sábado, 16 de fevereiro de 2013

Bento XVI e a Igreja do futuro



          
O papa eleito em março vai levar a Igreja católica ao século XXI ? A instituição, que se defronta na Europa com uma espetacular crise de vocações e igrejas cada vez mais vazias, precisa fazer novo aggiornamento, como o que fez João XXIII no Concílio Vaticano II ?
O novo papa vai autorizar, enfim, o casamento dos padres, a ordenação de mulheres, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, os preservativos para combater a Aids ? 
Por enquanto essas mudanças parecem sonho de uma noite de primavera romana, quando um cardeal sairá papa do conclave que se anuncia.

As perguntas se multiplicam na nossa cabeça. Com a renúncia, o papa Bento XVI deu uma lição de humanidade e desprendimento ou, ao contrário, demonstrou orgulho e soberba ao decidir que não iria dar como espetáculo ao mundo seu declínio físico ?
Um religioso compra roupas liturgicas na famosa loja Gammareli, em Roma. No alto, fotos dos papas, todos clientes da tradicional loja. Foto Leneide Duarte-Plon
Quando vi umas cenas de arquivo em que o cardeal Ratzinger dá a hóstia ao papa João Paulo II, já doente, limitado em seus movimentos, totalmente encurvado pela doença, achei que no convívio próximo com aquele homem fragilizado, o cardeal alemão decidiu que, naquela situação, renunciaria.
Ao ver Bento XVI envelhecido e fraco, não é difícil acreditar que ele não tem mais saúde para dirigir o Vaticano, não apenas um Estado mas também uma instituição religiosa multinacional espalhada pelo mundo inteiro. Não é difícil crer  que o papa decidiu retirar-se ao silêncio, longe dos olhares curiosos para dar os últimos passos em direção à morte longe da multidão de voyeurs. Parece uma decisão digna e respeitável. Leonardo Boff, que conheceu bem o cardeal Ratzinger, diz que ele é um homem tímido.
Há, porém, quem aponte causas políticas na renúncia de Bento XVI, vencido pelas lutas de poder num Vaticano governado por cardeais e arcebispos maquiavélicos, atores de escândalos sexuais e financeiros, que tecem nos bastidores tramas nada edificantes.
O resultado dos escândalos são terríveis para a Igreja. Depois da revelação dos casos de pedofilia na igreja alemã, houve uma evasão de fiéis sem precedentes : 180 mil católicos se desligaram da instituição.

Hoje, o filme de Nanni Moretti, Habemus Papam parece bem menos improvável do que quando foi lançado. Um papa que entra em pânico ao ser eleito, esmagado pelo peso da responsabilidade, não é mais uma ficção totalmente surrealista. Aquele papa era um daqueles que acreditam em Deus, como diz um amigo meu, ateu e anticlerical que divide os papas entre os que crêem e os que não crêem em Deus.

Profecias : mais uma

Mais uma profecia do apocalipse, que pode ser desmentida (ou confirmada) a partir de março.
A profecia de São Malaquias, que data de 500 anos, prediz que o sucessor de Bento XVI será o último papa. Depois do atual, virá a tribulação sob o governo do papa que se chamará Pedro, o romano. “A cidade de sete colinas será destruída e o Juiz supremo julgará seu povo », diz a profecia.
Veremos.
Se o novo papa escolher outro nome, continuamos a esperar novas previsões a serem desmentidas ad infinitum.  


Seios na Notre Dame

Na terça-feira, o grupo de feministas Femen, de origem ucraniana, que faz protestos de seios à mostra, invadiu a Catedral Notre Dame, para festejar a abdicação de Bento XVI, anunciada na véspera.
No mesmo dia, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoë, condenou a ação: “Reprovo esse ato que caricatura o belo combate pela igualdade entre homens e mulheres e choca, inutilmente, muitos católicos ».
Fotos no site :

Dali :  10 mil dólares por um fio de bigode

Um fio de cabelo do bigode de Dali foi vendido por 10 mil dólares. Quem pagou foi Yoko Ono. Sem saber que era falso, claro.
Quem revela agora é a atriz Amandar Lear, que foi musa de Dali.
Segundo ela, o artista pensava que Yoko era uma feiticeira e temia mau olhado. Por isso, pediu à amiga que colhesse uma erva com aparência de cabelo, colocasse num pequeno cofre e entregasse à mulher de John Lennon.
Todo mundo sabe que o artista catalão gostava de dólares e não tinha nenhum escrúpulo para encher os bolsos de bilhetes verdes.

 Wadjda : um filme sutil e solar

Na Arábia Saudita não há cinemas. Por isso, não há produção cinematográfica.
Ora, num país onde as mulheres não votam, não podem dirigir carro, andar de bicicleta e sequer sair sem a companhia de um homem (em geral o marido, o pai ou o irmão), o primeiro filme saudita realizado por uma mulher é simplesmente uma total surpresa. Wadjda é uma revelação, pleno de inteligência e sutileza. Uma pérola.
A cineasta se chama Haifaa Al-Mansour, 39 anos, e fez uma pequena obra-prima sutil e solar. A crítica francesa saudou Wadjda com entudiasmo, assim como o júri de Veneza, que atribuiu à obra o prêmio de Melhor filme de Arte no Festival de Veneza de 2012.
A personagem do filme é uma pré-adolescente representada por uma jovem atriz determinada como seu personagem. A atriz Waad Mohammed vai longe. Com a condição de que deixe a Arábia Saudita, como a cineasta.
Antes de Wadjda, Haifaa realizou Femmes sans ombre um documentário premiado em vários festivais. Filha de um pai liberal, criada numa família de 12 filhos, Haifaa é casada com um diplomata americano. Fez sua formação na Austrália, mas realizou seu primeiro longa metragem na capital saudita, Riad, se protegendo dos olhares dentro de uma pick-up, pois não seria bem visto uma mulher dirigir uma equipe de homens.
Num país que não tem uma única sala de cinema, quem quiser ver o filme vai ter que ir a um país vizinho ou comprar o DVD.
Vida longa e liberdade para as mulheres sauditas.  

 
Qual o aeroporto mais odiado?

Acertou quem disse Roissy-Charles de Gaulle. Ele é mais odiado que o de Los Angeles, de Londres (Heathrow), de Nairobi, no Kenia, ou o de Toncontin, em Honduras.
Motivos para tanto desamor ? « Falta de sinalização, de informação nos portões de embarque, organização circular confusa, piorada pelos labirintos e túneis. Os bares e restaurantes são indignos de Paris e os toaletes são sujos e sem tampa ».
A revelação feita por CNNGo.com, site de um canal americano dedicado às viagens leva imediatamente a uma certeza : os votantes nunca devem ter passado pelo Galeão-Tom Jobim.

David Beckham : suite imperial

Pobre David Beckham !
O jogador inglês está em Paris há quase um mês para uma temporada no clube parisiense Paris Saint-Germain. A imprensa revelou que o craque está morando na suite imperial do Hotel Bristol, um cinco estrelas a poucos metros do Palácio do Eliseu, na rue du Faubourg Saint-Honoré.
A suite tem 300 m2 e custa somente 17.500 euros por dia.
A família fica em Londres. Por uma questão de impostos, domicílio fiscal, segundo explica uma advogada. Mesmo que ele tenha informado à imprensa que tudo o que ganhar no PSG vai ser doado a uma associação que se ocupa de crianças carentes.
As más línguas dizem que o nome da associação, não revelada, é Victoria Beckham.

Hossexualidade : doença ou pecado capital ?

Temos um casal de amigos que adotou um menino russo. Boris é lindo e inteligente. Em pouco tempo, depois de chegar em Paris com quase três anos, já falava e entendia bem o francês. Agora « camarada Boris » um perfeito parisiense, bem integrado na escola. Já não precisamos tentar dizer “Niet” quando queremos afastá-lo de algum perigo. Basta explicar em francês pois ele já tem o vocabulário das crianças de sua idade.
Acontece que em dezembro passado a Rússia de Vladimir Poutin aprovou uma lei que proíbe crianças russas de serem adotadas por americanos. Este ano, a proibição se estendeu aos casais de gays que vinham de países europeus adotar órfãos russos. Como a França adotou esta semana a lei do casamento de pessoas do mesmo sexo, a proibição vai atingir os gays franceses.
No Rossiiskaia Gazeta, o representante do Kremlin para os direitos da criança, Pavel Astakhov justificou : « Nossa Constituição e o código da família dizem que um casamento é a união de um homem e uma mulher. Nenhuma outra coisa. Ponto ». Citando a convenção da ONU dos direitos da infância, ele continua : « Não se pode mudar o modelo, a criança precisa de um pai e de uma mãe ».
Na semana passada, o país de Putin adotou uma lei de severo controle dos homossexuais e da expressão da homossexualidade no espaço público. Tudo o que pode ser considerado « propaganda da homossexualidade » será severamente reprimido.
A maioria dos russos consultados numa pesquisa hesita em  considerar a homossexualidade uma doença ou um pecado capital.
No Irã e em alguns países muçulmanos, os homossexuais são condenados à morte…


Tortura : crime imprescritível

Os assassinos do deputado Rubens Paiva estão soltos. Rubens Paiva está até hoje desaparecido.
Para quem não leu a entrevista de Marcelo Rubens Paiva no Estado de São Paulo, no dia em que a Comissão da Verdade confirmou a morte de seu pai sob tortura, desmontando a versão oficial, fantasiosa e delirante, eis uma das respostas do escritor. A certa altura a repórter diz :
Pela lei da anistia de 1979, os responsáveis não podem ser punidos.
Marcelo Rubens Paiva responde: « Eu discordo. Essa é uma lei antidemocrática, promulgada com o Congresso engessado pelo Pacote de Abril, com senadores biônicos. Na época, não existia debate democrático, a imprensa estava sob censura, as passeatas e manifestações pela anistia eram reprimidas brutalmente pela polícia. A oposição brasileira estava metade morta e metade no exílio, os partidos de esquerda não podiam existir, os sindicatos não tinham liberdade. Como é que alguém pode dizer que a lei, promulgada nesse clima, é democrática? Outro paradoxo dessa história é que o Brasil é signatário da carta internacional que afirma que a tortura é crime contra a humanidade e, portanto, imprescritível. Como é que o País, sendo signatário da carta, considera a tortura prescritível? »

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A ditadura formou índios para torturar. Em Paris, Primo Levi cuida de torturados




Graças as correspondente do Le Monde no Brasil, Nicolas Bourcier, fiquei sabendo do documentário de Jesco von Puttkamer (1918-1994), exibido na TV Folha, em reportagem da jornalista Laura Capriglione.
Jesko era um homem discreto, descendente de nobreza alemã e segundo Apoena Meirelles, um dos mais importantes indigenistas brasileiros, assassinado em 2004, sempre primou pela discrição, preferindo o anonimato. Com seu trabalho, Von Puttkamer pôde denunciar muitos erros da política indigenista brasileira.
Em fevereiro de 1970, Von Puttkamer filmou cenas de um horror surrealista : na cerimônia de formatura, um grupo de índios da Guarda Rural Indígena desfila diante de autoridades em Belo Horizonte. Estão lá, o ex-vice-presidente da República José Maria Alkmin, o governador de Minas, Israel Pinheiro e o ministro José Costa Cavalcanti.
Ninguém parece chocado quando dois índios passam no desfile com um prisioneiro pendurado no pau-de-arara. Os índios de diversas etnias haviam sido treinados a torturar, como um bom policial sob a ditadura. Que país era esse ?
Segundo a Folha, o pau-de-arara é « a autêntica contribuição brasileira ao arsenal mundial de técnicas de tortura, usado desde os tempos da colônia para punir "negros fujões", como se dizia ». Por lembrar as longas varas usadas para levar aves aos mercados, atadas pelos pés, o suplício ganhou esse nome.
. O vídeo pode ser visto no link :
Nossa ditadura está longe no tempo, acabaram as torturas de presos políticos mas a tortura de presos comuns continua sendo uma prática conhecida e, muitas vezes, aceita por grande parte da opinião pública. Que país é esse ?
Na França, o Centro Primo-Levi publicou no ano passado o Livre blanc de la torture-Livro branco da tortura, que estima em 100 mil o número de vítimas da tortura vivendo na França. Essas pessoas vêm de todas as partes do mundo e, desde 1995, podem ser tratadas por psicólogos, psiquiatras e psicanalistas graças à criação do Centro Primo Levi.
Tito de Alencar Lima, o dominicano brasileiro que se suicidou em 1974 na França, não pôde continuar vivendo depois de ter sido torturado. Preferiu a morte a conviver com a tortura, que não se apagava da memória.
 Vivre après la torture é justamente o slogan do Centro Primo Levi, que organiza colóquios em torno do tema e defende uma política de saúde pública eficaz para tratar os milhares de « demandeurs d’asile » que conseguiram escapar  de dezenas de países que torturam e matam os opositores políticos. O Centro Primo-Levi trabalha com juristas e uma equipe pluridisciplinar para garantir o acesso a tratamentos médicos e psicológicos dessas pessoas.  
« Infelizmente não se pode curar as sequelas da tortura », diz a diretora do Centro, Eléonore Morel. E quando essas pessoas estão em condições de precariedade total, tudo fica mais difícil. Como tratar das insônias de uma pessoa que não sabe onde vai dormir à noite ? É o caso de muitos dos que chegam ao Centro.
O filósofo Jean Améry, amigo de Primo Levi, dizia que quem foi submetido à tortura fica incapaz de sentir-se em casa neste mundo. O ultraje do aniquilamento é indelével. A confiança no mundo, que a tortura apaga, é irrecuperável.

Amour

Esse magnífico filme de Michael Haneke, Palma de Ouro em Cannes em 2012, revelou mais uma vez o grande ator que é Jean-Louis Trintignant e a grande atriz que é Emmanuelle Riva.
Ao ser interrogado por um jornal qual seu projeto para o futuro, Trintignant respondeu : morrer. Mas garantiu que não vai se suicidar imediatamente, mesmo se às vezes se pergunte por que esperar. Talvez porque além de gostar de fazer leituras de poesia no teatro, ele adora também a calma de sua casa, na pequena cidade de Uzès, onde pode passar um dia inteiro observando um lagargo. Ele garante que é muito mais interessante que ver televisão. Quem duvida ?
Aliás, Trintignant numa cena que vi na televisão deixou Costa Gavras sem graça. O diretor estava no auditório quando o ator disse diante de toda a assistência, no meio de uma entrevista descontraída : « Costa eu sabia que você era amante da minha mulher. Você ficou vermelho ? Não sabia que eu sabia ? » Depois do que, Trintignant voltou a falar com a maior descontração sobre a carreira, filmes etc.

Barjot no palácio

Barjot foi ao Palácio do Eliseu, na semana passada, onde Hollande a esperava para uma audiência.
Não, não é um erro de ortografia. Não se trata da famosa atriz, aposentada e escondida no seu refúgio de Saint-Tropez. A senhora que usa o pseudônimo de Frigide Barjot (Frigide é frígida ; Barjot é maluco, louco, pirado, em gíria) se apresenta como militante católica e se passou a liderar a oposição à lei do casamento para pessoas do mesmo sexo, que os socialistas vão defender no Congresso a partir desta terça-feira, 29 de fevereiro.
O pseudônimo já diz um pouco da personagem. Mas por que Hollande recebe essa « pirada » no Eliseu ? Porque ela criou uma ONG que organizou juntamente com todos os « anti-mariage pour tous » a mega-passeata que, segundo os organizadores reuniu mais de 900 mil pessoas dia 13 de janeiro, em Paris. 

Segundo a polícia foram 350 mil. No cortejo, pais e mães com seus rebentos, a igreja católica com padres e arcebispos, a nata da França que não gosta de mudanças. Eram franceses que vieram de todas as cidades da França para a passeata. Não dava para não pensar em Vichy ou no Front National.

Apesar de seu look moderno e jovem, Frigide Barjot não é tão jovem (tem 50 anos) e nem tão moderna. Defende « o direito das crianças de terem um pai e uma   mãe ». Um discurso que a oposição de direita apoia. O « mariage pour tous » chamado de « mariage gay » pela oposição deve abrir as portas para a adoção por casais do mesmo sexo e à procriação assistida (procréation médicalement assistée).
Fim de uma civilização, abertura para o incesto e a poligamia, bradam os opositores da lei. A direita vem usando de todos os argumentos para tentar convencer os deputados e a opinião pública de que a lei vai ser o fim da família e a abertura para todas as perversões. O que não parece abalar os socialistas na determinação de fazer uma lei que siga a tendência de outros países europeus como a Espanha, Portugal e a Bélgica, que já aprovaram o casamento de pessoas do mesmo sexo.
Domingo, dia 27, os defensores da lei sairam às ruas. ‘A frente do cortejo, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoë, assumidamente gay, e dezenas de politicos heterossexuais, como Jack Lang. Foram 400 mil pessoas, segundo os organizadores, e 125 mil segundo a polícia.
Em breve, os gays franceses vão poder se casar. Apesar de terem mobilizado menos pessoas para a batalha das ruas, os socialistas têm a maioria no Congresso. A lei vai ser debatida por 15 dias numa batalha que vai lembrar a lei que instituiu, em 1974, a IVG (interruption volontaire de grossesse-interrupção voluntaria de gravidez).

Chirac votou Sarkozy. Mas não sabe

Enquanto o marido fica trancado diariamente no escritório da Rue de Lille ou em casa, protegido dos jornalistas a quem diria tudo o que ela não quer que ele diga, Madame Chirac sai, frequenta o mundo, discursa na Fundação Jacques Chirac, passeia o cachorrinho na Rue Bonaparte, perto do apartamento do Quai Voltaire, com vista para o Sena. O ex-presidente, que acaba de completar 80 anos, está com Alzheimer e perdeu quase totalmente a memória e um bocado da censura que o super-ego exerce sobre todos nós. Diz tudo o que quer, com ou sem Bernadette Chirac ao lado.
Quando, em 2011  o então candidato Hollande encontrou o ex-presidente numa pequena cidade do interior da Corrèze onde ambos têm origem política, Chirac disse que ia « votar Hollande » para presidente. Escândalo : François Hollande é socialista e Chirac de direita. Mas este detesta e sempre detestou Sarkozy.
Então, munida de uma procuração do marido, madame Chirac foi votar dia 22 de abril de 2012. Votou no seu candidato, Sarkozy, por ela e por seu marido, como sua « bastante procuradora ». Ela sabe muito bem que se ele fosse votar, teria traído seu grupo político e dado seu voto a Hollande. Além de atrair a imprensa e dizer aos jornalistas tudo o que pensa. Para ela, verdadeiros disparates.
Um grande perfil dos Chirac publicado recentemente na excelente revista semanal do Le Monde mostra toda a perfídia de Madame Chirac. A matéria termina com a declaração dela, que deu apoio público à campanha de Nicolas Sarkozy :
 « Imaginem que na minha família (a filha Claude e o genro) todos votaram em Hollande. Menos Jacques. Mas ele não sabe ».
No comments.

Domésticas : quanto mais desenvolvidos, menos

O emprego doméstico diminui à medida que se avança para o norte da Europa. Segundo a OIT-Organização Internacional do Trabalho, é na América Latina que os trabalhadores domésticos são mais numerosos : 7,6% do total de empregos. Nos países desenvolvidos, somente 0,8% dos empregos (em média) são de empregados domésticos. Na Europa, é na Espanha que os empregados domésticos representam maior proporção : 4%, enquanto nos países nórdicos eles representam apenas 0,1% dos empregos.
Quem quiser tirar conclusões, que tire.

DSK : compulsão sexual

O Journal du Dimanche garante que Dominique Strauss-Kahn teria pago 1,5 milhão de dólares como indenização à camareira do Sofitel de Nova York, Nafissatou Dialo, pela agressão sexual, da qual o ex-diretor do FMI era acusado. Os advogados das duas partes chegaram a um acordo em dezembro, em Nova York mas não divulgaram o valor da indenização.
Com mais de um milhão de dólares em sua conta, depois de pagar a seus advogados, a camareira tem um razoável pé de meia para recomeçar a vida.

Como vai a vida ?

A julgar pelo resultado de uma pesquisa francesa, a França é um lugar agradável de viver.  A média que os franceses dão para o « bem-estar » que sentem é 6,8 sobre 10, segundo uma pesquisa do Instituto Nacional de Estatística (Insee).
Essa noção subjetiva de bem-estar é uma recomendação do economista e prêmio Nobel americano Joseph Stiglitz. Ele defende novos critérios de performances econômicas e sociais, já que o velho PIB mede apenas uma riqueza quantificada e não a percepção do bem-estar dos cidadãos.
Um pouco mais de 50% dos franceses avaliam  entre 7 e 8 (sobre 10) sua satisfação. No pólo oposto, os mais insatisfeitos, 7%, deram entre 0 e 4 à sua satisfação. Em geral, são pessoas com laços familiares e sociais rompidos.

Israelenses e palestinos : o exemplo franco-alemão

O historiador israelense Shlomo Sand mais uma vez navega contra a corrente. Em seu novo livro Comment la terre d’Israel fut inventée (Como a terra de Israel foi inventada), ele lembra que até a ascensão de Hitler, o judaísmo oficial recusava um Estado judaico. Temiam que a terra acabasse substituindo Deus.  « Eles temiam que o Estado judaico fosse se transformar num Estado militarista, que utiliza a força ».
Em longa entrevista ao jornal L’Humanité Sand diz que a Europa cuspiu os judeus sobre o outro, o habitante do Oriente Médio. Ele pretende desmistificar, desde seu primeiro livro « Comment le peuple juif fut inventé » a ideia de um povo-raça que partiu e depois voltou. E também quer desmistificar a ideia de que existe um direito histórico porque essa terra pertence aos judeus. « Não creio que os muçulmanos tenham um direito histórico sobre a Espanha ainda que tenham sido expulsos de lá. Não creio que os índios tenham o direito de expulsar os brancos e os negros de Manhattan e do Harlem para construir um estado índio, mesmo sabendo que foram expulsos daquela terra. Digo isso porque a fantasia que existe de reconstituir o mundo como ele era há 2 mil anos pode transformar o mundo num asilo de loucos ».
Segundo Sand, é preciso forçar Israel – por todos os meios menos o terror e o assassinato – a retornar às fronteiras de 1967 e reconhecer uma República palestina. « Porque não sou racista e nem defendo uma comunidade. Precisamos construir uma federação que vai reforçar os laços entre as duas repúblicas. O sonho, a utopia, é uma confederação israelo-palestina ».
 Uma imagem simbólica: em Paris, a embaixadora da Palestina na União Europeia, Leila Shahid, e o filho de rabino e escritor engajado pela paz Israel-Palestina, Michel Warschawski, de mãos dadas
Pourquoi pas ? Este ano, quando a Alemanha e a França comemoram os 50 anos do tratado do Elyseu, assinado por Adenauer e De Gaulle, pode-se dizer que tudo é possível. Inimigos históricos, alemães e franceses deixaram para trás muitos séculos de guerras e ódio, ocupação alemã da França. Hoje são parceiros inseparáveis na construção e no aperfeiçoamento da Europa, como realidade política e econômica..  

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Israel: tortura de crianças palestinas

Quando um « affaire Dreyfus » em Israel?

Recebo da ACAT uma carta para ser enviada ao primeiro-ministro israelense. A Action des Chrétiens pour l’Abolition de la Torture propõe aos simpatizantes que encaminhem a Benjamin Netanyahu uma carta denunciando a tortura de menores palestinos. Segundo a ACAT, todo ano, entre 500 e 700 crianças da Cisjordânia, acusadas de jogar pedras e coqueteis Molotov são presas e sujeitas a torturas pelas forças de segurança israelenses. Depois são condenadas em julgamentos sem equidade.
Quem quiser, pode assinar o texto da carta por e-mail, no site internet www.acatfrance.fr na rubrica "Agir avec l'ACAT"

A propósito, vale citar a socióloga israelense Eva Illouz, que fez seus estudos na França e nos Estados Unidos antes de fazer carreira na Universidade hebraica de Jerusalém. Num artigo de página inteira do Le Monde de 4 e 5 de novembro, intitulado « Justiça ou tribalismo » (Justice ou tribalisme), Eva Illouz discorre longamente sobre o « affaire Dreyfus » rememorando o caso do capitão francês, judeu, acusado de espionagem injustamente por antissemitas em 1894. O julgamento dividiu o país e Dreyfus acabou sendo reabilitado depois de 12 anos de batalha judicial e midiática. A França se dividiu em « dreyfusards » e « anti-dreyfusards » (pró e contra Dreyfus). Emile Zola escreveu o famoso artigo « J’accuse » em defesa do capitão.
Eva Illouz argumenta : « a defesa de um inocente pertencente a uma minoria e acusado injustamente seria impensável hoje em Israel”. E explica : « a Justiça em Israel é o que é bom para a tribo. Aos olhos da maior parte de nossos  políticos e de nossos militares, a ideia de que é preciso defender a causa da verdade e da justiça, longe de ser um imperativo evidente, passa por uma incrível prova de ingenuidade ».
Segundo ela, a França de fins do século XIX era dominada pela aliança nefasta de religião, de nacionalismo e de militarismo securitário. « Deixo ao leitor o cuidado de decidirr se conhece um outro país capaz de desenvolver essa mistura de religião, de nacionalismo, de obsessão securitária e medo do inimigo interno », diz a socióloga.
Ela conta que durante a primeira guerra, Dreyfus, já aposentado, apresentou-se como voluntário. Por quê ? Eva Illouz responde : « Porque amava seu país. Porque defendendo um pequeno capitão judeu a França tinha defendido a Justiça para todos, preservando assim sua autoridade moral. Hoje, nossa mensagem a Herzl poderia ser a seguinte : o sionismo terá concluído sua tarefa no dia em que Israel tiver seu  caso Dreyfus ».


 Casamento para todos?


A lei que permite o casamento gay deverá ser votada até junho de 2013  pelo Parlamento francês. Mas o debate já está há alguns meses na mídia.
Do lado dos que combatem a lei, colocam-se a igreja católica e a maior parte do eleitorado e de politicos de direita. Até o grande rabino da França deu entrevista ao Le Monde para condenar o « casamento para todos ». O nome da lei é uma forma de evitar o termo popularizado pela imprensa, « casamento gay ».
 Nesse campo contra o “casamento para todos” (“mariage pour tous”) se engajou o proprietário do jornal Le Figaro, Serge Dassault, fabricante e exportador de armas, que tenta há vários anos vender seus aviões « Rafale » ao Brasil.
Do alto de seus 87 anos, o velho reacionário, senador pelo partido de direita UMP, declarou que uma das causas da decadência da Grécia “naquela época” (sic) foi o homossexualismo. “Isso representa a decadência total, o fim da família, o fim do desenvolvimento sadio das crianças, o fim da educação. Aprovar o casamento para pessoas do mesmo sexo seria um perigo enorme para toda a nação”.
Em  matéria de argumentos contra, convenhamos que não é dos mais brilhantes. Nem original. Se Dassault, a quinta fortuna da França, não tivesse herdado de seu pai a indústria de armamentos, provavelmente estaria desempregado, a depender unicamente de sua erudição. Ou senador, afinal há sempre eleitores de direita que votam nesses reacionários, que não escondem o que pensam da classe operária e das leis que a protegem dos patrões escravagistas que acham, como ele, que os empregados deveriam dormir no local de trabalo para pegarem mais cedo no batente. As entrevistas dele são o exemplo do pensamento mais reacionário da direita francesa.
Entre os católicos, nem todos são contra. O jornal Libération fez um perfil do vice-presidente da associação homossexual David et Jonathan,  o jurista católico Patrick Sanguinetti. Homossexual assumido - como o prefeito de Paris, Bertrand Delanoë e o ex-ministro Frédéric Mitterrand - Sanguinetti diz discordar das posições da igreja católica. Ele acha, no entanto, que a Igreja não pode ser acusada de homofobia pois conhece  muitos padres que não  o são.
Segundo o jurista, Jesus nunca rejeitou ninguém por sua orientação sexual. Ele provoca : « A Igreja católica defende a família clássica. Mas na Bíblia encontramos diversos tipos de família. Jacó teve filho de duas mulheres. Ruth se ligou afetuosamente a Noêmia. E a Sagrada Família ? Jesus, Maria, José e o Espírito Santo não formam exatamente uma família clássica, não ? Maria ficou grávida antes do casamento com José que foi, portanto, o pai adotivo de Jesus. E além disso, há Davi e Jonatan. Davi disse que o amor de Jonatan era mais maravilhoso que o amor das mulheres ».
No Le Monde do primeiro fim de semana de novembro, havia uma matéria de página inteira em torno do tema : « Homos et cathos, comment ils vivent le paradoxe » (Homossexuais e católicos, como eles vivem o paradoxo). Os entrevistados diziam que a igreja tem dificuldades de aceitar a homossexualidade deles.


Políticos, mais trabalho e menos regalias !

A democracia francesa está longe, bem longe da perfeição. Os deputados, por exemplo, recebem uma verba mensal de 6.412 euros da qual não precisam prestar contas. Uma proposta de prestação de contas transparente foi recentemente rejeitada pelos senhores deputados. Uma petição que circulou pela internet propôs o controle dessa verba para tornar a Assembleia Legislativa (o Congresso francês) mais transparente.
Por outro lado, o ex-primeiro-ministro Lionel Jospin entregou na semana passada ao presidente François Hollande o relatório da comissão que presidiu para reformar a vida política francesa. Entre as dezenas de medidas preconizadas pelo relatório Jospin, as principais são a proibição do exercício de funções ministeriais com qualquer mandato local, a proibição de exercício de mandato parlamentar com um mandato eletivo local (prefeito) e a mudança do estatudo jurídico do presidente da República e dos ministros, que hoje estão acima da lei com a imunidade de que desfrutam.
Hoje, um ministro pode acumular a função com um mandato eletivo, um prefeito pode se eleger deputado sem ter que escolher entre uma das duas funções. A grande maioria dos deputados acumula o mandato com a função de prefeito. São os famosos député-maire. Quase todos se dividem entre a prefeitura de suas cidades, algumas horas por semana, e o Parlamento,  outras horas semanais, acumulando funções e salários.
  Agora só falta vontade política para votar essas mudanças. O que não vai ser nada fácil pois a maioria do políticos quer manter o status quo, sobretudo o direito de acumular mandatos.

Celular : perigo

A Justiça italiana acaba de reconhecer uma relação de causa e efeito entre os celulares e o tumor cerebral. Dois médicos italianos, um neuro-cirurgião e um oncologista, deram parecer relacionando o uso intensivo do celular à doença de Innocente Marcolini, um tumor benigno num gânglio situado no interior do crânio.   Outros quatro casos similares estão em andamento na Itália. O paciente foi declarado inválido, vítima de doença professional. Ele utlizou o cellular de cinco a seis horas por dia durante doze anos.
No ano passado, o Centro Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, ligado à Organização Mundial da Saúde já havia classificado como possivelmente cancerígenos os campos eletromagnéticos de radiofrequência, entre os quais os de telefone celular.

Hollande acerta o passo com a História

Em 17 de outubro de 1961, 30 mil argelinos de Paris e dos subúrbios desfilaram  na capital francesa para protestar contra o toque de recolher. A guerra da Argélia estava chegando ao fim mas a polícia francesa reprimiu a passeata dos argelinos com uma brutalidade digna das piores ditaduras. Naquela noite, entre 50 a 250 pessoas morreram vítimas da violência policial. A imprensa não noticiou o fato e nunca a França reconheceu oficialmente o que se passou naquela noite.
Este ano, no aniversário do massacre um comunicado do presidente Hollande dizia  que « a República reconhece com lucidez a repressão sangrenta da manifestação dos argelinos em Paris. Cinquenta e um anos depois dessa tragédia, homenageio as vítimas ».
Dessa forma, Hollande se junta a Jacques Chirac na lista dos presidentes que não têm medo de enfrentar a história quando ela desonra a República. Jacques Chirac nos anos 90 reconheceu a responsabilidade da República francesa na prisão em massa de judeus em Paris, enviados para campos de concentração nazista, em 1942. O episódio ficou conhecido como « la rafle du Vel’d’Hiv » e faz parte da história do filme de Joseph Losey, « Monsieur Klein ».  
A Comissão da Verdade também está reconciliando os brasileiros com sua história. Esperemos que consiga trazer à luz o que aconteceu com os desaparecidos da ditadura civil-militar de 1964-1985. E que o país possa conhecer os nomes dos que torturaram e mataram nos porões da ditadura, protegidos pela lei de Segurança Nacional.


Maconha : legalizar ou descriminalizar ?
 Fotos de Leneide Duarte-Plon

Dois ministros de Hollande já foram desautorizados ao se manifestarem pela descriminalização da maconha. Eles defenderam a descriminalização e não a legalização ! Hoje quem fuma comete um delito diante da lei.
Primeiramente, a jovem ministra da Habitação, Cécile Duflot se declarou pela descriminalização. Depois, o ministro da educação, Vincent Peillon falou en passant da descriminalização. Ambos levaram pitos pois a posição oficial do governo é manter a atual lei. Apesar de ser um dos países europeus onde o uso de maconha é mais disseminado, a França tem a lei mais severa do continente europeu. O consumo de drogas, inclusive a da maconha, é um delito penal passível de pena de um ano de prisão e de 3.750 euros de multa.
Isso não impede que 39% dos jovens entre 15 e 17 anos declarem já ter fumado. Provavelmente ignoram os estudos científicos publicados recentemente na imprensa francesa que provam que ela provoca uma diminuição do desenvolvimento intelectual, acentua os riscos de ansiedade, de depressão e de distúrbios psíquicos.