segunda-feira, 1 de março de 2010
Contra o assassinato legal
« A pena de morte é a negação absoluta dos direitos humanos. Trata-se de um assassinato cometido pelo Estado com premeditação e a sangue frio. Esse castigo cruel, inumano e degradante é imposto em nome da Justiça”. (Anistia Internacional).
O 4° Congresso Mundial contra a Pena de Morte se reuniu nos dias 24, 25 e 26 de fevereiro em Genebra e em sua declaração final afirma que a pena de morte “não pode em nenhum caso ser considerada uma resposta apropriada às violências e às tensões por que passam as sociedades contemporâneas, apesar da carga emocional que elas suscitam, inclusive no contexto do terrorismo”.
Durante os debates, que acompanhei pela televisão e pelos jornais, abolicionistas do mundo inteiro discutiram o assassinato de Estado, para tentar continuar avançando em direção à abolição universal. Cento e quarenta países não admitem mais a pena capital. Mas essa tendência é recente. Infelizmente um grande número de países como a China, os Estados Unidos e o Japão ainda executam homens e mulheres, muitas vezes inocentes do crime pelo qual são acusados. Qual o crime de Jesus Cristo, condenado à pena capital? Nos Estados Unidos, desde 1976, mais de 100 pessoas foram libertadas dos corredores da morte, depois de terem sido inocentadas. Outros acusados foram executados apesar de sérias dúvidas sobre sua real culpa.
Um americano que esteve no corredor da morte e foi inocentado esteve em Genebra para dar testemunho do que é viver com uma condenação à morte : é lutar contra a loucura a cada minuto num isolamento total.
A mulher de outro condenado, o americano Hank Skinner, de 45 anos, preso desde os 31 anos, acusado da morte de sua companheira e das duas filhas dela, também participou ativamente dos trabalhos. Skinner clama sua inocência e sua atual mulher, a francesa Sandrine Ageorges, com quem ele se casou na prisão, vive atualmente em função da luta pela libertação de seu marido, que pede sem sucesso a realização de testes de DNA para provar sua inocência. A Justiça americana se recusa a fazê-los e sua execução está marcada para 24 de março deste ano. Na semana passada, o canal franco-alemão ARTE deu uma entrevista exclusiva com Skinner, que falou de sua inocência e da absoluta necessidade dos testes DNA. Revoltante, quando se lê que o processo dele foi cheio de falhas e irregularidades.
Hoje, 103 países aboliram a pena de morte em qualquer circunstância, 38 aboliram em tempos de paz ou aboliram de fato na medida em que não executam há mais de dez anos.
Os campeões da pena de morte em 2008 foram: China (1718 assassinatos de Estado), Irã (346), Arábia Saudita (102), Estados Unidos (37), Paquistão (36), Iraque (34), Vietnã (19), Afeganistão (17), Coréia do Norte (15) e Japão (15).
Gaza – strophe
Gaza-strophe, le jour d’après (trocadilho com catastrophe) é o novo filme dos cineastas Samir Abdallah e Khéridine Mabrouk, recém-lançado em Paris. Uma catástrofe como diz o título. As testemunhas do ataque de Estado de Israel são inúmeras, mostram para a câmera um território devastado, contam suas vidas sem horizonte.
Obviamente, as imagens são de depois da guerra uma vez que Israel proibiu a entrada de qualquer jornalista em Gaza durante os bombardeios, de dezembro de 2008 a janeiro de 2009. O que se vê são casas, hospitais e escolas destruídos, muitos escombros, campos devastados. Resultado das bombas de fragmentação e de fósforo, proibidas pela ONU mas usadas abundantemente por Israel contra um povo acuado entre o mar e uma fronteira fechada a cadeado por Israel.
Como era de se esperar, houve pressões de grupos judaicos para que um canal de TV francês não transmitisse o documentário. A guerra de imagens é tão importante quando a verdadeira guerra, todo mundo sabe. Mas a União judaica francesa pela paz se colocou claramente do lado dos que defendiam a exibição do filme. “Fazer com que se ouça e veja o testemunho único que representa o filme Gaza-strophe é um ato de cidadania e de moral. O silêncio que alguns querem impor sobre Gaza é que seria condenável e fora da lei”, dizia um comunicado da Union Juive Française pour la Paix assinado por Michèle Sibony e André Rozevègue.
A historiadora Esther Benbassa, autora, entre outros livros, da Petite histoire du judaïsme (Paris, Librio, 2007) e Dictionnaire des mondes juifs (Paris, Larousse, 2008, com J.C. Attias) nasceu em Istambul, viveu alguns anos em Israel e hoje vive na França onde é professora e pesquisadora. No ano passado, ela lançou o livro Etre Juif après Gaza (Paris, CNRS Editions, 2009) para falar do mal-estar dos judeus depois da guerra de Israel contra Gaza. Ela resume seu dilema: “Não posso ser judia sem Israel nem com Israel tal como ele é hoje”.
O livro é de uma honestidade admirável. Um trecho que revela a intelectual engajada: “Depois de Gaza, um novo muro se constói na diáspora, o muro da impossível comunicação entre os judeus e os que os cercam, que não podem compreender a excessiva tolerância daqueles quando se trata de Israel. Quem quer viver atrás desse muro? Até quando? Israel tal como se mostra hoje, Israel que Gaza produziu ou revelou, esse Israel não poderá responder às aspirações dos judeus da diáspora, nem continuar a beneficiar da aprovação da opinião pública mundial. Israel pós-Gaza não é mais, com certeza, o que os judeus e os israelenses capazes de ignorar a propaganda oficial, esperam dele... É preciso que um dia ou outro pare o estranho e inconsciente cálculo pelo qual cada israelense morto vem inelutavelmente se somar aos seis milhões de vítimas do genocídio, diante do qual o número de mortos do outro campo, por mais importante que seja, parece sempre irrisório”.
Retour sur la Question Juive
No seu livro “Retour Sur la Question Juive” ("Retorno à Questão Judaica", ed. Albin Michel, 321 págs.), lançado recentemente em Paris, a historiadora da psicanálise Elisabeth Roudinesco volta a um tema polêmico já tratado por Marx e por Sartre. Ela rememora a história do antissemitismo na Europa, que teve seu ponto culminante na tentativa nazista de extermínio dos judeus.
A obra trata também do nascimento do sionismo, da criação de Israel, um Estado sui generis, que ela vê ameaçado pelos conflitos internos. “Defendo soluções para evitar um mundo que seria o pior pesadelo, o de judeus racistas e árabes antissemitas. E nesse pesadelo já estamos”, diz ela na entrevista concedida à Tropico
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Feminismo versus feminismo
A filósofa, especialista do século XVIII francês, já tinha provocado grande polêmica na década de 80 ao escrever um livro para defender a tese de que o “instinto materno não existe”. L’amour en plus: l’histoire de l’amour maternel (1980) é um marco no feminismo francês. Seu novo livro se insurge contra as pressões sobre as mulheres para terem filhos, serem “boas mães” e amamentarem o maior tempo possível.
Há, segundo ela, uma tendência na sociedade em considerar anormais as mulheres que não querem ter filhos. Ela denuncia, ainda, a ideologia naturalista que tenta impor o aleitamento materno como a única opção aceitável para uma “boa mãe”. Badinter mostra que de 1980 para cá aumentou muito o número de mulheres que amamentam na França, onde 70% das mulheres deixam a maternidade amamentando o bebê. Com o incentivo ao aleitamento materno vindo de todos os lados, as que preferem dar a mamadeira se sentem culpadas.
A vida profissional das mulheres é a primeira coisa a ser sacrificada em nome da nova forma de ser mãe, segundo Badinter, que dá exemplos recentes de políticas francesas que incentivam o aleitamento e até mesmo, em nome da ecologia, as fraldas não-descartáveis. Segundo ela, essa ideologia naturalista acrescenta uma nova tarefa ao cotidiano das mulheres pois ela não vê nenhum homem disposto a lavar fraldas de pano depois de chegar do trabalho. Detalhe : na França a classe média não tem empregada doméstica e muitas vezes nem mesmo uma faxineira semanal.
“O feminismo está dividido em dois desde os anos 80: há o feminismo naturalista, diferencialista, vitimizado, que se impôs na sociedade ocidental. O tema da independência econômica das mulheres não se impõe mais e o feminismo que defende a igualdade parece estar adormecido” constata Elisabeth Badinter em entrevista ao Le Monde.
Os principais jornais e revistas abriram suas páginas para entrevistas com Badinter e deram voz às feministas que dela discordam. E são muitas a discordar. Libération publicou um texto assinado por quatro mulheres (uma engenheira, uma jornalista, uma assistente de direção e uma editora) cujo título não podia ser mais claro : “O feminismo de Badinter não é o nosso”.
Quanto a Belinda Cannone, uma pensadora do feminismo, ela lançou um livro chamado La tentation de Pénélope no qual atesta essa valorização da maternidade, uma “velha armadilha” e diz que a atual geração de mulheres se vê tentada a desfazer o que a outra geração construiu com lutas e longos combates. La tentation de Pénélope defende o universalismo, “que suspende toda diferença entre os seres para fazer deles cidadãos e pessoas, livres e iguais em direito”. Para Belinda Cannone, se as mulheres têm um útero, elas têm antes de tudo um cérebro. Cannone argumenta que quando podem exercer o poder, as mulheres nem sempre o fazem diferentemente dos homens. “Quando as mulheres fazem parte do exército elas não manifestam necessariamente virtudes morais superiores”. Quem não lembra da foto da jovem soldada pisando em prisioneiros nus e amarrados como cachorros na prisão iraquiana de Abou Ghraib?
Atenção, moedas falsas
Quando o euro foi lançado, surgiram álbuns especiais para colecionadores. Ganhei um deles e comecei uma coleção que já tem quase todas as moedas de dois euros, um euro e as diversas de centavos organizadas por país. As mais difíceis de se encontrar em circulação são as de três países europeus insignificantes geograficamente mas que “fabricam” seus próprios euros: Vaticano, San Marino e Mônaco.
Outro dia, meu marido chegou com um euro totalmente novo para minha coleção. Ele o viu rapidamente e pensou que eu não tinha. Me pareceu tão estranho que olhei duas vezes para saber de que país ele vinha. E descobri: de Botsuana, país que ainda não entrou para a União Europeia por vários motivos. O primeiro deles é não estar na Europa.
A moeda tem um número 5 mas foi dada como sendo um euro, com a qual tem alguma semelhança. Conversando outro dia com a caixa de uma loja, ela me disse que existem várias moedas parecidas com o euro que são postas em circulação por espertos de diversas latitudes.
Como a moeda de Botsuana não deve valer grandes coisas, quem recebe uma no lugar do euro sai sempre perdendo. A não ser que seja colecionador de moedas exóticas...
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Um jornalista israelense contra a indiferença do mundo
Essa frase não saiu da boca de nenhum membro do Hamas. É o título do prefácio escrito por Gideon Levy para a edição francesa de uma coletânea de seus artigos publicados na coluna Twilight Zone, no Haaretz, jornal de Israel do qual ele é um dos principais jornalistas. O livrinho se chama “Gaza – articles pour Haaretz – 2006-2009”, publicado pela editora La Fabrique de Eric Hazan.
“Eu me considero um patriota israelense”, diz Levy ao leitor francês. “Acho que os verdadeiros amigos de Israel são os que protestam contra sua política, contra a ocupação, contra o bloqueio e contra a guerra. A verdadeira amizade não consiste em dar sempre mais dinheiro ao drogado mas a estimulá-lo à desintoxicação”.
No prefácio, Gideon Levy (membro da conferência antiimperialista Axis for Peace organizada pelo Réseau Voltaire) conta que desde 2006 ele e todos os jornalistas israelenses estão proibidos de ir a Gaza, pelo bloqueio midiático imposto por Israel. Por isso, nem ele nem qualquer outro jornalista do mundo pôde cobrir a guerra de dezembro de 2008/janeiro de 2009 de Israel contra Gaza (“Plomb durci”), uma guerra “abominável, inútil, sem nenhum objetivo mas apoiada por uma sociedade entregue a uma onda de nacionalismo, militarismo, lavagem cerebral, mentiras, denegações e dissimulação”.
“Uma guerra que não foi uma guerra pois do outro lado não havia praticamente nenhuma resistência, nenhum combate. Foi uma ofensiva selvagem dirigida contra a população mais impotente do mundo, cercada e prisioneira, que não tinha para onde fugir, nem mesmo para o mar. Bombas de fósforo que queimam em carne viva, bombas de fragmentação que dispersam pregos para todos os lados, aviões com ou sem piloto, que lançam mísseis, bombardeios em todo o território, centenas de inocentes mortos simplesmente pelo fato de serem de Gaza. Os habitantes de Gaza, que são na maior parte filhos de refugiados que já viveram antes o terrível drama da criação de Israel, acabam de viver mais um episódio da tragédia que é suas vidas no dia-a-dia. Neste grande campo de concentração que é a Faixa de Gaza, eles são muito pobres, mas continuam humanos e calorosos. São prisioneiros mas continuam abertos aos outros”.
Talvez os leitores deste blog reajam dizendo que essa guerra desigual e injustificada foi condenada pela comunidade internacional. Como? Onde? Quem condenou? Bush nos extertores de seu (des)governo deu o sinal verde aos israelenses e fez um silêncio ensurdecedor à invasão e bombardeio de Gaza. Quanto à União Europeia, Gideon Levy relembra, para quem esqueceu, que no momento mais duro da guerra, quando choviam bombas destruindo tudo em Gaza (2400 casas destruídas, 30 mesquitas, 121 fábricas, 29 escolas, entre elas uma sob a proteção da ONU) uma delegação da presidência da União europeia foi a Jerusalém para dar o apoio da UE ao primeiro ministro Ehoud Barak! Em nome de todos os europeus, que não foram ouvidos para saber se estavam de acordo !
Gideon Levy diz que hoje a ocupação é mais “brutal, perversa e desumana do que nunca”. Mas quando Israel se retirou de Gaza ele não acreditou em mudança, como acreditara nos acordos de Oslo na década de 90. Sabia que com a retirada dos judeus de Gaza “a ocupação apenas mudava de forma. O carcereiro tinha saído da prisão e agora ia fechá-la pelo lado de fora. Gaza continuava sendo a maior prisão, o campo de torturas mais cruel do mundo”.
Levy conta que um dia, estava em Gaza quando encontrou um colega da TF1 francesa fazendo uma matéria (antes, pois, de 2006). Eles foram ver a casa de uma palestina paralítica que perdera a filha que cuidava dela, vítima de uma bomba israelense. Ele disse ao colega francês: “Nesses momentos tenho vergonha de ser israelense porque esse míssil foi jogado em meu nome”. O colega lhe telefonou depois para dizer que teve de cortar seu depoimento pois a TV francesa não poderia mostrar um israelense dizendo isso. Os telespectadores poderiam ficar furiosos. Gideon Levy conta que lamentou profundamente pois tudo o que escreve e diz é justamente para despertar alguma reação. Ele quer que os israelenses se indignem com o que é feito em nome deles, que não venham a dizer no futuro que não sabiam das atrocidades praticadas hoje.
Na última vez que foi a Gaza, Gideon Levy viu o corpo de uma professora da escola Indira Gandhi. A moça de trinta anos jazia coberta de sangue, cercada pelas crianças da escola maternal. As crianças viram quando a bomba matou a professora. Desenharam o que viram, uma pessoa deitada no chão coberta de sangue, com as crianças em torno do corpo e um tanque de guerra israelense no fundo. A bomba tinha sido atirada do tanque contra a jovem professora que estava não muito longe de suas crianças.
“O mundo continua a ignorar Gaza e a olhar em outra direção”, diz Levy. “Por isso, o Haaretz é um raio de sol no meio das trevas que engoliram Israel”.
Algum jornal brasileiro já teve a ideia de publicar os artigos de Gideon Levy? Algum editor brasileiro pensará em traduzir esse livro?
Provavelmente, não. Quanto ao “filósofo” Bernard-Henri Lévy, o midiático BHL, a imprensa brasileira o trata como um grande intelectual. Seus livros são traduzidos e devem ter leitores, pois os editores não editariam para perder dinheiro. BHL não incomoda. É um aliado incondicional dos EUA e de Israel, perfeito para nossa imprensa e nossos formadores de opinião.
Nenhum jornal francês resenhou o livro de Gideon Levy, a não ser o L’Humanité que deu duas páginas de entrevista com o jornalista. Na França, o jornal comunista é o único a tratar do Oriente Médio com isenção. Nem mesmo o Le Monde, conhecido como “quotidien de référence” falou do livro de Gideon Lévy até hoje.
Em compensação, os dois livros de BHL lançados esta semana (uma coletânea de artigos e um texto sobre uma aula de filosofia) tiveram resenhas em todas as revistas semanais e nos principais jornais (inclusive Libération, do qual o rico “filósofo” é acionista).
***Fotos de Leneide Duarte-Plon da passeata contra a guerra de Israel em Gaza, janeiro de 2009, Paris. Na terceira foto, a polícia francesa faz a proteção aos manifestantes com carros blindados. O cartaz da última foto diz: "Aqui as crianças perdem seus ursinhos. Em Gaza, são os ursinhos que perderam suas crianças".
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Véu e erotismo
Tarde de verão em Montreux, Suiça
Foto de Leneide Duarte-Plon
O véu das mulheres muçulmanas continua a ser debatido na França. Três centenas de mulheres que usam o véu integral (nicab, chamado indevidamente de burca por alguns jornais) servem de pretexto para desviar o debate dos reais problemas do país : o desemprego, a falta de habitações decentes para todos os franceses e um certo desencanto com os políticos, a um mês das eleições regionais. Nessa eleição de março, os franceses vão eleger os presidentes das 22 regiões. Atualmente, 20 dos presidentes são socialistas.
Segundo Georges Vigarello, grande especialista da história do corpo, autor do livro “Love me”, nos países muçulmanos sempre existiu uma estética do véu, da retirada do véu, do erotismo do rosto e do olhar. Pelo olhar, tudo pode ser dito. Daí a preocupação de algumas seitas muçulmanas de cobrirem totalmente as mulheres, inclusive os olhos.
Um dado curioso: a República islâmica do Irã, onde as mulheres só podem mostrar em público as mãos e o rosto, tem o mais alto índice de operações plásticas do nariz do mundo. Já que só resta o rosto, as iranianas se maquiam muito e fazem o que podem para valorizá-lo.
Depois que recebeu o relatório da comissão parlamentar que estudou o problema, o governo francês pretende editar uma lei para proibir o uso do véu integral no espaço público. Mas vai com calma para não correr o risco de votar uma lei que pode vir a ser considerada inconstitucional pelo Conselho Constitucional, guardião da Constituição.
A propósito: o prêmio Nobel da paz de 2006, o indiano Muhammad Yunus, criador do microcrédito, é contra a proibição. O jornal Libération, o convidou, como já fez outras vezes com filósofos como Alain Badiou, a participar da edição do jornal de 4 de Janeiro. Todas as páginas tinham um comentário de Yunus sobre a principal notícia da página. Ele conta que no início de sua atividade com o microcrédito, em Bangladesh, só emprestava a mulheres.
“Todo mundo era contra e dizia que eu iria destruir a cultura de Bangladesh. Depois, ganhei o Nobel. Não compreendo que a França queira proibir o véu integral. Para mim, a mulher deve ter a liberdade de escolher”.
Arte islâmica e sonho de paz
Até o dia 14 de março quem passar por Paris pode ver uma das mais maravilhosas exposições dos museus franceses: Arts de l’Islam, no Instituto do Mundo Árabe, cujo prédio de Jean Nouvel já vale a visita. Todas as obras expostas pertencem à coleção do milionário Nasser David Khalili, um judeu iraniano que vive na Inglaterra desde 1978. O milionário colecionador possui 20 mil objetos em sua coleção de arte islâmica, milita para a paz e a compreensão entre judeus e muçulmanos e para isso criou a Fundação Maimônidas.
A exposição Artes do Islã consta de 500 obras de arte da coleção Khalili provenientes de diversos países islâmicos : desenhos, objetos de uso quotidiano, como vasos, cofres, jóias, ligados ou não à religião muçulmana (há também muitas cópias ilustradas do Corão, datando de diversos séculos com iluminuras absolutamente fantásticas). Os objetos são provenientes da Síria, do Irã, do Iraque, do Afeganistão, da Tunisia, do Marrocos e da Argélia, entre outros. Para os curadores da mostra, Aurélie Clémente-Ruiz e Eric Delpont, duas obras já valeriam a visita: o Shah Namah, Livro dos Reis, a grande epopéia persa, de 60 mil versos e 258 miniaturas realizadas entre 1520 e 1540 pelos melhores artistas e notável pela precisão do desenho, infinita nuance de cores e sutileza das sombras.
O outro é o manuscrito original da história universal de Rashid-Al-Din (1247-1318), um judeu de Hamadan, que se converteu ao Islã para ser vizir. Al-Din era um estudioso de teologia, história e agricultura e é o autor do Jami al-tazarikh, “o compilador da História”, escrito em persa e publicado em Tabriz, no Irã, em 1314-1315. As páginas expostas são da edição original e tratam dos costumes, da geografia, guerras, mitologias e crenças. As cenas ilustradas tratam da vida de Buda e da Bíblia : a Arca de Noé, Jonas e a baleia ou a morte de Moisés no monte Nebo.
Guerre en Orient ou paix en Méditerranée ?
O filósofo Etienne Balibar e o físico Jean-Marc Lévy-Leblond assinaram um texto com esse título no Le Monde em 2006, antes, portanto, da guerra que Israel fez contra Gaza, para aproveitar os últimos dias de governo do “padrinho” da colonização, George Bush, em dezembro de 2008 e começo de 2009.
Balibar e Lévy dizem em certo trecho: “O Estado sionista desenvolveu uma forma de democracia política (regime parlamentar, garantias constitucionais, liberdade de opinião) e atinge, apesar de grandes desigualdades sociais, um nível de sucesso econômico e cultural elevado (graças também a uma ajuda americana maciça e permanente como nenhum outro Estado jamais teve). Mas ele instituiu nos diferentes territórios que controla uma forma de apartheid (que o geógrafo Oren Yiftachel chama de etnocracia) cuja condição de existência é a completa prisão das populações dominadas, o controle de seus recursos materiais, a destruição progressiva de suas instituições culturais e a violência assassina contra suas ações de resistência mesmo não-violentas e contra suas direções políticas autônomas”.
Esta semana, o jornal L’Humanité (comunista) publicou uma longa entrevista com Gideon Levy, jornalista do jornal israelense Haaretz, de passagem por Paris para lançar um livro com suas crônicas. O título da entrevista era: “Como falar de paz e construir colônias?”.
Comentário e trechos da entrevista ficam para a semana que vem.
Água, um bem comum da humanidade
Vi Danièle Mitterrand sendo entrevistada na TV sobre seu último livro. Que mulher admirável. A viúva de François Mitterrand criou a ONG France Libertés que milita no mundo inteiro por um mundo mais justo, a começar pelo direito de todo ser humano de acesso à água potável, como um direito inalienável. A luta de Danièle Mitterrand é no sentido de fazer com que os que vivem da exploração da água como uma mercadoria cessem de ganhar dinheiro com o que ela considera um bem comum da humanidade.
Os principais pontos dessa luta são: a instauração de um governo público internacional para a gestão e o acesso à água para todos; auxílio a todas as prefeituras que quiserem aderir a essa gestão pública democrática e transparente da água.
Aos 86 anos, Danièle Mitterrand continua sua militância política pela justiça social.
O bonapartismo de Sarkozy
ler em
Véu integral : proibido proibir
Mulheres que se escondem por trás de alguns metros de tecido podem representar uma ameaça à République Française? Quem são? Perigosas terroristas? Não, apenas poucas centenas de mulheres muçulmanas que usam o véu integral chamado indistintamente de burqa (burca) ou niqab (nicab) pela imprensa. Muitos dos articulistas chamados a escrever sobre o tema na mídia francesa veem no debate uma islamofobia que não é admitida por quem defende uma lei que proibirá o uso do véu integral. Os defensores da lei alertam contra o fundamentalismo islâmico do qual essas mulheres seriam a ponta do iceberg.
Burca é o véu total, aquele que faz uma muçulmana parecer um fantasma com uma pequena tela no lugar dos olhos. Esse é o “uniforme” das mulheres do Afeganistão, quase sempre azul, imposto pelos fundamentalistas talibãs. Nicab é outro tipo de véu muçulmano total, em geral preto, que cobre o corpo e a cabeça, deixando uma fina abertura para os olhos. Até mesmo as mãos são cobertas com luvas pretas. Nenhum centímetro de pele pode estar à mostra.
A imprensa francesa e os políticos resolveram batizar o nicab definitivamente de “burca” e foi essa denominação que se impôs para designar o véu negro que deixa apenas os olhos de fora. Mas a verdadeira burca afegã é tão rara na França quanto um urso polar nas ruas do Rio de Janeiro.
No ano passado, os políticos franceses, sob a iniciativa de um deputado comunista, resolveram criar uma comissão parlamentar para estudar o assunto e discutir a oportunidade de uma lei proibindo o véu total (nicab), rebatizado de “burca”.
A comissão parlamentar se reuniu durante seis meses (de junho de 2009 a 26 de janeiro de 2010), audicionou mulheres muçulmanas, teólogos, sociólogos, associações feministas e imãs (religiosos muçulmanos). No dia 26 de janeiro, a comissão divulgou um relatório que preconiza uma lei proibindo o véu integral nos serviços públicos e nos transportes.
Durante seis meses os jornais e as revistas não pararam de discutir o uso da “burca” nos espaços públicos (escolas, universidades, transportes públicos). Não havia crise, desemprego, nada se passava de importante no país. O futuro da França depende de uma lei proibindo a burca.
Há argumentos para proibir o véu total: a segurança pública, a dignidade e a liberdade das mulheres. E há argumentos para liberar seu uso : a liberdade individual de se servir de símbolos religiosos para professar uma fé, o caráter inofensivo do uso de uma determinada vestimenta.
Confesso que ao ver uma mulher totalmente escondida sob um manto preto tenho pena dela por ter interiorizado a mentalidade misógina da religião muçulmana. Mas e a misoginia da religião judaica que relega a mulher a um papel subalterno? Não foi o judaísmo que criou Eva, o agente da tentação de Adão? E a misoginia da igreja católica que afastou as mulheres de toda participação na hierarquia da igreja e que impede as mulheres de dirigirem uma missa? A misoginia precisa ser combatida com pedagogia e não com leis restritivas. As mulheres devem se libertar pela razão, pelos estudos, pela argumentação. Proibir o véu é proibir a proibição de mostrar o corpo feminino ao olhar masculino.
Não seria mais fácil fazer pedagogia para libertar as mulheres do jugo machista de todas as religiões mostrando que o véu já é ele mesmo uma proibição ao olhar masculino? Esse mesmo machismo original de todos os mitos e interditos que veem na mulher e no seu corpo a origem de todo mal? O corpo da mulher causa medo aos homens e por isso é preciso escondê-lo. Para quem se interessa pelo assunto recomendo o excelente livro “La psychanalyse à l'épreuve de l'Islam”, do psicanalista Fethi Benslama.
O presidente Sarkozy chegou a declarar que “a burca não tem seu lugar na França em nome da dignidade das mulheres”. Em nome da liberdade e da dignidade da mulher muitas associações feministas se declaram favoráveis à lei proibindo o véu. As mulheres que usam o véu integral são vistas como oprimidas por fundamentalistas islâmicos.
Para combater o fundamentalismo islâmico, a França pode tomar a pior decisão. Ao proibir o uso do véu total, a lei pode impor a prisão domiciliar a muitas mulheres que se recusarem a retirar o véu. Muitas declaram que preferem não mais sair de casa a retirar o véu. Outras falam em emigrar para países islâmicos. Outras, como Oum Aldina recorrerão ao Parlamento Europeu contra uma lei que julgam liberticida:
“A lei pode ser votada mas não tirarei meu véu”, diz essa muçulmana que mora na França e usa o nicab que só deixa os olhos à mostra. Por cima, ela ainda usa um outro véu de tecido negro muito fino. Oum Aldina promete ir buscar Justiça no Parlamento Europeu pela liberdade de usar o véu integral. “Ninguém pode me impedir de me vestir como eu decidi”.
O “New York Times” fez um editorial criticando a possível adoção de uma lei francesa. Certamente ela não vai passar despercebida pelos fundamentalistas islâmicos que terão mais um motivo para se sentirem perseguidos no Ocidente.
Daniel Bensaïd
Ele pertenceu a uma geração militante que participou ativamente de maio de 68 na França. O filósofo marxista Daniel Bensaïd morreu este ano em Paris, aos 64 anos sem ter abandonado a bandeira da resistência, foi até morrer um defensor do marxismo e um crítico do capitalismo. Autor de diversos livros sobre marxismo, um dos fundadores com Alain Krivine da “Liga Comunista Revolucionária”, rebatizado no ano passado de Novo Partido Anticapitalista, Bensaïd mereceu um elogio de meia hora no seminário mensal de duas horas que o filósofo Alain Badiou dá na Ecole Normale Supérieure. Badiou saudou a coerência do “companheiro distante”, a inteligência e a luta do filósofo desaparecido. Badiou foi maoísta na juventude e Bensaïd, trotskista.
Um dos últimos trabalhos de Daniel Bensaïd foi o livro “Un nouveau théologien B-H Lévy”, uma resposta ao livro de Bernard-Henri Lévy “Ce grand cadavre à la renverse”. Além disso, ele escreveu o prefácio da nova edição do livro de Karl Marx “Sur la question juive” (Sobre a questão judaica, La Fabrique, Paris, 2009).
sábado, 23 de janeiro de 2010
Haiti : colonialismo e neocolonialismo
Pouca gente lembra que ao deixar o poder em 1986, derrubado por uma rebelião popular, o ditador haitiano conhecido como Baby Doc veio se refugiar na França, antiga potência colonial, onde vive até hoje com o estatuto de “refugiado político”. Ao fugir com 900 milhões de dólares, soma maior que a díivida total do Haiti naquele momento, o ditador tinha essa fortuna bem guardada em bancos suíços. Segundo o site Mondialisation.ca um processo na Suíça tenta restituir ao Haiti os bens depositados em nome dos Duvalier. O banco UBS congelou o dinheiro e dificulta como pode a restituição dos 900 milhões de dólares ao verdadeiro dono, o povo haitiano.
O cinismo de Baby Doc, apelido de Jean-Claude Duvalier, atualmente com 58 anos, é chocante. Esse senhor, que mora na Côte d’Azur com todo o luxo que o dinheiro (do povo haitiano) pode pagar, divulgou esta semana num site em inglês chamado Daily Beast que “fez uma doação de 5 milhões de dólares ao povo do Haiti através da Cruz Vermelha americana”. Esse dinheiro estaria na Suíça em nome de uma fundação que leva o nome de sua mãe, Simone Ovide-Duvalier. Mas há um pequeno detalhe: essa conta está bloqueada pelas autoridades suíças e o dinheiro não pertence mais ao ex-ditador, filho do velho Papa Doc que governou de 1957 a 1971, quando começou o (des)governo de Baby Doc. De 1957 a 1986, quando Baby Doc fugiu do país, a dívida externa do Haiti foi multiplicada por 17,5.
Na França existe um “Comitê para julgar Duvalier” cujo presidente, Gerald Bloncourt, se declarou escandalizado com o cinismo de Baby Doc.
Mas por que a França abriga Baby Doc? Por que os Estados Unidos apoiaram o governo de seu pai e o seu até o fim?
Logo depois de declarar sua independência da França em 1804, numa luta ao mesmo tempo antiescravagista e anticolonial, o Haiti tornou-se a segunda república independente das três Américas e a primeira república negra do continente. Mas o país foi obrigado a pagar à França uma espécie de resgate, correspondente a 150 milhões de francos ouro (o orçamento anual da França na época). Em 1825, a mesma França decidiu que a ex-colônia teria que pagar por cinco anos a soma equivalente hoje a 21 bilhões de dólares como indenização aos ex-colonos. Essa dívida era uma garantia do acesso da antiga metrópole aos recursos naturais do país.
A França, antiga potência colonial, e os Estados Unidos, que ocuparam o país em 1915, são plenamente responsáveis pelo atual estado do Haiti. Mas a Comissão Régis Debray, instituída em 2004, preferiu afastar a idéia de restituir a soma fabulosa paga pelos haitianos a partir de 1825. A Comissão argumentou que “isso não tinha fundamento jurídico e poderia abrir uma caixa de Pandora”.
A França até hoje não reconheceu seu erro ao dar de presente ao ditador Baby Doc o status de refugiado político garantindo, portanto, sua imunidade. Não li em nenhum jornal francês uma crítica ao país dos direitos humanos por abrigar como refugiado político o ex-ditador que deixou o país em ruínas.
Segundo Sophie Perchellet et Éric Toussaint, autores do texto do site mondialisation.ca os planos de ajuste estrutural impostos pelo FMI e pelo Banco Mundial são os responsáveis pela atual miséria do país. “A agricultura camponesa do Haiti sofreu o dumping dos produtos agrícolas dos Estados Unidos. As políticas macro-econômicas sustentadas por Washington, pela ONU, FMI e pelo Banco Mundial não se preocupam nem um pouco com a necessidade de desenvolvimento nem com a proteção do mercado nacional. A única preocupação dessas políticas é produzir a preços baixos para a exportação para o mercado mundial.”
Cuba, o reverso da medalha
Ao lado do Haiti, outra ilha, outra realidade.
Voltei de Cuba entusiasmada pelo (pouco) que vi durante os (poucos) dias que passamos em Havana. Na semana em que voltei, a revista Le Monde Magazine fez uma matéria sobre a blogueira cubana que se tornou célebre no mundo inteiro. Leia aqui um comentário que fiz para o Observatório da Imprensa, do qual sou correspondente na França.
Como não tenho competência nem argumentos suficientes para defender Cuba e a revolução que completou 51 anos em 1° de janeiro, usei como contraponto às críticas da blogueira algumas informações de uma excelente entrevista de Frei Betto dada a Andrea Duffour, membro da Associação ATTAC e coordenadora da Associação Suíça-Cuba.
O socialismo em Cuba tem partido único, economia socializada, Fidel Castro eleito e reeleito. Mas o povo se alimenta, tem um sistema de saúde de excelente nível e educação obrigatória, gratuita e universal. O povo do Haiti tem, em tese, direito de sair do país, viajar, votar, eleger seus governantes. Mas viajam apenas os poucos privilegiados e os governantes impuseram ao povo a miséria do FMI e do Banco Mundial.
A seguir, um trecho da entrevista com Frei Betto a Andrea Duffour. A íntegra se encontra neste link
O senhor lembra num artigo que a fome mata cerca de mil pessoas por hora. Como o senhor explica que um país pobre como Cuba não tenha tais estatísticas e que depois de meio século não haja uma só criança morrendo de fome ou de doença curável?
Frei Betto: Em Cuba garantiu-se ao conjunto da população os três direitos fundamentais do homem que são o alimento, a saúde e a educação. Em Cuba há pobreza mas não há miséria e os cubanos podem se dar ao luxo de dizer o que está num cartaz no aeroporto de Havana: “Esta noite 200 milhões de crianças vão dormir na rua, nenhuma delas é cubana”.
Os cubanos dizem que têm um partido único mas que ele defende os interesses da maioria das pessoas e que na Europa temos muitos partidos com nomes diferentes mas que não representam senão um partido, o do capital...
Frei Betto: Exatamente. No mundo capitalista, há vários partidos com nomes diferentes mas um único modelo, o capitalismo liberal. Em Cuba, temos uma democracia participativa na qual o povo não somente partilha os direitos políticos mas também os direitos econômicos. Os cubanos participam das decisões governamentais e fizeram uma escolha pelo sistema socialista com um partido que defende os interesses da maioria. A escolha deles é soberana. Por isso Cuba é diabolizada pela imprensa internacional.
Lula “Homme de l’année”
Ao chegar em Paris no início de janeiro encontrei a revista Le Monde Magazine com data de 25 de dezembro com um Lula sorridente na capa, em big close. Uma grande reportagem repleta de fotos traça o perfil de Lula. As fotos mostram o presidente com Obama e Angela Merkel, com Pelé festejando a escolha do Rio para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, com populares saudando uma criança que se joga sobre ele e com o vice-presidente subindo a rampa em janeiro de 2007. O excelente texto do perfil é do correspondente Jean-Pierre Langellier, do Rio de Janeiro, e abre com a foto de Lula no nordeste em outubro de 2009, no meio da barragem do Rio São Francisco.
“Lula, homme de l’année” é o título do perfil que explica como epígrafe: “Ele colocou decididamente seu país numa dinâmica de desenvolvimento. Soube se manter um democrata, lutando contra a pobreza sem descuidar de um crescimento mais respeitoso do equilíbrio natural. Presidente do Brasil desde o dia 1° de janeiro de 2003, no final de seus dois mandatos ele terá dado um novo rosto à América Latina. Razões suficientes para que a redação do Le Monde o escolha como a personalidade do ano 2009”.
Além disso, Lula receberá o prêmio de Estadista Global do Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), no dia 29 de janeiro. Esta é a primeira edição da homenagem, criada para marcar o aniversário de 40 anos do Fórum.
Em 2008, a A UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Ciência, Educação e Cultura - outorgou ao presidente Lula o Prêmio de Fomento da Paz Félix Houphouët-Boigny. Já receberam esse prêmio, entre outros: Nelson Mandela, Yitzhak Rabin, Shimon Peres, Yasser Arafat, Jimmy Carter e o rei Juan Carlos I da Espanha.
Só falta o Nobel da Paz pelo combate à fome no Brasil...
Juliette Gréco amou um brasileiro
A Folha de São Paulo publicou uma entrevista feita por mim com Juliette Gréco, a cantora que tem 82 anos e foi musa dos existencialistas franceses. Saiu em dezembro de 2009 e pode ser lida no link (apenas para assinantes Folha ou Uol)
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Fellini e seu double

O outono parisiense trouxe Fellini ao Jeu de Paume. Era domingo e o chão estava coberto de folhas amarelas no dia em que fui vê-lo.
Parei um longo momento diante do título “Fellini et son double”. Na tela se sucediam fotos de Marcello Mastroianni e do diretor que foi mais que um amigo e companheiro de trabalho : Fellini foi o autor de alguns dos melhores filmes do ator. Uma moça parada atrás de mim e do meu marido, falava ao ouvido de seu filho. O menino devia ter uns 11 anos, ela uns 40. Reconheci Chiara Mastroianni, a filha do grande ator com Catherine Deneuve. Ela estava completamente anônima, no meio da multidão que visitava o Musée du Jeu de Paume para ver Fellini, la Grande Parade, uma das imperdíveis exposições do outono parisiense.
Ao descobrir aquela moça e seu filho a comentar discretamente fotos do avô do menino, eu estava num raro estado de plenitude, daqueles momentos de prazer estético em que o mundo parece ter parado no tempo. A Itália de Fellini ficou para trás, hoje Berlusconi é uma triste realidade. Mas a exposição consegue nos transportar para uma Itália mais inteligente, o mundo do cineasta e de seus sonhos, que ele desenhava com incrível talento (ele foi desenhista de jornal, antes de se tornar cineasta) em cadernos expostos ao lado de fotos, cartazes, trechos de filmes e de entrevistas. A exposição mostra como foram criadas algumas das cenas mais famosas do cinema italiano. Roma, Anita Ekberg, Marcelo Mastroianni, Giulietta Masina, Federico estão todos no Jeu de Paume nos esperando.
Chaplin no museu
Charles Chaplin passou os últimos anos de vida em Vevey, na Suíça, às margens do Lago Léman. Esta semana seu filho Michael Chaplin anunciou que a casa vai se transformar em museu dedicado à obra do pai, com abertura prevista para 2011. A vista do lago e dos Alpes que Chaplin descortinava de sua casa é de tirar o fôlego.
O museu será um bom motivo para voltar a Vevey, onde passamos alguns dias no verão de 2008 e onde existe uma estátua de Carlitos em frente ao lago. Não preciso dizer que quase todo mundo que a vê faz uma pose ao lado do vagabundo. Mas como Vevey não tem torre Eiffel nem Louvre, o turismo por lá é soft e passa a anos-luz da agitação da capital mais visitada do mundo. Há até pequenas praias em torno do Léman mas no verão a maioria dos europeus prefere a agitação das “verdadeiras” praias de mar. A Suíça só se agita no verão durante o Festival de Jazz de Montreux, a poucos quilômetros de Vevey, outra jóia do Léman.
Fotos de Leneide Duarte-Plon
Harry Connick Jr. e Carla B.
Harry Connick Jr lançou seu novo disco “Your Songs” em Paris. O cantor convidou Carla Bruni para gravar em dueto a música dos Beatles “And I love her”. Ouvido pela revista Le Monde Magazine, o cantor justificou: “A indústria do disco está num estado tal que tudo o que pode criar um evento é bom. E minha mulher, que tinha desfilado como manequim e conhecia Carla, me deu força. Realmente, ela tem uma voz de pouca extensão mas cantar com ela foi excitante, como se fosse a versão feminina de mim mesmo”.
Boa idéia de presente de Natal. Por Harry Connick Jr., evidentemente.
Libération e a mão santa de Thierry Henry
Os jornalistas de Libération fizeram na semana passada uma edição histórica num genial exercício do que os franceses chamam de “autodérision” (auto-zombaria).
terça-feira, 10 de novembro de 2009
A bossa nova, Henri Salvador e a grande lorota
Ao abrir o capítulo 14 chamado Un air de bossa encontro a pergunta 158: “Uma música de filme composta por um músico francês contribuiu decisivamente ao nascimento da bossa nova. Quem é o autor? Michel Legrand, Joseph Kosma, Henri Salvador. Nas respostas vemos que a “certa” é a C, Henri Salvador. E o comentário diz: “Essa doce e sensual música brasileira (a bossa nova) deve muito a Salvador. Sua canção “Dans mon île” foi descoberta pelos músicos brasileiros em 1958 num filme italiano “Noites da Europa”. Nessa ocasião, Antonio Carlos Jobim exclama: “É isso que se deve fazer, diminuir o tempo do samba e colocar belas melodias”. A bossa foi popularizada em 1958 pelo disco “Chega de Saudade” composta por Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes e interpretada por João Gilberto".
Isso poderia parecer desinformação dos autores do livro se não representasse uma “informação” repetida exaustivamente na televisão e nos jornais franceses. A cada vez que apresentavam Henri Salvador (morto no ano passado) na TV repetia-se a "informação" de que ele inventou a bossa nova. Quando os jornais franceses falam da Bossa Nova vem a "informação" (muitas vezes no condicional) de que Salvador teria inventado a bossa nova com a canção "Dans mon île".... Inúmeras vezes ouvi Henri Salvador ser apresentado como o verdadeiro pai da bossa nova. Num programa especial sobre a Canção Francesa, ele chegou a cantar em francês “Eu sei que vou te amar”, que não é propriamente uma canção da bossa nova, sem informar o nome dos compositores. Nem ele nem os apresentadores do programa disseram de quem era a canção que foi ouvida como mais uma canção francesa. Nesse dia, decidi entrevistar o compositor. A Folha de São Paulo publicou minha entrevista com Salvador em que o grande mitômano, gentil e simpático como um bom malandro, disse que não gostava que lhe atribuíssem a invenção da bossa nova. Como se ele não tivesse nada a ver com isso. Mas para ele chegar a esse ponto, tive que provocá-lo com perguntas que o levaram a dizer o que disse.
A seguir a íntegra da entrevista da Folha para quem gosta de bossa nova e para quem aprecia a verdade dos fatos:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u69379.shtml
Lula, secretário-geral da ONU?
A ideia é do presidente Sarkozy.
Quem garante é um jornalista francês que acrescenta que como a França vai presidir o G20 em 2011, Sarkozy gostaria de ver Lula como secretário-geral da ONU, um aliado para a construção do mundo novo que deve emergir dessa crise. Sarkozy acha a ideia formidável. Principalmente porque é dele.
Seria por amor a Lula e às ideias ele representa ou não passa de cálculo para vender seu lote de Rafale ao Brasil?
Literatura na TV
Outro dia, alguém contava num documentàrio a história do início da televisão na França e comentava: ao criar a primeira grade de programação da ORTF (Office de Radio et Télévision Française) os responsáveis pensaram logicamente em criar um telejornal, um programa de divertimento, um programa político de entrevistas e ... um programa literário.
Os livros, a literatura, os intelectuais não poderiam estar ausentes da programação da televisão francesa. Não poderia ser diferente uma vez que a França é um país da cultura, dos livros, das ideias e do debate político, encarnado no século XX por Sartre, intelectual que foi ícone da geração de franceses do pós-guerra.
Infelizmente, a televisão francesa também se globalizou, na pior direção, aderiu ao programas do tipo big brother (Loft e outros) e os programas de cultura são cada vez menos numerosos. Bernard Pivot, que fez durante anos o melhor programa literário da TV francesa (Apostrophes e Bouillon de culture) parou. Os cineclubes para cinéfilos na televisão são coisa do passado e apenas alguns programas perdidos no meio da geleia geral garantem momentos de inteligência e informação. Felizmente, o canal franco-alemão Arte é ainda uma ilha de inteligência e bom gosto na programação audiovisual.
