sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Vaias para a Marselhesa

Michel Platini foi um craque da seleção francesa e hoje é o presidente da União européia de futebol (UEFA). No meio da histeria e da burrice que tomou conta da classe política francesa na semana passada, ele foi uma das vozes mais lúcidas e inteligentes.
A polêmica envolvendo futebol e políticos começou quando a seleção francesa jogou no Stade de France, em Paris, contra a seleção da Tunísia. Antes do jogo, quando uma cantora de origem tunisiana cantava A Marselhesa, o hino nacional foi vaiado por milhares de jovens torcedores. Ora, esses jovens nasceram na França. Mas vaiam o hino nacional.
Não é a primeira vez que A Marselhesa é vaiada. Isso já aconteceu num jogo contra o Marrocos e em outro contra a Argélia. Os três países foram colônias ou protetorados franceses.
Por que jovens descendentes de ex-colonizados vaiam A Marselhesa? Em vez de se fazer essa pergunta, que daria como resposta o fracasso da integração «à la française », Sarkozy, o primeiro-ministro Fillon, a ministra da Saúde e do Esporte e seu secretário de Estado multiplicaram as declarações de horror, espanto e indignação. Chegaram a propor que, numa próxima ocasião, o jogo seja interrompido e o estádio esvaziado. O secretário Laporte sugeriu que nunca mais a seleção francesa jogue contra esses países magrebinos no Stade de France.
O que disse Platini? Em longa entrevista ao "Le Monde" ele denuncia a manipulação política em torno do futebol, «refém da classe política», e critica a idéia de suspender o jogo quando o hino for vaiado. Além disso, pergunta, irônico: «Quando é que vão ter a brilhante idéia de pôr um policial atrás de cada torcedor?»
Ele minimiza o acontecido dizendo que em outras ocasiões esses mesmos jovens cantam o hino nacional quando a França joga contra um país europeu ou durante a Copa do Mundo.
Platini confessa que nunca cantou a Marselhesa antes dos jogos, mesmo achando que é o mais bonito hino nacional do mundo. Para ele, cantar aux armes citoyens antes de um jogo de futebol lhe parecia ir contra o espírito esportivo. «Era um jogo, um esporte, e não uma batalha de uma guerra. Por isso, nunca pude cantar o hino».

De que ria a rainha?

Num almoço com o embaixador brasileiro em Paris, na semana passada, os correspondentes brasileiros tiveram algumas informações preliminares sobre a visita de Nicolas Sarkozy ao Brasil em dezembro. O Brasil vai se tornar um parceiro privilegiado da França. A França vai vender aviões Rafale, helicópteros, centrais nucleares e outros itens da tecnologia francesa.
Uma jornalista fez a pergunta que estava na cabeça de muitas pessoas: «Carla Bruni o acompanha?»
Nas relações bilaterais a presença ou não da mulher do presidente na delegação não muda em nada o prestígio e a importância da visita presidencial, mas a ausência de Carla Bruni-Sarkozy tiraria um pouco do brilho e do charme da viagem. Afinal, ela é para Sarkozy o que Jackie Kennedy era para John Kennedy. Um «plus» com o qual ele conta para vender o charme francês (e uns Rafales e tanques de quebra) e construir seu mito.
Carla vai ao Brasil em dezembro, sim. Mas, obviamente, não vai passar o réveillon na orla vendo os fogos. Seu marido é muito ocupado para ficar tantos dias fora da Europa, que ele dirige até o fim do ano na presidência rotativa dos 27 estados-membros da União Européia. Parece que passam o Natal em Itaipava, na casa de amigos do pai dela, que vive em São Paulo.
Alguém quis saber como são as relações pessoais de Sarkozy e Lula. Eles se entendem muito bem, segundo o embaixador José Maurício Bustani. Ele disse que o presidente Lula surpreende por sua capacidade de comunicação e descontração.
Em Londres, durante a visita presidencial, o embaixador ouviu uma gargalhada feminina que vinha do grupo onde estava Lula. Como estava mais atrás, apressou o passo. Ao entrar no salão onde estavam Lula e Elizabeth II, viu estupefato que era ela quem dava uma risada farta, digna de uma plebéia, reagindo a algo contado por Lula. Descontraída e abandonando a sua pose de rainha da Inglaterra, Elizabeth II continuou a conversa com o ex-metalúrgico mostrando um quadro de um pintor holandês e fazendo um comentário bem-humorado sobre os holandeses.

Máfia napolitana contra Saviano

O escritor e jornalista Roberto Saviano desistiu. Jogou a toalha.
O autor de « Gomorra » decidiu deixar a Itália. Saviano tinha 26 anos quando escreveu o livro que trata da importância da Camorra, a máfia napolitana, na economia de Nápoles e da Itália. Depois, o livro foi adaptado ao cinema por Matteo Garrone.
“Gomorra”, que recebeu prêmio do júri no último festival de Cannes, impressiona pela violência dos mafiosos, infiltrados em todos os setores da economia regional, cujos métodos são a intimidação e a brutal eliminação de rivais e inimigos.
Depois de dois anos acompanhado dia e noite por guarda-costas, Saviano desistiu de continuar fugindo dos mafiosos, uma vez que, como escreveu no "La Reppublica", a «matilha de assassinos» tem total liberdade de ação no país, sem que isso desperte nenhum debate, nenhuma polêmica.
A Camorra, minuciosamente descrita no livro que vendeu um milhão e duzentos mil exemplares, tinha um projeto de assassinar Roberto Saviano antes do Natal, na auto-estrada entre Roma e Nápoles.
Com a partida dele, esperemos que salve sua vida.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

EXPLOSÃO DE FAVELAS

Se nada for feito na área de urbanização nos países mais pobres, haverá dois bilhões de pessoas vivendo em favelas daqui a trinta anos, segundo relatório da ONU divulgado no dia Internacional do Habitat, comemorado dia 6 de outubro. Hoje já existem 200 milhões de chineses, 160 milhões de indianos e 50 milhões de brasileiros vivendo em favelas. Em números absolutos, o Brasil ocupa o terceiro lugar em população favelada (medalha de bronze) e tem 36,6% de sua população vivendo em casas precárias, construídas em áreas parcial ou completamente insalubres. Consolo para quem precisa de consolo: a Tanzânia, a Etiópia e o Sudão têm uma percentagem da população bem maior morando em favelas: 92,1%, 99,4% e 85,7% respectivamente.

A pobreza urbana e as favelas, decorrentes da migração do campo para as cidades, serão o problema mais importante e politicamente explosivo deste século, segundo uma previsão do Banco Mundial.

FICHAMENTO DE CIDADÃOS FRANCESES

No dia 16 deste mês, os franceses vão fazer um dia nacional de protestos contra o fichamento de cidadãos, o Fichier EDVIGE, criado pelo governo Sarkozy. Um coletivo de cidadãos organiza em todo o país passeatas para dizer “Non à EDVIGE”.

Um atentado às liberdades individuais, o fichamento já provocou protestos e petições contra sua instauração em todo o país. A Comission Nationale de l’Informatique et des Libertés (CNIL) recebeu um relatório de magistrados e vai se manifestar sobre o fichamento, que já teve nova versão que tenta dourar a pílula para fazê-la passar mais facilmente.

O fichário pretende manter dados de todos os cidadãos a partir dos 13 anos “que pretendem exercer ou exerçam mandato político, sindical ou econômico ou que tenham algum papel institucional, econômico, social ou religioso significativo”, conforme o decreto de junho que instituiu o EDVIGE. O governo terá em mãos informações extremamente sensíveis como origens “raciais” ou étnicas, opiniões filosóficas, políticas ou religiosas e filiação a sindicatos.

A França começa a reagir ao Estado dos sonhos do presidente Sarkozy: policialesco e centralizado.

«MON MARI» PRA CÁ, «MON MARI» PRA LÁ

Vou abrir um espaço para um bilhete « people », como os franceses chamam as notícias em torno de celebridades.

Carla Bruni-Sarkozy costuma falar de Nicolas Sarkozy como “mon mari”. Nas entrevistas, jamais ela se refere a ele pelo nome, Nicolas. Deve achar que não fica bem falar do presidente como se fosse um simples namorado. E como ele é o primeiro marido dela (“ele me pediu em casamento, foi o primeiro homem que me fez o pedido”), a posição de “mari” conta muito, aparentemente. Sua biografia de mulher livre, conquistadora e “femme fatale” (Eric Clapton conta no seu livro a fossa quando ela o deixou) ficou para trás. Por outro lado, o novo papel de boa esposa que fala de “mon mari” com respeito e quase reverência soa ridículo para muitos.

Raphael Enthoven, filósofo de formação, tem um programa cultural na Rádio France Culture chamado “Les chemins de la connaissance”, no qual debaterá a obra de Freud durante toda esta semana.

Mas o que isso tem a ver com Carla? Deixemos Freud de lado e falemos do mundo parisiense no qual Enthoven circula. Ele é um personagem conhecido das revistas “people” francesas porque vem a ser o pai de Aurélien, filho de Carla Bruni. Graças a seu envolvimento com a ex-manequim e cantora, Raphaël Enthoven e ela se tornaram personagens de um romance que virou best-seller há quatro anos.

Esse ex-namorado de Carla B. (como o jornal satírico “Canard Enchaîné” trata a primeira dama, autora de um diário fictício engraçadíssimo) era marido de Justine Lévy, filha do filósofo Bernard-Henri Lévy. Para quem não se lembra, Justine foi abandonada por Raphaël quando este conheceu Carla, que era namorada... de seu pai, o editor Jean-Paul Enthoven. Separação dos dois casais, filho e pai deixam de se falar, Justine escreve o romance “Rien de grave” no qual lava a roupa suja (200 mil exemplares vendidos). O livro assassina todos os personagens: o marido, a femme fatale, que ela chama de “Paula” e trata de “mulher Terminator”, bela e perigosa, com o rosto todo refeito em cirurgias plásticas. Justine também conta como se deixou tragar pela depressão, anfetaminas, aborto, entre outras misérias.

Na época do lançamento do livro, Carla Bruni respondeu soberana na revista “Elle”: “A ex-mulher do meu marido (Raphaël) me faz passar por uma mulher que rouba maridos, quando todo mundo sabe que maridos não são roubados. A gente sabe mantê-los ou não”.

Raphaël apenas retrucou: « Justine Lévy tem talento, mas ela é para a literatura o que seu pai é para a filosofia há muito tempo: uma anedota.

SINÉ DE VOLTA

Quando Siné foi despedido de “Charlie Hebdo” pelo diretor do jornal, Philippe Val, sob acusação de anti-semitismo, o humorista e caricaturista mais irreverente da imprensa francesa decidiu que não iria calar a boca.

Sentindo-se injustiçado ao ser demitido de “Charlie Hebdo”, Siné abriu um processo contra Val e fundou um jornal tão irreverente e mal-educado quanto o dono. Como carimbo “Siné Hebdo” exibe um garoto levado fazendo caretas dentro de um círculo duplo onde se lê “Le journal mal élevé” (O jornal mal-educado). O número 1 de “Siné Hebdo” saiu dia 10 de setembro com uma capa em que uma caricatura sua faz um gesto obsceno com a mão que mostra um dedo e diz: “Olha eu de novo!”

E como prova de que os quatro números já publicados incomodam, os computadores da redação do jornal foram roubados no domingo, 5 de outubro. Obviamente, nos computadores estavam os textos do número que sai na quarta-feira, 8. Catherine Sinet, que é diretora de redação do jornal, já tinha denunciado à polícia uma série de ameaças recebidas por telefone de uma organização extremista judaica.

Com a saída do número 4 no dia 1° de outubro, o jornal contabiliza um mês de vida e mantém o nível de interesse dos leitores dispostos a apoiar o trabalho de um grupo de cartunistas e jornalistas revoltados com a acusação a Siné, ao qual se juntaram nomes como Michel Onfray e Michel Warschawski. O primeiro é um professor de filosofia, um iconoclasta de carteirinha, que escreveu, entre outros, um “Tratado de ateologia” e cujos livros e DVDs são best-sellers em toda a França difundindo a filosofia entre o maior número possível de leitores. Para isso, ele fundou uma universidade livre, totalmente gratuita, na cidade de Caen, a poucas horas de Paris.

Warschawski é um intelectual israelense, autor de diversos livros sobre o conflito israelo-palestino e defensor incondicional da causa palestina. No seu primeiro artigo para “Siné Hebdo”, o filho do rabino Warschawski diz que em seu artigo semanal não falará jamais do que se convencionou chamar “processo de paz”. “Siné me pediu uma coluna na qual falarei das realidades políticas, sociais e culturais dessa região do planeta na qual vivo, milito e escrevo. Ora, o “processo de paz” é exatamente o contrário de uma realidade: é vento, virtual, alguns diriam que ele é pura propaganda política”, escreve o escritor.

Há três meses, ao ser acusado de anti-semitismo, Siné reagiu energicamente: "Quanto ao meu suposto anti-semitismo, nunca fui anti-semita, não sou anti-semita, nunca serei anti-semita. Condeno radicalmente os que são anti-semitas, mas não tenho nenhum apreço pelos que, judeus ou não, jogam irresponsavelmente essa palavra abjeta na cara de seus adversários para desconsiderá-los, sabendo que esta acusação é o insulto supremo depois do Holocausto (Shoah). Isso está se tornando insuportável. No que me diz respeito, tenho tanta antipatia por todos os que, judeus ou não, defendem o regime israelense, quanto pelos que defendiam o apartheid na África do Sul. Há mais de 60 anos luto contra todas as formas de racismo e se tivesse tido idade de esconder judeus durante a ocupação o teria feito sem hesitar, como o fiz pelos argelinos durante a guerra da Argélia. Estou do lado de todos os oprimidos!"

O jornal de Siné tem o mesmo formato do outro do qual ele foi expulso. E se continuar a vender e despertar o interesse dos leitores como o primeiro número, vai longe. No editorial do número 2, o cartunista informa que o número 1 foi um sucesso de vendas (151 mil exemplares) e que o fato de terem conseguido fundar o jornal com tão pouco dinheiro era um milagre que deveria continuar a ser apoiado pelos leitores.

No primeiro número, o cartunista se se congratulou com os leitores pela criação do jornal “mal-educado, impertinente, libertário, em cores e barato” (dois euros). Para continuar a viver sem nenhum anúncio publicitário como outro tradicional e respeitado jornal satírico “Le Canard Enchaîné”, “Siné Hebdo” só conta com o apoio de seus leitores. Siné escreveu um pequeno texto pedindo doações para a associação “Les mal-élevés”:

“Não tenhamos ilusão. Temos de contar com o silêncio da mídia. Muitas pessoas nos detestam e vão fazer tudo para nos sabotar”. O texto tem um título provocante: “Pare de beber (provisoriamente) e de fumar (se for possível) e envie o dinheiro economizado pra gente”.

Pedido de doações mais irreverente, impossível.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Coleção do século

Nunca mais os ricos do planeta conseguirão juntar numa só vida uma coleção tão excepcional.
Essa é a opinião dos especialistas europeus de arte que começaram a fazer o levantamento da coleção Yves Saint Laurent-Pierre Bergé. Os dois formavam um dos mais conhecidos casais parisienses das artes e do mundo dos negócios. O primeiro era um gênio descoberto por Dior aos 21 anos. O segundo, um homem de negócios, responsável pelo sucesso financeiro e empresarial do grande artista e estilista. O primeiro, um homem tímido, dominado por fobias, incapaz de administrar sozinho sua fortuna e seu sucesso. O segundo, um craque das finanças. Estetas, apaixonados pelos objetos de arte, Bergé et Saint Laurent viveram juntos por 50 anos entre Paris e o Marrocos, onde tinham um palácio e recebiam artistas e intelectuais do mundo inteiro. Até que a morte os separou em junho deste ano.
Pierre Bergé e Yves Saint Laurent possuíam objetos de arte chinesa, “art déco”, objetos em ouro, em prata, arte do Renascimento, da Antiguidade, telas de grandes pintores como Picasso, Cézanne, Matisse, Manet, Vuillard, Gauguin, Munch, Mondrian, Léger et Goya. O quadro de Goya foi doado por Bergé ao museu do Louvre. O resto da coleção do século foi entregue a especialistas para a organização de um catálogo para o leilão da Christie’s, em fevereiro de 2009 no Grand Palais, em Paris.
O total arrecadado pelo leilão das 700 obras girará em torno dos 500 milhões de euros. Colecionadores dos Estados Unidos, Pequim, Shangai, Moscou, Tóquio e Dubai estão excitadíssimos fazendo cálculos e consultando especialistas.
A venda não emociona Bergé que diz que guardará a coleção na memória e nas páginas do suntuoso catálogo que vai ser editado com textos de historiadores de arte, em cinco volumes, e vendido a colecionadores e marchands do mundo inteiro.
Nos dias 23, 24 e 25 de fevereiro só não estarão sendo vendidos no Grand Palais a escultura de um pássaro africano mítico, a primeira peça comprada pelo costureiro, e o retrato de Yves pintado por seu amigo Andy Warhol. A fortuna arrecadada pelo leilão será integralmente destinada a uma nova fundação para a pesquisa científica e ajuda aos doentes de Aids.
Quanto à Fundação Saint Laurent, que existe há alguns anos, ela reúne mais de 5 mil roupas e 150 mil objetos diversos ligados ao costureiro. Numa visita à Avenue Marceau, os fãs do maior estilista do século XX podem fazer uma viagem ao nec plus ultra da moda francesa.

Quem vê « la vie en rose » vive mais
No ano em que a França festeja o centenário de um de seus mais ilustres intelectuais, o antropólogo Claude Lévi-Strauss, os cientistas especialistas do envelhecimento declaram categóricos : vive mais quem é otimista e envelhece melhor quem conserva uma atividade profissional até a idade avançada.
Reunidos em Paris, na sede da Unesco, diversos pesquisadores do envelhecimento quem gosta de viver, tem interesse em descobrir o mundo e as pessoas vive mais. Um estudo mostrou que os centenários franceses tinham em geral um temperamento fácil, um otimismo a toda prova e uma grande curiosidade pela vida. Longevidade e alegria de viver andam sempre juntos, garante Françoise Forette, diretora da Fundação Nacional de Gerontologia.
Obviamente, o otimismo não é tudo. A atividade física regular, comidas saudáveis, pouco sol, pouco álcool e cigarro são o primeiro passo para uma vida longa e com saúde. Segundo o geneticista Axel Kahn, o meio ambiente também tem que ser levado em conta. Pessoas que envelhecem isoladas tendem a ficar mais tristes e a morrer mais cedo do que aquelas que vivem cercadas de diferentes gerações. Pessoas que exercem atividade que estimula o cérebro são as que conservam mais as funções cognitivas. Quanto mais se exercita o cérebro mais se afasta doenças como o mal de Alzheimer.

O despertar do gigante
O jornal “Le Monde” detalha no dia 1° de outubro em matéria de página inteira (com direito a chamada de primeira página) o plano que o Brasil anunciou para defender a floresta amazônica. Na matéria “O Brasil adota um plano de luta contra o desmatamento”, fico sabendo que 80% da exploração da floresta é ilegal; que o Brasil ainda conserva 64% de sua superfície de floresta original; que o plano anunciado pelo ministro Carlos Minc é uma promessa feita em 2007 pelo presidente Lula e será promulgado em 2009; que o Brasil quer restringir a aquisição de terras por estrangeiros; que estes possuem 5,5 milhões de hectares de terras no Brasil, sobretudo em Mato Grosso e em São Paulo.
Mas, segundo o jornal, esses dados sobre terras em mãos estrangeiras não representam fielmente a realidade, uma vez que as companhias brasileiras cujos acionistas são parcialmente ou até mesmo majoritariamente estrangeiros não são computadas nesses números. Segundo o jornal, o Brasil despertou ainda mais a cobiça de investidores estrangeiros ávidos por terras para o plantio de matérias-primas alimentícias depois que estas tiveram o preço supervalorizado. Mas eles investem em terras também para plantar cana de açúcar para a fabricação de biocombustíveis.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Franceses fichados

A França, o país dos direitos humanos, começa suavemente a descer a ladeira da limitação das liberdades individuais.
É o que pensam o jurista Etienne Tête e um grande número de franceses que protestaram num manifesto contra a criação, em julho deste ano, do “fichier Edvige”. Esse estranho nome é a sigla para “exploitation documentaire et valorisation de l’information générale”, uma invenção típica de serviços de informação. As fichas individuais do fichário Edvige descrevem desde a orientação sexual até engajamentos políticos e permitem às autoridades espionar os franceses a partir dos 13 anos de idade. Esse fichário lembra as sinistras fichas do Dops, criadas durante a ditadura militar brasileira.
O fichário Edvige será administrado pela Direction centrale du renseignement intérieur, serviço de informação do governo. Esse novo dispositivo policialesco gerou protestos em todo o país e um manifesto contra ele foi assinado por mais de 50 mil pessoas representando 500 organizações.
Baseado no artigo 8 da Convenção européia dos direitos humanos, o jurista Etienne Tête entrou na Justiça para tentar invalidar o funcionamento do fichário. O artigo 8 da Convenção garante o direito ao respeito da vida privada e familiar e não autoriza a ingerência das autoridades públicas senão “em caso de segurança nacional, segurança pública, quando necessário ao bem-estar econômico do país, à defesa da ordem e à prevenção de infrações penais e ainda à proteção da saúde e da moral ou a proteção dos direitos e liberdades de outrem”.
O jurista denuncia um texto liberticida que permite a intrusão na vida de políticos eleitos, sindicalistas e todos os que se candidatam a um mandato eletivo. Ele pensa que a orientação sexual de um político não é um problema que diz respeito a suas responsabilidades de eleito nem muito menos à segurança nacional.
Teria esse fichamento como um dos objetivos a dissuasão de adolescentes tentados a participar das violentas manifestações das “banlieues” que envolvem rapazes cada vez mais jovens? Pela nova lei, os menores a partir de 13 anos poderão ser fichados mas não terão direito de acesso a suas fichas.

Olivier Besancenot e o NPA

Com o fim das férias de verão novas passeatas já estão programadas para a “rentrée” de setembro, para protestar contra as reformas neoliberais de Sarkozy.
A esquerda fragilizada tenta se reorganizar para existir. O Partido Socialista se reúne no próximo fim de semana e os candidatos à sucessão do secretário-geral, François Hollande, fazem campanha, inclusive o prefeito de Paris, Bertrand Delanoë.
A Liga Comunista Revolucionária (LCR), pequeno partido de extrema esquerda trotskista, cujo porta-voz é o carteiro Olivier Besancenot, um personagem carismático e combativo, que me faz lembrar o metalúrgico Luiz Inácio da Silva dos anos 80, realizou neste fim de semana um grande seminário para formalizar o nascimento do novo partido de esquerda que substituirá a LCR. Depois da queda do muro, o nome "comunista" no título do partido é um peso difícil de carregar. Afinal, todos os partidos comunistas do ocidente mudaram de nome e o único que não o fez, o Partido Comunista Francês, não pára de perder eleitores.
Seria tempo, pois, de atualizar a LCR. Seu substituto, que está sendo chamado de Novo partido anticapitalista (NPA) e que será batizado definitivamente até o fim do ano, vai ser lançado oficialmente em dezembro deste ano e se apresenta como a verdadeira opção da esquerda anti-liberal.
Olivier Besancenot foi candidato à presidência da república em 2002 e em 2007. Na eleição presidencial do ano passado, teve 4,08% dos votos, o que significa que 1.498.581 de franceses queriam vê-lo presidente da república. Entre os candidatos da extrema esquerda, ele foi o mais votado, à frente da candidata do Partido Comunista Francês, Marie-George Buffet. O PCF, que já foi uma força política importantíssima, declina a cada nova eleição.
Besancenot e os militantes da LCR, cada vez mais numerosos, querem que o NPA seja um partido engajado nas lutas sociais e ecológicas e recusam o reformismo que tomou conta da esquerda clássica. Essa esquerda que Besancenot congrega no novo partido se define como “anticapitalista, internacionalista, anti-racista, ecologista e feminista e visa a uma transformação da sociedade a fim de elaborar uma nova perspectiva socialista democrática para o século 21, extinguindo a economia de mercado”.
Diferentemente da China, que construiu seu fabuloso desenvolvimento econômico baseado num modelo híbrido que alia a economia de mercado ao sistema comunista de partido único, Besancenot propõe uma nova via. Sem renegar seu passado trotskista, ele quer criar uma “perspectiva socialista democrática”. O NPA pode ser uma alternativa para quem não acredita no socialismo do PS, considerado reformista e "pas assez à gauche" por muitos eleitores de esquerda.

Mahmoud Darwich, o poeta da Palestina

Em 2004, traduzi para o português os nove textos do livro “Voyage en Palestine” (Viagem à Palestina, Ediouro) com um texto do prêmio Nobel de literatura Wole Soyinka, um de Russel Banks, presidente do Parlamento Internacional dos Escritores, um de Christian Salmon e um de Juan Goytisolo, entre outros. O escritor José Saramago, que também fez a viagem não entregou seu texto em protesto contra a polêmica que se formou em torno de suas declarações na Palestina. Jacques Derrida, que não pôde fazer a viagem, mandou um texto publicado no volume.
Três anos depois, tive o imenso prazer de ouvir o poeta palestino Mahmoud Darwish dizer seus poemas, no campus parisiense da Universidade de Columbia, em Montparnasse. Foi uma noite inesquecível, compartilhada por dezenas de pessoas emocionadas.
Mahmoud Darwish morreu dia 9 de agosto deste ano, em Houston, no Texas, de complicações de uma cirurgia cardiológica. O povo palestino perdeu seu maior poeta e um de seus mais brilhantes intelectuais.
O motivo da viagem à Palestina foi a impossibilidade de o poeta Darwish sair de Ramallah para encontrar seus pares do Parlamento Internacional dos Escritores. Abaixo, o texto de apresentação do livro, pelo editor:

Foi por sugestão do poeta palestino Mahmoud Darwish que, alguns meses antes, não pudera aceitar diversos convites de encontros no estrangeiro, que uma delegação do Parlamento Internacional do Escritores visitou os territórios ocupados, na primavera de 2002. O discurso pronunciado pelo poeta, membro do Parlamento, para recepcionar a delegação, em Ramallah, dia 25 de março, em pleno cerco da cidade, abre essa obra. Os membros da delegação (provenientes de quatro continentes: da África, o prêmio Nobel nigeriano Wole Soyinka e o poeta sul-africano Breyten Breytenbach; da China, o poeta dissidente Bei Dão; da Europa, o romancista espanhol Juan Goytisolo, o prêmio Nobel português José Saramago, o romancista italiano Vicenzo Consolo e o escritor francês, secretário-geral do Parlamento Internacional dos Escritores, Christian Salmon, e da América do Norte o romancista Russel Banks) ao visitarem por vários dias aqueles lugares, desejavam expressar a Darwish, aos intelectuais e ao povo da Palestina a solidariedade do PIE num momento em que as condições ao exercício do pensamento tornaram-se, nessa região, inaceitáveis para qualquer homem livre. Tratava-se, ao mesmo tempo, de ir ao encontro de escritores palestinos cercados, romper o isolamento de pessoas que não querem abandonar seu país na condição de asilados e testemunhar uma situação inacreditavelmente funesta. À violência exercida contra o território partido, à disseminação de fronteiras, à desarticulação da linguagem e à relação pânica com o outro, respondem sete escritores, mais preocupados em observar atentamente o cotidiano do que em emprestar suas vozes às litanias ideológicas.

Os textos aqui publicados constituem testemunhos precisos e vivos de uma realidade cuja espetacularização midiática não permite que dela se tome consciência. Força da literatura, sem dúvida, que por sua permanência e experiência interior pulveriza as representações assépticas do horror propagado pela indústria "da informação". Bem mais eloqüente do que a maioria das reportagens, eles são, pois, para além igualmente dos textos mais imediatistas, destinados à perenidade. Acompanham os textos as mensagens de Hélène Cixous e Jacques Derrida. O leitor encontrará no fim do volume o texto integral do "Manifesto pela paz na Palestina" lançado pelo PIE no dia 6 de março de 2002, que recolheu 600 assinaturas.



quinta-feira, 31 de julho de 2008

Charlie Hebdo perde o humor cáustico de Siné, acusado de anti-semitismo*

O caricaturista Siné, de 79 anos, não imaginava o que o esperava quando escreveu na sua crônica do jornal satírico Charlie Hebdo um comentário sobre o futuro casamento e uma suposta conversão ao judaísmo do filho de Nicolas Sarkozy, Jean Sarkozy, de 21 anos.

Na semana seguinte, Siné foi acusado por um jornalista do Nouvel Observateur, Claude Askolovitch, de anti-semitismo. O affaire Siné virou uma polêmica que divide intelectuais e jornalistas franceses há mais de duas semanas. O diretor de Charlie Hebdo, Philippe Val, resolveu deixar de publicar o caricaturista, sem demiti-lo formalmente. Siné vai processar Claude Askolovitch por injúria e difamação.

No seu texto, Siné escreveu: “Jean Sarkozy, digno filho de seu pai e já conselheiro geral do (partido) UMP, saiu quase sob os aplaudos de seu processo por fuga em sua lambreta. A Justiça o declarou inocente! Diga-se de passagem que o acusador é árabe! E não é tudo: ele declarou que vai se converter ao judaísmo antes de casar-se com sua noiva, judia, e herdeira dos fundadores de Darty. Vai longe, esse menino!”

Obviamente, como o próprio Siné explicou, ele teria feito uma observação semelhante se o filho de Sarkozy fosse se casar com uma muçulmana e, para isso, se convertesse ao islã. Ou a qualquer outra religião de sua noiva. Anarquista e ateu convicto, o humorista defende a criação do Estado palestino e participa da Coordenação francesa da década de cultura da paz e da não-violência.

Por recomendação de seu advogado, Siné continua enviando sua colaboração semanal a Charlie Hebdo, que deixou de publicá-la. A última foi publicada pelo site do Nouvel Observateur. Siné escreveu o que pensa do diretor do jornal satírico, da origem das divergências entre eles e acrescenta:

“Quanto ao meu suposto anti-semitismo, junca fui anti-semita, não sou anti-semita, nunca serei anti-semita. Condeno radicalmente os que são anti-semitas, mas não tenho nenhum apreço pelos que, judeus ou não, jogam irresponsavelmente essa palavra abjeta na cara de seus adversários para desconsiderá-los, sabendo que esta acusação é o insulto supremo depois do Holocausto (Shoah). Isso está se tornando insuportável. No que me concerne, tenho tanta antipatia por todos os que, judeus ou não, defendem o regime israelense quanto pelos que defendiam o apartheid na África do Sul. Há mais de 60 anos luto contra todas as formas de racismo e se tivesse tido idade de esconder judeus durante a Ocupação o teria feito sem hesitar, como o fiz pelos Argelinos durante a guerra da Argélia. Estou do lado de todos os oprimidos !”

Esse affaire desencadeou uma polêmica entre intelectuais franceses sobre o tema do anti-semitismo. O filósofo Bernard-Henri Lévy analisou no Le Monde o caso Siné num artigo intitulado “De quoi Siné est-il le nom?” parodiando o livro de Alain Badiou, “De quoi Sarkozy est-il le nom?”, que ele cita. Lévy chega ao cúmulo de afirmar que o antisarkozysmo pode ser hoje uma deriva do anti-semitismo.

O filósofo Alain Badiou respondeu imediatamente no próprio Le Monde com um artigo irônico e de uma finesse extraordinária, para protestar contra a utilização para fins diversos da acusação de anti-semitismo na França atual. O título “Tout antisarkozyste est-il un chien?” remetia às metáforas zoológicas de seu livro, interpretadas por Pierre Assouline como anti-semitas. Sartre, citado por Lévy, também é invocado por Badiou no seu delicioso artigo.

Entre as vozes que se levantaram para defender Siné contra a absurda acusação, uma foi particularmente importante: a advogada Gisèle Halimi, que foi advogada de Jean-Paul Sartre, escreveu uma carta aberta a Philippe Val assegurando que se ele fizer um processo por anti-semitismo contra Siné não tem nenhuma chance de ganhar na Justiça.

Há poucos dias, o site do Nouvel Observateur pôs no ar uma petição de apoio a Siné que pode ser assinada online. Redigida por Eric Martin, Benoît Delépine e Lefred-Thouron, ela declara apoio “total e incondicional” ao desenhista anarquista e termina dizendo: “Siné não é anti-semita. Siné não gosta dos idiotas. Siné é um anarquista. Viva Siné”. Essa petição já foi assinada por filósofos como Michel Onfray e Daniel Bensaïd, por grande número de jornalistas, pelo dirigente da Liga Comunista Revolucionária Alain Krivine, pelo vice-presidente da União judaica francesa pela paz, Pierre Stambul, e pelo fundador de Médecins sans frontières, Rony Brauman, entre milhares de outros franceses.

*Publicado originalmente no Observatório da Imprensa

terça-feira, 22 de julho de 2008

Exposição reúne quadros em busca de proprietários

Exposição no Museu de arte e história do judaísmo mostra quadros pilhados pelos nazistas ***

Leneide Duarte-Plon, de Paris


A mostra de pintura que o Musée d’art et d’histoire du judaïsme inaugurou em Paris é mais que uma exposição de arte.
É de política e de história que falam os quadros de pintores consagrados como Utrillo, Degas, Delacroix, Monet, Vlaminck, Ingres, Fragonard, Cézanne, Courbet, Matisse, Marx Ernst e Seurat. Entre os 53 quadros da exposição, há ainda obras de grandes mestres da pintura holandesa, além de algumas obras anônimas.
O nazismo e a espoliação de bens de colecionadores judeus, durante a Ocupação da França pelos alemães, são o centro de interesse da exposição, que tem como título: “A qui appartenaient ces tableaux? (A quem pertenciam esses quadros?) O subtítulo explica a pergunta : Espoliações, restituições e pesquisa de origem : o destino das obras de arte trazidas da Alemanha após a guerra.
Nem todos os quadros enviados à Alemanha durante a guerra foram fruto de pilhagem. E nem todos pertenciam a judeus. Os alemães compraram muito no mercado francês de arte, tirando proveito das leis raciais, decretadas pelo governo fantoche do Marechal Pétain. Puderam se apropriar de obras pertencentes a judeus que fugiam, mas também compraram obras de grande valor por preços muito abaixo do mercado.
A exposição chegou a Paris, onde fica até 26 de outubro, depois de ter sido mostrada no Museu de Israel, em Jerusalém. Ela é o resultado da Missão Mattéoli, nomeada por Lionel Jospin em 1999, para estudar a espoliação dos judeus franceses. Essa missão consluiu que 10% do fundo atualmente chamado Musées Nationaux Récupération (MNR), que contém 2 mil obras, devem ser pinturas espoliadas a famílias judias.
A exposição mostra os diferentes processos de apropriação praticados pelos nazistas durante a Segunda Guerra mundial, desde as primeiras pilhagens feitas em julho de 1940 até as conseqüências das leis raciais do governo de Vichy (dirigido por Pétain).
Além disso, a exposição explica, através de textos didáticos, como foram feitas as restituições no após-guerra, seja aos grandes colecionadores como a família Rothschild, seja a outras famílias que puderam comprovar a origem das obras. Mesmo após o trabalho de historiadores de arte dos dois países, ainda restam 2000 obras classificadas MNR (Musées Nationaux Récupération). Elas estão sob a guarda permanente de diversos museus franceses.
Através de vídeos, de textos e de documentos o visitante pode entender como foram feitas as pesquisas para encontrar a origem dos quadros, possibilitando a restituição aos proprietários ou a descendentes.
As 100 mil obras de arte repertoriadas depois da guerra na Alemanha saíram da França de seis maneiras diferentes. Foram confiscadas pelos diversos serviços nazistas, foram compradas ou trocadas. Entre elas, algumas pertenceram a um oficial alemão. Essa história rocambolesca de um tesouro perdido foi contada por um arcebispo que devolveu os quadros aos museus estatais de Berlim. Eram 28 pinturas e desenhos de Delacroix, Corot, Millet, Manet, Renoir e Seurat, adquiridos por um oficial alemão e entregues em confiança a um soldado que voltou à Alemanha. Como o oficial não apareceu depois da guerra para reclamar seu tesouro, o soldado o confiou, sob o segredo da confissão, a Monsenhor Heinrich Solbach, arcebispo de Magdebourg. Este o entregou ao organismo central dos museus alemães. Essas obras foram devolvidas a François Mitterrand, em 1994, e foram expostas no Musée d’Orsay no mesmo ano.
Fazendo desapropriações de bens de judeus, os nazistas contavam com a Einsatzstab Rechsleiter Rosenberg (ERR), criada por Hitler sob a autoridade de Alfred Rosenberg, ideólogo do partido nazista e teórico do anti-semitismo. Entre abril de 1941 e julho de 1944, esse serviço enviou para a Alemanha 138 vagões contendo 4.174 caixas correspondendo a 22 mil objetos ou lotes de objetos. Segundo um relatório de julho de 1944, 38 mil apartamentos parisienses foram pilhados e os objetos de valor encaminhados à ERR.
Hitler e Goering adquiriram obras de pintores flamengos através de operações de trocas de obras de pintores modernos como Picasso e Matisse, confiscadas a colecionadores como Paul Rosenberg, o marchand de Picasso. As obras desses pintores, considerada “arte degenerada”, serviam de moeda de troca para aquisição de obras de pintores holandeses, que os dirigentes nazistas tanto admiravam.
Depois da guerra, autoridades aliadas estabeleceram comissões para resolver o verdadeiro quebra-cabeças das obras de arte estocadas na Alemanha, provenientes de diversos países europeus. Calcula-se que 100 mil obras de arte deixaram o território francês durante a guerra. Dessas, 60 mil retornaram à França em 1945. Entre essas, 45 mil foram restituídas aos proprietários até 1949. Entre as 15 mil restantes, 13 mil foram vendidas pela organização que administra os museus franceses, entre 1950 e 1953. As duas mil restantes estão espalhadas pelos museus nacionais com o selo MNR de onde saíram as 53 obras expostas atualmente no Museu de Arte e de História do Judaísmo.
Nos dias 14 e 15 de setembro haverá um colóquio internacional no próprio museu intitulado Espoliações, restituições, indenizações e pesquisa de origem : o destino das obras de arte encontradas depois da Segunda Guerra Mundial.
Ainda em setembro, o museu programou dois filmes em torno do tema : Le train, de John Frankenheimer e Monsieur Klein, de Joseph Losey. Além deles, três documentários serão exibidos dia 21 de setembro, entre eles, Roubados pelos nazistas, a história da coleção Schloss.

*** publicada na Folha de São Paulo em 13 de julho de 2008

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Grace Kelly : a princesa do rochedo

O sonho de se tornar uma princesa começa cedo na infância das meninas. Em geral, com a história da gata borralheira.
Conheço uma menininha francesa de menos de quatro anos, Julia, que se veste com seu vestido de “Cendrillon” (Cinderela), coloca os sapatinhos e sonha com o príncipe. Nos seus sonhos, o príncipe é seu pai (ainda). Freud explica. Depois, ele será substituído. Ou não, e aí é que as coisas se complicam. Ela tem o livro, mas tem também o DVD, tecnologia oblige, da pequena rejeitada que se transformou em princesa. Vira e mexe, veste o vestido de baile de Cendrillon. E nesse momento é uma princesa.
Ao ver no Hôtel de Ville a bela exposição sobre a vida da princesa Grace não pude deixar de pensar que ela estava no lugar que toda mulher sonha ocupar: ao lado do príncipe encantado. Ela tinha Hollywood a seus pés, mas preferiu a vida real. Trocou um sonho de celulóide por um rochedo. Mônaco, le rocher, como a imprensa francesa chama o pequeno principado encravado na rocha. Um rochedo é real, tem solidez. Hollywood é ilusão, pode evaporar-se. Não é mesmo, Marilyn?
A vida de Grace Kelly foi um conto de fadas. Ela veio à França para o festival de Cannes e o príncipe Rainier sucumbiu ao seu charme. Casaram-se alguns meses depois. Ela se tornou a mais bonita, elegante e charmosa de todas as princesas da Europa.
A exposição foi organizada pelo escritor Frédéric Mitterrand, que se esmerou nos textos, informativos, mas inteligentes e sutis. A mostra segue uma ordem cronológica e os espectadores podem, assim, percorrer a vida de Grace de Mônaco do berço até os dias mais maduros. Um mergulho num mundo de palácios, recepções, jet set, glamour e elegância. Os vestidos de baile estão lá, assinados pelos maiores costureiros franceses. Ela, que sempre adorou Paris, mesmo antes de se tornar princesa, sempre se vestiu chez Dior. Mas o vestido mais deslumbrante é um preto longo assinado por Balenciaga. Ao lado de cada vestido, uma foto de Grace no dia em que o usou.
A exposição é rica em documentos. Tem cartas de Jackie Kennedy agradecendo os presentes, da Rainha Sophia da Espanha comentando os momentos que passaram juntas. Há fotos de todos os momentos da princesa, dos mais íntimos em família até as recepções aos grandes desse mundo. Uma foto extraordinária é aquela em que Grace olha absolutamente fascinada para John Kennedy. O flagrante de uma mulher subjugada pelo charme de um homem.
Filmes de Hollywood desfilam em diversas telas. Filmes de família mostram as princesas e o pequeno príncipe Albert em diferentes idades. O que fica é a impressão de uma família feliz, privilegiada claro, mas que sente prazer em estar junta. Minha filha lembrou na saída da exposição que se a vida da princesa foi um sucesso, a de seus três filhos deixa a desejar. Nenhum deles brilhou em nenhuma área do conhecimento, das artes ou na política. Eles são tão inexpressivos quanto os filhos da rainha da Inglaterra, por exemplo. Na realidade, dão a impressão de que é difícil encontrar uma missão de relevância no mundo quando se nasce em berço de ouro.
Quanto à estrela de Hollywood que se tornou princesa, aparentemente ela nunca se arrependeu de ter aceito a mão do príncipe do rochedo.
Viveram um conto de fadas até que a morte os separou.