Exposição no Museu de arte e história do judaísmo mostra quadros pilhados pelos nazistas ***
Leneide Duarte-Plon, de Paris
A mostra de pintura que o Musée d’art et d’histoire du judaïsme inaugurou em Paris é mais que uma exposição de arte.
É de política e de história que falam os quadros de pintores consagrados como Utrillo, Degas, Delacroix, Monet, Vlaminck, Ingres, Fragonard, Cézanne, Courbet, Matisse, Marx Ernst e Seurat. Entre os 53 quadros da exposição, há ainda obras de grandes mestres da pintura holandesa, além de algumas obras anônimas.
O nazismo e a espoliação de bens de colecionadores judeus, durante a Ocupação da França pelos alemães, são o centro de interesse da exposição, que tem como título: “A qui appartenaient ces tableaux? (A quem pertenciam esses quadros?) O subtítulo explica a pergunta : Espoliações, restituições e pesquisa de origem : o destino das obras de arte trazidas da Alemanha após a guerra.
Nem todos os quadros enviados à Alemanha durante a guerra foram fruto de pilhagem. E nem todos pertenciam a judeus. Os alemães compraram muito no mercado francês de arte, tirando proveito das leis raciais, decretadas pelo governo fantoche do Marechal Pétain. Puderam se apropriar de obras pertencentes a judeus que fugiam, mas também compraram obras de grande valor por preços muito abaixo do mercado.
A exposição chegou a Paris, onde fica até 26 de outubro, depois de ter sido mostrada no Museu de Israel, em Jerusalém. Ela é o resultado da Missão Mattéoli, nomeada por Lionel Jospin em 1999, para estudar a espoliação dos judeus franceses. Essa missão consluiu que 10% do fundo atualmente chamado Musées Nationaux Récupération (MNR), que contém 2 mil obras, devem ser pinturas espoliadas a famílias judias.
A exposição mostra os diferentes processos de apropriação praticados pelos nazistas durante a Segunda Guerra mundial, desde as primeiras pilhagens feitas em julho de 1940 até as conseqüências das leis raciais do governo de Vichy (dirigido por Pétain).
Além disso, a exposição explica, através de textos didáticos, como foram feitas as restituições no após-guerra, seja aos grandes colecionadores como a família Rothschild, seja a outras famílias que puderam comprovar a origem das obras. Mesmo após o trabalho de historiadores de arte dos dois países, ainda restam 2000 obras classificadas MNR (Musées Nationaux Récupération). Elas estão sob a guarda permanente de diversos museus franceses.
Através de vídeos, de textos e de documentos o visitante pode entender como foram feitas as pesquisas para encontrar a origem dos quadros, possibilitando a restituição aos proprietários ou a descendentes.
As 100 mil obras de arte repertoriadas depois da guerra na Alemanha saíram da França de seis maneiras diferentes. Foram confiscadas pelos diversos serviços nazistas, foram compradas ou trocadas. Entre elas, algumas pertenceram a um oficial alemão. Essa história rocambolesca de um tesouro perdido foi contada por um arcebispo que devolveu os quadros aos museus estatais de Berlim. Eram 28 pinturas e desenhos de Delacroix, Corot, Millet, Manet, Renoir e Seurat, adquiridos por um oficial alemão e entregues em confiança a um soldado que voltou à Alemanha. Como o oficial não apareceu depois da guerra para reclamar seu tesouro, o soldado o confiou, sob o segredo da confissão, a Monsenhor Heinrich Solbach, arcebispo de Magdebourg. Este o entregou ao organismo central dos museus alemães. Essas obras foram devolvidas a François Mitterrand, em 1994, e foram expostas no Musée d’Orsay no mesmo ano.
Fazendo desapropriações de bens de judeus, os nazistas contavam com a Einsatzstab Rechsleiter Rosenberg (ERR), criada por Hitler sob a autoridade de Alfred Rosenberg, ideólogo do partido nazista e teórico do anti-semitismo. Entre abril de 1941 e julho de 1944, esse serviço enviou para a Alemanha 138 vagões contendo 4.174 caixas correspondendo a 22 mil objetos ou lotes de objetos. Segundo um relatório de julho de 1944, 38 mil apartamentos parisienses foram pilhados e os objetos de valor encaminhados à ERR.
Hitler e Goering adquiriram obras de pintores flamengos através de operações de trocas de obras de pintores modernos como Picasso e Matisse, confiscadas a colecionadores como Paul Rosenberg, o marchand de Picasso. As obras desses pintores, considerada “arte degenerada”, serviam de moeda de troca para aquisição de obras de pintores holandeses, que os dirigentes nazistas tanto admiravam.
Depois da guerra, autoridades aliadas estabeleceram comissões para resolver o verdadeiro quebra-cabeças das obras de arte estocadas na Alemanha, provenientes de diversos países europeus. Calcula-se que 100 mil obras de arte deixaram o território francês durante a guerra. Dessas, 60 mil retornaram à França em 1945. Entre essas, 45 mil foram restituídas aos proprietários até 1949. Entre as 15 mil restantes, 13 mil foram vendidas pela organização que administra os museus franceses, entre 1950 e 1953. As duas mil restantes estão espalhadas pelos museus nacionais com o selo MNR de onde saíram as 53 obras expostas atualmente no Museu de Arte e de História do Judaísmo.
Nos dias 14 e 15 de setembro haverá um colóquio internacional no próprio museu intitulado Espoliações, restituições, indenizações e pesquisa de origem : o destino das obras de arte encontradas depois da Segunda Guerra Mundial.
Ainda em setembro, o museu programou dois filmes em torno do tema : Le train, de John Frankenheimer e Monsieur Klein, de Joseph Losey. Além deles, três documentários serão exibidos dia 21 de setembro, entre eles, Roubados pelos nazistas, a história da coleção Schloss.
*** publicada na Folha de São Paulo em 13 de julho de 2008
terça-feira, 22 de julho de 2008
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Grace Kelly : a princesa do rochedo
O sonho de se tornar uma princesa começa cedo na infância das meninas. Em geral, com a história da gata borralheira.
Conheço uma menininha francesa de menos de quatro anos, Julia, que se veste com seu vestido de “Cendrillon” (Cinderela), coloca os sapatinhos e sonha com o príncipe. Nos seus sonhos, o príncipe é seu pai (ainda). Freud explica. Depois, ele será substituído. Ou não, e aí é que as coisas se complicam. Ela tem o livro, mas tem também o DVD, tecnologia oblige, da pequena rejeitada que se transformou em princesa. Vira e mexe, veste o vestido de baile de Cendrillon. E nesse momento é uma princesa.
Ao ver no Hôtel de Ville a bela exposição sobre a vida da princesa Grace não pude deixar de pensar que ela estava no lugar que toda mulher sonha ocupar: ao lado do príncipe encantado. Ela tinha Hollywood a seus pés, mas preferiu a vida real. Trocou um sonho de celulóide por um rochedo. Mônaco, le rocher, como a imprensa francesa chama o pequeno principado encravado na rocha. Um rochedo é real, tem solidez. Hollywood é ilusão, pode evaporar-se. Não é mesmo, Marilyn?
A vida de Grace Kelly foi um conto de fadas. Ela veio à França para o festival de Cannes e o príncipe Rainier sucumbiu ao seu charme. Casaram-se alguns meses depois. Ela se tornou a mais bonita, elegante e charmosa de todas as princesas da Europa.
A exposição foi organizada pelo escritor Frédéric Mitterrand, que se esmerou nos textos, informativos, mas inteligentes e sutis. A mostra segue uma ordem cronológica e os espectadores podem, assim, percorrer a vida de Grace de Mônaco do berço até os dias mais maduros. Um mergulho num mundo de palácios, recepções, jet set, glamour e elegância. Os vestidos de baile estão lá, assinados pelos maiores costureiros franceses. Ela, que sempre adorou Paris, mesmo antes de se tornar princesa, sempre se vestiu chez Dior. Mas o vestido mais deslumbrante é um preto longo assinado por Balenciaga. Ao lado de cada vestido, uma foto de Grace no dia em que o usou.
A exposição é rica em documentos. Tem cartas de Jackie Kennedy agradecendo os presentes, da Rainha Sophia da Espanha comentando os momentos que passaram juntas. Há fotos de todos os momentos da princesa, dos mais íntimos em família até as recepções aos grandes desse mundo. Uma foto extraordinária é aquela em que Grace olha absolutamente fascinada para John Kennedy. O flagrante de uma mulher subjugada pelo charme de um homem.
Filmes de Hollywood desfilam em diversas telas. Filmes de família mostram as princesas e o pequeno príncipe Albert em diferentes idades. O que fica é a impressão de uma família feliz, privilegiada claro, mas que sente prazer em estar junta. Minha filha lembrou na saída da exposição que se a vida da princesa foi um sucesso, a de seus três filhos deixa a desejar. Nenhum deles brilhou em nenhuma área do conhecimento, das artes ou na política. Eles são tão inexpressivos quanto os filhos da rainha da Inglaterra, por exemplo. Na realidade, dão a impressão de que é difícil encontrar uma missão de relevância no mundo quando se nasce em berço de ouro.
Quanto à estrela de Hollywood que se tornou princesa, aparentemente ela nunca se arrependeu de ter aceito a mão do príncipe do rochedo.
Viveram um conto de fadas até que a morte os separou.
Conheço uma menininha francesa de menos de quatro anos, Julia, que se veste com seu vestido de “Cendrillon” (Cinderela), coloca os sapatinhos e sonha com o príncipe. Nos seus sonhos, o príncipe é seu pai (ainda). Freud explica. Depois, ele será substituído. Ou não, e aí é que as coisas se complicam. Ela tem o livro, mas tem também o DVD, tecnologia oblige, da pequena rejeitada que se transformou em princesa. Vira e mexe, veste o vestido de baile de Cendrillon. E nesse momento é uma princesa.
Ao ver no Hôtel de Ville a bela exposição sobre a vida da princesa Grace não pude deixar de pensar que ela estava no lugar que toda mulher sonha ocupar: ao lado do príncipe encantado. Ela tinha Hollywood a seus pés, mas preferiu a vida real. Trocou um sonho de celulóide por um rochedo. Mônaco, le rocher, como a imprensa francesa chama o pequeno principado encravado na rocha. Um rochedo é real, tem solidez. Hollywood é ilusão, pode evaporar-se. Não é mesmo, Marilyn?
A vida de Grace Kelly foi um conto de fadas. Ela veio à França para o festival de Cannes e o príncipe Rainier sucumbiu ao seu charme. Casaram-se alguns meses depois. Ela se tornou a mais bonita, elegante e charmosa de todas as princesas da Europa.
A exposição foi organizada pelo escritor Frédéric Mitterrand, que se esmerou nos textos, informativos, mas inteligentes e sutis. A mostra segue uma ordem cronológica e os espectadores podem, assim, percorrer a vida de Grace de Mônaco do berço até os dias mais maduros. Um mergulho num mundo de palácios, recepções, jet set, glamour e elegância. Os vestidos de baile estão lá, assinados pelos maiores costureiros franceses. Ela, que sempre adorou Paris, mesmo antes de se tornar princesa, sempre se vestiu chez Dior. Mas o vestido mais deslumbrante é um preto longo assinado por Balenciaga. Ao lado de cada vestido, uma foto de Grace no dia em que o usou.
A exposição é rica em documentos. Tem cartas de Jackie Kennedy agradecendo os presentes, da Rainha Sophia da Espanha comentando os momentos que passaram juntas. Há fotos de todos os momentos da princesa, dos mais íntimos em família até as recepções aos grandes desse mundo. Uma foto extraordinária é aquela em que Grace olha absolutamente fascinada para John Kennedy. O flagrante de uma mulher subjugada pelo charme de um homem.
Filmes de Hollywood desfilam em diversas telas. Filmes de família mostram as princesas e o pequeno príncipe Albert em diferentes idades. O que fica é a impressão de uma família feliz, privilegiada claro, mas que sente prazer em estar junta. Minha filha lembrou na saída da exposição que se a vida da princesa foi um sucesso, a de seus três filhos deixa a desejar. Nenhum deles brilhou em nenhuma área do conhecimento, das artes ou na política. Eles são tão inexpressivos quanto os filhos da rainha da Inglaterra, por exemplo. Na realidade, dão a impressão de que é difícil encontrar uma missão de relevância no mundo quando se nasce em berço de ouro.
Quanto à estrela de Hollywood que se tornou princesa, aparentemente ela nunca se arrependeu de ter aceito a mão do príncipe do rochedo.
Viveram um conto de fadas até que a morte os separou.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
O disco de Carla B.

Tu es ma came/Plus mortel que l'héroïne afghane/Plus dangereux que la blanche colombienne."
« Você é minha droga/Mais mortal que a heroína afegã/Mais perigoso que a branca colombiana”.
A primeira dama francesa canta. E como cantora e compositora, escreve canções e grava discos. Muito bons. O mais recente “Comme si de rien n’était” acaba de sair esta semana.
Lembro há uns quatro anos, estava entrando numa butique parisiense com uma amiga brasileira, Joëlle Rouchou. Ouvimos uma canção deliciosa, uma voz afinada e agradável. Perguntamos quem era. A elegante moça da butique informou que era Carla Bruni.
O disco é o acontecimento midiático do mês. A campanha de comunicação é intensa, entrevistas nas rádios, entrevistas exclusivas a jornais e revistas. Carla Bruni-Sarkozy, Carla Bruni no CD, fala do que sabe: relações entre homens e mulheres, entre homens e mulheres modernas. Como ela. Que agora, além de se ocupar de sua carreira, tem que gerir a agenda de primeira-dama, o protocolo, a etiqueta estrita e rígida do Eliseu. Mas Carla não é controlada, o Eliseu não censura o que ela diz.
Ela mesma garante na entrevista que deu ao jornal gratuito “Metro” desta quinta-feira, 10 de julho. Mas o mais “jornalístico” da entrevista estava no título: “Não estou grávida”. Ela disse que bem que gostaria, mas a barriguinha que ganhou recentemente é culpa da cerveja. “Preciso parar de beber cervejas”, disse Carla, que se mostra sempre irritada quando pensam que ela é, de alguma forma, controlada por uma suposta entidade de comunicação do Eliseu.
Quanto às músicas, ela garante que a maioria das letras já tinham sido escritas quando conheceu o presidente. A quem se chocar com as alusões ao pó branco colombiano, ela responde: “Nós somos um país democrático. Não há censura na França”.
O filho de Carla B.
Num jantar de psicanalistas em Paris, fiquei sabendo que o filho de Carla B. (como o jornal Le Canard enchaîné a chama numa coluna engraçadíssima que simula o diário da cantora) vai estudar na École Alsacienne. Esta escola é onde estudam os filhos da alta burguesia parisiense. Apesar de a escola republicana ser de alto nível, os esnobes fazem questão de pôs seus rebentos na École Alsacienne.
O problema é que um dos casais que estavam no jantar tem a filha na dita escola. E não gostaram nada da notícia que pressupõe saídas engarrafadas com guarda-costas, entre outros inconvenientes. Além disso, parece que o filho de Sarkozy com Cécilia também seria aluno da escola a partir de setembro. Parece improvável, mas não impossível que o filho de Carla (com um professor de filosofia chamado Raphael Enthoven, filho do ex-companheiro de Carla, o editor Jean-Paul Enthoven) e o filho de Sarkozy passem a freqüentar a mesma escola.
O bom vinho e os comentários hilariantes dos psicanalistas inventando cartas anônimas para evitarem que o filho de Carla passe a fazer parte dos alunos da escola tornaram o jantar muito animado. Entre os presentes, uma certeza: a agitação e a superatividade presidencial não deixam dúvida de que ele é adepto da blanche colombienne.
A melhor história foi o detalhe de como o psicanalista ficou sabendo que o filho de Carla B. iria estudar na escola alsaciana a partir de setembro: através de uma amiga, que soube pela caixa do supermercado de um bairro chique de Paris.
Se Ibrahim Sued estivesse vivo diria que em sociedade tudo se sabe...
Os cabelos de Ronaldo
Em Palermo, na Sicilia, e na cidade francesa de Metz dei de cara com Ronaldo, o fenômeno.
Não o próprio, mas uma foto enorme dele, dentro da vitrine de farmácias (foto).
O produto que Ronaldo vende com sua imagem é suíço, chama-se Crescina e pretende fazer nascer cabelo.
Como se a antiga careca do jogador brasileiro fosse fruto de uma calvície, que o produto pretende curar, e não desejo de esconder os cabelos encaracolados, que Ronaldo resolveu assumir.
O laboratório fatura, vendendo ilusão aos incautos. Idem Ronaldo.
De que não são capazes o marketing e a picaretagem dos laboratórios. Tenho um médico que me contou que seu pai fez fortuna inventando um creme rejuvenescedor que prometia a juventude eterna às mulheres que, como se sabe, dão tudo para apagar as marcas do tempo. Elas, obviamente, não eliminaram as rugas. Mas ele eliminou definitivamente todos os seus problemas econômicos.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Sarkoberlusconismo
Estou chegando de Veneza, Florença e Roma. Fui apresentar a cultura italiana da Antiguidade, do Renascimento e dos grandes artistas de todos os séculos à minha filha caçula.
A Itália é sinônimo de cultura e refinamento. Mas o presente não faz jus ao passado. O Renascimento ontem e hoje Berlusconi, renascido, qual fênix, para novo mandato. Dante e a televisão berlusconiana, primado da vulgaridade e estupidez. Quando os italianos emergirão dessa descida aos infernos?
Este mês, o jornal Le Monde fez uma reportagem comparando os presidentes Sarkozy e Berlusconi. Foi durante um encontro europeu em Roma. O enviado especial do jornal falava de “sarkoberlusconismo” do mundo latino europeu da direita triunfante.
Berlusconi, o Sarkozy italiano? Sarkozy, o Berlusconi francês? Há semelhanças e algumas diferenças. Berlusconi é um milionário homem de negócios que entrou na política depois de fazer fortuna. Sarkozy não tem nenhuma fortuna... ainda. Mas é amigo dos milionários naquele seu jeito de ser de uma “direita descomplexada”, como ele denominou o fato de ser de direita e se assumir plenamente.
Outra diferença: Berlusconi teve que se aliar à direita mais xenófoba para governar, a Liga do Norte. Sarkozy praticamente riscou do mapa o partido de Jean-Marie Le Pen, o Front National. Roubou de Le Pen seus eleitores sem precisar se aliar a ele.
O cientista político francês Pierre Musso, num ensaio recentemente publicado, fez a análise mais precisa do “sarkoberlusconismo”. Ele diz: “O sarkoberlusconismo é um americanismo latinizado, capaz de se adaptar a realidades nacionais diferentes. Esse novo modelo político neoliberal euro-mediterrâneo, do tipo bonapartista, combina a autoridade do Estado, a reverência ao catolicismo e a referência à empresa privada”.
Enquanto a Itália, a França e grande parte da Europa dão uma guinada à direita, a América do Sul faz nascer a esperança de uma resistência ao neoliberalismo, que tenta se apresentar como única forma de conceber o mundo moderno.
Se Darcy Ribeiro fosse vivo estaria conceituando entusiasmado, com o brilho de que era capaz essa nova forma de construção de sociedades menos injustas feitas por mestiços do Sul do Equador.
A mão no controle remoto
Os italianos desenvolveram com os franceses uma relação feita de admiração recíproca, mesclada de desconfiança em relação aos franceses, vistos como arrogantes mas ao mesmo tempo admirados pelo discurso claro e elegante dos intelectuais, a capacidade de expor idéias na arte da conversa refinada, elevada a níveis difíceis de serem superados. Os intelectuais italianos não se furtam em louvar essa elegância da arte de conversar e discutir em alto estilo, própria dos franceses cultos.
Mas alguns italianos sentem uma ligeira melhora na maneira de serem julgados pelos franceses, antes extremamente severos com a Itália contemporânea. Como se eles pensassem que o que a Itália produziu de grande qualidade nas artes e nas letras já era passado. O presente seria sem relevo. Ouvi esse ponto de vista de uma advogada em Roma, com quem jantei na casa de Giovanna Picciau, uma pintora romana de raro talento. O mundo de Giovanna Picciau é uma prova de sutileza e inteligência: surpreendente, provocante, uma forma surrealista de imaginar homens, mulheres e crianças no mundo. Ela cria situações e cenas surrealistas, onde tudo é possível. Giovanna Picciau tem uma coleção de objetos kitsch que rivaliza com a de Almodóvar, exposta há dois anos na Cinemateca Francesa.
Mas voltando à advogada. Ela dizia que sente os franceses menos arrogantes e auto-suficientes, mais simpáticos e até mais acolhedores. Ela via neles uma tendência a pensar que depois do Renascimento, do grande século clássico, dos grandes compositores de ópera, da época de ouro do magnífico cinema de Rossellini, Fellini, Antonioni e Visconti, a Itália entrara em franca decadência. E Berlusconi seria uma espécie de figura emblemática desse novo mundo da vulgaridade e da mediocridade que impera na Itália atual. Ele encarnaria, para desespero dos intelectuais, a Itália de hoje. Como se de Dante, só houvesse sobrado o inferno.
Quem sabe, os franceses tenham descoberto a modéstia e relativizado a auto-suficiência graças a Sarkozy e a seu estilo berlusconiano de ser e governar?
O fato é que para a esquerda francesa Sarkozy representa uma ameaça sistemática ao serviço público.
A mais recente reforma “modernizadora” do presidente foi a investida contra as redes de televisão estatais. A partir de janeiro de 2009, depois de 20h não haverá mais publicidade nesses canais. Como financiar a televisão de estado que tem diversos canais onde ainda se podem ver programas de qualidade, seja jornalístico, seja de ficção? Esse é o grande quebra-cabeça que Sarkozy tenta provar que sabe resolver. Os jornais de esquerda fizeram esta semana editoriais e grandes reportagens para protestar contra a ameaça de liquidar as televisões estatais pertencentes à grande empresa holding France Télévisions.
No bojo das reformas, Sarkozy inclui a nomeação pelo chefe de Estado (ele mesmo) do presidente da France Télévisions. Libération deu como título de capa na quinta: Nicolas Sarkozy, la main sur la télécomande (Nicolas Sarkozy, a mão no controle remoto).
A bulimia de poder de Sarkozy se expressa também na decisão de controlar de A a Z a informação televisiva.
Como Berlusconi.
Jeanne Moreau reencontra a Marquesa de Merteuil
Nos anos 80, o dramaturgo alemão Heiner Müller confessou a seu tradutor francês que gostaria de ver um dia a marquesa de Merteuil de sua peça Quartett interpretada por Jeanne Moreau.
O sonho de Müller foi realizado no ano passado, dia 9 de julho de 2007, quando, ao lado do ator Sami Frey, a grande dama do teatro e do cinema francês subiu ao palco da Cour d’honneur do Palais des Papes de Avignon para uma noite de leitura de Quartett. Moreau voltava 60 anos depois ao Festival d’Avignon, o mítico festival de teatro que ela inaugurou em 1947, aos 20 anos, com Jean Vilar, o criador do festival. Em Avignon, no verão de 2007 fechava-se um ciclo na carreira de uma atriz excepcional que começou no teatro, na Comédie Française e continuou no TNP (Théâtre National Populaire) de Jean Vilar.
Quando Jeanne Moreau e Sami Frey entram no palco do Théâtre de la Madeleine em Paris para a leitura da peça (um mês de apresentaçéoes até 28 de junho) o público sabe que está diante de dois monstros sagrados do teatro e do cinema. Mas mesmo se ambos são dois atores excepcionais, é ela, aquela mulher pequena que, aos 80 anos de idade e 60de carreira, impressiona por sua presença mítica. E a voz inconfundível. A voz de Jeanne Moreau é como os bons vinhos que só ganham com o tempo.
A marquesa de Merteuil utiliza a voz e o talento de Jeanne Moreau para dizer coisas terríveis a Valmont-Sami Frey. Ambos lêem o extraordinário diálogo de Heiner Müller sem um gesto, sem se levantarem em nenhum momento. Um copo de vinho e uma lâmpada é tudo o que têm sobre suas mesas, além do livro que lêem. A dramaticidade do texto é traduzida apenas na voz, nos silêncios, na inflexão. Mesmo se os diálogos são extraordinariamente bem escritos, é preciso ser Jeanne Moreau e Sami Frey para criar uma Merteuil e um Valmont tão fortes com tão poucos recursos. No final do espetáculo, o público sabe recompensar o talento dos dois atores com aplausos entusiásticos e seis chamadas ao palco.
Müller contou que seu principal problema ao escrever Quartett foi encontrar uma forma dramática para um romance epistolar e isso só foi possível passando pelo jogo de interpretação em que duas pessoas representam quatro personagens.
Jeanne Moreau é uma antiga conhecida da marquesa. Ela fez a Merteuil no cinema, no filme de Roger Vadim. No programa que reproduz o texto completo da peça ela conta que foi a seu pedido que o escritor Roger Vailland adaptou o texto de Laclos depois filmado por Vadim.
Na realidade, o jogo dramático da peça de Heiner Müller inclui mais dois personagens: a casta Cécile Volanges e a reticente e carola Madame de la Tourvel. Por indicação do próprio autor, todos os personagens são representados por dois atores que trocam de papel. E trocando de papel, Sami Frey pode representar madame de la Tourvel e Moreau fazer o sedutor e libertino Valmont.
“Quartett é uma reação ao problema do terrorismo com um conteúdo, com um material que superficialmente não tem nada a ver com isso. O suporte, o texto de Laclos Les liaisons dangereuses, eu nunca li inteiro. Minha fonte principal foi o prefácio de Heinrich Mann para uma tradução que ele fez”, escreveu o autor pouco antes de sua morte em 1995. Na indicação do período da peça, Müller escreveu: “Um salão antes da Revolução francesa. Um bunker depois da terceira guerra mundial”.
A Itália é sinônimo de cultura e refinamento. Mas o presente não faz jus ao passado. O Renascimento ontem e hoje Berlusconi, renascido, qual fênix, para novo mandato. Dante e a televisão berlusconiana, primado da vulgaridade e estupidez. Quando os italianos emergirão dessa descida aos infernos?
Este mês, o jornal Le Monde fez uma reportagem comparando os presidentes Sarkozy e Berlusconi. Foi durante um encontro europeu em Roma. O enviado especial do jornal falava de “sarkoberlusconismo” do mundo latino europeu da direita triunfante.
Berlusconi, o Sarkozy italiano? Sarkozy, o Berlusconi francês? Há semelhanças e algumas diferenças. Berlusconi é um milionário homem de negócios que entrou na política depois de fazer fortuna. Sarkozy não tem nenhuma fortuna... ainda. Mas é amigo dos milionários naquele seu jeito de ser de uma “direita descomplexada”, como ele denominou o fato de ser de direita e se assumir plenamente.
Outra diferença: Berlusconi teve que se aliar à direita mais xenófoba para governar, a Liga do Norte. Sarkozy praticamente riscou do mapa o partido de Jean-Marie Le Pen, o Front National. Roubou de Le Pen seus eleitores sem precisar se aliar a ele.
O cientista político francês Pierre Musso, num ensaio recentemente publicado, fez a análise mais precisa do “sarkoberlusconismo”. Ele diz: “O sarkoberlusconismo é um americanismo latinizado, capaz de se adaptar a realidades nacionais diferentes. Esse novo modelo político neoliberal euro-mediterrâneo, do tipo bonapartista, combina a autoridade do Estado, a reverência ao catolicismo e a referência à empresa privada”.
Enquanto a Itália, a França e grande parte da Europa dão uma guinada à direita, a América do Sul faz nascer a esperança de uma resistência ao neoliberalismo, que tenta se apresentar como única forma de conceber o mundo moderno.
Se Darcy Ribeiro fosse vivo estaria conceituando entusiasmado, com o brilho de que era capaz essa nova forma de construção de sociedades menos injustas feitas por mestiços do Sul do Equador.
A mão no controle remoto
Os italianos desenvolveram com os franceses uma relação feita de admiração recíproca, mesclada de desconfiança em relação aos franceses, vistos como arrogantes mas ao mesmo tempo admirados pelo discurso claro e elegante dos intelectuais, a capacidade de expor idéias na arte da conversa refinada, elevada a níveis difíceis de serem superados. Os intelectuais italianos não se furtam em louvar essa elegância da arte de conversar e discutir em alto estilo, própria dos franceses cultos.
Mas alguns italianos sentem uma ligeira melhora na maneira de serem julgados pelos franceses, antes extremamente severos com a Itália contemporânea. Como se eles pensassem que o que a Itália produziu de grande qualidade nas artes e nas letras já era passado. O presente seria sem relevo. Ouvi esse ponto de vista de uma advogada em Roma, com quem jantei na casa de Giovanna Picciau, uma pintora romana de raro talento. O mundo de Giovanna Picciau é uma prova de sutileza e inteligência: surpreendente, provocante, uma forma surrealista de imaginar homens, mulheres e crianças no mundo. Ela cria situações e cenas surrealistas, onde tudo é possível. Giovanna Picciau tem uma coleção de objetos kitsch que rivaliza com a de Almodóvar, exposta há dois anos na Cinemateca Francesa.
Mas voltando à advogada. Ela dizia que sente os franceses menos arrogantes e auto-suficientes, mais simpáticos e até mais acolhedores. Ela via neles uma tendência a pensar que depois do Renascimento, do grande século clássico, dos grandes compositores de ópera, da época de ouro do magnífico cinema de Rossellini, Fellini, Antonioni e Visconti, a Itália entrara em franca decadência. E Berlusconi seria uma espécie de figura emblemática desse novo mundo da vulgaridade e da mediocridade que impera na Itália atual. Ele encarnaria, para desespero dos intelectuais, a Itália de hoje. Como se de Dante, só houvesse sobrado o inferno.
Quem sabe, os franceses tenham descoberto a modéstia e relativizado a auto-suficiência graças a Sarkozy e a seu estilo berlusconiano de ser e governar?
O fato é que para a esquerda francesa Sarkozy representa uma ameaça sistemática ao serviço público.
A mais recente reforma “modernizadora” do presidente foi a investida contra as redes de televisão estatais. A partir de janeiro de 2009, depois de 20h não haverá mais publicidade nesses canais. Como financiar a televisão de estado que tem diversos canais onde ainda se podem ver programas de qualidade, seja jornalístico, seja de ficção? Esse é o grande quebra-cabeça que Sarkozy tenta provar que sabe resolver. Os jornais de esquerda fizeram esta semana editoriais e grandes reportagens para protestar contra a ameaça de liquidar as televisões estatais pertencentes à grande empresa holding France Télévisions.
No bojo das reformas, Sarkozy inclui a nomeação pelo chefe de Estado (ele mesmo) do presidente da France Télévisions. Libération deu como título de capa na quinta: Nicolas Sarkozy, la main sur la télécomande (Nicolas Sarkozy, a mão no controle remoto).
A bulimia de poder de Sarkozy se expressa também na decisão de controlar de A a Z a informação televisiva.
Como Berlusconi.
Jeanne Moreau reencontra a Marquesa de Merteuil
Nos anos 80, o dramaturgo alemão Heiner Müller confessou a seu tradutor francês que gostaria de ver um dia a marquesa de Merteuil de sua peça Quartett interpretada por Jeanne Moreau.
O sonho de Müller foi realizado no ano passado, dia 9 de julho de 2007, quando, ao lado do ator Sami Frey, a grande dama do teatro e do cinema francês subiu ao palco da Cour d’honneur do Palais des Papes de Avignon para uma noite de leitura de Quartett. Moreau voltava 60 anos depois ao Festival d’Avignon, o mítico festival de teatro que ela inaugurou em 1947, aos 20 anos, com Jean Vilar, o criador do festival. Em Avignon, no verão de 2007 fechava-se um ciclo na carreira de uma atriz excepcional que começou no teatro, na Comédie Française e continuou no TNP (Théâtre National Populaire) de Jean Vilar.
Quando Jeanne Moreau e Sami Frey entram no palco do Théâtre de la Madeleine em Paris para a leitura da peça (um mês de apresentaçéoes até 28 de junho) o público sabe que está diante de dois monstros sagrados do teatro e do cinema. Mas mesmo se ambos são dois atores excepcionais, é ela, aquela mulher pequena que, aos 80 anos de idade e 60de carreira, impressiona por sua presença mítica. E a voz inconfundível. A voz de Jeanne Moreau é como os bons vinhos que só ganham com o tempo.
A marquesa de Merteuil utiliza a voz e o talento de Jeanne Moreau para dizer coisas terríveis a Valmont-Sami Frey. Ambos lêem o extraordinário diálogo de Heiner Müller sem um gesto, sem se levantarem em nenhum momento. Um copo de vinho e uma lâmpada é tudo o que têm sobre suas mesas, além do livro que lêem. A dramaticidade do texto é traduzida apenas na voz, nos silêncios, na inflexão. Mesmo se os diálogos são extraordinariamente bem escritos, é preciso ser Jeanne Moreau e Sami Frey para criar uma Merteuil e um Valmont tão fortes com tão poucos recursos. No final do espetáculo, o público sabe recompensar o talento dos dois atores com aplausos entusiásticos e seis chamadas ao palco.
Müller contou que seu principal problema ao escrever Quartett foi encontrar uma forma dramática para um romance epistolar e isso só foi possível passando pelo jogo de interpretação em que duas pessoas representam quatro personagens.
Jeanne Moreau é uma antiga conhecida da marquesa. Ela fez a Merteuil no cinema, no filme de Roger Vadim. No programa que reproduz o texto completo da peça ela conta que foi a seu pedido que o escritor Roger Vailland adaptou o texto de Laclos depois filmado por Vadim.
Na realidade, o jogo dramático da peça de Heiner Müller inclui mais dois personagens: a casta Cécile Volanges e a reticente e carola Madame de la Tourvel. Por indicação do próprio autor, todos os personagens são representados por dois atores que trocam de papel. E trocando de papel, Sami Frey pode representar madame de la Tourvel e Moreau fazer o sedutor e libertino Valmont.
“Quartett é uma reação ao problema do terrorismo com um conteúdo, com um material que superficialmente não tem nada a ver com isso. O suporte, o texto de Laclos Les liaisons dangereuses, eu nunca li inteiro. Minha fonte principal foi o prefácio de Heinrich Mann para uma tradução que ele fez”, escreveu o autor pouco antes de sua morte em 1995. Na indicação do período da peça, Müller escreveu: “Um salão antes da Revolução francesa. Um bunker depois da terceira guerra mundial”.
domingo, 15 de junho de 2008
No Mafia
Como não se emocionar ao descer do avião no aeroporto Falcone-Borsellino? Como não lembrar com um nó na garganta da ação corajosa dos dois juízes, símbolos da luta do Estado italiano contra o crime organizado?
Falcone nasceu em Palermo, capital da Sicília, e morreu em 1992, assassinado pela Máfia siciliana, no caminho entre o aeroporto de Palermo e o centro da cidade. O aeroporto de Palermo tem seu nome acoplado ao de outro juiz anti-máfia, Paolo Borsellino, também assassinado pela Cosa Nostra, numa rua de Palermo, menos de dois meses depois do assassinato de Falcone.
No caminho entre o aeroporto e o centro, um marco relembra aos passantes a explosão na auto-estrada, que matou o juiz Falcone, sua mulher e alguns guarda-costas. O motorista do táxi nos mostra a pequena cabana branca no alto de uma colina, de onde um mafioso controlava a passagem da comitiva do juiz para detonar o explosivo. Pintadas em letras de forma, duas palavras mostram a indignação dos habitantes de Palermo: “No Mafia”.
Fotografo emocionada.
Giovanni Falcone foi o mais famoso juiz anti-máfia.
Charles Luciano, nascido Salvatore Lucania, era um mafioso siciliano. Em geral, os mafiosos da Cosa Nostra nascem em vilarejos isolados da ilha. Era o caso de Luciano, mais conhecido como “Lucky” Luciano.
Lucky Luciano morreu de um ataque cardíaco em 1962, quando ia tomar um avião, no aeroporto de Nápoles.
Falcone foi morto pela Máfia, a mando de Salvatore (Toto) Riina cujo processo foi baseado em longa investigação judiciária e mais particularmente nas revelações de Tommaso Buscetta (conhecido como Don Massimo), primeiro dos “arrependidos” da Cosa Nostra.
Falcone nunca encontrou Lucky Luciano.
Reúno os dois graças a uma viagem de férias pela Sicilia no mês passado. Explico: ficamos hospedados no hotel onde o “capo” fez uma reunião histórica, em 1957.
Nunca lera a biografia de Luciano. Mas depois da viagem a Palermo fui ler o que pude sobre o antigo chefe da Mafia americana, o verdadeiro criador do tráfico internacional de heroína.
O que descubro?
Em 1947, Washington faz pressão sobre o ditador cubano Batista para que ele expulse o mafioso que se encontrava em Cuba. Extraditado para Nápoles, Luciano se dedica oficialmente à sua empresa de importação-exportação. Na realidade, ele trata de aperfeiçoar o tráfico internacional de heroína, que tinha organizado em Havana, numa reunião dos principais “capi”, em 1947.
Exatamente dez anos depois, no majestoso “Grand Hôtel et des Palmes” (o nome parece estranho mas é esse mesmo) em uma nova conferência internacional, Lucky Luciano reúne em Palermo os mais importantes chefes sicilianos e novaiorquinos. Nessa ocasião, eles organizam o tráfico internacional de heroína que funcionou perfeitamente durante mais de vinte anos. Vinda do sudeste asiático, da Turquia ou da América do Sul, refinada na Itália e na França, a droga é depois vendida no mundo inteiro por uma rede controlada pelas diversas “famílias” aliadas. Na França, as Máfias siciliana e americana se aliam às máfias corsa e marselhesa. É a “French Connection”, desmantelada no início dos anos 1970.
Ir a Palermo e se hospedar num hotel moderno, sem história, não pode se comparar a se hospedar num hotel com mais de 150 anos, parte da história da cidade, onde Richard Wagner compôs sua última ópera. O Grand Hôtel et des Palmes guarda intacto o charme aristocrático da Sicilia, não dá para não pensar no filme de Visconti.
Aliás, o bar do Grand Hôtel et des Palmes não tem outro nome. Chama-se precisamente “Il Gattopardo”.
Paralelepípedos contra o tédio
Entre os textos republicados recentemente, um do jornalista Pierre Viansson-Ponté, publicado no Le Monde de 15 de março de 1968, não pode deixar de provocar um sorriso no leitor de 2008. Ele começa seu artigo dizendo:
"O que caracteriza atualmente nossa vida pública é o tédio. Os franceses se entediam. Eles não participam nem de perto nem de longe das grandes convulsões que sacodem o mundo, a guerra do Vietnã os comove, mas ela não lhes diz respeito verdadeiramente".
Um mês e meio depois, os franceses não podiam mais se queixar de tédio. Paris estava em chamas, o país parecia um vulcão em erupção.
Num documentário sobre maio de 68, recentemente mostrado num canal de TV, pode-se ver o primeiro efeito concreto da revolta nas ruas de Paris. O governo mandou asfaltar todas as ruas de paralelepípedos da capital.
Nunca mais os estudantes teriam essa arma ao alcance da mão para lançar na polícia. Nunca mais os paralelepípedos voariam como naquele início de primavera.
Maio de 68 pelo retrovisor do Le Monde
Era maio de 1968. A guerra do Vietnã dividia a primeira página do “Le Monde” com as manifestações dos estudantes no Quartier Latin. O movimento estudantil se associa ao movimento operário para desencadear a maior greve geral que a França já viveu. No maio de 68 francês, os trabalhadores fazem conquistas históricas: aumento do salário mínimo, redução do tempo de trabalho e diminuição da idade de aposentadoria.
O jornal Le Monde deu um presente inestimável aos leitores durante o mês de maio: numa página interna, editou todo dia a primeira página do mesmo dia de maio de 1968. Dia a dia, pudemos acompanhar a evolução daquele maio agitado e particularmente fecundo para o movimento social francês.
O Le Monde de 68 era outro jornal. Não no espírito, pois era o mesmo cotidiano de jornalistas, com texto analítico, fundado por Hubert Beuve-Méry, ainda vivo. Mas, na forma, era outro.
Do atual, tinha apenas o título em letras góticas. A forma gráfica era severa, não havia imagens. E, sobretudo, não tinha os graves problemas econômicos do grupo, que ameaçam o emprego de dezenas de jornalistas.
Falcone nasceu em Palermo, capital da Sicília, e morreu em 1992, assassinado pela Máfia siciliana, no caminho entre o aeroporto de Palermo e o centro da cidade. O aeroporto de Palermo tem seu nome acoplado ao de outro juiz anti-máfia, Paolo Borsellino, também assassinado pela Cosa Nostra, numa rua de Palermo, menos de dois meses depois do assassinato de Falcone.
No caminho entre o aeroporto e o centro, um marco relembra aos passantes a explosão na auto-estrada, que matou o juiz Falcone, sua mulher e alguns guarda-costas. O motorista do táxi nos mostra a pequena cabana branca no alto de uma colina, de onde um mafioso controlava a passagem da comitiva do juiz para detonar o explosivo. Pintadas em letras de forma, duas palavras mostram a indignação dos habitantes de Palermo: “No Mafia”.
Fotografo emocionada.
Giovanni Falcone foi o mais famoso juiz anti-máfia.
Charles Luciano, nascido Salvatore Lucania, era um mafioso siciliano. Em geral, os mafiosos da Cosa Nostra nascem em vilarejos isolados da ilha. Era o caso de Luciano, mais conhecido como “Lucky” Luciano.
Lucky Luciano morreu de um ataque cardíaco em 1962, quando ia tomar um avião, no aeroporto de Nápoles.
Falcone foi morto pela Máfia, a mando de Salvatore (Toto) Riina cujo processo foi baseado em longa investigação judiciária e mais particularmente nas revelações de Tommaso Buscetta (conhecido como Don Massimo), primeiro dos “arrependidos” da Cosa Nostra.
Falcone nunca encontrou Lucky Luciano.
Reúno os dois graças a uma viagem de férias pela Sicilia no mês passado. Explico: ficamos hospedados no hotel onde o “capo” fez uma reunião histórica, em 1957.
Nunca lera a biografia de Luciano. Mas depois da viagem a Palermo fui ler o que pude sobre o antigo chefe da Mafia americana, o verdadeiro criador do tráfico internacional de heroína.
O que descubro?
Em 1947, Washington faz pressão sobre o ditador cubano Batista para que ele expulse o mafioso que se encontrava em Cuba. Extraditado para Nápoles, Luciano se dedica oficialmente à sua empresa de importação-exportação. Na realidade, ele trata de aperfeiçoar o tráfico internacional de heroína, que tinha organizado em Havana, numa reunião dos principais “capi”, em 1947.
Exatamente dez anos depois, no majestoso “Grand Hôtel et des Palmes” (o nome parece estranho mas é esse mesmo) em uma nova conferência internacional, Lucky Luciano reúne em Palermo os mais importantes chefes sicilianos e novaiorquinos. Nessa ocasião, eles organizam o tráfico internacional de heroína que funcionou perfeitamente durante mais de vinte anos. Vinda do sudeste asiático, da Turquia ou da América do Sul, refinada na Itália e na França, a droga é depois vendida no mundo inteiro por uma rede controlada pelas diversas “famílias” aliadas. Na França, as Máfias siciliana e americana se aliam às máfias corsa e marselhesa. É a “French Connection”, desmantelada no início dos anos 1970.
Ir a Palermo e se hospedar num hotel moderno, sem história, não pode se comparar a se hospedar num hotel com mais de 150 anos, parte da história da cidade, onde Richard Wagner compôs sua última ópera. O Grand Hôtel et des Palmes guarda intacto o charme aristocrático da Sicilia, não dá para não pensar no filme de Visconti.
Aliás, o bar do Grand Hôtel et des Palmes não tem outro nome. Chama-se precisamente “Il Gattopardo”.
Paralelepípedos contra o tédio
Entre os textos republicados recentemente, um do jornalista Pierre Viansson-Ponté, publicado no Le Monde de 15 de março de 1968, não pode deixar de provocar um sorriso no leitor de 2008. Ele começa seu artigo dizendo:
"O que caracteriza atualmente nossa vida pública é o tédio. Os franceses se entediam. Eles não participam nem de perto nem de longe das grandes convulsões que sacodem o mundo, a guerra do Vietnã os comove, mas ela não lhes diz respeito verdadeiramente".
Um mês e meio depois, os franceses não podiam mais se queixar de tédio. Paris estava em chamas, o país parecia um vulcão em erupção.
Num documentário sobre maio de 68, recentemente mostrado num canal de TV, pode-se ver o primeiro efeito concreto da revolta nas ruas de Paris. O governo mandou asfaltar todas as ruas de paralelepípedos da capital.
Nunca mais os estudantes teriam essa arma ao alcance da mão para lançar na polícia. Nunca mais os paralelepípedos voariam como naquele início de primavera.
Maio de 68 pelo retrovisor do Le Monde
Era maio de 1968. A guerra do Vietnã dividia a primeira página do “Le Monde” com as manifestações dos estudantes no Quartier Latin. O movimento estudantil se associa ao movimento operário para desencadear a maior greve geral que a França já viveu. No maio de 68 francês, os trabalhadores fazem conquistas históricas: aumento do salário mínimo, redução do tempo de trabalho e diminuição da idade de aposentadoria.
O jornal Le Monde deu um presente inestimável aos leitores durante o mês de maio: numa página interna, editou todo dia a primeira página do mesmo dia de maio de 1968. Dia a dia, pudemos acompanhar a evolução daquele maio agitado e particularmente fecundo para o movimento social francês.
O Le Monde de 68 era outro jornal. Não no espírito, pois era o mesmo cotidiano de jornalistas, com texto analítico, fundado por Hubert Beuve-Méry, ainda vivo. Mas, na forma, era outro.
Do atual, tinha apenas o título em letras góticas. A forma gráfica era severa, não havia imagens. E, sobretudo, não tinha os graves problemas econômicos do grupo, que ameaçam o emprego de dezenas de jornalistas.
segunda-feira, 9 de junho de 2008
O debate Badiou-Zizek
Um agitado e de frases entrecortadas, outro pausado e professoral, os dois filósofos falam em Paris sobre comunismo e anti-semitismo
O encontro dos filósofos Alain Badiou e Slavoj Zizek, em 16 de maio passado, em Paris, foi um show de inteligência e bom humor. Zizek era convidado do seminário anual que Badiou realiza na Escola Normal Superior, templo da intelligentsia francesa, onde Lacan e Derrida fizeram seminários muito concorridos. A famosa e prestigiosa "Normale Sup" forma parte da nata de intelectuais franceses até hoje.
O auditório começou a se encher uma hora antes do início do seminário. Zizek chegou pontualmente, acompanhado de Badiou. Descontraído, o esloveno vestia camiseta cinza. Mais tradicionalista, Badiou vestia uma camisa pólo de manga comprida. As diferenças de estilo começavam no figurino. A origem, a língua, os campos de interesse, o temperamento, tudo parece separar esses dois filósofos, que se dizem ligados por profunda amizade.
“Somos unidos pela amizade e temos os mesmos inimigos”, disse Badiou ao apresentar Zizek. O filósofo e psicanalista esloveno foi imediatamente interpelado por um homem do fundo da sala que gritou: “Zizek, você é um estalinista”. O discurso do desconhecido era desconexo. O público de mais de 300 pessoas, algumas de pé, o fez calar-se pedindo silêncio.
Os dois são freqüentemente acusados de “revolucionários” pelos chamados “novos filósofos” da década de 70 (Bernard-Henri Lévy e André Glucksmann, sobretudo). Lévy e Glucksmann são considerados por muitos como “novos reacionários”, pois se tornaram anticomunistas militantes.
Horizonte emancipatório
O que une Zizek e Badiou, como ambos frisaram, é a convicção de que o “desastre obscuro” do stalinismo e o fracasso do socialismo real não invalidam o horizonte de emancipação radical que é o comunismo, idéia que eles defendem cada um a sua maneira.
“É preciso reabilitar o comunismo. Mas não no sentido de uma restauração de algo que fracassou”, explicou Zizek. “O que nos une é a reabilitação do comunismo. Hoje, as pessoas de esquerda aceitam sem problemas o capitalismo, contentando-se em reivindicar um pouco de ‘tolerância’, um pouco de ‘justiça’. Mas será que o horizonte final da esquerda é esse capitalismo global ‘à visage humain’ (com rosto humano)?”
Ao apresentar Zizek, Badiou explicou que há uma diferença de horizonte filosófico entre os dois. Enquanto seu horizonte se resume à tensão entre Platão e Sartre ou entre a idéia e a liberdade, o horizonte do esloveno é a tensão entre o idealismo alemão (Hegel) e Lacan.
Badiou mostrou que há também diferença de horizonte político. “O meu é a seqüência da luta anticolonial, seguida do Maio de 68 e a experiência fundamental do maoísmo francês”. Quanto a Zizek, Badiou o vê como alguém que se origina “de um país do antigo bloco socialista com a história de uma heresia periférica, isto é, a heresia iugoslava de Tito em relação ao stalinismo”.
Os dois filósofos têm em comum um interesse pelo cinema, além de serem ambos grandes ouvintes das óperas de Wagner, que já foram objeto de estudos de ambos.
Mas, apesar de estarem de acordo sobre a “hipótese comunista”, como a chama Badiou, Zizek e ele têm estilos totalmente diferentes. Badiou fala pausadamente, numa língua erudita e elegante, num tom professoral. Ao ouvi-lo, é impossível esquecer que se está diante de um mestre.
Zizek é agitado, fala com as mãos, pega nos cabelos. Ele se desculpa por falar francês com sotaque e usa frases muitas vezes entrecortadas, numa impressão de que a articulação da língua francesa vai mais devagar que seu pensamento em ebulição. Ele fala nervosamente, movimentando as mãos com tiques como o que o leva a puxar a camisa de malha.
"Tribunal do povo"
Se as idéias são próximas, a enunciação delas não pode ser mais diferente.
Ao tomar a palavra, em vez de fazê-lo num tom professoral, Zizek disse que ia fazer um simulacro de “tribunal do povo”, no qual defenderia seu amigo Badiou, acusado injustamente de anti-semitismo e de universalismo por causa de alguns de seus livros.
”Nós dois combatemos o anti-semitismo por princípio”, afirma Zizek.
“Nenhum acordo com o anti-semitismo é possível. Nenhuma razão pode ser invocada para tolerar o anti-semitismo. Também não se pode minimizar Auschwitz em nome do apoio aos palestinos. Isso é uma obscenidade. Mas existe um anti-semitismo sionista que critica os judeus que não se identificam totalmente com o projeto do Estado de Israel, utilizando a mesma retórica dos ‘antidreyfusards’ no fim do século 19: a mesma acusação de cosmopolitismo, de traição à pátria”.
Zizek não concorda com os que tentam fazer uma aproximação dos “totalitarismos”. Ele diz que nazismo e stalinismo são coisas totalmente diferentes. E justifica:
”Mesmo os grandes processos públicos monstruosos do stalinismo falam de uma lógica totalmente diferente da lógica do nazismo. O processo político, a confissão em si já significa que formalmente se obedece à necessidade de demonstrar a culpa do acusado”.
“No caso de Auschwitz, os nazistas não tinham nada a demonstrar. Era suficiente provar que você era judeu. Você era culpado não pelo que tinha feito, mas pelo que você era”, concluiu.
Zizek explica que, durante o “desastre obscuro” do stalinismo, que instaurou o terror por 12 anos – de 1925 a 1937 – o lugar mais perigoso era justamente o ápice da nomenklatura, pois nesse período 80% dos membros do comitê central do Partido Comunista da União Soviética foram eliminados. E isso não se viu no nazismo.
Enigma
Os dois se aproximam na análise que fazem do stalinismo, que Badiou denominou “desastre obscuro”.
Zizek diz que o stalinismo foi e permanece muito enigmático e as análises feitas até hoje não são satisfatórias. “O horror verdadeiro do stalinismo deve ser estabelecido pelos intelectuais de esquerda”, pensa Zizek, para quem os chamados “novos filósofos” tinham tal ódio dos comunistas que foram incapazes de analisar o verdadeiro horror do stalinismo.
Zizek deixa em aberto o caminho defendido por ele e por Badiou, a “hipótese comunista”, que se opõe à globalização neoliberal: “Não gosto da esquerda que usa fórmulas. A propriedade privada não funciona. Mas o Estado também não funciona. Querem nos apresentar como velhos totalitários, mas a realidade é que pensamos que esse problema ainda não foi resolvido”. m
Polêmico, esloveno transita por vários temas
Os franceses descobriram há poucos anos esse psicanalista e filósofo esloveno, cuja obra se situa no centro dos debates que procuram definir uma política de emancipação verdadeira num mundo dominado pela globalização capitalista.
Nascido em Liubliana em 1949, Zizek, que é colunista do Mais!, é reconhecido no mundo todo como um pensador do prestígio de Sartre, Bourdieu, Lacan ou Derrida. Vive entre dois aviões, fazendo seminários e conferências, sobretudo nos EUA, onde é freqüentemente convidado de várias universidades.
Muitos intelectuais criticam a bulimia intelectual desse lacaniano, que o leva a escrever sobre assuntos tão diversos como fundamentalismo, tolerância, globalização, subjetividade, pós-modernidade, multiculturalismo, pós-marxismo e cinema.
Zizek é considerado um não-conformista que assume freqüentemente um tom provocador. Especialista em Hegel, sobre quem prepara um livro a ser editado por Alain Badiou, Zizek pensa que o trabalho do filósofo não é dizer o que é o mundo, mas questionar permanentemente e pôr em dúvida suas próprias formulações ideológicas. É um conferencista empolgado que não se intimida diante de temas controvertidos.
É colaborador de importantes revistas, como "Lacanian Ink" (EUA), "New Left Review" e "London Review of Books" (Reino Unido). (LDP)
Herdeiro de Sartre, francês é crítico de Sarkozy
Alain Badiou, 70, se situa como filósofo na tensão entre Platão e Sartre, ou seja, entre a idéia e a liberdade. É hoje o filósofo francês vivo mais lido e estudado nos EUA, com grande influência também na América Latina. É herdeiro de Sartre, para quem filosofia e engajamento político são indissociáveis. Combateu o colonialismo, foi maoísta e hoje defende a causa dos "sans-papiers", trabalhadores estrangeiros clandestinos que lutam por regularização.
Badiou foi muito influenciado pelo marxista Louis Althusser, seu professor na Escola Normal, mas é também romancista e dramaturgo.
Em seu livro "De Quoi Sarkozy Est-Il le Nom?" [Sarkozy É o Nome de Quê?, Éditions Lignes, 160 págs., 14, R$ 36], Badiou prevê que a França caminhe para "cair no modelo "ianque", de dominação dos ricos, do duro trabalho dos pobres, do controle de todos, da suspeita sistemática para com os estrangeiros".
Referindo-se ao atual presidente, Nicolas Sarkozy, diz ser ele o produto do medo ou produto de uma história francesa entre dois pólos: revolução e contra-revolução, Resistência e colaboração, desejo de liberdade e igualdade e desejo de autoritarismo e ordem.
Nas primeiras semanas após o lançamento, o livro vendeu 20 mil exemplares, um sucesso extraordinário para Badiou. Em geral, seus livros não vendem mais de 3.000 cópias. (LDP)
*Publicado originalmente no Suplemento MAIS da Folha de São Paulo.
O encontro dos filósofos Alain Badiou e Slavoj Zizek, em 16 de maio passado, em Paris, foi um show de inteligência e bom humor. Zizek era convidado do seminário anual que Badiou realiza na Escola Normal Superior, templo da intelligentsia francesa, onde Lacan e Derrida fizeram seminários muito concorridos. A famosa e prestigiosa "Normale Sup" forma parte da nata de intelectuais franceses até hoje.
O auditório começou a se encher uma hora antes do início do seminário. Zizek chegou pontualmente, acompanhado de Badiou. Descontraído, o esloveno vestia camiseta cinza. Mais tradicionalista, Badiou vestia uma camisa pólo de manga comprida. As diferenças de estilo começavam no figurino. A origem, a língua, os campos de interesse, o temperamento, tudo parece separar esses dois filósofos, que se dizem ligados por profunda amizade.
“Somos unidos pela amizade e temos os mesmos inimigos”, disse Badiou ao apresentar Zizek. O filósofo e psicanalista esloveno foi imediatamente interpelado por um homem do fundo da sala que gritou: “Zizek, você é um estalinista”. O discurso do desconhecido era desconexo. O público de mais de 300 pessoas, algumas de pé, o fez calar-se pedindo silêncio.
Os dois são freqüentemente acusados de “revolucionários” pelos chamados “novos filósofos” da década de 70 (Bernard-Henri Lévy e André Glucksmann, sobretudo). Lévy e Glucksmann são considerados por muitos como “novos reacionários”, pois se tornaram anticomunistas militantes.
Horizonte emancipatório
O que une Zizek e Badiou, como ambos frisaram, é a convicção de que o “desastre obscuro” do stalinismo e o fracasso do socialismo real não invalidam o horizonte de emancipação radical que é o comunismo, idéia que eles defendem cada um a sua maneira.
“É preciso reabilitar o comunismo. Mas não no sentido de uma restauração de algo que fracassou”, explicou Zizek. “O que nos une é a reabilitação do comunismo. Hoje, as pessoas de esquerda aceitam sem problemas o capitalismo, contentando-se em reivindicar um pouco de ‘tolerância’, um pouco de ‘justiça’. Mas será que o horizonte final da esquerda é esse capitalismo global ‘à visage humain’ (com rosto humano)?”
Ao apresentar Zizek, Badiou explicou que há uma diferença de horizonte filosófico entre os dois. Enquanto seu horizonte se resume à tensão entre Platão e Sartre ou entre a idéia e a liberdade, o horizonte do esloveno é a tensão entre o idealismo alemão (Hegel) e Lacan.
Badiou mostrou que há também diferença de horizonte político. “O meu é a seqüência da luta anticolonial, seguida do Maio de 68 e a experiência fundamental do maoísmo francês”. Quanto a Zizek, Badiou o vê como alguém que se origina “de um país do antigo bloco socialista com a história de uma heresia periférica, isto é, a heresia iugoslava de Tito em relação ao stalinismo”.
Os dois filósofos têm em comum um interesse pelo cinema, além de serem ambos grandes ouvintes das óperas de Wagner, que já foram objeto de estudos de ambos.
Mas, apesar de estarem de acordo sobre a “hipótese comunista”, como a chama Badiou, Zizek e ele têm estilos totalmente diferentes. Badiou fala pausadamente, numa língua erudita e elegante, num tom professoral. Ao ouvi-lo, é impossível esquecer que se está diante de um mestre.
Zizek é agitado, fala com as mãos, pega nos cabelos. Ele se desculpa por falar francês com sotaque e usa frases muitas vezes entrecortadas, numa impressão de que a articulação da língua francesa vai mais devagar que seu pensamento em ebulição. Ele fala nervosamente, movimentando as mãos com tiques como o que o leva a puxar a camisa de malha.
"Tribunal do povo"
Se as idéias são próximas, a enunciação delas não pode ser mais diferente.
Ao tomar a palavra, em vez de fazê-lo num tom professoral, Zizek disse que ia fazer um simulacro de “tribunal do povo”, no qual defenderia seu amigo Badiou, acusado injustamente de anti-semitismo e de universalismo por causa de alguns de seus livros.
”Nós dois combatemos o anti-semitismo por princípio”, afirma Zizek.
“Nenhum acordo com o anti-semitismo é possível. Nenhuma razão pode ser invocada para tolerar o anti-semitismo. Também não se pode minimizar Auschwitz em nome do apoio aos palestinos. Isso é uma obscenidade. Mas existe um anti-semitismo sionista que critica os judeus que não se identificam totalmente com o projeto do Estado de Israel, utilizando a mesma retórica dos ‘antidreyfusards’ no fim do século 19: a mesma acusação de cosmopolitismo, de traição à pátria”.
Zizek não concorda com os que tentam fazer uma aproximação dos “totalitarismos”. Ele diz que nazismo e stalinismo são coisas totalmente diferentes. E justifica:
”Mesmo os grandes processos públicos monstruosos do stalinismo falam de uma lógica totalmente diferente da lógica do nazismo. O processo político, a confissão em si já significa que formalmente se obedece à necessidade de demonstrar a culpa do acusado”.
“No caso de Auschwitz, os nazistas não tinham nada a demonstrar. Era suficiente provar que você era judeu. Você era culpado não pelo que tinha feito, mas pelo que você era”, concluiu.
Zizek explica que, durante o “desastre obscuro” do stalinismo, que instaurou o terror por 12 anos – de 1925 a 1937 – o lugar mais perigoso era justamente o ápice da nomenklatura, pois nesse período 80% dos membros do comitê central do Partido Comunista da União Soviética foram eliminados. E isso não se viu no nazismo.
Enigma
Os dois se aproximam na análise que fazem do stalinismo, que Badiou denominou “desastre obscuro”.
Zizek diz que o stalinismo foi e permanece muito enigmático e as análises feitas até hoje não são satisfatórias. “O horror verdadeiro do stalinismo deve ser estabelecido pelos intelectuais de esquerda”, pensa Zizek, para quem os chamados “novos filósofos” tinham tal ódio dos comunistas que foram incapazes de analisar o verdadeiro horror do stalinismo.
Zizek deixa em aberto o caminho defendido por ele e por Badiou, a “hipótese comunista”, que se opõe à globalização neoliberal: “Não gosto da esquerda que usa fórmulas. A propriedade privada não funciona. Mas o Estado também não funciona. Querem nos apresentar como velhos totalitários, mas a realidade é que pensamos que esse problema ainda não foi resolvido”. m
Polêmico, esloveno transita por vários temas
Os franceses descobriram há poucos anos esse psicanalista e filósofo esloveno, cuja obra se situa no centro dos debates que procuram definir uma política de emancipação verdadeira num mundo dominado pela globalização capitalista.
Nascido em Liubliana em 1949, Zizek, que é colunista do Mais!, é reconhecido no mundo todo como um pensador do prestígio de Sartre, Bourdieu, Lacan ou Derrida. Vive entre dois aviões, fazendo seminários e conferências, sobretudo nos EUA, onde é freqüentemente convidado de várias universidades.
Muitos intelectuais criticam a bulimia intelectual desse lacaniano, que o leva a escrever sobre assuntos tão diversos como fundamentalismo, tolerância, globalização, subjetividade, pós-modernidade, multiculturalismo, pós-marxismo e cinema.
Zizek é considerado um não-conformista que assume freqüentemente um tom provocador. Especialista em Hegel, sobre quem prepara um livro a ser editado por Alain Badiou, Zizek pensa que o trabalho do filósofo não é dizer o que é o mundo, mas questionar permanentemente e pôr em dúvida suas próprias formulações ideológicas. É um conferencista empolgado que não se intimida diante de temas controvertidos.
É colaborador de importantes revistas, como "Lacanian Ink" (EUA), "New Left Review" e "London Review of Books" (Reino Unido). (LDP)
Herdeiro de Sartre, francês é crítico de Sarkozy
Alain Badiou, 70, se situa como filósofo na tensão entre Platão e Sartre, ou seja, entre a idéia e a liberdade. É hoje o filósofo francês vivo mais lido e estudado nos EUA, com grande influência também na América Latina. É herdeiro de Sartre, para quem filosofia e engajamento político são indissociáveis. Combateu o colonialismo, foi maoísta e hoje defende a causa dos "sans-papiers", trabalhadores estrangeiros clandestinos que lutam por regularização.
Badiou foi muito influenciado pelo marxista Louis Althusser, seu professor na Escola Normal, mas é também romancista e dramaturgo.
Em seu livro "De Quoi Sarkozy Est-Il le Nom?" [Sarkozy É o Nome de Quê?, Éditions Lignes, 160 págs., 14, R$ 36], Badiou prevê que a França caminhe para "cair no modelo "ianque", de dominação dos ricos, do duro trabalho dos pobres, do controle de todos, da suspeita sistemática para com os estrangeiros".
Referindo-se ao atual presidente, Nicolas Sarkozy, diz ser ele o produto do medo ou produto de uma história francesa entre dois pólos: revolução e contra-revolução, Resistência e colaboração, desejo de liberdade e igualdade e desejo de autoritarismo e ordem.
Nas primeiras semanas após o lançamento, o livro vendeu 20 mil exemplares, um sucesso extraordinário para Badiou. Em geral, seus livros não vendem mais de 3.000 cópias. (LDP)
*Publicado originalmente no Suplemento MAIS da Folha de São Paulo.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
A tragédia chinesa e os filhos únicos
O terremoto na China enlutou milhares de famílias e revelou o avesso da política do filho único instituída na época de Mao. No terremoto, morreram milhares de crianças que se encontravam em escolas construídas sem a tecnologia anti-terremoto. As mães tinham festejado o dia das mães na véspera do tremor de terra de Sichuan com seus filhos únicos que pereceriam no dia seguinte.
Este é o primeiro desastre humanitário da geração do filho único. Esta semana, quinze dias depois do terremoto, o governo chinês anunciou uma permissão para um segundo filho às mulheres que perderam o filho único. O problema é que muitas dessas mulheres já passaram da idade de procriar. Outras perderam os maridos, outras trabalham longe das famílias e não podem se dar ao luxo de recomeçar. Hoje, calcula-se que existam 40 milhões de crianças deixadas com os avós no interior por pais que vão trabalhar nas cidades grandes chinesas em busca de trabalho.
Desde 1980, a China aplica a política do filho único por família nas cidades, dois filhos entre as minorias étnicas e a possibilidade de ter mais um filho nas famílias do campo, cujo primeiro filho é uma menina. Quem desrespeita essas normas, paga uma alta multa. Uma criança para dois pais e quatro avós significa uma criança para seis adultos. Em 2020, haverá mais velhos que adultos na China.
Se não existisse esse rígido controle demográfico, em vez dos atuais 1 bilhão e 300 milhões de chineses, o país teria uma população de 300 milhões de pessoas a mais, o que teria freado o extraordinário desenvolvimento chinês. Mas, segundo observadores chineses, essa geração de filhos únicos pensa que tudo lhes é devido, não aprendeu a dividir nada. Em conseqüência, entre os casais oriundos de famílias de filhos únicos há maior número de divórcios, segundo um estudo sociológico.
Qual a lição que o país vai tirar da tragédia? Será possível liberar o número de filhos em breve? O planeta será capaz de alimentar uma população que cresce sem nenhum controle?
Para Dior, Sharon é linda. De boca fechada
Leio que Christian Dior tenta apagar um fogo aceso por Sharon Stone durante o festival de Cannes. A atriz declarou que a catástrofe do terremoto da China era o “castigo cármico” pela política chinesa no Tibet. Dior pediu desculpas ao povo chinês pela afirmação da atriz e retirou todos os posters da estrela em anúncios da marca francesa das suas lojas de Pequim.
Depois que Sharon começou há três anos a fazer anúncios da marca Dior, a liberdade de expressão da atriz se mostra uma coisa no mínimo delicada. A solidariedade de Sharon Stone, cujo rosto está associado à marca Dior por um contrato de muitos milhões de dólares, pode ser um desastre para o grupo LVMH, proprietário da marca. Suas críticas à política de repressão chinesa no Tibet podem fazer as vendas despencarem se os chineses resolverem boicotar Dior que tem 68 lojas na China.
A marca de luxo francesa se apressou em pedir desculpas aos chineses e dizer que não concorda em nada com Sharon. Que ela tenha as simpatias políticas pelo Dalai Lama, tudo bem, mas que não venha atrapalhar as vendas dos produtos Dior. Para Dior, a engajada Sharon é mais interessante de boca fechada.
Gatos escaldados, os franceses já foram alvo da ira chinesa no mês de março. Os supermercados Carrefour da China amargaram muitos dias de quedas nas vendas devido ao boicote chinês depois dos protestos na passagem da tocha olímpica por Paris. No dia em que a tocha desfilou por Paris, manifestantes pró-Tibet, franceses e tibetanos, gritavam slogans anti-chineses e conclamavam ao boicote dos Jogos Olímpicos. Quem foi boicotado foram os produtos franceses.
Dior correu para apagar o incêndio e evitar uma onda de boicote de seus produtos. Mas os jornais franceses anunciam uma nova onde de boicote: os chineses suspenderam tdos os pacotes turísticos para a França.
O efeito tocha olímpica continua.
Campeões do mundo de férias
Na França, as férias são sagradas. Quando o verão vai se aproximando, os franceses têm um assunto onipresente. Quanto mais perto se chega de julho e agosto, mais se ouve frases do tipo: “Eu saio de férias na semana que vem”. “Falaremos depois das férias”. “Onde você vai passar as férias?”
A impressão que se tem é que ninguém fica no lugar no verão. Nos dois meses do alto verão, todo o país está em permanente movimento, com pessoas saindo e outras chegando de férias. Em Paris, um grande número de lojas, padarias, açougues, floristas e mesmo pequenas empresas fecham as portas em férias coletivas, sobretudo no mês de agosto.
Na língua francesa, existe até mesmo um adjetivo para designar quem sai de férias em julho e em agosto: são os “juillettistes” e os “aoûtiens”. É assim que os “vancanciers” são chamados, de acordo com o mês em que saem, seja para se bronzear numa praia no próprio país, seja em busca de aventuras em países “exotiques”. No verão, os franceses se dividem em “juillettistes” e “aoûtiens”.
Os franceses dão tanta importância às viagens de férias que existem associações para proporcionar férias às crianças de famílias desfavorecidas. Essas pessoas são vistas como privadas de um direito fundamental : o direito de sair de férias e conhecer novos horizontes.
Eu tinha a impressão de que os franceses são o povo que mais tira férias no mundo. Minha “observação do terreno” apontava nesse sentido. Mas uma coisa é o achismo. Outra, são as estatísticas. Agora posso afirmar com base em dados publicados : os franceses são os “campeões do mundo” de férias. Quem diz é uma pesquisa internacional do Instituto Harris Interactive para o site de viagens online Expédia.fr.
Em 2008, os italianos tiveram 33 dias de férias, seguidos dos espanhóis, (31 dias), dos holandeses e austríacos (28 dias). Os britânicos tiveram 26 dias e os alemães, 27 dias. O estudo diz que os americanos tiveram apenas 14 dias de férias.
Quanto aos franceses, eles tiveram 37 dias de férias em média.
Bons vivants, eles sabem apreciar os bons vinhos, as boas comidas e as férias. Isso pode estar na origem da longevidade extraordinária deles, a segunda logo depois da longevidade dos japoneses.
Este é o primeiro desastre humanitário da geração do filho único. Esta semana, quinze dias depois do terremoto, o governo chinês anunciou uma permissão para um segundo filho às mulheres que perderam o filho único. O problema é que muitas dessas mulheres já passaram da idade de procriar. Outras perderam os maridos, outras trabalham longe das famílias e não podem se dar ao luxo de recomeçar. Hoje, calcula-se que existam 40 milhões de crianças deixadas com os avós no interior por pais que vão trabalhar nas cidades grandes chinesas em busca de trabalho.
Desde 1980, a China aplica a política do filho único por família nas cidades, dois filhos entre as minorias étnicas e a possibilidade de ter mais um filho nas famílias do campo, cujo primeiro filho é uma menina. Quem desrespeita essas normas, paga uma alta multa. Uma criança para dois pais e quatro avós significa uma criança para seis adultos. Em 2020, haverá mais velhos que adultos na China.
Se não existisse esse rígido controle demográfico, em vez dos atuais 1 bilhão e 300 milhões de chineses, o país teria uma população de 300 milhões de pessoas a mais, o que teria freado o extraordinário desenvolvimento chinês. Mas, segundo observadores chineses, essa geração de filhos únicos pensa que tudo lhes é devido, não aprendeu a dividir nada. Em conseqüência, entre os casais oriundos de famílias de filhos únicos há maior número de divórcios, segundo um estudo sociológico.
Qual a lição que o país vai tirar da tragédia? Será possível liberar o número de filhos em breve? O planeta será capaz de alimentar uma população que cresce sem nenhum controle?
Para Dior, Sharon é linda. De boca fechada
Leio que Christian Dior tenta apagar um fogo aceso por Sharon Stone durante o festival de Cannes. A atriz declarou que a catástrofe do terremoto da China era o “castigo cármico” pela política chinesa no Tibet. Dior pediu desculpas ao povo chinês pela afirmação da atriz e retirou todos os posters da estrela em anúncios da marca francesa das suas lojas de Pequim.
Depois que Sharon começou há três anos a fazer anúncios da marca Dior, a liberdade de expressão da atriz se mostra uma coisa no mínimo delicada. A solidariedade de Sharon Stone, cujo rosto está associado à marca Dior por um contrato de muitos milhões de dólares, pode ser um desastre para o grupo LVMH, proprietário da marca. Suas críticas à política de repressão chinesa no Tibet podem fazer as vendas despencarem se os chineses resolverem boicotar Dior que tem 68 lojas na China.
A marca de luxo francesa se apressou em pedir desculpas aos chineses e dizer que não concorda em nada com Sharon. Que ela tenha as simpatias políticas pelo Dalai Lama, tudo bem, mas que não venha atrapalhar as vendas dos produtos Dior. Para Dior, a engajada Sharon é mais interessante de boca fechada.
Gatos escaldados, os franceses já foram alvo da ira chinesa no mês de março. Os supermercados Carrefour da China amargaram muitos dias de quedas nas vendas devido ao boicote chinês depois dos protestos na passagem da tocha olímpica por Paris. No dia em que a tocha desfilou por Paris, manifestantes pró-Tibet, franceses e tibetanos, gritavam slogans anti-chineses e conclamavam ao boicote dos Jogos Olímpicos. Quem foi boicotado foram os produtos franceses.
Dior correu para apagar o incêndio e evitar uma onda de boicote de seus produtos. Mas os jornais franceses anunciam uma nova onde de boicote: os chineses suspenderam tdos os pacotes turísticos para a França.
O efeito tocha olímpica continua.
Campeões do mundo de férias
Na França, as férias são sagradas. Quando o verão vai se aproximando, os franceses têm um assunto onipresente. Quanto mais perto se chega de julho e agosto, mais se ouve frases do tipo: “Eu saio de férias na semana que vem”. “Falaremos depois das férias”. “Onde você vai passar as férias?”
A impressão que se tem é que ninguém fica no lugar no verão. Nos dois meses do alto verão, todo o país está em permanente movimento, com pessoas saindo e outras chegando de férias. Em Paris, um grande número de lojas, padarias, açougues, floristas e mesmo pequenas empresas fecham as portas em férias coletivas, sobretudo no mês de agosto.
Na língua francesa, existe até mesmo um adjetivo para designar quem sai de férias em julho e em agosto: são os “juillettistes” e os “aoûtiens”. É assim que os “vancanciers” são chamados, de acordo com o mês em que saem, seja para se bronzear numa praia no próprio país, seja em busca de aventuras em países “exotiques”. No verão, os franceses se dividem em “juillettistes” e “aoûtiens”.
Os franceses dão tanta importância às viagens de férias que existem associações para proporcionar férias às crianças de famílias desfavorecidas. Essas pessoas são vistas como privadas de um direito fundamental : o direito de sair de férias e conhecer novos horizontes.
Eu tinha a impressão de que os franceses são o povo que mais tira férias no mundo. Minha “observação do terreno” apontava nesse sentido. Mas uma coisa é o achismo. Outra, são as estatísticas. Agora posso afirmar com base em dados publicados : os franceses são os “campeões do mundo” de férias. Quem diz é uma pesquisa internacional do Instituto Harris Interactive para o site de viagens online Expédia.fr.
Em 2008, os italianos tiveram 33 dias de férias, seguidos dos espanhóis, (31 dias), dos holandeses e austríacos (28 dias). Os britânicos tiveram 26 dias e os alemães, 27 dias. O estudo diz que os americanos tiveram apenas 14 dias de férias.
Quanto aos franceses, eles tiveram 37 dias de férias em média.
Bons vivants, eles sabem apreciar os bons vinhos, as boas comidas e as férias. Isso pode estar na origem da longevidade extraordinária deles, a segunda logo depois da longevidade dos japoneses.
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