terça-feira, 4 de novembro de 2014

Paris imita Porto Alegre




Em setembro, a prefeita socialista de Paris, Anne Hidalgo, eleita em março, publicou um artigo no Le Monde para explicar e defender o orçamento participativo. O título : « Por uma democracia cidadã mais forte em todos os níveis de poder ».

Hidalgo explicou: inspira-se na experiência de Porto Alegre, onde há 25 anos nasceu o orçamento participativo. Os jornais franceses informaram que a capital do Rio Grande do Sul aplica 20% de seu orçamento anual, através da participação popular.

(Fotos de Leneide Duarte-Plon. Basta clicar nas fotos para ampliar)

  O que é bom para Porto Alegre e para Paris não seria bom para o Brasil ?

Parece que a democracia participativa amedronta o Congresso Brasileiro, que derrubou o decreto que criava os conselhos populares. Sabe-se que os cidadãos querem participar das decisões que concernem suas vidas, mas os deputados rejeitaram o decreto que prevê que o governante deve dividir a responsabilidade das decisões sobre o dinheiro que vem de todos e pertence a todos os cidadãos.  

« Não tememos o povo, não tememos suas escolhas, por isso lhe damos mais espaço para se expressar, mais informação e mais poder », escreveu Anne Hidalgo no artigo do Le Monde.

Ela se dizia orgulhosa em criar o primeiro orçamento participativo para que os cidadãos de Paris decidam como investir 5% do orçamento entre 2014 e 2020. Isso representa 426 milhões de euros. Para isso, a prefeitura apresentou 15 projetos e os cidadãos puderam definir as prioridades, votando online, diretamente na sede da prefeitura (no Hôtel de Ville) ou nas 20 prefeituras dos arrondissements de Paris.

Já no ano que vem a nova prefeita vai governar conforme as prioridades estabelecidas por seus cidadãos.

E se o Brasil imitasse a prefeitura de Paris que imita Porto Alegre ?

 

Chineses e brasileiros ricos : sonhos de evasão

Educação, saúde, segurança.

Por esses três motivos eles querem deixar o país nos próximos anos.

Pensou em brasileiros ? Errado. São os chineses ricos, segundo uma pesquisa reproduzida pelo jornal Le Monde.

Esses ricos…

Não importa a latitude, só pensam em si mesmos. Predadores, fisgam o que podem em seus países sonhando com o paraíso distante.

No caso brasileiro, Miami…

 

A medalha Fields de Artur Avila é da França?

Artur Avila, jovem gênio brasileiro de 35 anos, ganhou o mais prestigioso prêmio outorgado a um matemático : a medalha Fields, espécie de Prêmio Nobel da Matemática.
No Brasil, noticiou-se a medalha de Avila como nossa. Normal.
Acontece que Avila mora na França, onde foi recebido de braços abertos, obteve a cidadania e trabalha nos mais renomados meios acadêmicos franceses, do Collège de France ao CNRS (Centre National pour la Recherche Scientifique).
Ao sair a notícia do prêmio, em agosto, a imprensa francesa noticiou a segunda medalha Fields "outorgada a um jovem matemático francês". Alguns esqueceram um detalhe: ele é franco-brasileiro, ok, mas fez seus estudos, inclusive o doutorado no Brasil. Logo, a medalha deveria ser reconhecida como do Brasil. Ou pelo menos, dividida já que ele tem dupla nacionalidade.
Em Paris, vi uma entrevista com ele, em setembro, que mostrou a inteligência sutil de Avila: o jovem foi anunciado como o entrevistado do Grand Journal, de Canal Plus, por onde passam os principais políticos, intelectuais e artistas da França e do mundo. Informaram quem era o desconhecido (do grande publico) e a primeira pergunta teve uma resposta natural. Ele não podia fazer uma avaliação do que era bom ou ruim no ensino da matemática às crianças e jovens franceses : nunca estudou na França, fez todo o seu percurso, inclusive o doutorado no Brasil.
De fato, ele estudou na UFRJ e fez mestrado e doutorado no Instituto de Matemática Pura e Aplicada – IMPA, onde, digo com orgulho, minha filha caçula também fez seu mestrado.
Constrangidos, os jornalistas que o entrevistavam passaram a outras perguntas mais genéricas…

Linha dura para os gondoleiros



Leio no jornal La Nuova di Venezia e Mestre, que circula em Veneza dentro do La Repubblica : « Gondoleiros : linha dura, celular somente com fone de ouvido. »
Depois de acidentes sem gravidade e um mais sério, com vítimas, as autoridades de Veneza resolveram instaurar o « decálogo do gondoleiro ». Entre outras regras, o controle do telefone celular, além de estrito contrôle de álcool e drogas. 

Com o decálogo, a cidade que divide com Paris o título de « mais bela do mundo », agora vai ter canais mais seguros.


A « Madalena em êxtase » : o último Caravaggio redescoberto



O La Repubblica noticiou em primeira página dia 24 de outubro: « Encontrado o original do ultimo quadro de Caravaggio, Madalena em êxtase ». Desse quadro, havia diversas cópias posteriores mas o original estava sumido.
A maior especialista em Caravaggio, Mina Gregori, atesta que o quadro, que se encontrava em uma coleção privada na Europa, é o verdadeiro. As obras de arte só passaram a ser assinadas pelos artistas no século XIX, daí a dificuldade de certificar obras mais antigas.
Desenho de Madalena em êxtase do artista francês Ernest Pignon Ernest, a partir de Caravaggio.


 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A guerra também é uma narrativa - O bárbaro é sempre o outro


Clique em:
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed819_a_guerra_tambem_e_uma_narrativa

ESTADO ISLÂMICO

A guerra também é uma narrativa

Por Leneide Duarte-Plon em 07/09/2014 na edição 819
 
A França está em guerra. E nesta guerra, o inimigo merece, da parte de políticos e jornalistas, adjetivos como “bárbaros”, “monstros”, “terroristas”, “decapitadores”.
Será que eles são os únicos bárbaros?
Quando se sabe o que os Estados Unidos fizeram no Vietnã na década de 1960 (napalm e massacres de civis, além de tortura) e no Iraque a partir de 2003 (162 mil mortos) e o que a própria França fez nas guerras coloniais na Indochina (o Vietnã sob domínio francês) e na Argélia, os adjetivos podem mudar de campo. Basta conhecer um pouco a história. E a morte do jovem palestino queimado vivo pelos israelenses para vingar o assassinato de três jovens de Israel, assassinados provavelmente pelo Hamas, não é um ato bárbaro?
Seria um acaso o fato de os prisioneiros ocidentais decapitados pelos combatentes do Estado Islâmico usarem um uniforme laranja, que lembra o que os prisioneiros islâmicos vestiam em Guantánamo, onde eram torturados com sofisticados métodos de tortura física e psicológica?
A imprensa de um país em guerra tem duas opções: continuar a tratar os fatos fingindo neutralidade ou se engajar na guerra através da semântica minuciosamente trabalhada para defender os interesses do país. As imagens que chocam devem ser evitadas, a não ser que seja para provar que o “bárbaro” é o inimigo.
Há pouco mais de duas semanas, em seus comunicados oficiais o governo francês começou a chamar de “Daesh” o Estado Islâmico, a quem a coalizão internacional de 40 países (!) declarou a guerra. Hollande lançou o nome num discurso oficial e foi logo seguido por todos os ministros.
Esse nome, explicou Laurent Fabius, ministro das Relações Exteriores, é o acrônimo de Estado Islâmico em árabe. E quase toda a mídia seguiu a determinação do governo, que entende que os “terroristas” do Daesh não representam nenhum Estado e nomeá-los como se autonomeiam é uma forma de reconhecimento do qual a França não quer participar.
Experiência replicada
As redações francesas estão divididas quanto ao nome do inimigo, mas todos os jornais, revistas e canais de televisão, assim como as rádios, condenaram os sequestros seguidos de decapitação de um americano e de um inglês nas mãos do Estado Islâmico, do Daesh. Na semana retrasada, um francês foi decapitado nas montanhas argelinas por dihadistas que se dizem ligados ao Estado Islâmico e vimos em várias cidades passeatas e manifestações de solidariedade à família contra a “barbárie”.
O Le Monde, como outros jornais, ignorou a tentativa de controlar seu noticiário. Continuou a chamar o Estado Islâmico exatamente assim. Já o diretor de Redação do canal France 24 – o canal all news internacional do serviço público – chegou a escrever uma recomendação inflamada para exigir que seus jornalistas participem da linha editorial do canal, de condenação da “barbárie”. Marc Saikali escreveu: “Os combatentes dihadistas do suposto Estado Islâmico são bárbaros, terroristas, selvagens. Nesta guerra, mais que nunca, existem os bons e os maus”. Recomendou o tom das entrevistas e discussões. O bandido foi designado. Eles são o mal, somos o bem.
Chamar todo combatente inimigo de “terrorista” já é uma forma de estigmatizar a luta que ele trava. O problema é, sabemos, que os franceses usaram napalm na Indochina antes mesmo dos americanos. Estes iniciaram a guerra contra o povo vietnamita logo depois da derrota dos franceses na batalha de Dien Bien Phu, em 1954, e continuaram os massacres de populações civis, seguindo o rastro dos franceses que, a partir daquela experiência, criaram a teoria da “guerra contrarrevolucionária” ou “antissubversiva”.
A diferença
Naquela guerra colonial, a França não brilhou pela civilização, mas sim pela barbárie. Na página 54 de seu livro Escadrons de la mort, l’école française, a jornalista Marie-Monique Robin relembra fatos que hoje parecem esquecidos :
“No dia 29 de julho de 1949, em artigo do jornalista Jacques Chégaray do jornal Témoignage chrétien, ele conta a visita a um posto na mata de Phul Cong, no Tonkin : ‘Aqui é meu escritório, explica um oficial francês. A mesa, a máquina de escrever, o lavabo; e lá, no canto, a máquina de fazer falar. (…) Sim, o ‘telefone’! Ele é muito bom para o interrogatório dos prisioneiros. O contato, o polo positivo e o polo negativo, a gente liga e o prisioneiro cospe o que sabe...”
Mais tarde, um outro oficial levou o jornalista a um pequeno posto de Cholon. Ele descobriu em cima da mesa de trabalho um crânio humano: “Um ‘viet minh’, fui eu que cortei a cabeça dele. Ele gritava. Você precisava ver. Hoje uso como peso de papel. Mas você não imagina o trabalho para tirar a pele. Tive de pôr para ferver por quatro horas; depois, raspei com uma faca...”
O jornalista conclui:
“Protestamos em 1944 quando descobrimos os suplícios da Gestapo: a banheira e os choques elétricos. Gritamos horrorizados quando descobrimos na mesa de um comandante do campo de Buchenwald a cabeça mumificada de um prisioneiro... Quatro anos depois... Hoje, esses métodos que reprovamos com indignação fazem parte dos hábitos”.
No livro, são contados outros casos de decapitação de prisioneiros vietnamitas após tortura.
Quem duvida que militares americanos, franceses, sírios, israelenses, iraquianos, iranianos ou ingleses cometem os mesmos atos bárbaros dos combatentes do Estado Islâmico que hoje horrorizam os ocidentais?
Sabemos que a guerra também é uma narrativa que pode ser controlada nos menores detalhes. A diferença é que os exércitos regulares não costumam divulgar na internet seus atos de barbárie.
***
Leneide Duarte-Plon é jornalista, em Paris

domingo, 14 de setembro de 2014

Em que molho seremos comidos?




Estamos numa encruzilhada: ou conseguimos organizar as resistências dos povos do mundo para mudar o curso da mundialização neoliberal ou nos contentamos, através da eleição, um dos últimos direitos formais que nos restam, em escolher o molho no qual seremos comidos. Eu não tenho absolutamente vontade de ser comido”. (Adolfo Perez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz de 1980)



Resistência à igualdade

Li na Folha de São Paulo que uma associação comercial e industrial do Paraná propôs que todo cidadão beneficiário de uma bolsa de distribuição de renda do governo  seja impedido de votar.
Não há limites para a resistência à igualdade no Brasil.
Como não pensar na frase de Einstein ? « Duas coisas são infinitas : o universo e a estupidez humana, mas no que concerne o universo, ainda não estou totalmente certo. » 

Lavagem da Madeleine

Todo ano os brasileiros fazem uma festa diante da église de la Madeleine, em Paris, que por pouco mais de uma hora vive seu momento de Salvador. Este ano, foi no domingo, dia 7 de setembro, e a Embratur e a Prefeitura de Paris patrocinavam o evento que teve até Daniela Mercury num trem elétrico. 

Nunca tinha ido ver. Mas o dia de sol e a passagem de um amigo nos levou à Place de la Madeleine. De óculos escuros, o padre recebeu no alto da escadaria os pais e mães de santo vestidos a caráter. O “pai nosso” foi rezado em francês, em português e em yorubá.

 No final, baianas se ativam na lavagem simbólica da escadaria da igreja, ao som de grupos de percussionistas vestidos a caráter. 

Mais sincretismo religioso, impossível.


 Medéia francesa
A ex-companheira de François Hollande, a jornalista Valérie Trierweiler, acaba de lançar um livro Merci pour ce moment, que vendeu 200 mil exemplares em uma semana. Valérie foi comparada a Medéia por um articulista no jornal Libération : com o livro  ela comete o assassinato simbólico de Hollande, na falta de filhos do casal para assassinar.
Danièle Mitterrand, esposa do presidente François Mitterrand, que nunca foi conhecido por sua fidelidade conjugal, guardou a classe até o fim da vida. Nunca expôs a vida privada do casal e soube preservar a intimidade do presidente, mesmo sabendo que ele dividia seu tempo entre sua família legítima e outra que construíra paralelamente.
 Não li o livro da ex-first-girl-friend como se referia a imprensa americana a Valérie Trierweiler. Mas escrevi um artigo para o Observatório da Imprensa sobre a repercussão do livro na imprensa francesa:
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed815_missil_literario_contra_francois_hollande


Dominicano e marxista

“Para quem pretende mudar as estruturas da sociedade, Marx é indispensável” (Frei Tito de Alencar, 1972).
Fotos de Leneide Duarte-Plon (Clique sobre as fotos para aumentar)
Há 40 anos, dia 10 de setembro, o corpo do frade dominicano Tito de Alencar Lima foi encontrado pendurado num álamo, entre céu e terra, perto de um lixão, no interior da França.
Hoje, 14 de setembro, ele estaria completando 69 anos.
Escrever Um homem torturado, a biografia de Frei Tito de Alencar Lima foi um imenso desafio. Por se tratar de um personagem complexo, atormentado, paradoxal. Por se tratar de um religioso envolvido com um grupo revolucionário de luta armada contra a ditadura, pela morte trágica que o destino lhe reservou, pela importância que sua morte adquiriu transformando-o em ícone e “mártir” da resistência à ditadura, pelo momento político que viveu.
Foi como um desafio que aceitei a sugestão de um amigo editor de escrever a biografia de Tito, quando lhe disse que havia conhecido num colóquio em Paris, no Centro Primo Levi, o psiquiatra-psicanalista que tratou de Tito até sua morte. Consciente do volume de trabalho que o livro representaria, convidei a jornalista Clarisse Meireles para escrevermos juntas.
O Dr. Jean-Claude Rolland falara no colóquio “Langage et Violence-Les effets des discours sur la subjectivité d’une époque” (Linguagem e violência-Os efeitos dos discursos na subjetividade de uma época). Sua conferência tinha por título, “Soigner, Témoigner” (Tratar, testemunhar) e era um relato do caso Tito de Alencar.
“Tito vivia na certeza de que ia ser morto de um momento ao outro. Essa impressão deve ter sido o que ele viveu durante todo o tempo em que ficou preso e, principalmente, durante as sessões de tortura. Interiormente, ele vivia como um condenado à morte e o recurso ao suicídio tem como princípio a lógica: matar-se em vez de ser morto”, diz o psicanalista.
Antes e depois do Dr. Rolland, outros psicanalistas, juristas e filósofos fizeram conferências. O filme Batismo de sangue, baseado no livro de Frei Betto, foi projetado e seu realizador, Helvécio Ratton, debateu com o público.

Os frades dominicanos foram presos na chamada “Operação Batina Branca”, montada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, criador do Esquadrão da Morte. O delegado era o “puro produto da polícia paulista com sua tradição de torturas e assassinatos” segundo o  jornalista Elio Gaspari, que escreveu: “Nunca na história brasileira um delinquente adquiriu sua proeminência”.
O delegado Fleury encarnava na época o combate aos grupos armados que resistiam à ditadura, os “terroristas”, como imprensa e aparelho repressor os qualificavam.
Depois da prisão dos frades, Fleury começou imediatamente a bombardear a imprensa com a versão da traição dos dominicanos. Os frades da ALN eram ora “terroristas”, ora “Judas”. Todos os jornais aderiram à versão de que os dominicanos haviam traído Marighella. As manchetes associavam as palavras “frades” e “terror”. O Globo deu na primeira página a fotografia do convento dos dominicanos com a manchete: “Aqui é o reduto dos terroristas do Brasil”. E fez um editorial, « O beijo de Judas » que não honra a história da nossa imprensa.
Começava a campanha da ditadura de desmoralização dos dominicanos, responsabilizando-os pela queda do “inimigo público número 1”. O regime tentava dividir a esquerda, ao apresentar os frades como “traidores”.
Para os militares, a divisão da esquerda era fundamental para aniquilar a luta armada e a resistência à ditadura.

O livro foi construído como uma investigação jornalistica, uma reportagem histórica, uma página que se abre a cada evento em torno da vida de Tito. Tivemos que contextualizar todos os principais fatos históricos nos quais Tito se viu envolvido direta ou indiretamente.
A história de Tito abre um leque de acontecimentos que reconstituímos: o movimento estudantil de 1968, as grandes passeatas e a importância do Congresso da UNE em Ibiúna, do qual Tito foi um protagonista paradoxal : sua atuação foi nos bastidores. Foi ele quem conseguiu o sítio através de relações de amizade e pagou na tortura esse envolvimento.
Paralelamente ao endurecimento do regime com o AI-5, a resistência organizou a luta armada, os sequestros de embaixadores. O governo tinha uma outra arma : a tortura como política de Estado, as prisões ilegais e “desaparecimentos”. Era preciso abrir uma janela sobre o sequestro do embaixador americano (captura, como prefere o historiador e ex-guerrilheiro Daniel Aarão Reis), que levou à queda dos frades e à execução de Marighella.
Por outro lado, o engajamento dos frades na ALN só existiu porque houve o Concílio Vaticano II e o aggiornamento promovido por João XXIII, seguido da renovação de parte da Igreja brasileira. Ninguém podia dizer que a Igreja progressista era “o ópio do povo”.
“Para quem pretende mudar as estruturas da sociedade, Marx é indispensável”, disse Frei Tito, já no exílio, em 1972, respondendo afirmativamente a um jornalista italiano que perguntou se ele era marxista.
Contar a vida de Tito impunha reconstituir um pouco da vida dos exilados brasileiros em Santiago e em Paris. Na capital francesa, a Frente Brasileira de Informação (FBI), fundada por Miguel Arraes e Márcio Moreira Alves, divulgava na Europa as prisões ilegais, tortura e desaparecimentos promovidos pelos agentes da ditadura. E muitos dos ex-exilados entrevistados confirmaram, com fatos vividos, a estreita colaboração entre os órgãos de informação brasileiros e a polícia francesa.
Para reconstituir a vida de Tito no exílio francês, fomos primeiramente ao encontro do psiquiatra e psicanalista que tratou dele até sua morte. O doutor Rolland tem 74 anos e vive cercado de animais de estimação, a  30 minutos de Lyon. Quando tratou de Tito, o médico já habitava essa casa, onde sempre viveu cercado de animais, um contato com a natureza vital para seu bem-estar.
Com o doutor Rolland, tomamos a estrada que leva a L’Arbresle para entrevistar todos os dominicanos que o conheceram e que ainda estão no convento. Depois, fomos ao Convento Saint-Jacques, em Paris, onde entrevistamos seus antigos mestres e diretores de estudos teológicos.
E pudemos ouvir aquele que foi seu mais próximo amigo durante o último ano de vida, o  dominicano Xavier Plassat, que vive no Brasil desde os anos 80. Plassat acompanhou Tito a praticamente todas as consultas com o psiquiatra em Lyon. Depois da morte de Tito, o francês organizou um precioso arquivo dos escritos do brasileiro e escreveu Alors les pierres crieront (Então as pedras clamarão, Paris, Editions Cana, 1980).
Nas entrevistas e na pesquisa, descobrimos um homem que viveu os últimos anos profundamente só e atormentado, mesmo tendo encontrado a compreensão de confrades acolhedores, primeiramente no convento  Saint-Jacques, em Paris, e depois no Convento Sainte-Marie de la Tourette, em L’Arbresle, perto de Lyon, um um projeto do arquiteto Le Corbusier.
A pesquisa nos fez descobrir uma veneração popular em torno de frei Tito, sobretudo no Ceará. O trabalho nos levou a alguns fatos da vida do dominicano, que acentuam sua humanidade, como seu afastamento do convento por um ano, em Paris, ou seu entusiasmo amoroso por uma moça de origem japonesa, que trabalhava na biblioteca do convento, em São Paulo.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Pagamos o salário dos que boicotam os cidadãos




De volta a Paris, fui votar no Plebiscito pela Constituinte, no Consulado Brasileiro, por pensar que mudar o sistema político do Brasil deve ser prioridade de todo brasileiro.
Surpresa e estupefação.
A urna estava na porta do consulado, na calçada, pois os responsáveis pela organização da votação não haviam recebido autorização do cônsul geral de Paris, embaixador Julio Zelner, para  fazer a votação dentro do Consulado, na Av. Franklin Roosevelt.
Situação bizarra votar na rua, em Paris. Defendi a Constituinte com mais entusiasmo ainda.
Segundo Carla Sanfelici, coordenadora do Conselho de Cidadãos  de Paris, foi feito um pedido ao Embaixador Sérgio França Danese, Subsecretário-Geral das Comunidades Brasileiras no Exterior, com cópia para a Ministra Maria Luiza Ribeiro Lopes da Silva. Houve também  inúmeras  solicitações de audiência junto ao então cônsul geral de Paris, embaixador Julio Zelner. Este nunca se dignou a receber o Comitê do Plebiscito.
Depois de ter  tomado conhecimento de que havia sido autorizada uma urna no interior do prédio do Ministério das Relações Exteriores, em Brasilia, a coordenadora do Conselho de Cidadãos de Paris voltou a insistir junto a Julio Zelner. Não obteve resposta.
Se isso não é um boicote a um Plebiscito Popular, não sei o que é.

O cristianismo revisitado por um ateu, ex-cristão

Emmanuel Carrère já provou ser um grande romancista.
Sua obra é premiada e apreciada pelos milhares de leitores que aguardam com ansiedade cada novo livro.
Estou entre eles. Por isso, no dia seguinte à minha volta a Paris fui comprar o novo Carrère, que acabara de ser lançado : Le Royaume (O Reino).
Escrito na primeira pessoa, como quase todos os outros, Carrère magnetiza logo nas primeiras páginas. Ele tenta entender os três anos em que viveu como um convertido ao cristianismo, antes de se tornar ateu.
Ao contrário do livro de José Saramago (O evangelho segundo Jesus Cristo), um romance sobre Jesus _ um verdadeiro livro de filósofo ateu, para quem as três religiões monoteístas não passam de ilusão (como já pensava Freud, entre outros) _ o livro de 630 páginas de Carrère é uma investigação histórica sobre as origens do cristianismo, baseada em dois dos principais personagens daqueles tempos : Paulo, que se chamava Saulo, considerado o verdadeiro criador do cristianismo; e Lucas, que escreveu o evangelho que tem seu nome, além do livro de Atos dos Apóstolos. Carrère se pergunta como aquela saga cheia de desafios à razão pura pode fascinar a tal ponto, dois mil anos depois de contada.

Os grandes jornais e os críticos franceses não pouparam elogios ao romance. Le Monde deu duas páginas no suplemento de livros, com um texto assinado pela acadêmica Florence Delay.
Abaixo, um trecho do editor do suplemento, Jean Birnbaum, “Viver? Que boa ideia” :
É uma das cenas mais memoráveis do Reino construído por Emmanuel Carrère. Na página 23, ele conta sua única sessão com o psicanalista François Roustang. Diante dele, o escritor evoca o impasse no qual se encontra, suas dores de barriga, seus pensamentos suicidas. Depois pergunta a Roustang se ele o aceita como analisando. Este responde que não. « Vejo que tudo o que lhe interessa é provar mais uma vez o quanto você é capaz de colocar seus psicanalistas em cheque e considerá-los derrotados », responde Roustang. « Você deveria passar a outra coisa ». « Sim, mas a que exatamente? », pergunta o escritor. « Você falou de suicídio. Ele não tem boa reputação atualmente, mas pode ser uma solução.” Depois de ouvir o silêncio por longos segundos, o terapeuta conclui: « A outra opção é viver ». Fim do tratamento. « Pouco a pouco, sem que tenha revisto o psicanalista, as coisas começaram a melhorar », conta Carrère.
A outra opção é viver… Fórmula de uma fulgurante simplicidade na qual se reconhece o estilo audacioso e provocador que distingue François Roustang. Franco-atirador da cena freudiana, passou da Companhia de Jesus à « seita lacaniana », depois passou da psicanálise à hipnose. Roustang compartilha com Carrère a mesma repugnância pelos relatos blindados de certeza, tem a convicção de que o humor permite dinamitá-los. Por isso, é preciso se felicitar pelo fato que Le Royaume, de Carrère, chegue às livrarias ao mesmo tempo que um belo livro com artigos assinados pelo psicanalista, reeditados em livro de bolso com o título « Feuilles oubliées, feuilles retrouvées » (Petite Bibliothèque Payot).
Eu conheci François Roustang na casa de um renomado psicanalista argentino, exilado em Paris desde a ditadura. Depois de ter sido jesuíta, Roustang tornou-se psicanalista, me haviam contado. Meu interlocutor frisou com ar desolado o fato de Roustang ter sido tentado pela hipnose.
Sem hipnose, mas com perspicácia e numa única sessão, ele conseguiu o resultado que seu paciente buscava : trocar as idéias suicidas pelo desafio da vida.
Royaume é o fruto dessa aposta de Carrère na vida.