vai controlar e punir os usuários da rede que baixam ilegalmente músicas e filmes tirou seu nome "fantasia" da sigla que define a autoridade administrativa criada pela França para sustar os acessos ilegais pela internet : Haute Autorité de Protection des Droits sur Internet (Alta autoridade de proteção dos direitos na internet), um órgão composto de nove membros.
A lei Hadopi se chama Loi Création et Internet (Lei criação e internet). Mas o que pegou foi Hadopi (com acento tônico no i), por facilitar o trabalho de jornalistas para títulos mas também pelo inusitado do nome.
Aprovada pela Assembléia Legislativa e pelo Senado na semana passada, a lei Hadopi tenta proteger e garantir a sobrevivência do direito autoral. A indústria do disco e do cinema são as beneficiárias da lei. Mas ela está longe de ser uma unanimidade.
Primeiro, pela forma de aplicação. Em seguida, pela discordância que gera no seio da própria Europa. Na semana que precedeu a aprovação da lei Hadopi pelo Senado francês, os eurodeputados se posicionaram (por 407 votos contra 57 e 101 abstenções) considerando que a suspensão do acesso à internet de um internauta comprovadamente autor de download ilegal só pode ser feita por decisão de Justiça e não por uma autoridade administrativa, como prevê a francesa Hadopi.
A íntegra desse artigo pode ser lida aqui.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Boal vive



O dramaturgo e diretor Augusto Boal, criador do método do Teatro do Oprimido, praticado em mais de 70 países, foi homenageado pelo jornal comunista L’Humanité. Foi um momento de grande tristeza escrever esse obituário, que pode ser lido aqui.

Para homenagear Boal, a revista online Tropico republica uma longa entrevista que fiz com ele em Paris, em 2007. A íntegra dessa entrevista, publicada em parte pelo jornal L’Humanité no mesmo ano, pode ser lida aqui no site.

Veneza sem venezianos

Fotos Leneide Duarte-Plon

A sereníssima continua misteriosa, bela e única. E agora, ameaçada.
Leio que o prefeito Massimo Cacciari luta com um orçamento achatado pelo governo de Silvio Berlusconi. Daí, a permissão para uma grande marca colocar os enormes outdoors que servem para proteger o palácio dos doges durante obras de restauração. A prefeitura precisa faturar para preservar os palácios. Mesmo que a cidade já tenha uma intensa programação cultural que atrai milhões de turistas todo ano para o fabuloso carnaval, para a Bienal de arte e o Festival de cinema.
Mas apesar de receber um número de turistas sempre enorme, fascinados pela beleza inigualável, a cidade vai se esvaziando de seus habitantes. Em 1931, havia 164 mil venezianos, hoje eles são apenas 60 mil. Com cerca de 20 milhões de turistas por ano, uma média de 55 mil por dia, há dias em que tem mais turista que habitante na cidade dos doges.

Prepúcios de Cristo

Os meninos judeus são levados à sinagoga por pais praticantes no oitavo dia do nascimento para a cerimônia religiosa da circuncisão. Jesus não foi exceção. Seu prepúcio foi cortado por um rabino.
Mas como nenhum homem é dotado de mais de um prepúcio, Jesus não era, nesse caso também, uma exceção e deve ter tido um único prepúcio cortado. Como explicar, então, a exibição de três prepúcios de Jesus pela Igreja católica apostólica romana?
Em seu livro reeditado em Paris, Traité des reliques, o teólogo e reformador francês Jean Calvin, (1509-1567), pai do protestantismo francês, denuncia a idolatria e critica a prática mercantilista da Igreja católica de exibir relíquias para angariar dinheiro. No livro, Calvino revela um fino humor e uma irreverência pouco conhecida. Ele conta que a Igreja guarda pelo menos três prepúcios de Cristo: um na igreja de São João de Latrão, em Roma, outro na igreja de Carroux e um terceiro na igreja de Hildesheim. Não tenho foto dos prepúcios.
Quanto a pedaços da cruz de Cristo, todos reunidos dariam para construír dezenas de cruzes.

Mundo cão

Na semana passada, doze clandestinos afegãos foram descobertos no norte da França, perto de Calais, dentro de um caminhão cisterna, poucos minutos antes de ser carregado de ácido sulfúrico. Por pouco, esses jovens afegãos que pensavam que o caminhão ia atravessar o canal da Mancha não viraram uma pasta, derretidos pelo ácido.
E o pior é que o caminhão em questão nem ia para a Inglaterra, o Eldorado dos migrantes que vêm tentar passar o canal. O caminhão ia para a Bélgica.
Isso é vida real. Na ficção, foi lançado há poucas semanas um extraordinário filme francês chamado Welcome tratando do tema da imigração clandestina e do que os franceses chamam de “delito de solidariedade”. Sem ácido sulfúrico mas com fim trágico também.
Na França, ajudar um clandestino pode dar cadeia.

Fotos polêmicas

Uma exposição de fotos polêmicas pode ser vista ainda este mês na Biblioteca Nacional da França, no sítio Richelieu, o prédio histórico da BNF.
A exposição reúne oitenta imagens que causaram escândalo. Entre elas, a foto feita por um astronauta de outro astronauta no solo lunar. Quem não conhece a história? A famosa foto divulgada pela NASA do astronauta Neil Armstrong andando na lua em 20 de julho de 1969 tirada por seu companheiro de viagem Buzz Aldrin com uma Hasselblad seria um “fake”, que colocaria em questão até mesmo a viagem do homem à lua. A história é tão mirabolante que vale a pena ser contada : o cientista autodidata Ralph René diz em um livro de 1992 que a bandeira americana se move ao vento em um espaço onde a atmosfera não existe. Tem mais: o fotógrafo David Percy analisa as anomalias dessas fotografias divulgadas pela NASA. Segundo ele, existem diversas fontes de iluminação na foto, não há cratera sob o reator do módulo e nem poeira sobre os equipamentos. Além disso, segundo ele, a luz solar é difundida uniformemente em todo o espaço, como na atmosfera terrestre. Esses são alguns dos argumentos que alimentam a teoria do complot, segundo a qual a NASA teria enganado o mundo inteiro simulando em estúdio ou nos desertos americanos as expedições lunares.
Há quem jure que Stanley Kubrick realizou essas imagens para obter como empréstimo a sofisticada câmera da NASA que lhe permitiu filmar cenas noturnas de Barry Lyndon sem luz artificial.
As fotos, que datam do início da era da fotografia até hoje são acompanhadas de um texto que esclarece o tipo de conflito jurídico ou ético que elas geraram. O cartaz da exposição é a famosa foto de Oliviero Toscani, para a marca Benetton, em que um jovem padre beija na boca uma bela freira.

sábado, 2 de maio de 2009

Augusto Boal


Eu era fascinada pela inteligência, pelo entusiasmo e pela generosidade de Augusto Boal. Afabilidade e bom humor eram marca registrada desse homem de teatro para quem “cidadão não é aquele que vive em sociedade, é aquele que a transforma”. Defendia os oprimidos, quando a maioria prefere fazer aliança com os opressores. Frequentava os deserdados, quando poderia desfrutar das facilidades oferecidas pelos privilegiados. Participou do show business sem nunca se deixar ofuscar pelo brilho e pela superficialidade desse mundo. Era simples e otimista e, aos 78 anos, guardava uma alegria de criança. Escolheu seu campo desde cedo e, por isso, sofreu prisão e tortura durante a ditadura.
Tive o privilégio e o prazer de desfrutar da amizade de Augusto. Torci por ele quando foi indicado, no ano passado, ao Nobel da Paz pela sua maior criação, o teatro do oprimido. Acompanho seu trabalho há muito tempo, votei nele para a Câmara dos Vereadores do Rio. Eu o considerei meu Nobel da Paz, mesmo que o prêmio tenha ido para um finlandês ou dinamarquês, quem lembra do nome dele? Numa de suas viagens de trabalho pela Europa, fiz uma longa entrevista com Boal sobre o teatro do Oprimido, para o jornal comunista L’Humanité, (Augusto Boal, le théâtre contre l’oppression), publicada em março de 2007. A íntegra dessa entrevista foi publicada em português na revista online Tropico (http://pphp.uol.com.br/tropico/html/index.shl).
Nunca perdi a oportunidade de encontrá-lo em Paris ou no Rio, com meu marido e com Cecília, sua mulher. Uma vez, fomos com eles a Montreuil, onde Boal deu uma palestra sobre o teatro do oprimido para uma platéia entusiasmada com o brilho de suas idéias e com a técnica do seu teatro. Ouvi-lo era um deleite. Sua vida e o teatro do oprimido foram uma lição de solidariedade e fraternidade. Pessoas que em qualquer parte do mundo vivem situações de opressão podem se expressar através do método desenvolvido por ele.
O mundo inteiro o admirava. O teatro do oprimido é praticado em mais de 70 países. Ele vivia entre dois aviões, viajando por todos os continentes. Seu teatro é objeto de teses de diversas universidades do mundo.
A última vez que vi Augusto foi em Paris, no mês de março. Ele viera à Europa para, entre outras coisas, receber uma homenagem na Unesco, que o nomeou Embaixador Mundial do Teatro, no dia internacional do teatro, 27 de março. Sua maravilhosa mensagem, lida em todos os teatros do mundo, foi traduzida em 45 línguas e os cartazes das traduções foram colados numa das paredes perto do auditório onde ele foi homenageado (ver postagem desse blog no dia 27 de março).
Augusto Boal era o brasileiro mais admirável do Brasil atual. Faz parte do meu panteão de grandes homens apaixonados pelo Brasil. Nesse grupo figuram Barbosa Lima Sobrinho, Apolônio de Carvalho, Hélio Pellegrino e Alceu de Amoroso Lima.
Neste sábado, o Brasil ficou mais pobre.

So French !


“Un grand cru”. Foi como o jornal Libération classificou o primeiro de maio francês que levou dez vezes mais gente às ruas para protestar que um primeiro de maio “normal”, isto é, sem crise.
Em Paris, o cortejo saiu de Denfert-Rochereau sob um céu ensolarado e uma temperatura primaveril de 20 graus e desceu o Boulevard Saint-Michel em direção à Bastilha.
Pela primeira vez, oito centrais sindicais manifestaram unidas o descontentamento com a política de Sarkozy e sua gestão da crise. Como sempre, as avaliações do número de manifestantes variaram de acordo com os interesses. Para a polícia, havia 465 mil pessoas nas ruas e para a CGT um milhão e duzentas mil nas diversas cidades onde houve manifestações. Nas passeatas de 29 de janeiro e de 19 de março deste ano, havia mais gente nas ruas em toda a França. Na de março, a CGT estimou em 3 milhões o número de manifestantes, “apenas” 1,2 milhão segundo a polícia.
Os jornais atribuem a menor afluência desta terceira grande manif do ano, ao fato de o 1° de maio ter caído numa sexta, o que criou um fim de semana prolongado levando muita gente a preferir viajar em vez de ir desfilar para dizer a Sarko que “ça ne va pas”. Muitos se fantasiaram de palhaços.

Uma amiga inglesa de passagem por Paris foi comigo ver a manif e repetia fascinada: “Isso é tão tipicamente francês!” Ela já me acompanhara a uma conferência do ex-embaixador Stéphane Hessel, de 92 anos, e ficara impressionada com o número de pessoas que se deslocaram numa noite chuvosa, depois de um dia de trabalho, para ouvir um dos redatores da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) falar de Gaza e da situação da Palestina ocupada.
“So French”!

*Fotos de Leneide Duarte-Plon