sábado, 3 de agosto de 2013

Brasil campeão



   Deu no Libération:
“A Grécia liquida seus serviços públicos – Atrasado, o programa de privatização exigido pelos credores do país rende pouco.”
Na página seguinte outro título :
“A grande liquidação do patrimônio público espanhol – Tudo deve ser vendido até 2015.”
O Brasil já fez esse trabalho sujo no governo FHC, que privatizou grande parte das nossas empresas estatais. Antes, os militares tinham  se encarregado de sucatear nossos serviços públicos de saúde e educação para satisfazer a ganância de empresários que passaram a ter lucros com serviços que deveriam ser oferecidos a todos, gratuitamente e com qualidade.  
 Manifestação em Paris em defesa dos hospitais públicos, em 2007
Agora, ao ver a Europa começar a sacrificar os direitos dos trabalhadores no altar do neoliberalismo, constatamos que, mais uma vez, o Brasil está à frente do mundo. Ao criar o fator previdenciário, que hoje daria uma aposentadoria em torno de 12 mil reais  a quem cotizava pelo teto, o governo FHC condenou os empregados do setor privado a trabalhar até o dia do último suspiro.
 Manifestação contra a reforma da aposentadoria, Paris out-2010

Borboletas em perigo

Deu no Le Monde :
“Na Europa, o número de borboletas caiu para a metade em vinte anos. A agricultura intensiva e a diminuição dos prados provocam o desaparecimento dos lepidópteros”.
Quando uma espécie está em risco, é a vida na Terra que corre risco.  Mas há quem ache que ecologia é supérfluo, perda de tempo. Depois de destruir os ecossistemas, como o homem vai sobreviver num planeta devastado ? A natureza criará novas harmonias?
O homo sapiens, o pior predador da natureza, avança no sentido  de provocar seu próprio fim?

A pedra no sapato de Obama

Deu na revista online O canibal:
O jornalista Glenn Greenwald, do Guardian, responsável pelo furo mundial sobre a espionagem dos Estados Unidos, deu uma excelente entrevista à revista O canibal (http://www.ocanibal.com.br/). A entrevista é intitulada “A pedra no sapato de Obama” e foi feita por Clarisse Meireles e Juliano Borges:
“É engraçado, lembro do dia em que Obama ganhou o Prêmio Nobel, acordei e vi a notícia na primeira página do New York Times. Eu realmente achei que era uma piada, que o site do jornal tinha sido invadido por hackers ou algo assim. Me perguntava se aquilo era possível. Três semanas antes ele tinha anunciado que ia intensificar a Guerra no Afeganistão. Eu havia passado o ano escrevendo sobre como o Governo Obama repetia as mesmas políticas que havia condenado quando implementadas por George W. Bush e Dick Cheney. Não estava ainda tão claro a que extremos ele chegaria, Obama na verdade radicalizou muitas das políticas que antes criticava.”
 Desenho de Leonardo Gouvea
(...)
“Quando ele foi eleito e disse que ia fechar Guantánamo, era simplesmente porque era um símbolo, mas o projeto era apenas transferir a prisão para o solo americano, e continuar a prática de encarcerar pessoas sem nenhuma acusação formal. O que torna Guantánamo horrível não é o fato de estar em Cuba, como se fosse melhor estar em solo americano. O que é horrível são as condições desumanas, o fato de as pessoas estarem presas sem acusações ou julgamento, sem prova alguma contra elas, algumas há uma década.”
(...)
“E se as pessoas não se dão conta que ele não mudou nada na política externa em relação a Bush é porque ele é um grande ator. Passa aquela imagem de bom marido, bom pai. O que faz um bom político é a capacidade de fazer você ouvir o que você quer ouvir. Ele é excelente nisso. Além disso, muita gente imagina que pelo fato de ser negro, ser visto como liberal, ele foi eleito com uma plataforma contra todas essas políticas, é cool e jovem. É como uma marca.”
“Isso é aliás bem interessante. A indústria da propaganda premia todo ano os melhores comerciais, posicionamento de produtos etc. E uma das categorias de mais prestígio é melhor branding (marca), para premiar um produto que conseguiu ser amado. Em 2008, o prêmio foi para a campanha Obama. É isso o que ele é: uma marca.”
“E o que o relatório dizia é que a melhor forma de conter esta “ameaça pacifista” seria a eleição de Obama, porque no lugar de Bush, um cowboy religioso e arrogante entraria aquele liberal sofisticado, professor de Direito, que estudou em Harvard, negro, progressista. E a CIA estava certa. Com a chegada de Obama, muita gente que estava contra os EUA de repente ficou do seu lado de novo, porque eles passaram a acreditar que o que estava sendo feito era realmente o melhor.
É um caso de propaganda muito bem sucedido. O movimento pacifista praticamente desapareceu na última eleição.”

Brasileiros nas ruas : mudança já

Desenho da cartunista franco-brasileira Johanna Thomé de Souza, publicado no Le Monde

Do sociólogo espanhol Manuel Castells, professor em Paris e nos Estados Unidos, sobre os jovens urbanos que saíram às ruas do Brasil e são acusados de não terem projetos “claros” para mudar a sociedade:
“Além de passarem por uma série de problemas urbanos, ainda se exige que eles façam o trabalho de profissional que deveria ser dos burocratas preguiçosos responsáveis pela bagunça nos serviços. Os cidadãos só apontam os problemas. Resolvê-los é trabalho para os políticos e técnicos pagos por eles para fazê-lo.”

Cosi fan tutte por Michael Haneke

Gênio é gênio. Fomos ver a montagem do diretor Michael Haneke (Amour, Le ruban blanc) da ópera de Mozart em Bruxelas. Puro deleite. Uma mise-en-scène genial, misturando personagens em costumes de diferentes épocas, um cenário despojado e elegante, figurinos perfeitos. Vozes e interpretações idem. O público delirou no elegante Théâtre de la Monnaie.

Ao chegarmos ao hotel The Dominicans (FOTO), a música do elevador nos transportou a um monastério. Em total harmonia com o nome, a música ambiente reproduz cantos gregorianos. Elegante, charmoso, o hotel, no centro de Bruxelas, bem perto da Catedral e da Ópera é um excelente endereço. E ainda por cima, come-se bem no elegante restaurante do Dominicans. Aliás, depois que Frei Tito entrou na minha vida, dou de cara com dominicanos em toda parte.
Na véspera da ópera, Bruxelas viu desfilarem milhares de pessoas contra a Montsanto, que ameaça nos envenar com o milho transgênico (o MON810). Essa cultura transgênica, proibida até hoje na França, foi liberada esta semana pelo Conselho de Estado. Mas o ministro da Agricultura diz que não quer ver o milho da Montsanto na mesa dos franceses.    
Os ecologistas belgas levaram milhares de pessoas às ruas de Bruxelas para dizer não à Montsanto.


Várias gerações se misturavam, com cartazes em francês, em flamengo e em inglês. 


Um belo espetáculo de consciência cidadã.

HENRI ALLEG (1921-2013)
A morte de um herói discreto



Por Leneide Duarte-Plon em 30/07/2013 na edição 757 Observatório da Imprensa

Em fevereiro de 1958, graças ao livro La Question, de Henri Alleg, a França descobriu que seu Exército torturava na Argélia, como os nazistas da Gestapo tinham torturado os resistentes franceses. Imediatamente, o jornalista comunista nascido em Londres sob o nome de Harry Salem, filho de judeus russo-poloneses, se transformou num ícone da luta anticolonial, em plena guerra da Argélia.
Antes, alguns intelectuais haviam escrito artigos na imprensa mas naquele livro, um homem torturado dava seu testemunho. O diretor do jornal Alger Républicain – militante da luta anticolonialista, sequestrado e preso no ano anterior – confirmava as suspeitas num relato que se transformou imediatamente num best-seller. A partir da segunda edição, o livro passou a ter um posfácio de Jean-Paul Sartre, no qual o filósofo dizia: “Henri Alleg pagou o mais elevado preço para ter o direito de continuar um homem”.
Dia 17 deste calorento mês de julho, Henri Alleg faleceu em Paris, aos 91 anos, vítima de um AVC. Os principais jornais franceses noticiaram sua morte com espaço dedicado somente aos grandes personagens. O Le Monde deu uma página inteira, Libération, duas, e o comunista L’Humanité, do qual Alleg foi diretor, deu a notícia na capa, ressaltando os combates do jornalista e escritor contra o colonialismo, a opressão e todo tipo de racismo.
O presidente François Hollande louvou “o anticolonialista ardente cujo livro alertou o país sobre a realidade da tortura na Argélia”.
O secretário nacional do Partido Comunista Francês, Pierre Laurent, escreveu que o nome de Henri Alleg “permanecerá para sempre sinônimo de verdade, de coragem, de justiça”.
O diretor do jornal L’Humanité, Patric Le Hyaric, escreveu :
“A melhor homenagem que o Estado francês poderia fazer a Henri Alleg seria, enfim, reconhecer oficialmente a tortura na Argélia, assim como os crimes de guerra.”
Outra articulista, Rosa Moussaoui ressaltou que Alleg combateu “até o fim, sem cessar, a direita francesa sempre disposta a exaltar os ‘aspectos positivos’ da colonização”. Ela se referia ao longo debate durante o governo de Nicolas Sarkozy que, tentando reabilitar o período colonial, se pôs a apontar “aspectos positivos” na colonização francesa.
O livro
Quando foi proibido na França, três meses depois de ser lançado, o livro La Question já era um best-seller, com 65 mil exemplares vendidos. O governo do general Charles De Gaulle, tendo o escritor André Malraux como ministro da Cultura, não sabia ainda como iria acabar a guerra que, aliás, não era chamada de guerra pela França, mas “les événements d’Algérie” (os acontecimentos da Argélia). A expressão guerra da Argélia só foi imposta pelos historiadores muito depois da independência da antiga colônia.
A partir da proibição, o livro passou a ser impresso na Suíça e depois saiu em diversos países. Na França, o texto de Alleg passou a ser distribuído clandestinamente por uma rede de militantes católicos, socialistas e comunistas. Antes do livro, a revista católica Esprit havia denunciado a tortura na Argélia, mas Alleg veio trazer à opinião pública um texto-testemunho de grande qualidade literária. Nele não há psicologia ou julgamento moral – o texto é límpido, seco e objetivo.
O relato de Alleg tinha deixado a prisão em folhas soltas, levadas por seu advogado, burlando o controle dos torturadores. La question foi editado por Jérôme Lindon nas Editions de Minuit, num clima de debate passional entre os anti e os pró-colonização. O livro despertou a consciência de toda uma geração que descobriu horrorizada a tortura exercida pelos paraquedistas franceses em nome do combate à “subversão” da Frente de Libertação Nacional, que lutava pela independência da Argélia.
Em 1960, Alleg foi condenado a 10 anos de trabalhos forçados. No ano seguinte, fugiu da prisão indo se refugiar num país do Leste europeu. Escreveu diversos livros e dedicou toda sua vida ao jornalismo, à causa comunista e ao combate anticolonialista.
A notícia da morte de um herói discreto me transportou ao mês de dezembro de 2011, quando fui à sua casa na banlieue parisiense para uma entrevista em torno do seu livro e de sua experiência de resistente à guerra colonial na Argélia. Ele será um personagem do livro que estou escrevendo sobre como os militares franceses na Argélia exportaram técnicas de tortura e de controle das populações civis através do general Paul Aussaresses, que viveu no Brasil por quase três anos como adido militar da França.
Apesar da idade avançada, Alleg tinha a memória intacta e a inteligência preservada pelo tempo. E ao contar sua prisão, tortura e engajamento, seus olhos brilhavam cheios de vida e de generosidade.
***
Leneide Duarte-Plon é jornalista, em Paris 
Fotos de Leneide Duarte-Plon

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Contestação

Quando a direita francesa laica organizou mega-manifestações  contra a lei que daria direito ao casamento para pessoas do mesmo sexo (le mariage pour tous), ela se uniu aos homofóbicos e fundamentalistas de todas as confissões : católicos, judeus e muçulmanos. Mas combater o “mariage pour tous”, finalmente aprovado pelo parlamento, era apenas um bom pretexto para a direita descer às ruas e contestar o governo socialista.
Os políticos de direita pensam que quando a esquerda está no poder ela não é legítima. Somente a direita tem legitimidade para governar o país. O espírito de Pétain e Vichy estão presentes numa direita rançosa e reacionária que mantém um ambíguo namoro com a extrema-direita lepenista.
No Rio desde a semana passada, vejo com apreensão as manifestações de rua. Não parecem muito claras as reivindicações dos manifestantes. Que causa defendem? O que combatem? O que reivindicam?  
O “mariage pour tous” foi apenas um pretexto para a direita e a extrema-direita agitarem a bandeira da homofobia e mostrarem que não interiorizaram ainda a vitória dos socialistas. Falam de Hollande como um “presidente ilegítimo”, um ditador que não ouve o povo nas ruas (!).
No Brasil, onde os transportes coletivos são chamados de públicos mas são 100% privados, o governo se retirou totalmente de um serviço fundamental à população. É, pois, legítimo protestar contra aumentos excessivos de transportes caros e desconfortáveis.
Na França, ao contrário, o metrô e os ônibus de todas as cidades são um serviço público, organizado e eficaz, com larga subvenção do governo. Ai do governo que pensar em privatizar a saúde, educação ou os transportes. O dinheiro do contribuinte financia e garante a qualidade e a universalidade desses serviços fundamentais.
Por que no Brasil não se propõe a criação de empresas públicas de transportes, dirigidas pelo poder público? A extinção do transporte privado (que chamamos de público quando na verdade são apenas coletivos) seria um primeiro passo para se fazer o mesmo com a educação e com a saúde.
Por que cidadãos brasileiros não têm direito a educação e saúde gratuitos, universais e de qualidade?

On vous parle du Brésil

Nas décadas de 60 e 70, Paris era o epicentro das denúncias sobre torturas no Brasil. Miguel Arraes, Marcio Moreira Alves e Violeta Arraes criaram o Front Brésilien d’Information- Frente Brasileira de Informação (FBI) e um boletim informava a diáspora brasileira e os franceses engajados na luta pelos direitos humanos. Tudo o que se passava no Brasil, dirigido por generais que instauraram a tortura como arma de guerra, saía do país de forma clandestina.
O cineasta Chris Marker, falecido no ano passado aos 91anos, fez em 1969 dois curta-metragens que comprei antes de embarcar para o Rio este mês: On vous parle du Brésil: tortures e On vous parle du Brésil: Carlos Marighela (sic). Os documentários têm imagens que saíam com clandestinas do país. Um deles mostra os presos políticos trocados pelo embaixador americano dando depoimentos sobre torturas. Outro conta a prisão dos dominicanos e a execução de Marighella.
Imaginei fazer uma sessão pública e gratuita em uma sala de exibição, mesmo pequena, para os interessados. Um dos filmes tem 17 minutos e o outro 20. Em tempo de comunicação expressa, onde os meios se aceleram, um timing perfeito.  Em pouco mais de meia hora, a sessão está terminada.
            

Repare bem

Esse documentário de Maria de Medeiros é uma pérola. Passou no Festival do Cinema Brasileiro de Paris este ano com o título “Les yeux de Bacuri”. Fiz com ela uma entrevista para a Carta Capital que segue abaixo:
Maria de Medeiros :  « Dar acesso à verdade é um ato democrático »
Leneide Duarte-Plon, de Paris
A atriz, cantora e cineasta portuguesa Maria de Medeiros apresentou em Paris na segunda-feira, 22 de abril, seu mais recente filme Repare bem (Les yeux de Bacuri), no 15° Festival do Cinema Brasileiro de Paris. A atriz, que já foi dirigida por Quentin Tarantino em Pulp Fiction e por Philip Kaufman em Henry and June, desta vez está por trás da câmera. Ela assina um documentário inteligente, sutil, emocionante. 
Seu documentário anterior, Capitães de abril, sobre a revolução dos cravos, foi exibido na seleção oficial do Festival de Cannes de 2000 e recebeu diversos prêmios, entre eles, o Grande Prêmio do Festival Internacional de São Paulo, onde ela apresentou no ano passado seu novo filme, sem data para ser lançado no Brasil.
Repare bem começa com cenas de Um dia inesquecível, de Ettore Scola.  Desorientado, o espectador pode se perguntar se o projecionista não se enganou de bobina. Depois de poucos minutos, corte para a Roma de hoje, o mesmo prédio do filme de Scola, de arquitetura tipicamente fascista, com seus habitantes que entram e saem. Num dos apartamentos, a ex-resistente e exilada Denise Crispim conta a história de três mulheres, que tiveram suas vidas devastadas pela ditadura brasileira : ela, sua filha Eduarda e sua mãe Encarnación.
A cineasta falou a Carta Capital, num café parisiense, antes de embarcar para Barcelona :
“No documentário há a História mas, por outro lado, é a história de uma família. É um filme que conta uma história romanesca, digna de um livro, onde há uma grande generosidade humana, a ideia de transmissão de valores », diz.
A avó, Encarnación, foi presa pela ditadura, como Denise, que militava com seu companheiro Eduardo Collen Leite, o Bacuri,. Logo depois, o guerrilheiro também cai nas garras do delegado Sérgio Fleury. Encarnación foi trocada pelo embaixador suíço Giovanni Bücher e embarcou para Santiago, onde Denise se juntou a ela com a filha Eduarda, que não conheceu o pai. Eduardo foi trucidado por seus carrascos, depois de 109 dias de tortura.

Carta Capital : Por que você se interessa pela história recente do Brasil ?
Maria de Medeiros : Sempre me interessei pelo Brasil, pela cultura brasileira, a música, o cinema. Mas também a história. Nós portugueses sempre tivemos muito contato com a história brasileira. Eu tinha feito um filme sobre a revolução dos cravos, « Capitães de abril » e essa foi a época em que meus pais voltaram da Áustria para Portugal e tive a sorte de viver esse período revolucionário. Coincidiu com a minha descoberta da música e da cultura brasileira. E coincidiu com o contacto com brasileiros no exílio. Há tempo vinha pesquisando, com vontade de fazer alguma coisa no cinema sobre esses resistentes que sempre me despertaram muita admiração.
CC : Como você conheceu a história do Bacuri, Eduardo Collen Leite ?
MM: Ana Petta uma amiga, atriz e produtora de São Paulo, me colocou em contato com a Comissão de Anistia e Reparação. A Comissão, que faz parte do Ministério da Justiça brasileiro, está incentivando trabalhos em torno da questão da memória da ditadura, da reparação e da reconstrução das pessoas que foram vítimas. Foi Ana que teve a ideia de me propor essa história. Ela sabia que eu amo o Brasil me interesso muito pelo país e, por outro lado, é uma história de exílio, de 40 anos de vida na Europa.
CC: Você já conhecia Denise Crispim?
MM: Foi o Paulo Abraão, Secretário Nacional de Justiça, quem sugeriu a Denise Crispim. Eu já tinha lido, sabe-se que foi de uma atrocidade que não se faz ideia. Nessa história tem a linhagem de mulheres sobreviventes, a avó, mãe e a filha.
CC : Como você construiu o roteiro ? Havia um parti pris ?
MM : A construção do roteiro se impôs a partir da coincidência incrível da Denise viver no edifício, em Roma, onde o Ettore Scola filmou “Una giornata particolare” (Um dia inesquecível), um filme eminentemente anti-fascista. O filme tem tudo a ver com a história que eu ia contar. É uma coincidência espetacular. Para mim ficou muito claro que devia começar por ali. E também estava reticente à ideia de usar imagens de arquivos da ditadura no Brasil,  sempre as mesmas, os documentários mostram a polícia a cavalo, a repressão das manifestações.  Achei divertido começar por alguma coisa que desorientasse completamente o  público.
CC : O parti pris de não usar voz em off é muito inteligente…
MM : A televisão impõe certas regras que quis evitar. Quis construir um objeto que tenha também uma construção literária, como quando a gente lê um livro sem saber para onde se vai. O livro vai nos guiando, no cinema de ficção também.
CC : Você teve um financiamento da Comissão de Anistia e Reparação. Não teme que a direita acuse o filme de ser propaganda do governo e da luta armada?
MM : O financiamento foi mínimo porque eles pensavam que fosse um curta-metragem e o filme tem uma hora e meia. Então houve outros recursos que tive que completar. O filme não é propaganda da luta armada, se trata de reparação à vítima da ditadura. É claro que há uma vontade política neste momento que é exemplar para a Europa. Há muitos países da Europa que não conseguem fazer esse trabalho de memória. A Espanha, por exemplo, onde o juiz Garzón foi afastado por querer dar a palavra às vítimas da Guerra da Espanha, muito mais antiga. Existe uma vontade política de permitir aos brasileiros conhecer sua história e de o Estado brasileiro pedir desculpas pela ferocidade com que as pessoas foram perseguidas e assassinadas.
CC : E já vem tarde…
MM : E já vem tarde. Na Argentina e no Chile fizeram esse trabalho antes. É evidente que o passo seguinte seria julgar as pessoas culpadas dessas atrocidades.
CC : O problema é que a lei de anistia brasileira anistiou os torturadores também. Você acha que o Brasil pode chegar a mudar a lei e um dia julgar os torturadores ?
MM : Eu espero. O Brasil está num processo democrático estimulante para o mundo inteiro. O mundo tem os olhos postos no Brasil não só, evidentemente, pela saúde econômica mas também pela saúde democrática que exibe, no fundo.  É muito importante dar acesso à verdade, é um ato democrático muito importante.
CC : Como você avalia a luta da geração de Bacuri e de Denise Crispim contra a ditadura, que gerou os órfãos, os torturados, os desaparecidos, os assassinados sob tortura ou fuzilados como Marighella. Valeu a pena ?
MM : Ela valeu imenso a pena.  A essa luta se devem justamente todas as vitórias democráticas, toda a consciência democrática que existe hoje no Brasil em todos os níveis. É natural que quando você vive num país seja crítico. Acho saudável, melhor que o ultranacionalismo. Quando eu digo que o Brasil está fantástico meus amigos brasileiros me dizem que falta muito, não é bem assim. É normal ser crítico. Mas vendo de fora como eu, percebo uma consciência de uma democracia da qual todo mundo está se beneficiando. Então acho que valeu a pena a luta de todos os que fizeram a resistência. Havia maoístas, pessoas de igreja, pessoas de tendências diversas lutando pela democracia.
CC : O que a Comissão da Verdade pode fazer pela recuperação da memória ? Você acha que o trabalho dela vai ser realmente importante ?
MM : Sem dúvida nenhuma. Creio que todo esse trabalho é um despertar das consciências, manter as consciências vivas. O perigo é deixar o povo adormecido, alienado. Um dos perigos que vejo na Europa é a alienação. É muito fácil esquecer e acabar repetindo os mesmos erros. Esse trabalho é para relembrar onde estão os perigos para que aquele passado não se reproduza.
CC : Você acha que o filme vai encontrar um público amplo no Brasil ? Existe uma vontade de conhecer essa história recente ?
MM : Enquanto realizadora, gostaria de encontrar um público para o filme. Por um lado há a História no filme, mas por outro lado é a história de uma família. O filme conta uma história romanesca, digna de um livro, onde há uma generosidade humana, amor de pais para filhos, a ideia de transmissão de valores. Da avó que defende as mesmas ideias, são três gerações de mulheres. Há uma dimensão profundamente humana no filme.

Dali


Na exposição de Salvador Dalí no Beaubourg (Centre Georges Pompidou) descobri alguns quadros que não conhecia.
Entre eles, um surpreendente. Vemos uma silhueta de um homem, Jesus, e uma frase: “Parfois je crache par plaisir sur le portrait de ma mère” (Às vezes, cuspo por prazer no retrato de minha mãe).
A mãe de Jesus, um estorvo para o filho?
Dalí, um iconoclasta de carteirinha, estaria falando de sua própria mãe?

Estilista brasileira em Milão

O Brasil tem talentos que brilham no exterior e que muitas vezes desconhecemos. Andreia Chaves é uma designer brasileira que faz sucesso em Milão, capital italiana da moda. O site dela tem sapatos geniais, verdadeiras esculturas.
           Encontrei-a em Paraty, no réveillon passado e conhecemos o namorado dela, um artista irlandês, que faz magníficos móveis-esculturas, de formas puras e expõe em toda a Europa. Verdadeiras obras de arte. Nos sites deles pode-se ter uma ideia do genial trabalho de criação desses dois artistas:  www.josephwalshstudio.com e www.andreiachaves.com
*       
Pinochetismo

Vi num documentário na televisão francesa, em que o tema era a política e o futebol. Um dos personagens era o nosso doutor Sócrates.  Outro era o chileno Carlos Caszely.
Pouco tempo antes da copa do mundo na Alemanha Ocidental, em 1974, o time chileno foi levado ao Palácio do Governo em Santiado para ser apresentado ao general Pinochet, chefe do golpe que derrubara o president Allende, em setembro de 1973. O jogador Carlos Caszely não somente não deu a mão ao ditador quando este se aproximou com a mão estendida como interpelou-o. Disse-lhe que o país estava sofrendo, que havia pessoas presas e perseguidas. Enquanto o jogador falava, Pinochet colocou os dois dedos no ouvido e disse que não queria ouvir aquilo.
Algumas semanas depois, ao voltar ao Chile, Caszely encontrou no aeroporto seu pai, sua mãe e sua irmã com os rostos amargurados. Silenciosos, pareciam que tinham vivido uma tragédia e não podiam comunicar o que viveram. Demoraram a poder contar ao filho o que se passou depois de seu encontro com Pinochet : sua mãe fora barbaramente torturada. 

O santo rebelde

Enviado por um amigo, ex-dominicano, João Caldas Valençça, o texto abaixo foi extraído do documentário “Dom Helder Camara – O santo rebelde.”

"Sonhei que o Papa enlouquecia
E ele mesmo ateava fogo ao Vaticano
E à Basílica de São Pedro
Loucura Sagrada!
Porque Deus atiçava o fogo que os
Bombeiros, em vão, tentavam extinguir
O Papa, louco,  saía pelas ruas de Roma
Dizendo adeus aos embaixadores
Credenciados junto a ele
Jogando a Tiara ao Tibre
Espalhando pelos pobres, todos,
O dinheiro do Banco do Vaticano
Que vergonha para os cristãos!
Para que um Papa viva o evangelho
Temos que imaginá-lo em plena loucura."


Jesuítas, dominicanos, beneditinos

Continuando no ambiente eclesiástico, reproduzo uma piada contada por Eugênia Zerbini, filha do general Euryale Zerbini e de Therezinha Zerbini:
Num grande concílio no Vaticano, queima a luz. Os jesuítas querem saber de quem é a culpa. Os dominicanos começam a fazer um tratado sobre a luz e sua expansão. Vem um beneditino, pega uma cadeira e troca a lâmpada.

Casanova, libertino individualista

A antítese do homem engajado, Casanova entrou na prestigiosa coleção Pléiade. Como se sabe, o veneziano escreveu num francês irretocável sua biografia Histoire de ma vie, obra de memorialista e ao mesmo tempo de historiador do século XVIII. Individualista e um grande hedonista, Casanova escreveu: “ Cultivar os prazeres dos sentidos foi, durante toda minha vida, meu principal objetivo; nunca tive nenhum mais importante. Sentindo-me nascido para o sexo diferente do meu, sempre o amei, e me dediquei a ser amado por ele da forma mais intensa. Também amei a boa mesa com paixão, da mesma forma todos os objetos feitos para excitar a curiosidade.
*       
*      Correção :
*                 
 Numa nota de meu último post havia uma frase que saiu com um erro :

Esse slogan do Front National, o partido de Jean-Marie Le Pen, (L’Islam n’est pas compatible avec la République) começa a ser endossado por intelectuais que, a pretexto de defenderem a laicidade, o princípio que separa a Igreja do Estado, cada dia mais se desinibem no ataque à religião muçulmana.

Sorry, saiu “disinibem”. Como não tenho corretor de português, às vezes, apesar das releituras, os erros persistem.