domingo, 30 de março de 2014

VIVA LA MUERTE! Bandeira das Forças Armadas da ditadura

 « O Brasil ou faz sua revolução socialista — a revolução dos pobres, dos deserdados, desgraçados, degredados e degradados — ou então jamais se integrará como nação dona de si e de sua totalidade nacional capaz de ser sujeito e não objeto da história […] essa gente (a burguesia brasileira), ao menor sinal de abatimento, ou malestar, entregou, entrega e entregará o país aos militares, e estes são o braço armado dos ricos contra os pobres […] A saída — beco sem saída — é a força das armas, é a repressão, é a violência a serviço da morte contra a vida. VIVA LA MUERTE! É esta a bandeira das Forças  Armadas no Brasil. »(Helio Pellegrino carta a Otto Lara Resende de 25-07-68)


Copa do Mundo 2014. JO 2016.
Direitos Humanos 20… ?
Com esse título, o boletim da ACAT (Action des Chrétiens pour l’Abolition de la Torture) denuncia graves violações dos direitos humanos no Brasil  de « populações carentes ».
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O texto explica como funciona a polícia no Brasil, uma polícia civil e uma militar, realizando prisões arbitrárias e utilizando a tortura « em total impunidade », sob o pretexto de realizar uma « guerra contra o crime organizado ».

Segundo o texto, a polícia brasileira é responsável por 2 mil mortes por ano. Não raro, os policiais participam de redes de corrupção, extorsão, tráfico de armas e de drogas. As principais vítimas são jovens rapazes habitantes dos bairros pobres. “Os juízes que tentam condenar essas práticas se tornam alvo de intimidações e de ameaças.”
A violência policial se agravou nos últimos anos com a perspectiva da Copa do Mundo de futebal de 2014 e dos Jogos olímpicos de 2016. Segundo o boletim da ACAT, com o objetivo de tranquilizar os organizadores, as autoridades cobrem ou reforçam as intervenções brutais das forças policiais.
«Os policiais multiplicam as invasões de domicílio, torturas, desaparecimentos (35 mil no Rio de Janeiro desde 2007, segundo a ONG Rio de Paz) e execuções.»
Para quem quiser passar à Ação contra a tortura, o boletim  propõe uma carta a ser enviada ao ministro da Justiça José Eduardo Cardozo pedindo, entre outras coisas que “as missões de manutenção da ordem pública sejam feitas exclusivamente pelas forças de polícia civil.”





Um homem torturado: nos passos de frei Tito de Alencar
Leneide Duarte-Plon e Clarisse Meireles
Editora Civilização Brasileira
420 páginas

“Ato de memória insurgente, a leitura deste livro, sem dúvida, alimenta e atualiza em cada um de nós a capacidade de indignação.” – Frère Xavier Plassat


Para Tito de Alencar Lima, 4 de novembro de 1969 foi o primeiro dia de uma prisão que duraria um ano e dois meses. Torturado no Deops e depois na Operação Bandeirantes, sob a acusação de pertencer à Ação Libertadora Nacional (ALN) – organização de luta armada fundada por Carlos Marighella –, Tito foi destruído psiquicamente por seus carrascos.
Escolhido a contragosto para ser um dos presos trocados pelo embaixador suíço, em 11 de janeiro de 1971, banido do território nacional por decreto, o frade dominicano viajou para Santiago do Chile juntamente com sessenta e nove presos políticos.
Na capital chilena, Tito deu entrevista aos cineastas americanos Haskell Wexler e Saul Landau, autores do documentário “Brazil, a report on torture” (Brasil, um relato de tortura), com testemunhos de ex-presos políticos torturados nas prisões brasileiras. Na Alemanha, foi entrevistadona TV e responsabilizou parte do clero conservador por conivência com a ditadura, que negava a existência de torturas.
Passou por Roma, onde não pôde falar a religiosos no Colégio Pio Brasileiro porque a hierarquia, conhecendo sua fama de “terrorista”, não quis recebê-lo. Foi para Paris, onde, por dois anos, morou no Convento Saint-Jacques. Na capital francesa militou ao lado de brasileiros na denúncia das torturas praticadas pela ditadura.
No Convento Sainte-Marie de LaTourette, perto de Lyon, para onde se mudou em 1973, esperava encontrar  um porto seguro e retomar os estudos de teologia. Em meio à natureza, no alto de uma colina, Tito encontrou o silêncio, mas não a tranquilidade. Levara dentro de si seus torturadores. Em 10 de setembro de 1974, o corpo do frade foi visto por um camponês, pendendo de uma árvore, perto de uma área inóspita, às margens do rio Saône. Tito foi enterrado no cemitério do convento. Seu corpo voltou ao Brasil em 1983. Hoje, repousa em Fortaleza.
O filósofo Jean Améry, amigo de Primo Levi, escreveu que quem foi submetido à tortura fica “incapaz de sentir-se em casa neste mundo”. O ultraje do aniquilamento é indelével, “a confiança no mundo que a tortura apaga é irrecuperável”.

 De 4 de novembro de 1969, dia em que foi preso, a 10 de agosto de 1974, quando foi encontrado morto, Tito viveu como alguém que não se sentia mais em casa neste mundo. Tito de Alencar Lima preferiu a morte a conviver com a tortura, que não se apagava de sua memória.

Duas psicanalistas dicionarizadas

A convite de Chantal Major escrevi para o Dictionnaire des femmes Créatrices, publicado pela Editions des Femmes, um resumo biográfico de Helena Besserman Vianna e de Nise da Silveira, duas brasileiras que honraram a profissão de psicanalista. Abaixo os verbetes :
BESSERMAN VIANNA, Helena (Rio de Janeiro 1932 – 2002)
Médecin et psychanalyste
Helena Besserman Vianna fut qualifiée de  « pasionaria » pour son courage et sa ténacité dans la dénonciation, en 1973, d’un analyste en formation dans une société de psychanalyse de Rio de Janeiro comme participant activement à des séances de torture pendant la dictature militaire. Dans sa lutte contre le silence et l’oubli elle aura ainsi mis à mal la prétendue « neutralité psychanalytique ».
C’est le journal communiste clandestin Voz Operária qui publia la nouvelle en donnant le nom du médecin, Amilcar Lobo, ainsi que celui de son analyste, Leão Cabernite, qui présidait à l’époque la Société Psychanalytique de Rio de Janeiro (SPRJ), associée à l’IPA (Association Psychanalytique Internationale). Cette information fut transmise avec une note manuscrite à la revue argentine Cuestionamos que dirigeait alors la psychanalyste Marie Langer qui s’était réfugiée en Argentine après avoir fuit le régime nazi. La nouvelle circula à travers le monde psychanalytique et arriva à la connaissance du Président de la Confédération Psychanalytique d’Amérique Latine (COPAL),  et du Président de l’Association Psychanalytique Internationale (IPA), Serge Lebovici.
Pour identifier l’auteur de la dénonciation anonyme, la SPRJ fit appel à un spécialiste pour procéder à des investigations graphologiques qui permirent de reconnaître l’écriture d’Helena Besserman Vianna. Au lieu de vouloir établir la véracité de la dénonciation, la SPRJ préféra qualifier l’information de « calomnie ».
Helena Besserman Vianna, qui appartenait à la Société Brésilienne de Psychanalyse de Rio de Janeiro (SBPRJ-IPA),  sera désignée comme calomniatrice par les Conseils des deux Sociétés de Rio, soumise aux pires intimidations. Elle échappera, parfois de justesse, à l’exécution de nombreuses menaces ainsi qu’à un attentat. Par ailleurs, la SBPRJ empêcha la psychanalyste d’accéder au statut de membre titulaire.
En 1994, elle publie à Rio Não conte a ninguém – Contribuição à história das Sociedades Psicanalíticas do Rio de Janeiro (Imago), livre dans lequel elle raconte, documents à l’appui, son combat de 20 ans. Politique de la Psychanalyse face à la Dictature et à la torture – N’en parlez à personne (L’Harmattan, 1997) est publié à Paris avec  une préface et une lettre ouverte de René Major qui était alors Président de la Société Internationale d’Histoire de la Psychiatrie et de la Psychanalyse. Dans sa lettre, René Major présente sa démission comme membre de l’Association psychanalytique internationale.
Cette histoire inspira à René Major la convocation des Etats Généraux de la Psychanalyse, qui eurent lieu à Paris en juillet 2000 et furent marqués par un discours mémorable de Jacques Derrida. C’est dans ce cadre qu’Helena Besserman Vianna annonça sa démission de l’IPA.
Fille de juifs polonais et membre du Parti Communiste Brésilien jusqu’en 1968, Helena Besserman Vianna exerça la psychanalyse à Rio où elle fut formée par Zenaira Aranha. Elle  reprit ensuite une analyse à Paris avec André Green.
Avec Teresa Pinheiro, elle a écrit « As bases do amor materno » (Escuta, 1991) autour de la conférence de Margarete Hilferding sur l’amour maternel.
DA SILVEIRA, Nise, psychiatre (Maceió 1906 – Rio de Janeiro – 1999)
Quand la psychiatre Nise da Silveira commence ses études de médecine à Salvador de Bahia, elle a 16 ans et elle est la seule femme de la promotion  (158 élèves) de 1926, où elle rencontre Mário Magalhães da Silveira qui deviendra son mari. En 1933, elle passe un concours public et devient médecin de l’hôpital de Praia Vermelha, à Rio de Janeiro. En 1936, arrêtée comme communiste pendant la dictature de Getúlio Vargas, elle devient un des personnages du roman Memórias do cárcere (Mémoires de la prison) du grand écrivain  Graciliano Ramos, arrêté dans la même prison. Après 18 mois de détention, elle fut libérée mais écartée du service public pour des raisons politiques. Le plus important héritage de Nise da Silveira - qui étudia à Zurich à l’Institut Carl Gustav Jung de 1957 à 1958 et entre 1961 et 1962 - demeure le Musée des Images de l’Inconscient (Museu de Imagens do Inconsciente) qu’elle créa en 1952 dans le Centro Psiquiátrico Pedro II. Dans cet établissement, elle avait fondé en 1946 un service de thérapie occupationnelle qu’elle dirigea jusqu’en 1974 et dans lequel les malades mentaux s’exprimaient par le moyen de dessins, de peintures et de sculptures. Farouchement opposée à l’utilisation par la psychiatrique traditionnelle des chocs électriques, elle mena un combat sans merci contre la pratique de la lobotomie encore à l’usage à l’époque. En 1956, elle fonda la Casa das Palmeiras, à Rio de Janeiro, qui fonctionne comme hôpital de jour pour les patients ayant quitté l’hôpital psychiatrique. Son travail a inspiré la création de plusieurs musées e institutions thérapeutiques comme l’Association Nise da Silveira-Images de l’Inconscient à Paris, le Centro de Estudos Imagens do Inconsciente, de l’Université de Porto, au Portugal ou encore le Museo Attivo delle Forme Inconsapevoli à Gênes, en Italie. Le musée Imagens do Inconsciente de Rio de Janeiro possède un fonds de plus de 300 mille travaux  de malades mentaux parmi lesquels Fernando Diniz et Bispo do Rosário, qui sont devenus très célèbres. Nise da Silveira créa en 1957 un groupe d’études de psychanalystes, psychiatres et psychologues qui se réunirent jusqu’à sa mort en 1999. Elle a notamment écrit Jung: vida e obra (1968), Imagens do Inconsciente (1981) - Images de l’inconscient (Halle Saint-Pierre Passage Piétons Editions, Paris, 2005) et Cartas a Spinoza (1990). Plusieurs films et expositions ont été réalisés au Brésil sur l’œuvre de Nise da Silveira qui a reçu en 1993 la médaille Chico Mendes pour son combat pour les droits de l’homme.

                                                                     


quarta-feira, 5 de março de 2014

Viúva coragem





Li na imprensa brasileira e na francesa dados sobre desaparecimentos no Estado do Rio de Janeiro. Os números revelam a violência de que muito se fala. Mas será que se faz o bastante para combatê-la?
Deu na Carta Capital online: “O caso de Amarildo foi o único a ganhar visibilidade entre os 6.034 desaparecimentos contabilizados  entre novembro de 2012 e outubro de 2013, pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) – não há dados mais recentes disponíveis. Desde o primeiro ano do governo Sérgio Cabral, as estatísticas do ISP (vinculado à SSP-RJ) apontam quase 40 mil desaparecidos”.
Esses números são tão escandalosos que esperamos que estejam errados. Quarenta mil desaparecidos em dois mandatos de Cabral?
No Le Monde, o correspondente no Brasil, Nicolas Bourcier,  fez em janeiro um belo perfil de Elizabete de Souza Gomes da Silva. O título era “Veuve courage”. Ela contava a saga da busca do corpo de Amarildo, seu marido desaparecido nas mãos da polícia. Apesar de o Brasil ser uma democracia, a polícia, que torturava na ditadura, nunca deixou de torturar. Até porque sempre torturou pessoas socialmente desfavorecidas. Bete disse ao jornalista: “Eu não paro de pedir o corpo de meu marido. Não pararei enquanto eles não me disserem o que fizeram dele”.
Lembrou-me as mulheres dos desaparecidos da ditadura, Eunice Paiva procurando por Rubens Paiva, e a viúva de Virgílio Gomes da Silva, o Jonas da  ALN, procurando o corpo do marido. Eles só estavam desaparecidos para a família. Os militares sabiam onde os haviam enterrado.    
Bourcier fala de 25 mil desaparecidos desde o início do ano 2000, no Rio de Janeiro, um estado que ele qualifica de “blasé en matière de violence”.
O perigo é quando ficamos blasés em matéria de violência.

Aimer, boire et chanter 

A morte do genial cineasta Alain Resnais aos 91 anos, em Paris _ em plena atividade e já preparando um novo filme depois de premiado em fevereiro no Festival de Berlim por Aimer, boire et chanter _ nos faz pensar em Manoel de Oliveira, de 105 anos, o primeiro cineasta centenário em atividade na história do cinema. Quando Oliveira começou a fazer cinema os filmes ainda eram mudos.
A longevidade é um mistério e uma dádiva dos deuses quando se pode manter a atividade de toda a vida, como Resnais e Oliveira. O segredo de Resnais foi resumido, quem sabe, no título de seu último fime. Amar, beber e cantar pode ser “a” receita da longevidade.
Certamente, a Cinemateca Francesa promoverá em breve um ciclo Resnais. Será imperdível. O ciclo Oliveira, em 2008, comemorava os 100 anos do cineasta. Na ocasião, o jovem centenário foi apresentado pelo escritor, italiano com o coração português, Antonio Tabucchi, que faleceu pouco tempo depois. No mesmo ano, Oliveira recebeu uma Palma de Ouro em Cannes, das mãos de Michel Piccoli, pelo conjunto de sua obra.
Encontro nos meus papéis a lista dos seis filmes que Serge Tubiana, diretor da Cinémathèque Française, levaria para uma ilha deserta. Fiz a pergunta a ele quando o entrevistei para uma revista brasileira. Tubiana escreveu: Mizoguchi (Rue de la honte); Eastwood (Million dollar baby); Godard (Pierrot le fou); Bergman (Fanny et Alexandre); Rossellini (Voyage en Italie) e John Ford (La prisonnière du désert).
Na lista, um único francês, Godard, jovem octogenário que vive isolado na Suiça, às margens do Lago Léman. Como Tubiana, Godard foi crítico de cinema, antes de se tornar cineasta, um dos mais admirados por seus colegas de diversas gerações.
Godard é um gênio que, como Resnais, nunca levou multidões ao cinema, mas sempre despertou verdadeiro culto em cinéfilos e cineastas do mundo todo.   
Dia 10 de março vou levar uma flor a Resnais, quando ele chegar ao cemitério de Montparnasse, depois da missa de corpo presente.   

Dia Internacional da mulher em Gaza

Uma delegação de 100 europeias vai celebrar o Dia Internacional da mulher em Gaza, para demonstrar solidariedade aos 1,8 milhão de palestinos, homens, mulheres e crianças que vivem na maior prisão a ceu aberto do mundo. A Coalizão Internacional  das Mulheres tem encontro marcado dia 6 de março no Cairo e em Rafah. De lá, as militantes seguem para Gaza. 
 Manifestação pela Palestina, Paris, janeiro de 2009. Foto Leneide Duarte-Plon
A delegação de mulheres, que programou a viagem para denunciar o bloqueio a Gaza, tem representantes da França, dos Estados Unidos, Bélgica, Argélia, Irlanda, Inglaterra, Suiça e Luxemburgo. A delegação argelina, que tem à frente a heroína da luta pela independência Djamila Bouhired, passará primeiro por Paris, onde é admirada por todos os que lutaram contra a colonização. Mais informações :

Um palazzo em Fiano Romano

Antes de se casar com o cineasta italiano Giuseppe De Santis, a atriz Gordana De Santis usava seu nome iugoslavo, Miletic. Passou a usar o nome do marido e hoje, além de continuar a trabalhar no cinema italiano, é reverenciada por todos como a viúva do grande diretor do neo-realismo, morto em 1997. 



Gordana vive em Fiano Romano, a uns 30 quilômetros de Roma, uma pequena cidade suficientemente perto da capital para quem precisa da vida cultural, mas suficientemente afastada para quem quer curtir a paz longe do insensato mundo. O escritório do palazzo em que Gordana vive é decorado com fotos e prêmios que De Santis recebeu na Itália e no mundo. 
O terceiro filme do cineasta, Riso amaro (Arroz amargo), de 1949, revelou o talento da atriz Silvana Mangano e foi indicado ao Oscar de melhor roteiro. Anos depois, no festival de Veneza, ele recebeu um leão de ouro por sua obra.

Situado no número 1 da Piazza Giuseppe De Santis, o palazzo tem 450 metros quadrados de área habitável, além de 150 metros quadrados de varanda na cobertura, da qual se descortina toda a beleza da região de Fiano Romano. 


Decorado com bom gosto e requinte pela atriz, ela pensa que não tem mais necessidade de tanto espaço e resolveu colocá-lo à venda. O preço parece uma piada quando se pensa nos apartamentos da Zona Sul do Rio vendidos por quantias surrealistas.


O palazzo foi construído no século XVI por um aluno de um dos arquitetos que sucederam a Michelangelo na construção do Palazzo Farnèse, em Roma. Pois bem, esse palazzo que pertenceu a Giuseppe De Santis pode ser comprado por 1.200.000 euros, o preço de um apartamento de três quartos no Leblon.
Dos mais simples.

Pulseira preventiva

A França vai eleger no  fim do mês, em dois turnos, prefeitos de todas as cidades. Prefeito francês pode ser vitalício pois não há limite de mandatos. Esse é um dos  entraves para a renovação dos políticos e uma das falhas da democracia francesa, além do acúmulo de mandatos. Prefeito-deputado e prefeito-senador, exercendo os dois cargos, é uma tradição que vai acabar com uma lei votada pelos socialistas.
Em Paris, os moradores votam para eleger o prefeito (maire) de seu arrondissement (são vinte na cidade) e o partido majoritário em toda a cidade determina o prefeito da capital. Duas mulheres são as mais fortes candidatas a prefeito de Paris: Nathalie Kociusko-Moriset (UMP, direita) e Anne Hidalgo (PS, esquerda). Segundo as sondagens, esta deve suceder a Bertrand Delanoë, o atual prefeito, também do Partido  Socialista.
O atual prefeito do 14e arrondissement, onde mora uma amiga nossa, resolveu conquistar os moradores de mais de 65 anos. Régine R. recebeu um telefonema oferecendo um bracelete para a eventualidade de esquecer onde está ou até mesmo quem é. “Seria desagradável estar fazendo compras e ser surpreendido por uma amnésia”, observou a moça da mairie do 14e arrondissement que lhe telefonou para oferecer o bracelete. Uma oferta aos idosos, claro. Em caso de emergência, basta apertar um botão e uma pessoa da prefeitura do arrondissement virá ajudar o idoso a reencontrar sua casa e seus familiares.
Régine R. agradeceu, disse que não precisaria do bracelete tão cedo. No entanto, seria muito bem-vindo um rapaz para ajudá-la a carregar suas garrafas de água mineral Badoit, pesadas demais. No dia seguinte, apareceu um rapaz mandado pela prefeitura com suas garrafas de Badoit.
O que não fazem os prefeitos para agradar ao eleitorado?

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

SARTRE : Recusar o Nobel, um não às distinções oficiais




Há quase 50 anos, em 22 de outubro de 1964, o filósofo Jean-Paul Sartre recusou o Nobel de Literatura. O prêmio foi justificado por sua obra ter « uma grande influência sobre nossa época, além de revelar espírito de liberdade e busca da verdade.»
Sartre não foi receber o prêmio, abriu mão das honras e do cheque que o acompanhava. Desde a criação do Nobel, somente 4 pessoas o recusaram. Por determinação do regime nazista, em 1938 e 1939, os alemães Richard Kuhn e Gerhard Domagk não puderam receber seus Nobel de Química e de Medicina. Em 1973, o vietnamita Le Duc Tho recusou o Nobel da Paz, que receberia juntamente com Henry Kissinger "por seus esforços para um acordo de paz no Vietnã."
Explicando as razões pessoais para não aceitar o Nobel, Sartre escreveu à Academia : « Minha recusa não é um ato improvisado. Sempre fugi das distinções oficiais. Quando, depois da Guerra, em 1945, me propuseram a Légion d’Honneur recusei-a. Da mesma forma, nunca aceitei postular a uma vaga no Collège de France, como me sugeriam alguns amigos. Não é a mesma coisa se eu assino simplesmente Jean-Paul Sartre ou se assino Jean-Pau Sartre, prêmio Nobel. O escritor deve recusar se transformar em instituição. »
Já não se fazem mais intelectuais como Jean-Paul Sartre.

JUDITH BUTLER : A igualdade pode ser um valor judaico

Intelectual notável entre os pensadores contemporâneos, a filósofa Judith Butler acaba de lançar um livro. Para a americana, pioneira da teoria do gênero (gender studies), professora de Literatura da Universidade de Berkeley, ser homem ou mulher é uma construção. Seu novo livro trata de filosofia política.
De passagem por Paris para lançar em francês “Na direção de uma coabitação – Judeidade e crítica do sionismo », Butler deu várias entrevistas. Subversiva em todos os temas, ela contesta os que pensam que criticar Israel é um ato antissemita. « Essa chantagem me parece um ato de censura insuportável, inspirando o terror de ser tratado de antissemita. »
Em seu novo livro Butler propõe uma leitura de Walter Benjamin, de Hannah Arendt e de Emmanuel Levinas que, segundo ela, « pensaram uma visão da generosidade, de hospitalidade, de alteridade. »
« Isso conduz a defender um Estado democrático que não seria fundado sobre uma discriminação racial, étnica ou religiosa. Sei que é uma ideia radical e que numerosas pessoas acham que ela colocaria em perigo a segurança dos judeus. Penso, como Hannah Arendt, que os judeus não estarão em segurança senão quando aceitarem um contexto binacional que reconheça a existência e os direitos dos dois povos, judeu e palestino. Antes da formação do Estado moderno de Israel, em 1948, essa ideia não aparecia como antissionista, era uma forma de sionismo. A visão de Ben Gourion, que superou a de Hannah Arendt desde os anos 1930 e reduziu o Estado à soberania judaica, é a única que hoje tem o direito de ser defendida. Dirigir-se para essa diversidade, voltar a esses textos e aos valores defendidos por esses autores cosmopolitas é necessário para pensar atualmente os princípios de uma coabitação, de uma cidadania não discriminatória, e impor uma crítica judaica da violência de Estado, do colonialismo e da injustiça. Não vejo por que a igualdade política não poderia ser um valor judaico ».
Ao receber o prêmio Adorno, em 2012, na Alemanha, Judith Butler foi tratada de antissemita por extremistas judeus. Ela considera que não há pior acusação para um judeu.
Judith Butler não mudou desde o início dos anos 2000 quando escreveu o texto « A acusação de antissemitismo: os judeus, Israel e os riscos da crítica pública - Um ponto de vista americano », parte da coletânea « Antissemitismo, a intolerável chantagem », que tive o prazer de traduzir para o português em 2004 para a editora Anima. 

HOLLANDE : sedutor com um ar de Tintin maduro

O poder deve ser mesmo afrodisiaco. Para quem duvida, a recente descoberta de uma amante de François Hollande é a prova cabal. Abaixo o texto que escrevi para o Observatorio da Imprensa:

GENERAL  AUSSARESSES : lições da Argélia para ditadores sul-americanos

Uma entrevista exclusiva com o general Aussaresses, morto em dezembro, que vai se transformar em livro.



ESPANHA: greve dos úteros, pela filósofa Beatriz Preciado

O direito da mulher de abortar legalmente é considerado um progresso que a maioria dos países europeus alcançaram. Na Espanha, uma lei pretende fazer um retrocesso limitando esse direito.
Insurgindo-se contra essa lei influenciada pelos católicos próximos da Opus Dei, a filósofa Beatriz Preciado escreveu um violento artigo « Declarar a greve dos úteros » no Libération do fim de semana.
Ela termina o primoroso artigo dizendo : « Corpo nascido com útero, fecho as pernas diante do nacional catolicismo, digo a Rajoy e Varela (primeiro-ministro e cardeal espanhol) que eles não porão os pés no meu útero : nunca tive filhos e nunca os terei a serviço da política espanholista. Daqui desta modesta tribuna, convido a todos os corpos a fazer a greve do útero. Afirmemo-nos como cidadãs e não mais como úteros reprodutivos. Pela abstinência e pela homossexualidade, mas também pela masturbação, sodomia, fetichismo, coprofagia, zoofilia… e pelo aborto. Não deixemos penetrar na vagina uma só gota do esperma nacional católico. Não engravidemos para o PP, nem para as paróquias da Conferência Episcopal. Façamos essa greve como faríamos o mais “matriótico” dos gestos: uma forma de desconstruir a nação e agir para a reinvenção de uma comunidade de vida pós-Estado nacão no qual a expropriação dos úteros não será mais possível.»
Faz tempo que eu não lia um texto tão subversivo.


A TOUCH OF SIN : sublime Jia Zhang-ke

O chinês Jia Zhang-ke é um grande cineasta. Seu último filme lançado em Paris em dezembro é a prova cabal. Ele retrata uma China convertida ao liberalismo selvagem, ao capitalismo de Estado no qual as desigualdades crescem e as vítimas da exploração vêm na violência o único recurso para expressar a revolta. Uma China desconhecida que Jia Zhang-ke  nos revela a partir de crimes reais. Depois de Still life, o cineasta chinês se impõe com um filme genial. Aos interessados, recomendo a crítica da revista Télérama, na internet, (autoria do jornalista Samuel Douhaire), cujo final reproduzo para os francófonos :
Des quatre parcours tragiques racontés par le film, celui de l'adolescent est le plus poignant, inspiré des cas de suicide chez Foxconn, le sous-traitant d'Apple. Le désespoir du petit ouvrier, privé d'ascension sociale, de reconnaissance et même d'amour, apparaît comme la conséquence de tous les dysfonctionnements de la société chinoise. Corruption généralisée, précarité absolue des travailleurs migrants traités comme des parias, cynisme des nouveaux riches qui dilapident leurs yuans dans les bras d'escort-girls déguisées en gardes rouges... Dans cette jungle, qui, à l'heure de la mondialisation, n'est ­hélas pas l'apanage de la Chine, les plus faibles n'ont plus que leur instinct de destruction pour survivre. Et leur animalité : chaque déchaînement de violence est précédé d'une rencontre étrange avec des bêtes, une vipère glissant sur le bitume, des buffles en route vers l'abattoir, un cheval martyrisé par son propriétaire... Parenthèses magnifiques qui propulsent ce film, ô combien réaliste, vers l'imaginaire. A la brutalité des rapports humains, Jia Zhang-ke oppose la résistance par l'oeuvre d'art, qui est autant catharsis que consolation. Dans l'ultime séquence, l'employée de sauna assiste fascinée à la représentation en pleine rue d'un opéra traditionnel, L'Interrogatoire de Su San. Et trouve dans cette histoire sublimée d'une héroïne accusée de meurtre, un écho à son propre ­destin. Au-delà de son message d'alerte salutaire sur l'état de la Chine, A touch of sin est, aussi, un hommage vibrant aux humiliés et offensés du monde entier. Et à l'art qui les sauve.