sábado, 19 de abril de 2008

Charles Aznavour : a vitória do talento contra o “físico difícil e a voz ingrata”*

Leneide Duarte-Plon, de Paris


Ele é o último “monstro sagrado” da canção francesa. Aos 82 anos, Charles Aznavour, que morou com Edith Piaf sem, no entanto, ter tido um caso de amor com ela, visita o Brasil pela “quinta ou sexta vez” para cantar em diversas capitais. “As pessoas que se dão bem não devem necessariamente passar pela cama”, diz explicando a amizade que o uniu a Piaf, que ele define como “cúmplice” de um mesmo amor pela música.
O cantor, que no início da carreira ouvia o comentário de que tinha “um físico difícil e uma voz ingrata” conseguiu impor um estilo de cantor-ator, considerado pouco comercial quando começou.
Baixo, feio e com a voz “ingrata” que a natureza lhe deu, Charles Aznavour tem uma presença mágica em cena, que o transformou num ídolo da canção mundial. Ele já vendeu 100 milhões de discos e lota as salas de espetáculos das principais capitais do mundo há 50 anos.
Em 2004, Aznavour escreveu sua autobiografia, “Le temps des avants », sem nenhum “negro” por trás do texto, conta orgulhoso. A autobiografia já foi traduzida em 12 línguas e só em francês vendeu mais de 250 mil exemplares. O compositor prefere ser chamado de “escritor de canções” em vez de “autor de canções”.
Um problema de audição que faz com que ouça uma tonalidade diferente em cada ouvido quase o afastou dos palcos. Mas com a tenacidade de sempre ele conseguiu contornar a dificuldade e continuar cantando.
Nessa entrevista exclusiva à Folha de São Paulo, dada na sede de sua gravadora, em Paris, Aznavour conta como numa mesma noite, ciceroneado pela cantora Marlene, de quem Piaf era fã, ele conheceu todos os grandes nomes da música brasileira, na primeira viagem que fez ao Brasil.



Folha - Qual sua relação com o público brasileiro e como você o define ?

Charles Aznavour : Eu não vivo no Brasil, logo não posso dizer qual minha relação com o público brasileiro. Fui cinco ou seis vezes ao Brasil e sempre foi muito agradável. Acho que o Brasil tem uma população que entende o francês e esses fazem parte do meu público. Outros vêm por curiosidade.

Folha - Você gravou em inglês, italiano, espanhol e alemão. Nunca se sentiu tentado pelo português nem pelas canções brasileiras ?

Aznavour : Eu canto as minhas canções, por isso não canto canções brasileiras. Nunca tive contato com tradutores para o português de minhas canções. Os tradutores me enviavam traduções de minhas canções em alemão, espanhol, italiano e inglês e trabalhávamos juntos. Nunca me propuseram traduções em português. E eu nunca forcei.

Folha – Você é apresentado no estrangeiro como o último dos monstros sagrados da canção francesa. Você acha que a canção francesa vive um período de crise?

Aznavour : A canção francesa atual é menos conhecida no estrangeiro. Mas ela é importante e temos jovens que fazem coisas muito boas.

Folha – Mas são pouco conhecidos no estrangeiro…

Aznavour : De fato, não são muito conhecidos. São também canadenses do Quebec que são conhecidos na França, na Bélgica, na Suiça, no Líbano, onde a língua francesa é importante.

Folha – No início de sua carreira, dizia-se que você tinha “um físico difícil e uma voz ingrata”. Diziam também que seu estilo de cantor-ator era pouco comercial. Como você conseguiu impor seu estilo?

Aznavour : Ele se impôs sozinho, não fiz nada. Continuei, não quis mudar, não quis ser diferente do que eu era. Não se pega um trem andando. Eu não tentei fazer yé-yé-yé, rock ou rap. Fiz o que fiz e isso se tornou uma espécie de clássico. As pessoas vêm me ouvir como um show clássico, com uma diferença, eu tenho mais público que os músicos que fazem música clássica.

Folha – Você cantou em São Paulo e no Rio umas cinco ou seis vezes. Você cantou em outras cidades brasileiras?

Aznavour : Cantei também em Brasilia e este mês vou cantar numas seis cidades inclusive Recife e Brasília. Não tenho certeza. O que sei é ir cantar e visitar a cidade depois e fazer fotos.

Folha – Você gosta de visitar as cidades onde canta ?

Aznavour : Gosto muito da América do Sul, da América Central. E gosto muito também dos países orientais. Os outros me interessam menos. Na Ásia, não há muita coisa a descobrir além da tecnologia. Enquanto nos países da América Latina e no Oriente Médio há muita coisa a descobrir.
Folha - Você conhece a música brasileira ?
Aznavour : Sim, conheci muito bem. Quando fui a primeira vez ao Brasil, havia uma cantora chamada Marlene que tinha cantado no programa de Edith Piaf no Bobino de Paris por muito tempo e de quem Piaf gostava muito. E a conheci porque eu morava na casa de Piaf. E quando cheguei ao Brasil Marlene me disse: “Preparei uma surpresa para você, vou te mostrar o que há de mais novo aqui”. Ela tinha preparado uma noite com Jobim, João Gilberto, Elizeth Cardoso. Em uma noite, conheci o Brasil. Havia também um rapaz chamado Santos que morreu num desastre de avião e que cantava maravilhosamente bem...

Folha - Agostinho dos Santos …

Aznavour : Isso mesmo. Ele cantava uma das maravilhosas canções que ouvi nessa noite. Tinha uma que se chamava qualquer coisa do sol. Era assim. La la la la ...

Folha – Estrada do Sol ?

Aznavour – Isso mesmo. Conheci outras cantoras mas não pessoalmente. Maysa, Simone, todas as pessoas que cantam bem.

Folha – Você conheceu Edith Piaf, diz que morou na casa dela, mas não teve uma relação amorosa com ela. Você pode contar por quê?

Aznavour : Eu era cúmplice dela. Na época, eu estava apaixonado e vivia um outro amor. Não se abandona a vida que a gente tem para viver com uma pessoa famosa por puro interesse, por carreirismo. Eu não sou um carreirista. Há muitas mulheres que eu amei, muitas, com quem não tive uma vida sexual. Edith Piaf e Amália Rodrigues são duas delas. Conheci muito bem Amália, tínhamos uma grande cumplicidade, eu a via menos que Piaf, claro, mas penso que as pessoas que se dão bem não devem necessariamente passar pela cama. Nós éramos cúmplices, gostávamos das mesmas coisas.

Folha – Você fez 60 filmes e compôs mais de mil canções. Há um sonho de artista que não pôde realizar? Qual?

Aznavour : Não, tive um sonho que era nadar e não sei nadar bem. Meu sonho mesmo era escrever. E isso sempre fiz. Mesmo quando me contestavam todas as outras coisas, nunca tiveram nada a dizer quanto ao que eu escrevia. E talvez seja o único cantor que escreveu sua biografia sozinho. Na França, descobriram que eles tiveram sempre um “negro”, menos eu. Não porque eu seja melhor que os outros, mas porque amo escrever. Não vou dar o trabalho que gosto de fazer a outra pessoa. Minha autobiografia vendeu 250 mil exemplares na França e foi traduzida em doze línguas.

Folha – « Hier encore », « La bohème », « Que c’est triste Venise », « La mamma » são canções que ajudaram muitos estrangeiros a se interessar pela língua francesa. Quais seus poetas favoritos?

Aznavour : Gosto muito de um poeta armênio que leio em francês e de poetas iranianos que leio em francês, também. Leio também Fernando Pessoa. Tenho uma canção na qual falo de Pessoa, que muita gente não conhece. Talvez eu seja o único francês que escreveu fados. O último se chama “Fado fado” e nele tento explicar o que é o fado. Porque cada vez que se pergunta o que é o fado, respondem “o fado é o fado”. Escrevei então esse fado em que falo de Pessoa e de Amália Rodrigues.

Folha – Existe uma canção de um outro compositor que você gostaria de ter feito?

Aznavour : Há muitas. Eu gostaria de ter escrito todas as belas canções do mundo.

Folha – E da canção francesa ?

Aznavour : « Il y a de la joie » e « La mer », ambas de Charles Trenet.

Folha – Charles Trenet é o maior de todos os compositores francese ?

Aznavour : Não gosto de classificar de maior, diria que é o « mestre ». Não se deve dizer o maior, deve-se dizer o mestre. Quando se vai à escola, tem-se muitos mestres e isso faz nossa cultura. Fiz minha cultura através dos mestres.

Folha – Você teve outros mestres ?

Aznavour : O mestre nos precede sempre. Meus mestres foram Victor Hugo, Racine, Molière e La Fontaine. Os mestres vêm antes de nós. Mas aprecio muitos compositores do mundo todo.

Folha – Qual foi o momento mais emocionante de sua carreira ?

Aznavour : Foi quando meus pais foram olhar um dia um grande cartaz de meu espetáculo da altura de um prédio de cinco andares, perto to Moulin Rouge e ficaram olhando alguns minutos, completamente fascinados e felizes.

Folha – Você estava com eles ?

Aznavour : Não, eu os observava de longe. Esse foi o momento mais emocionante da minha vida, lá pela década de 50.

Folha – Era como um presente para eles ?

Aznavour : Era uma coisa formidável. Tinham dito a eles : “Seus filhos não vão ser nada”. Eram pessoas que vieram para a França como imigrantes e nem falavam francês, aprenderam depois. Eles abandonaram seus sonhos para cuidar dos filhos. Isso foi o momento mais emocionante.

Folha – Você cantou na maioria das cidades importantes do mundo. Qual o público mais difícil ou mais exigente? E o mais caloroso?

Aznavour : O mais difícil é o público esnobe. Ele pode ser de qualquer país. Aplaude com as pontas dos dedos ou com luvas. Viram tudo, ouviram tudo, conhecem tudo. Esse público pode dar opinião sobre tudo e sempre uma opinião crítica. Esse é o público ruim.

Folha – Você teve muitas vezes um público assim?

Aznavour : Tive. Mas esse mesmo público mudou depois. Quando voltei já não era o mesmo. Foi em Monte Carlo quarenta anos atrás. A gente tinha a impressão de que eles estavam sentados sobre as mãos.

Folha - E qual o público mais caloroso ?

Aznavour : Em todos os lugares. O público que gosta do artista é sempre caloroso. Ele é caloroso de maneira diferente nos diferentes países, é normal. Não é o mesmo entusiasmo em Buenos Aires ou em Nova York. Mas ele é entusiasmado cada um a seu modo. São maneiras diferentes de demonstrar. Minha mulher é sueca. A primeira vez que fui cantar na Suécia ela me preveniu : “Os suecos não são como os franceses, não fique chateado se eles forem frios”. E eles foram como os outros. Eu então disse a ela: “ Você vê, era preciso que um armênio-francês viesse para que eles mudassem”.

Folha – Qual é o segredo para conquistar um público ?

Aznavour : Não tem segredo.

Folha – É o talento?

Aznavour : Acho que é a verdade que passa. Ou se pensa que um artista é fabricado ou a gente o vê como verdadeiro. Hoje, há poucos artistas fabricados porque os jovens se entregam cada vez mais a esse métier. É a verdade que faz o sucesso e depois é a sinceridade que o mantém.

Folha – Você teve uma das carreiras mais longas e mais importantes da canção francesa. Vai poder realmente parar depois dessa turnê?

Aznavour : Eu sou obrigado a parar.

Folha – Por quê?

Aznavour : Porque num dado momento não poderei mais subir num palco.

Folha – Mas esse momento pode ir sendo adiado, não?

Aznavour : Quando tive um grande problema de ouvido disse que pararia. E então consegui me disciplinar para que meu ouvido só ouvisse o que era preciso. Mas foi muito difícil e continua sendo. De um ouvido ouço um tom diferente que do outro. Isso é terrível. De repente, o violino que deve tocar ao mesmo tempo que o piano os ouço com dois tons diferentes.

Folha – E o que acontece?

Aznavour : Eu me disciplinei. Passei a ouvir apenas o que quero ouvir, apenas o que tenho necessidade de ouvir. Mudei introduções, há instrumentos que tive que tirar pois não dava para mantê-los.

Folha – E quando você pretente parar de vez de cantar?

Aznavour : Quando eu tiver totalmente destruído. (Risos).

Folha – Quando você encerra essa turnê?

Aznavour : Não faço mais turnê. Para ir à América do Sul, sou obrigado a fazer uma viagem mais longa, não posso fazer duas cidades e voltar. Mas na França não faço mais turnê. Na Europa também não. Vou à Itália e volto. Vou à Alemanha e volto. Vou ao Oriente Médio e volto. Só viagens curtas e fáceis. As longas são difíceis. Volto da América do Sul no mês de maio e não trabalho até o mês de julho quando vou ao Québec para cantar um dia somente.

*Entrevista publicada originalmente na Folha de São Paulo de 11 de abril de 2008

3 comentários:

Heliana disse...

Oi, Len, tinha perdido a entrevista na Folha. Muito boa! Dá aquela vontade de ouvir todas as canções francesas que não ouvimos nos últimos anos (desde o filme Piaf estou com essa vontade, que filme maravilhoso...) Beijos e continue ÓTIMA, parabéns.

Valéria Martins disse...

Adorei a história dos pais olhando o cartaz de 5 metros... No início, ele parecia meio sem saco, depois foi se soltando, né? Também, com 82 anos, imagina a quantidade de entrevistas que já deu... Bjs!

Hawker disse...

Leneide, pelo que leio, os chineses vivem duas tragédias, a perda dos filhos únicos e a absoluta ausência de férias, em contraposição aos franceses. Fumando como fumam e trabalhando sábados e domingos, devem estar provocando tantas mortes quanto as provocadas pelo terremoto. Ou seja, efeito dobrado na sociedade chinesa, pela perda dos filhos únicos e pela redução da longevidade, já que não sabem o que são férias e vivem para o trabalho.
Bjs
Romildo