terça-feira, 9 de outubro de 2012

O ouro de Moscou




Nos tempos de anticomunismo visceral, que vigorou no Brasil depois da fracassada revolução comunista de 1935, que a direita chama de « Intentona », o « ouro de Moscou » era a expressão pejorativa usada para designar o dinheiro que os comunistas recebiam da União Soviética para financiar a revolução.
Mudaram os tempos. Hoje o dinheiro que jorra de Moscou está nas mãos de uma oligarquia que gasta a rodo nos hotéis cinco estrelas de Paris e passeia nas capitais europeias em Ferrari, entre outros sinais exteriores de uma extravagante riqueza.
No lançamento do i-phone 5 na loja parisiense dos Champs Elysées, muitos fanáticos da marca fizeram fila durante a noite para serem dos primeiros a possuir o gadget tecnológico. Os jornais franceses contaram que entre os adoradores da marca da maçã havia ricos russos que vieram de Moscou a Paris comprar seu novo aparelho. Mas como cada pessoa que se aproximava do objeto do desejo só podia adquirir duas unidades, os russos alugaram SDFs (sans domicile fixe) franceses, os pobres moradores de rua, para fazerem fila. Assim, puderam comprar um número maior de aparelhos para levar para Moscou.
Herbert Marcuse reconheceu que havia subestimado a capacidade do sistema sócio-político em desenvolver formas de controle social cada vez mais eficazes. Entre essas formas de controle, está a produção de bens supérfluos cada vez maior, para redirecionar necessidades de prazer e satisfação da população
O ouro de Moscou serviu outros tempos para alimentar o ideal de igualdade e justiça social. A sociedade de consumo devorou o sonho.

O ouro do Qatar

Qual o país que mais vezes teve representantes recebidos no Palácio do Eliseu depois que François Hollande assumiu ? Nem a Alemanha, nem os Estados Unidos, nem a Inglaterra. Foi o Qatar. De uns anos para cá, o pequeno emirado do Golfo entrou definitivamente na lista dos amigos da França. Dono de 100%  do Paris Saint-Germain desde junho quando comprou os restantes 30% do capital do clube  que  pertenciam ao fundo americano Colony Capital, o Qatar tornou-se um aliado de primeiro time. O emir tem palácios na França e foi recebido com pompa e circunstância por Sarkozy. Agora é a vez de Hollande. Et pour cause. A França é o principal fornecedor de armas do Qatar e a empresa francesa de petróleo Total tem uma posição de primeiro plano no emirado.
Agora, o Qatar lançou um plano para incentivar pequenas empresas nas banlieues francesas através de financiamento de projetos inovadores de jovens futuros empresários. A identidade árabe dos filhos de imigrantes da periferia das grandes cidades francesas é vista com desconfiança na França enquanto os qataris os vêem como jovens que devem ser estimulados e financiados na sede de criar empresas e empregos.
Em tempo de crise e desemprego, o ouro do Qatar é mais que bem-vindo.

Carta a Gramsci

O historiador marxista Eric Hobsbawn, que morreu em Londres aos 95 anos, enviou uma vídeo-carta ao filósofo Antonio Gramsci na qual dizia : « Você morreu há sessenta anos mas vive no coração dos que desejam um mundo onde os pobres tenham a possibilidade de tornar-se verdadeiros seres humanos ».
Se eu fosse cartunista, desenharia o encontro dos dois numa nuvem, com Hobsbawm perguntando a Gramsci : « Recebeu minha carta ? »

Kadhafi eliminado por Sarkozy ?

Quem matou Kadhafi ? Alguém que preferia vê-lo morto pois ele sabia demais e diante da Corte Penal Internacional podia contar coisas comprometedoras para alguns poderosos. O jornal italiano Corriere della Sera revelou que Mahmoud Jibril, ex-primeiro ministro do governo de transição líbio e hoje presidente do Conselho executivo do Conselho Nacional de Transição, disse ao canal egípcio  Dream que « o presidente Sarkozy tinha razões de sobra para fazer com que Kadhafi se calasse ».
Segundo Jibril, quem matou o coronel Kadhafi foi um agente secreto francês. A história, reproduzida pelo jornal L’Humanité, faz sentido pois depois do começo da insurreição na Líbia e vendo a França intervir diretamente a favor dos rebeldes, Kadhafi ameaçou tornar públicos os documentos provando que enviara muitos milhões de dólares para a campanha do presidente francês em 2007. Antes da insurreição, Sarkozy sempre cortejou Kadhafi a ponto de tê-lo recebido em Paris com pompa e circunstância em 2008. Para lhe agradecer os milhões da campanha ? Sarkozy e seus mais próximos colaboradores levarão esse segredo para o túmulo.
Parece impossível provar a versão do assassinato de Kadhafi pelos serviços secretos franceses. Mas de qualquer forma, sabe-se que as empresas francesas dividiram com outras multinacionais o lucrativo mercado da reconstrução da infra-estrutura do país e da exploração do petróleo líbio.


Israel-Palestina, um conflito inexistente

O jornalista Alain Frachon, do Le Monde escreveu um artigo na semana passada que começava com a afirmação um tanto provocadora : « O conflito israelo-palestino não existe mais ». Não que tenha sido solucionado. Longe disso. Mas saiu completamente do noticiário, como constatava Frachon. As grandes potências não se interessam mais por ele. A intervenção de Mahmoud Abbas na Assembleia Geral da ONU deste ano relembrando que a colonização israelense assimila a cada dia que passa um pouco mais do território palestino, na Cisjordânia e na parte oriental de Jerusalém, não teve eco na diplomacia mundial, nem nos Estados Unidos, nem na Europa, nem na China, nem na Rússia.
Segundo o jornalista, o sentimento de humilhação, seja legítimo ou não, alimenta no Oriente Médio um antiamericanismo latente, sempre prestes a explodir.

FlaxFlu melancólico

Recebi e repassei a amigos um texto de Leonardo Boff publicado na revista Mirante (www.revistamirante.wordpress.com) sobre o julgamento do chamado « mensalão”, intitulado « A espetacularização e a ideologização do Judiciário”.
O editor Cesar Benjamin, um dos amigos a quem enviei, me escreveu a seguinte resposta, que me autorizou a publicar :
« Vergonha, Leneide, vergonha. É o que sinto por essa esquerda brasileira hoje, que ocupa um espaço nobre na casa-grande (aliás, junto com Fernando Collor e outros) e não aceita que sua corrupção (GIGANTESCA, e não me refiro somente ao chamado mensalão) seja julgada conforme a lei. Ninguém pode ser socialista se é antirrepublicano. Aliás, devo lhe dizer, que o clamor, por aqui, é para que o STF siga em frente. A máscara mais produzida para o próximo carnaval é a do rosto do Joaquim Barbosa, e as redes sociais estão repletas de apoio.
Quanto aos assinantes do tal manifesto, todos os que conheço têm um carguinho, um financiamentozinho, um projetinho, um DASzinho, sem falar de umas indenizações bem gordinhas... Sinto vergonha por um dia ter sido próximo a essa gente que perdeu completamente a referência republicana e a ética do trabalho. Vivem de « bicos » políticos e querem impunidade. Cesar.
PS. Além do cinismo, é claro. Ou você acha que se os políticos julgados agora fossem do PSDB (chegará a vez deles) algum desses picaretas estaria fazendo denúncias? O negro Joaquim Barbosa estaria sendo endeusado. Você duvida disso? Política, no Brasil, virou Fla-Flu. Dos mais melancólicos.


“Dá o fora, rico babaca”

Com a chegada dos socialistas ao poder na França, os ricos começaram a fugir para a acolhedora Suíça ou a  tolerante Bélgica, que abriga muitos milionários refugiados do rigor fiscal francês. O mais rico e mais conhecido dos milionários franceses pediu a nacionalidade belga um mês atrás. E ao dar a notícia, o jornal Libération não poupou  Bernard Arnault.
A capa do jornal gozando  o homem mais rico da França e da Europa, não agradou nada ao dono das marcas Louis Vuitton e Dior, entre outras mais de 60 pepitas de sua propriedade. Bernard Arnault aparecia com uma mala na mão e a frase “Casse-toi riche con” (Dá o fora rico babaca). O jornal fazia um genial trocadilho com uma frase dita anos atrás por Nicolas Sarkozy a um rapaz que recusou lhe dar a mão num lugar público : « Casse-toi pauvre con » (Dá o fora, babaca). Nesse caso, o adjetivo « pauvre » é apenas um reforço para « con ».
Bernard Arnault resolveu responder com suas armas. Suas marcas cortaram todas as publicidades programadas para Libération até o fim do ano. Com a solidariedade de classe que lhes é peculiar, outros ricos resolveram retirar seus anúncios de produtos de luxo. Resultado : Libération estima que vai perder cerca de 700 mil euros de publicidade de setembro até o fim do ano.
Mas graças àquela capa as vendas da edição foram 27% maiores e nunca se falou tanto do jornal em todos os meios de comunicação.


First girlfriend

Valérie Trierweiler, a bela companheira do presidente Hollande, quer o bolo e quer comer o bolo. Ela contesta o papel de « primeira dama » concebido classicamente mas ainda não descobriu onde deve se posicionar na nova vida que tem desde maio. Quer continuar a trabalhar como jornalista, « meus filhos são sustentados por mim », mas também quer manter um escritório no Palácio do Eliseu.
Por enquanto, ele assina uma crítica literária na revista Paris Match onde trabalha há vinte anos e onde era repórter política, especilização à qual teve que renunciar. Depois do tweet apoiando o concorrente de Ségolène Royal (dizem que Valérie e Ségolène se detestam) nas eleições legislativas, a gaffe do ano, Valérie se recolheu, fechou sua conta e parou de twitar. Mas nem por isso, a « first girlfriend » como a chama a imprensa americana traduzindo sua condição de “compagne” do presidente François Hollande, parou de falar. Deu uma entrevista na semana passada a um jornal regional de sua cidade natal Angers, na qual disse lamentar o fatídico tweet. Além disso, afirmou que precisa continuar a trabalhar por causa dos filhos. Na mesma semana, apareceu radiante no desfile de Saint Laurent, no Grand Palais.
Hollande vem despencando nas pesquisas de opinião. E a culpada não é unicamente a crise. Os franceses detestam a mistura de gêneros, vida pública e vida privada. Com o tweet de Trierweiler o presidente, que sempre quis manter sua vida privada longe dos holofotes, apareceu para a opinião pública como uma homem fraco que não consegue controlar nem mesmo sua « compagne ».
A direita francesa se delicia com o vaudeville que tem como cenário o Palácio do Eliseu, onde pela primeira vez na história habita um presidente não casado com a mulher com quem vive.


As charges de Charlie Hebdo : pode-se zombar de Maomé ?
Leneide Duarte-Plon, de Paris*
*Publicado no Observatório da Imprensa em 25 de setembro de 2012
O mínimo que se pode dizer das caricaturas de Maomé publicadas pelo jornal satírico francês Charlie Hebdo é que a maioria delas não prima pela genialidade. E que são inúteis.
Por que motivo os chargistas de Charlie Hebdo precisam provar que a França é um país onde reina a liberdade de expressão, expondo as escolas e embaixadas francesas dos países muçulmanos à vendetta dos radicais islâmicos, que  o diretor do jornal, o chargista Charb, chama « les fascistes de Dieu » ?
Publicadas num contexto explosivo depois que alguns manifestantes haviam, na Líbia, invadido um consulado americano e matado o embaixador dos Estados Unidos, entre outras pessoas, essas charges satíricas soaram para muitos na França, como uma provocação. O ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius, comparou :  «É como botar óleo no fogo ». O editorial do jornal Le Monde, publicado no dia seguinte à edição de Charlie Hebdo tem como título “Integrismo : é necessário botar óleo no fogo?” O jornal considerou as charges “de mau gosto e mesmo constrangedoras”. Mas diz que não se pode colocar no mesmo nível a crítica a Charlie Hebdo e a seus inquisidores. « De um lado, querem fazer rir. Do outro, lançam anátemas ».
A capa de Charlie Hebdo era uma grande charge de Charb mostrando um rabino empurrando um mollah numa cadeira de rodas com a bolha « Não se deve debochar ». O título « Intouchables 2 » era uma alusão ao filme « Intouchables », no qual um jovem negro da periferia de Paris se emprega como acompanhante de um milionário paraplégico. A comédia lançada no ano passado foi o maior sucesso de bilheteria da história do cinema francês.
Algumas caricaturas mostravam Maomé nu, como quem espera ser sodomizado, com uma estrela desenhada no ânus e o título « Maomé, nasce uma estrela ». Ou nu de turbante, dizendo a um Jean-Luc Godard, que o olha por trás da câmera, a frase de Brigitte Bardot no filme « Le Mépris » : « Et mes fesses ? Tu les aimes mes fesses ? » (E minha bunda, você gosta da minha bunda ?)
Charb argumentou que todos os outros jornais falaram do filme anti-Islã. A forma que seu jornal usa para tratar desse assunto é a charge.  As caricaturas foram publicadas na semana seguinte à morte do embaixador americano. Em diversos países muçulmanos houve protestos contra os Estados Unidos, onde foi filmado o abacaxi do ano chamado « A inocência dos muçulmanos » que joga lama sobre o profeta do Islã.  
Na França, Charlie Hebdo esgotou-se em um dia. Os 75 mil exemplares da primeira tiragem evaporaram na quarta-feira e no dia seguinte as bancas de jornais já estavam com nova tiragem.  Quem sabe, o lucro dessa edição compensa o incêndio provocado na redação em novembro do ano passado, quando o jornal publicara um número especial chamado « Charia Hebdo », zombando da lei islâmica ? Até hoje uma investigação tenta estabelecer a responsabilidade pelo incêndio.
Desde a quarta-feira passada, quando saiu o número polêmico de Charlie Hebdo, os políticos, os comentaristas políticos, os editorialistas, de direita como de esquerda, elegeram duas idéias básicas em torno da qual passaram a debater : a liberdade de expressão, que de fato reina na França, e a prudência. Até que ponto a liberdade de expressão deve ser usada ? Num momento já naturalmente explosivo depois da divulgação do filme americano, não seria mais prudente não provocar os fanáticos com caricaturas de seu profeta ? Para que eleger Maomé como alvo ? Apenas para cutucar os integristas da França e do estrangeiro e provar que aqui se tem liberdade de expressão ? Não fazer novas caricaturas de Maomé representa se curvar aos extremistas islâmicos ?
O Conselho Federal do Culto Muçulmano condenou “esse novo ato islamofóbico” enquanto Charb defendia a iniciativa em nome da sacrossanta “liberdade de expressão”. Os que criticavam o jornal comparavam essa edição incendiária com a outra de 2006, quando Charlie Hebdo resolveu republicar as caricaturas do jornal dinamarquês « Jyllands-Posten », que meses antes tinha provocado a ira e a vingança de integristas muçulmanos em diversos países.
A diferença é que ao republicar as caricaturas do jornal dinamarquês, Charlie Hebdo se solidarizava com um jornal atacado por fanáticos, que destruíram representações dinamarquesas em diversos países e ameaçavam de morte os responsáveis pelo jornal. Naquele momento, Charlie Hebdo militava pela ideia de um laicismo absoluto e pela liberdade de expressão. E fez uma capa na qual um Maomé dizia, desesperado : « É duro ser amado por babacas ». Aquele número vendeu mais de 600 mil exemplares e valeu um processo feito por organizações muçulmanas. O jornal acabou inocentado.
 Agora, ao publicar novas caricaturas todas « made in France » num contexto em que um filme de quinta categoria vem zombar do profeta maior da religião muçulmana, o jornal quer apenas afirmar que os integristas não fazem a lei na República Francesa.
A quem acha que eles foram longe demais, Charb responde : « Criticamos todos os extremismos. Em vinte anos, tivemos quatorze processos da extrema direita católica e apenas um dos muçulmanos ». Agora serão dois pois uma entidade muçulmana já entrou com novo processo contra o jornal.
Não deixa de ser uma causa louvável afirmar a liberdade que reina nos países ocidentais onde a religião e o Estado estão devidamente separados e o laicismo é praticamente incontestável. Mas quem pagou a conta da proteção policial excepcional nas Embaixadas e escolas francesas, além dos dois dias que ficaram fechadas para prevenir ataques em vinte países muçulmanos, foi a République, isto é, o contribuinte. Não foi Charlie Hebdo.
   


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Hollande vai, Hollande não vai



  Quase quatro meses depois da posse de François Hollande, os franceses já começam a se mostrar impacientes. Querem resultados. E rápidos. A crise está instalada na Europa, a França ultrapassou o número assustador de 3 milhões de desempregados e os franceses cobram solução para a crise. Tanto o presidente socialista quanto seu primeiro-ministro, Jean-Marc Ayrault, já perderam vários pontos nas pesquisas de opinião.

 

Nesse momento de primeira grande queda de popularidade o presidente francês iria ser recebido na Embaixada do Brasil dia 7 de setembro, no tradicional coquetel que comemora a data nacional. Depois de confirmar a presença do presidente francês – a primeira vez que um presidente viria a essa comemoração na embaixada do Brasil – nossa representação diplomática avisou que o presidente Hollande não poderá comparecer por problemas de agenda.

A crise não deixa tempo para mais nada. Nem mesmo para reforçar os louvados laços de amizade com o Brasil que podem levar a proveitosas vendas do Rafale.

O fantasma de Yasser Arafat

A viúva de Yasser Arafat, morto na França em 2004, entrou na Jusiça francesa com uma ação para investigar as circunstâncias da morte do líder palestino. A tese de um envenenamento foi levantada com a descoberta de polonium, uma substância radioativa, nos objetos pessoais de Arafat.

Desde sua morte, os líderes palestinos sempre se disseram convencidos de que Arafat fora assassinado pelos serviços secretos israelenses. Uma das hipóteses é que tenha sido envenenado por seu dentista, que morreu pouco tempo depois. Nesta quarta-feira, dia 5, as autoridades palestinas autorizaram a ida de juízes franceses para continuar as investigações em Ramallah, onde Arafat está enterrado.

O polonium foi a substância usada em 2006, em Londres, para matar Alexandre Litvinenko, ex-espião russo que se tornara um opositor incômodo para Vladimir Putin.


Madame e seu mordomo, seu médico e o bobo da corte

Os ricos vivem uma vida tão distante da nossa realidade de assalariados de classe média que fica difícil imaginar em que gastam os milhões de euros que ganham por ano. A dona da L’Oréal, Liliane Bettencourt, por exemplo, que há alguns anos tem sua vida privada exposta na imprensa devido a processos na Justiça, viaja quase sempre acompanhada de seu médico, assalariado por contrato de 40 mil euros por mês.

Madame Bettencourt, a mulher mais rica da França e quarta fortuna do país, está com 90 anos e foi interditada judicialmente por sua filha única. Antes de chegarem a um acordo, houve muito desentendimento e uma batalha de advogados. Desde o ano passado, o neto mais velho é seu tutor e se encarregou de substituir  advogados espertos e afastar pessoas de seu séquito – mordomo, enfermeiro, secretárias - ávidas em tirar o máximo proveito da proximidade de Madame, aproveitando-se da fragilidade causada pela doença de Alzheimer.  

Liliane tinha até mesmo um « bobo » na sua corte : o fotógrafo e romancista François-Marie Banier, que recebeu muitos milhões de euros de presente de sua amiga, além de obras de arte e seguros de vida. Banier, que divertia muito a amiga Liliane com sua verve e seu senso de humor, viu-se privado de frequentar a casa da milionária e ainda responde a processo na Justiça.

O affaire Liliane Bettencourt interessa enormemente à imprensa porque tem todos os ingredientes das grandes sagas. Mas além do aspecto familiar, um outro affaire Bettencourt também envolveu a milionária : ela teria participado do financiamento da campanha de Nicolas Sarkozy com somas acima do limite legal. O ex-presidente e sua corte sempre negaram. Mas a Justiça investiga.

A elegância e a discrição de Liliane e de seu marido, Andé Bettencourt, já falecido - que além de industrial foi ministro de De Gaulle e de Pompidou - não impediram que os franceses acompanhassem sua degradação física e mental para constatar que mesmo se suas origens a distinguem da maioria dos cidadãos, um destino comum iguala todos os seres humanos.


Sarkozy e o Fouquet's = Maria Antonieta e seu brioche




Ao aceitar o convite para um almoço de imprensa no restaurante Le Diane, do Hôtel Le Fouquet’s Barrière, um cinco estrelas nos Champs Elysées, sabia que faria parte de um grupo de jornalistas que não se arrepender de dedicar algumas horas à cozinha estrelada do chef Jean-Yves Leurenguer.

 En effet, como diriam os franceses. Fomos brindados por uma amostra do que a cozinha francesa tem de melhor, a excelência famosa no mundo inteiro. E no fim do almoço,  fizemos uma visita guiada. 

Foi no Fouquet’s que o então vitorioso candidato Sarkozy foi comemorar com um grupo seleto de milionários sua vitória em 2007. O Fouquet’s virou uma espécie de brioche de Maria Antonieta na biografia de Sarkozy. Foi um erro que ele não cometeria novamente, dizem seus amigos. A carga simbólica de uma comemoração com a nata da elite econômica francesa ficou como marca de uma presidência voltada para proteger os ricos, sobretudo do pagamento de impostos, com leis fiscais escancaradamente favoráveis às grandes fortunas. 

Mas, apesar de ter ficado indelevelmente associado à monstruosa gaffe presidencial, o hotel e o restaurante merecem a visita de quem estiver de passagem por Paris com uma consistente conta bancária. Pratos como a selle d'ageau au basilic, parfumée aux artichauts poêlés à cru et gnocchis valem a visita. A decoração é chic sem extravagâncias.

Bem situado, o hotel está perto de todas as butiques de luxo do que os franceses chamam de « triangle d’or ». E tem um spa e uma piscina com todos os serviços para quem quer praticar exercícios, além da possibilidade da assistência de um coach.
Um luxo só.


A dependência das novas tecnologias

O dramaturgo italiano Romeo Castellucci, que trouxe este ano ao Festival de Teatro de Avignon « The Four Seasons Restaurant » fez um sucesso extraordinário no ano passado, no mesmo festival com “Sul concetto di volto nel figlio di Dio”, peça genial e polêmica, sobre a qual fiz matéria para a « Carta Capital » e reproduzi aqui no blog.

Em longa entrevista no « Libération », Castellucci diz que vivemos hoje a condição de espectadores permanentes. « A imagem tornou-se um autêntico campo de batalha. Não acredito nem um pouco na liberdade da Internet e das novas tecnologias. O efeito delas é antes de tudo de controle social. A esfera privada não existe mais. Eles inventaram uma necessidade. Exatamente como a publicidade faz : criar necessidades que não existem. Agamben e outros já falaram de « bio política ». É uma nova fronteira um tanto assustadora ».


Ascensão e queda de Jean-Luc Delarue

O talentoso apresentador de TV francesa, Jean-Luc Delarue, produtor de diversos programas de televisão de grande sucesso, num formato criado por ele próprio, morreu há alguns dias de câncer, aos 48 anos. A descida aos infernos de Delarue, que se tornou uma star da televisão nos últimos vinte anos, começara um pouco antes, ao ser preso acusado de deter grande quantidade de cocaína em sua casa. Delarue consumia vinte gramas de cocaína por semana, o que o fazia gastar  8 mil euros por mês, segundo declarou aos policiais. 

Lutando contra o vício, um ano antes de ter seu câncer diagnosticado, o apresentador, já afastado do canal público onde apresentava seu programa, fez um « tour de France » num miniônibus para falar em escolas de todo o país alertando os jovens e adolescentes para o perigo das drogas. Não viveu muito tempo "limpo" para testemunhar.


CHARLES, PRÍNCIPE DE GALES
O príncipe mal-amado
Leneide Duarte-Plon
*Publicado em 04/09/2012 na edição 710 do Observatório da Imprensa

Charles, o destino de um príncipe, o documentário inglês de Andrew Orr e Olivier Mille, que o canal France 3 exibiu na semana passada, suscita a imediata interrogação: qual o interesse em contar aos espectadores, durante duas horas, a vida do príncipe de Gales, filho de Elizabeth II?

Ao final do programa, podemos constatar como a engrenagem midiática pode ser seletiva e privilegiar os escândalos em detrimento de interesses mais nobres. Charles é um homem inteligente e sensível, formado em Cambridge, onde se especializou em arqueologia e arquitetura, e preocupado com o destino que o homem reserva ao planeta. O príncipe é um personagem muito mais complexo e interessante do que se pode imaginar, a partir do tratamento que lhe dispensa a mídia em geral.

O herdeiro do trono da Inglaterra tem 64 anos e nunca interessou muito os jornalistas, por não provocar grandes escândalos. Seu casamento com a princesa Diana elevou-o à condição de alvo para os paparazzi, muito mais pela beleza, carisma e fotogenia da mulher que tinha a seu lado do que por um interesse nos atos e projetos do príncipe. Além disso, apenas a relação paralela que Charles manteve com a amiga Camilla, com quem se casou posteriormente, interessou durante certo tempo a uma certa imprensa, ávida por escândalos.

Rainha longeva

Introvertido e alheio à vida mundana e superficial que fizeram a glória de outros nobres desocupados mundo afora, Charles seguiu construindo sua biografia de homem discreto e reservado. Extremamente crítico da qualidade da arquitetura londrina do pós-guerra, um dos melhores momentos do filme é quando ele percorre o Tâmisa de barco, apontando monstrengos pesados construídos às margens do rio, explicando por que são inadequados na paisagem urbana, e diz : “Os franceses não teriam permitido essa agressão a Paris”.

O documentário analisa a difícil relação de Charles com seu pai, um homem duro e exigente, que nunca entendeu o temperamento romântico do príncipe, que teve em seu padrinho, Lord Mountbatten, um verdadeiro mentor. O assassinato de Mountbatten, primo da Rainha Elizabeth, por uma bomba do IRA, em 1979, deixou em Charles um enorme vazio. Sua avó materna, morta em 2002, aos 102 anos, foi a outra grande referência na vida do príncipe, presença que compensava as longas ausências da mãe.

Educado para ocupar o trono da Inglaterra, o príncipe Charles teve de construir seu próprio destino para, enquanto espera, não se limitar a cumprir um protocolo exigente e devorador que muitos meses antes lhe traça cada minuto de sua vida. Interessado na agricultura tradicional, na humanização da vida nas cidades, Charles sempre se engajou em causas ecológicas, sabedor que os países desenvolvidos precisam dar marcha a ré no modelo poluidor e insustentável.

Durante o governo de Margaret Thatcher, chegou a incomodar politicamente ministros da primeira-ministra conservadora. Um deles aparece no documentário criticando a atuação política do príncipe, que ia de encontro à política de Thatcher para os trabalhadores de um determinado setor da economia.

Se Elizabeth for tão longeva quanto sua mãe, o príncipe Charles corre o risco de desaparecer antes dela. Ficará a memória de um humanista, um homem culto e profundamente consciente dos perigos que ameaçam a Terra com a mudança climática, o aumento da demanda alimentar e o desenvolvimento urbano.
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[Leneide Duarte-Plon é jornalista, em Paris]