Recém-chegado de Israel-Palestina, o filósofo Alain Badiou usou esta semana uma hora de seu seminário na École Normale Supérieure para analisar o Oriente Médio. Ele visitou, entre outras cidades, Jerusalém, Ramallah, Tel-Aviv e Naplouse. O seminário de Badiou, aberto ao público, é freqüentado por mais de 300 pessoas, na Normale Sup da Rue d’Ulm.
Badiou deixou a alegoria da caverna para a segunda metade de sua palestra e na primeira hora trocou Platão por uma aula de filosofia política e do papel do Estado tal como é encarnado por Israel e pela ausência dele do lado palestino. A guerra que acabamos de ver nos jornais e na TV não era exatamente uma guerra, segundo a análise de Badiou. “Foi algo comparável à Comuna de Paris ou ao gueto de Varsóvia: era a tomada de uma cidade por um exército moderno”.
Numa região como a Cisjordânia onde todo trajeto é problemático, pode-se levar uma hora para ir de um lugar a outro que fica a 200 metros, devido aos inúmeros check-points. Para o filósofo, Israel-Palestina é uma metonímia de todos os problemas do mundo, um microcosmo onde se apresenta a totalidade dos problemas do planeta. “A tese dos dois Estados é sem futuro. Quanto mais houver separação, mais haverá violência”.
Pelo interesse com que Badiou analisa o Oriente Médio, não deve tardar um livro explicando a metonímia que Israel e Palestina encarnam.
Daniel Cohn-Bendit em Paris: “Libertem Bargouti”
Na segunda-feira, dia 19, poucas horas depois da trégua entre Israel e o Hamas, realizava-se em Paris, no Théâtre de la Porte Saint-Martin, uma reunião pública convocada dias antes através de anúncios nos jornais. O encontro continha um apelo urgente no título: “Israel-Palestine - Halte aux tueries! Faisons vraiment le choix de la paix” (Parem a matança ! Façamos realmente a escolha da paz). Quem organizou o debate foi a revista semanal “Marianne”. Num país que começa a se transformar em sarkolândia, “Marianne” se tornou uma leitura obrigatória pela vigilância crítica e impertinência em relação ao poder, num panorama midiático largamente cooptado pelo sarkozismo.
O que me levou à reunião foi a presença entre os oradores do deputado europeu Daniel Cohn-Bendit (um ícone de Maio de 1968) e do escritor palestino Elias Sanbar, representante de seu povo na Unesco, além do representante do movimento “Paz Agora”, vindo de Israel, Yariv Oppenheimer.
Cohn-Bendit começou com uma declaração identitária, que ele diz evitar sempre. Se disse judeu mas afirmou que nunca foi nem sionista nem anti-sionista. Ele se considera a-sionista e fez a opção de viver na diáspora, isto é, de não emigrar para o Estado de Israel. “Se Israel se retirar da Cisjordânia e o Estado palestino for criado estarei lá para defender Israel e defender a Palestina”, disse o ex-enfant terrible de Maio de 68.
“É preciso libertar Marouan Barghouti”, lançou Cohn-Bendit. “A Palestina democrática precisa ser criada, é preciso que seja dada aos palestinos a possibilidade de construir a democracia sem os integristas do Hamas”.
Para quem não sabe, o palestino Barghouti está preso em Israel desde 2002, quando foi capturado e condenado em 2004 a 40 anos de prisão por um tribunal civil por “assassinatos e tentativas de assassinatos em atos terroristas”. Graças à repercusão internacional do processo, Barghouti teve direito a ser julgado pela justiça civil, ao contrário dos outros palestinos resistentes, julgados em tribunais militares israelenses.
Nascido em Haifa em 1947, Elias Sanbar tinha um ano quando sua família foi expulsa da Palestina depois da criação do Estado de Israel. Viveu no Líbano e hoje mora em Paris onde criou a “Revista de estudos palestinos”. Sanbar informou que a ONG israelense Bet’Selem, de defesa dos direitos humanos, recorreu à Procuradoria Geral de Israel para denunciar que “Israel cometeu crimes de guerra nessa invasão de Gaza”. ***
“A investida contra alvos civis é condenável, não importa quem seja o agressor nem o alvo”, disse Sanbar.
Não é bem essa a opinião do grande rabino da França, Gilles Bernheim. Em plena guerra, ele declarou ao jornal "Libération": "A única preocupação do exército israelense é preservar, com amor e coragem, a idéia de humanidade e de liberdade para todos os homens" (sic).
Justiça e Paz
“A paz é fruto da Justiça”.
Como uma profissão de fé, a frase está escrita no cartão de visitas do prêmio Nobel da Paz de 1980, Adolfo Pérez Esquivel, que encontrei recentemente em Paris, num colóquio sobre a tortura na Argentina. Esquivel é o fundador da “Fundación Servicio Paz Y Justicia” e um militante da paz.
Fala-se muito de paz quando se faz a guerra. Depois que os tanques de Israel se retiraram de Gaza, voltou-se a falar de paz, de negociações de paz, de um Estado Palestino. Faz 60 anos que a comunidade internacional, Israel e os representantes dos palestinos debatem a criação do Estado palestino. Por que ele nunca saiu do papel?
Agora que os tanques deixaram Gaza, diversos organismos internacionais vão iniciar procedimentos jurídicos para provar a tese de crimes de guerra cometidos por Israel. Esta é a nova fase de uma guerra diferente, de palavras e argumentos nem sempre isentos, na Justiça.
A ONG israelense de defesa dos direitos humanos Bet’Selem é uma das organizações mais ativas na denúncia de violação aos direitos humanos dos palestinos. Israel, como a quase totalidade dos países árabes não assinou o tratado que criava a Corte Penal Internacional, que passou a vigorar em julho de 2002. Essa corte é a primeira instância judiciária permanente que julga os crimes mais graves cometidos durante conflitos armados – crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio.
“O que faz a paz naufragar é o sentimento dos palestinos de que a Justiça não funciona para eles”, diz o escritor e poeta palestino Elias Sanbar.
*** As convenções de Genebra de 1949 e seus protocolos adicionais de 1977 codificam as regras do direito nos conflitos armados. Segundo o estatuto da Corte penal internacional, o crime de guerra que é uma violação dessas regras, se caracteriza entre outras coisas por ataques deliberados:
• Contra a população civil em geral ou contra civis que não tomam parte direta nas hostilidades
• Contra bens civis que não são objetivos militares sabendo que esses ataques causarão eventualmente perdas de vidas humanas na população civil, ferimentos em civis ou danos em bens de caráter civil, ou ainda danos excessivos, duráveis e graves ao meio ambiente, que seriam excessivos em relação ao conjunto da vantagem militar concreta e direta esperada
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Israel fez limpeza étnica
Ilan Pappe faz parte de um grupo de novos historiadores israelenses que nadam contra a corrente da historiografia oficial. Por desmontar uma série de mitos, Ilan Pappe se tornou persona non grata em Israel e teve de deixar seu país para fugir às hostilidades de que se tornou vítima por suas críticas à ideologia sionista. Hoje Ilan Pappe é professor na Inglaterra.
O último livro do historiador saiu em 2008 na França e o título já desmente o mito fundador do Estado de Israel: o de que os palestinos deixaram voluntariamente suas aldeias com a chegada dos judeus da Europa. No livro “Le nettoyage ethnique de la Palestine” (A limpeza étnica da Palestina, editora Fayard, 2008) Pappe escreve que antes, durante e depois de 1948, os judeus executaram um plano deliberado e sistemático de expulsão de palestinos, cujo objetivo confesso era “purificar” etnicamente o território onde nascia o Estado de Israel. Sua obra detalha dia-a-dia como, desde que foi anunciada a divisão do território em um Estado palestino e um Estado judaico, os dirigentes do futuro Estado judaico passaram à concretização do sonho sionista: criar um Estado exclusivamente judaico, livre da maior parte dos habitantes palestinos.
O historiador prova com documentos de arquivos e testemunhos de sobreviventes que o que a história oficial conta não passa de reconstrução mítica da verdadeira história: entre 1947 e 1949, mais de 800 mil palestinos foram expulsos de suas cidades e aldeias pelos sionistas, sob o olhar cúmplice dos britânicos e a incompetência das Nações Unidas. Esses milhares de palestinos, expulsos do território que se tornou Israel, vivem hoje em campos de refugiados e o Estado palestino previsto pela resolução 181 da ONU, a mesma que criava Israel, nunca foi criado.
O plano D (Daleth em hebraico) foi executado como uma planificação estratégica visando a criar um Estado exclusivamente judeu. Concebido em 10 de março de 1948, esse plano foi dirigido por David Ben Gurion e “selou o destino dos palestinos nos territórios que os dirigentes sionistas tinham decidido que se tornaria o futuro Estado judaico”, escreve Pappe. Ele conta uma reunião de trabalho decisiva quando o plano D foi definido, na qual foram sistematizados os ataques militares a todas as aldeias da Palestina, inclusive as que tinham comunicado aos sionistas que viveriam sob a soberania do futuro Estado de Israel. Isso aconteceu em vilarejos e cidades como Safed, onde populações árabes e judias tinham vivido em paz até a chegada dos sionistas na Palestina. “O que houve foi uma limpeza étnica”, escreve Pappe que dá numerosos detalhes inéditos sobre a violência exercida pelo exército judaico, pelo Haganah e por milícias de extrema-direita chamadas Irgoun e Stern.
Depois das guerras na ex-Iugoslávia, a limpeza étnica é crime que o direito internacional define hoje como “crime contra a humanidade”, constata o historiador, para quem a limpeza étnica prossegue na Palestina até hoje. Diante da ameaça demográfica que os palestinos representam aos olhos dos sionistas, o muro e a desocupação de Gaza foram pensados como medidas para garantir que o número de palestinos no território de Israel vai permanecer limitado.
Palestinos: a Cruz Vermelha sai de sua neutralidade
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR em francês) divulgou um comunicado (ver no site : www.cicr.org ) em que revela que foram encontradas quatro crianças com vida numa casa bombardeada pelos israelenses no bairro de Zeitoun, em Gaza. As crianças sobreviveram quatro dias ao lado de mães mortas e estavam tão fracas que não podiam se levantar pois permaneceram na casa desde o bombardeio no dia 3 de janeiro. O CICR e a Crescente Vermelho palestino somente obtiveram permissão das forças armadas israelenses para prestar socorro no dia 7 de janeiro. Na mesma casa, foram encontrados mais 12 pessoas mortas.
Em outro local, soldados israelenses proibiram que Cruz Vermelha e o Crescente Vermelho permanecessem numa outra casa para socorrer 15 sobreviventes, mas as equipes de socorro se recusaram a abandonar os feridos e os três mortos encontrados na casa. Além de não prestar socorro aos civis feridos, os militares israelenses tentam impedir que eles sejam socorridos. “Esse incidente é chocante”, declarou Pierre Wettach, chefe da delegação da Cruz Vermelha para Israel e territórios palestinos ocupados. “Os militares israelenses deviam estar a par da situação, mas não socorreram os feridos e nem deixaram que a Cruz Vermelha ou o Crescente Vermelho pudessem prestar ajuda”.
Em outros casos, as autoridades israelenses não confirmaram ao CICR a autorização solicitada para agir. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha acha que nesses casos o exército israelense não respeitou sua obrigação de prestar socorro aos feridos e evacuá-los, como prevê o direito internacional humanitário. O CICR protestou contra a demora para a permissão da entrada dos serviços de socorro.
O último livro do historiador saiu em 2008 na França e o título já desmente o mito fundador do Estado de Israel: o de que os palestinos deixaram voluntariamente suas aldeias com a chegada dos judeus da Europa. No livro “Le nettoyage ethnique de la Palestine” (A limpeza étnica da Palestina, editora Fayard, 2008) Pappe escreve que antes, durante e depois de 1948, os judeus executaram um plano deliberado e sistemático de expulsão de palestinos, cujo objetivo confesso era “purificar” etnicamente o território onde nascia o Estado de Israel. Sua obra detalha dia-a-dia como, desde que foi anunciada a divisão do território em um Estado palestino e um Estado judaico, os dirigentes do futuro Estado judaico passaram à concretização do sonho sionista: criar um Estado exclusivamente judaico, livre da maior parte dos habitantes palestinos.
O historiador prova com documentos de arquivos e testemunhos de sobreviventes que o que a história oficial conta não passa de reconstrução mítica da verdadeira história: entre 1947 e 1949, mais de 800 mil palestinos foram expulsos de suas cidades e aldeias pelos sionistas, sob o olhar cúmplice dos britânicos e a incompetência das Nações Unidas. Esses milhares de palestinos, expulsos do território que se tornou Israel, vivem hoje em campos de refugiados e o Estado palestino previsto pela resolução 181 da ONU, a mesma que criava Israel, nunca foi criado.
O plano D (Daleth em hebraico) foi executado como uma planificação estratégica visando a criar um Estado exclusivamente judeu. Concebido em 10 de março de 1948, esse plano foi dirigido por David Ben Gurion e “selou o destino dos palestinos nos territórios que os dirigentes sionistas tinham decidido que se tornaria o futuro Estado judaico”, escreve Pappe. Ele conta uma reunião de trabalho decisiva quando o plano D foi definido, na qual foram sistematizados os ataques militares a todas as aldeias da Palestina, inclusive as que tinham comunicado aos sionistas que viveriam sob a soberania do futuro Estado de Israel. Isso aconteceu em vilarejos e cidades como Safed, onde populações árabes e judias tinham vivido em paz até a chegada dos sionistas na Palestina. “O que houve foi uma limpeza étnica”, escreve Pappe que dá numerosos detalhes inéditos sobre a violência exercida pelo exército judaico, pelo Haganah e por milícias de extrema-direita chamadas Irgoun e Stern.
Depois das guerras na ex-Iugoslávia, a limpeza étnica é crime que o direito internacional define hoje como “crime contra a humanidade”, constata o historiador, para quem a limpeza étnica prossegue na Palestina até hoje. Diante da ameaça demográfica que os palestinos representam aos olhos dos sionistas, o muro e a desocupação de Gaza foram pensados como medidas para garantir que o número de palestinos no território de Israel vai permanecer limitado.
Palestinos: a Cruz Vermelha sai de sua neutralidade
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR em francês) divulgou um comunicado (ver no site : www.cicr.org ) em que revela que foram encontradas quatro crianças com vida numa casa bombardeada pelos israelenses no bairro de Zeitoun, em Gaza. As crianças sobreviveram quatro dias ao lado de mães mortas e estavam tão fracas que não podiam se levantar pois permaneceram na casa desde o bombardeio no dia 3 de janeiro. O CICR e a Crescente Vermelho palestino somente obtiveram permissão das forças armadas israelenses para prestar socorro no dia 7 de janeiro. Na mesma casa, foram encontrados mais 12 pessoas mortas.
Em outro local, soldados israelenses proibiram que Cruz Vermelha e o Crescente Vermelho permanecessem numa outra casa para socorrer 15 sobreviventes, mas as equipes de socorro se recusaram a abandonar os feridos e os três mortos encontrados na casa. Além de não prestar socorro aos civis feridos, os militares israelenses tentam impedir que eles sejam socorridos. “Esse incidente é chocante”, declarou Pierre Wettach, chefe da delegação da Cruz Vermelha para Israel e territórios palestinos ocupados. “Os militares israelenses deviam estar a par da situação, mas não socorreram os feridos e nem deixaram que a Cruz Vermelha ou o Crescente Vermelho pudessem prestar ajuda”.
Em outros casos, as autoridades israelenses não confirmaram ao CICR a autorização solicitada para agir. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha acha que nesses casos o exército israelense não respeitou sua obrigação de prestar socorro aos feridos e evacuá-los, como prevê o direito internacional humanitário. O CICR protestou contra a demora para a permissão da entrada dos serviços de socorro.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Embaixador dos direitos humanos
O artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, diz: “Toda pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para assegurar sua saúde, seu bem-estar e de sua família, principalmente no que se refere à alimentação, ao vestuário, à moradia, aos cuidados médicos e aos serviços sociais necessários...”
Stéphane Hessel tem 91 anos e no dia 10 de dezembro, dia do 60° aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, recitou de cor o preâmbulo do documento histórico, que começa com vários “considerando” e é um marco na história da humanidade.
Foi no lugar que tem o belo nome de Parvis des Droits de l’homme, no Trocadéro. A França comemorou “comme il faut” um documento que promete relações mais humanas entre os homens, mesmo se é desrespeitado aqui e ali, a começar pelas grandes democracias ocidentais. Mas o texto tem a função de farol, uma luz, uma utopia universal.
Ele nasceu no Palais de Chaillot, diante da Torre Eiffel. O mundo acabava de emergir de uma carnificina de proporções gigantescas e 58 países reunidos na Assembléia Geral das Nações Unidas redigiram a Declaração. Hessel era um jovem diplomata e participou da redação do documento que é seu Norte desde então.
Esse ex-embaixador da França, um eterno combatente na defesa dos direitos humanos, é um dos últimos signatários da Declaração ainda vivos. No dia 21 de fevereiro deste ano, na Place de la République, Stéphane Hessel lançou um apelo ao governo francês para que o artigo 25 da Declaração seja cumprido e os sem-teto possam ter um lugar digno para morar.
Todos os oprimidos do mundo têm em Hessel um advogado engajado. Esse filho de um pai judeu alemão _ o escritor Franz Hessel, que inspirou o personagem Jules do romance “Jules et Jim” de Henri-Pierre Roché filmado por François Truffaut _ voltou recentemente de Israel entusiasmado com os israelenses que não aceitam a ocupação e a colonização dos territórios palestinos. Hessel só lamenta que sejam poucos os israelenses a participar do Gush Shalom (Paz Agora), do Tay’aouch e do movimento dos Refuzniks (soldados que se recusam a servir nos territórios ocupados). Esses defensores dos direitos humanos fazem vibrar o embaixador Hessel:
“Eles são realmente corajosos, o combate deles é difícil. São considerados traidores pela população israelense porque se relacionam com os palestinos, quando isso deveria ser estimulado num espírito de paz a construir”.
E os direitos humanos das populações de rua ?
A partir do dia 1° de dezembro deste ano, as pessoas consideradas “prioritárias” podem ir à Justiça, através do tribunal administrativo, se os serviços do Estado não lhe propuserem uma moradia ou ao menos um abrigo em albergue.
Isso é o que uma lei francesa do ano passado determina para já. Mas, a partir de 2012, todas as famílias que esperam uma casa por um “tempo muito longo” terão essa possibilidade de recurso. Quem são as pessoas prioritárias e o que é um tempo muito longo é determinado na lei.
Desde o início de 2008, já morreram 265 pessoas em condições indignas de um país como a França, que parece estar disposta a enfrentar o problema, graças à luta de instituições como Les enfants de Don Quichotte e pessoas como Stéphane Hessel. Pelo menos no papel há iniciativas concretas para pôr fim à morte de SDFs (Sans domicile fixe), os sem-teto que moram nas ruas e nos bosques e morrem à míngua de frio e de abandono, todos os anos.
Mas é sobretudo o frio que mata e essas mortes chocam (alguns) franceses que organizaram recentemente uma homenagem aos mortos, muitas vezes anônimos, encontrados em ruas, dentro de automóveis velhos ou em barracas de camping precárias.
O direito à moradia nos países ricos não deveria ser apenas uma utopia. Quando se trata de salvar os bancos os bilhões de euros e dólares aparecem rapidamente...
Stéphane Hessel tem 91 anos e no dia 10 de dezembro, dia do 60° aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, recitou de cor o preâmbulo do documento histórico, que começa com vários “considerando” e é um marco na história da humanidade.
Foi no lugar que tem o belo nome de Parvis des Droits de l’homme, no Trocadéro. A França comemorou “comme il faut” um documento que promete relações mais humanas entre os homens, mesmo se é desrespeitado aqui e ali, a começar pelas grandes democracias ocidentais. Mas o texto tem a função de farol, uma luz, uma utopia universal.
Ele nasceu no Palais de Chaillot, diante da Torre Eiffel. O mundo acabava de emergir de uma carnificina de proporções gigantescas e 58 países reunidos na Assembléia Geral das Nações Unidas redigiram a Declaração. Hessel era um jovem diplomata e participou da redação do documento que é seu Norte desde então.
Esse ex-embaixador da França, um eterno combatente na defesa dos direitos humanos, é um dos últimos signatários da Declaração ainda vivos. No dia 21 de fevereiro deste ano, na Place de la République, Stéphane Hessel lançou um apelo ao governo francês para que o artigo 25 da Declaração seja cumprido e os sem-teto possam ter um lugar digno para morar.
Todos os oprimidos do mundo têm em Hessel um advogado engajado. Esse filho de um pai judeu alemão _ o escritor Franz Hessel, que inspirou o personagem Jules do romance “Jules et Jim” de Henri-Pierre Roché filmado por François Truffaut _ voltou recentemente de Israel entusiasmado com os israelenses que não aceitam a ocupação e a colonização dos territórios palestinos. Hessel só lamenta que sejam poucos os israelenses a participar do Gush Shalom (Paz Agora), do Tay’aouch e do movimento dos Refuzniks (soldados que se recusam a servir nos territórios ocupados). Esses defensores dos direitos humanos fazem vibrar o embaixador Hessel:
“Eles são realmente corajosos, o combate deles é difícil. São considerados traidores pela população israelense porque se relacionam com os palestinos, quando isso deveria ser estimulado num espírito de paz a construir”.
E os direitos humanos das populações de rua ?
A partir do dia 1° de dezembro deste ano, as pessoas consideradas “prioritárias” podem ir à Justiça, através do tribunal administrativo, se os serviços do Estado não lhe propuserem uma moradia ou ao menos um abrigo em albergue.
Isso é o que uma lei francesa do ano passado determina para já. Mas, a partir de 2012, todas as famílias que esperam uma casa por um “tempo muito longo” terão essa possibilidade de recurso. Quem são as pessoas prioritárias e o que é um tempo muito longo é determinado na lei.
Desde o início de 2008, já morreram 265 pessoas em condições indignas de um país como a França, que parece estar disposta a enfrentar o problema, graças à luta de instituições como Les enfants de Don Quichotte e pessoas como Stéphane Hessel. Pelo menos no papel há iniciativas concretas para pôr fim à morte de SDFs (Sans domicile fixe), os sem-teto que moram nas ruas e nos bosques e morrem à míngua de frio e de abandono, todos os anos.
Mas é sobretudo o frio que mata e essas mortes chocam (alguns) franceses que organizaram recentemente uma homenagem aos mortos, muitas vezes anônimos, encontrados em ruas, dentro de automóveis velhos ou em barracas de camping precárias.
O direito à moradia nos países ricos não deveria ser apenas uma utopia. Quando se trata de salvar os bancos os bilhões de euros e dólares aparecem rapidamente...
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Não era o leiteiro
Winston Churchill dizia da democracia: “Nesse regime, quando tocam à sua porta às 6 da manhã, você tem certeza de que é o leiteiro”.
Em Paris, a campainha tocou na casa do jornalista Vittorio de Filippis às 6h40m da manhã e não era o leiteiro. Eram quatro policiais com um mandado judicial. Levaram o ex-diretor do jornal “Libération” algemado para interrogatório, sem que o jornalista tivesse autorização de telefonar nem à sua família nem aos advogados do jornal. E ainda por cima é insultado pelos tiras que lhe dizem, diante de um de seus filhos: “Vocês são piores do que a escória”.
Chegando à delegacia, o jornalista descobre a causa de sua intimação: a publicação no site do jornal, em 2006, de uma história judicial envolvendo Xavier Niel, o fundador de um provedor chamado Free. Durante o interrogatório, de Filippis teve de ficar de cuecas diante dos policiais.
Dois dias seguidos, o “affaire” foi a capa de “Libération” e foi comentado em toda a mídia. Há quem veja na maneira de agir dos policiais uma tentativa de intimidação à imprensa.
“Tenho vergonha de meu país, essas aberrações administrativas ou judiciárias são revoltantes e repugnantes”, disse o ex-ministro e deputado Jack Lang.
Ao ser ouvido por jornalistas, Vittorio de Filippis se disse chocado com os métodos policiais e disse poder imaginar as situações a que são submetidos imigrantes que muitas vezes mal falam francês.
Mas se o presidente da república pediu, em outubro, à comissão Leger para “refletir sobre um procedimento penal mais respeitoso dos direitos e da dignidade da pessoa” significa que ele próprio reconhece que o atual é desrespeitoso.
Hospitais psiquiátricos de segurança máxima
A França vai mal. Pelo menos, pela leitura dos jornais, o que fica da atualidade do país é a impressão de uma democracia ameaçada. E não estou tendo uma súbita crise de pessimismo. A França vai mal mesmo.
Um doente mental esfaqueou um estudante numa rua de Grenoble? Eis um bom motivo para o presidente da República anunciar um plano para transformar os hospitais psiquiátricos em verdadeiras prisões de segurança máxima. A psiquiatria como um cárcere especial é a visão do presidente, que anunciou o desbloqueio de uma verba de 70 milhões de euros para a segurança dos hospitais psiquiátricos e mais 40 milhões de euros para a construção de unidades especiais para “doentes difíceis”. E mais 30 milhões de euros para o controle das entradas e saídas desses hospitais.
Na França, a loucura se transforma em crime e os doentes mentais em pessoas que requerem grades e hospitais de segurança máxima.
É uma visão retrógrada da loucura, digna do final do século XIX.
Perigo, jovens sem celular
Leituras consideradas subversivas, recusa de uso de telefones celulares e o fato de terem estado próximos de linhas de trem que sofreram ataques misteriosos, em novembro, prejudicando o transporte ferroviário francês em diversos pontos do país. Esses indícios foram suficientes para que a polícia antiterrorista francesa prendesse e entregasse à Justiça um grupo de cinco jovens, todos franceses e de formação universitária, que moravam numa fazenda próxima de Tarnac, um vilarejo da Corrèze, centro da França.
A sabotagem de linhas da SNCF foi um pretexto para a ministra do Interior, Michèle Alliot-Marie, desencadear a parafernália securitária do ministério, plenamente em sintonia com as idéias em voga sobre as ameaças dos grupos de extrema-esquerda.
O caso seria ridículo se não fosse a seriedade com que é encarado pelo governo o “surgimento de grupos de extrema-esquerda de tendência anarco-autônoma”. No caso dos jovens presos, não há nenhum indício que prove que praticaram ou tinham qualquer intenção de praticar atos de terrorismo. Na realidade, não há crime, não há confissão, não há provas de DNA dos acusados, não há flagrante delito.
O que há é apenas paranóia que pretende prender e punir terroristas potenciais. O criminoso do futuro será punido quando a suspeita da intenção do crime for detectada.
Os jovens superdiplomados de Tarnac não liam livros subversivos? Não eram suspeitos pelo fato de se recusarem a ter celulares? Logo, eram terroristas potenciais. Não há provas contra eles, mas tinham tudo de perigosos anarquistas altermundialistas.
E, na França de Sarkozy, o lugar de contestadores, mesmo que aparentemente inofensivos, é na prisão.
Presos aos 12 anos
Não existe na lei francesa uma idade mínima de responsabilidade penal. O juiz é quem deve decidir se o jovem tem discernimento sobre seus atos e se pode receber uma sanção. Mas até hoje, abaixo dos 13 anos, a sanção só pode ser educativa.
Um novo estudo recomenda o encarceramento de crianças a partir de 12 anos!
No jornal “L’Humanité”, o sociólogo Laurent Mucchielli desmente ponto a ponto, com estatísticas, as falsas afirmações da ministra da Justiça, Rachida Dati, de que houve aumento da delinqüência juvenil. Dentro da lógica securitária do presidente francês, Dati quer diminuir a idade da responsabilidade penal.
Definitivamente, a França vai mal.
Em Paris, a campainha tocou na casa do jornalista Vittorio de Filippis às 6h40m da manhã e não era o leiteiro. Eram quatro policiais com um mandado judicial. Levaram o ex-diretor do jornal “Libération” algemado para interrogatório, sem que o jornalista tivesse autorização de telefonar nem à sua família nem aos advogados do jornal. E ainda por cima é insultado pelos tiras que lhe dizem, diante de um de seus filhos: “Vocês são piores do que a escória”.
Chegando à delegacia, o jornalista descobre a causa de sua intimação: a publicação no site do jornal, em 2006, de uma história judicial envolvendo Xavier Niel, o fundador de um provedor chamado Free. Durante o interrogatório, de Filippis teve de ficar de cuecas diante dos policiais.
Dois dias seguidos, o “affaire” foi a capa de “Libération” e foi comentado em toda a mídia. Há quem veja na maneira de agir dos policiais uma tentativa de intimidação à imprensa.
“Tenho vergonha de meu país, essas aberrações administrativas ou judiciárias são revoltantes e repugnantes”, disse o ex-ministro e deputado Jack Lang.
Ao ser ouvido por jornalistas, Vittorio de Filippis se disse chocado com os métodos policiais e disse poder imaginar as situações a que são submetidos imigrantes que muitas vezes mal falam francês.
Mas se o presidente da república pediu, em outubro, à comissão Leger para “refletir sobre um procedimento penal mais respeitoso dos direitos e da dignidade da pessoa” significa que ele próprio reconhece que o atual é desrespeitoso.
Hospitais psiquiátricos de segurança máxima
A França vai mal. Pelo menos, pela leitura dos jornais, o que fica da atualidade do país é a impressão de uma democracia ameaçada. E não estou tendo uma súbita crise de pessimismo. A França vai mal mesmo.
Um doente mental esfaqueou um estudante numa rua de Grenoble? Eis um bom motivo para o presidente da República anunciar um plano para transformar os hospitais psiquiátricos em verdadeiras prisões de segurança máxima. A psiquiatria como um cárcere especial é a visão do presidente, que anunciou o desbloqueio de uma verba de 70 milhões de euros para a segurança dos hospitais psiquiátricos e mais 40 milhões de euros para a construção de unidades especiais para “doentes difíceis”. E mais 30 milhões de euros para o controle das entradas e saídas desses hospitais.
Na França, a loucura se transforma em crime e os doentes mentais em pessoas que requerem grades e hospitais de segurança máxima.
É uma visão retrógrada da loucura, digna do final do século XIX.
Perigo, jovens sem celular
Leituras consideradas subversivas, recusa de uso de telefones celulares e o fato de terem estado próximos de linhas de trem que sofreram ataques misteriosos, em novembro, prejudicando o transporte ferroviário francês em diversos pontos do país. Esses indícios foram suficientes para que a polícia antiterrorista francesa prendesse e entregasse à Justiça um grupo de cinco jovens, todos franceses e de formação universitária, que moravam numa fazenda próxima de Tarnac, um vilarejo da Corrèze, centro da França.
A sabotagem de linhas da SNCF foi um pretexto para a ministra do Interior, Michèle Alliot-Marie, desencadear a parafernália securitária do ministério, plenamente em sintonia com as idéias em voga sobre as ameaças dos grupos de extrema-esquerda.
O caso seria ridículo se não fosse a seriedade com que é encarado pelo governo o “surgimento de grupos de extrema-esquerda de tendência anarco-autônoma”. No caso dos jovens presos, não há nenhum indício que prove que praticaram ou tinham qualquer intenção de praticar atos de terrorismo. Na realidade, não há crime, não há confissão, não há provas de DNA dos acusados, não há flagrante delito.
O que há é apenas paranóia que pretende prender e punir terroristas potenciais. O criminoso do futuro será punido quando a suspeita da intenção do crime for detectada.
Os jovens superdiplomados de Tarnac não liam livros subversivos? Não eram suspeitos pelo fato de se recusarem a ter celulares? Logo, eram terroristas potenciais. Não há provas contra eles, mas tinham tudo de perigosos anarquistas altermundialistas.
E, na França de Sarkozy, o lugar de contestadores, mesmo que aparentemente inofensivos, é na prisão.
Presos aos 12 anos
Não existe na lei francesa uma idade mínima de responsabilidade penal. O juiz é quem deve decidir se o jovem tem discernimento sobre seus atos e se pode receber uma sanção. Mas até hoje, abaixo dos 13 anos, a sanção só pode ser educativa.
Um novo estudo recomenda o encarceramento de crianças a partir de 12 anos!
No jornal “L’Humanité”, o sociólogo Laurent Mucchielli desmente ponto a ponto, com estatísticas, as falsas afirmações da ministra da Justiça, Rachida Dati, de que houve aumento da delinqüência juvenil. Dentro da lógica securitária do presidente francês, Dati quer diminuir a idade da responsabilidade penal.
Definitivamente, a França vai mal.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
LÉVI-STRAUSS
Claude Lévi -Strauss festeja 100 anos nesta sexta-feira, 28 de novembro.
Além de exibir documentários e algumas das três mil fotos feitas pelo próprio antropólogo entre os índios do Brasil, o Musée du Quai Branly, o novo museu de Paris dedicado às artes primordiais ou “arts premiers” (antes chamadas de “arts primitifs”) programou uma homenagem original ao professor Lévi-Strauss: durante todo o dia, cem “personalidades do mundo da arte e da ciência” vão ler trechos de sua obra. Entre os cem, estarão o “tout Paris” intelectual, que inclui Julia Kisteva, Bernard-Henri Lévi, Jacques-Alain Miller, Elisabeth Roudinesco, além da antropóloga brasileira Manuela Carneiro da Cunha, que assina um texto sobre “Tristes Trópicos” no caderno especial do “Le Monde” dedicado ao mestre.
O estruturalismo, o pensamento selvagem, o cru e o cozido, os tristes trópicos. Mesmo quem não é especialista do pensamento de Claude Lévi-Strauss é tomado de emoção por vê-lo completar um século.
A Folha de São Paulo me pediu uma entrevista com Lévi-Strauss há poucos meses. A assistente do mestre se desculpou. O professor não dá mais entrevistas.
Na quinta-feira, véspera do aniversário, o canal franco-alemão “Arte” dedicou o dia inteiro à vida e à obra do professor que publicou “Tristes trópicos”, em 1955, com digressões sombrias a respeito das perspectivas da civilização mundial, marcada, segundo ele, pelo inchaço demográfico e pela homogeneização cultural.
A qualidade literária do livro é tal que naquele ano a Academia Goncourt publicou um comunicado lamentando não se tratar de um romance, pois teria sido ele o premiado. O antropólogo ficou sem esse prêmio, mas outros não lhe faltaram, inclusive a eleição para a Academia Francesa. Lévi-Strauss terminou sua vida ativa como professor no Collège de France, mas muito jovem lecionara na Universidade de São Paulo, que viu nascer.
O que fica da vida e da obra de Lévi-Strauss é um olhar novo sobre as chamadas sociedades primitivas. Suas fotos e os objetos de sua coleção estão reunidos no Musée du Quai Branly. Seu último livro, “Saudades do Brasil”, reúne as fotos do antropólogo que diz desconfiar da fotografia porque ela lhe dá “a sensação de um vazio, de uma falta, pois há sempre algo que a objetiva não consegue captar”.
Lévi-Strauss disse uma vez que o mundo que ele conheceu e amou tinha apenas dois bilhões e meio de indivíduos. Segundo ele, a perspectiva de sermos em breve nove bilhões coloca a espécie humana “numa espécie de regime de envenenamento interno”.
Na Fundação Cartier, os Yanomami brasileiros dizem num filme extraordinário de Raymond Depardon e Claudine Nougaret sobre o desenraizamento de populações no mundo: “Quando os brancos chegarem com as grandes máquinas nessa floresta, eles sujarão as águas. E morrerão todos como nós. Não pensem que somente os Yanomami vão morrer”.
CONTRA O RACISMO
Do historiador Tzevetan Todorov leio um texto que nos remete à antropologia e a Lévi-Strauss. Um recado sucinto e definitivo aos que, como Bush, Berlusconi e outros “pensadores”, tentam hierarquizar os seres humanos por raça ou pertencimento a tribos ou culturas:
“Pela maneira como se percebe e se acolhe os outros, os diferentes, pode-se medir nosso grau de barbárie ou de civilização... Ser civilizado significa ter a possibilidade de reconhecer plenamente a humanidade dos outros, apesar dos rostos e hábitos diferentes dos seus; saber se colocar no lugar do outro e saber se olhar de fora de si mesmo”.
Além de exibir documentários e algumas das três mil fotos feitas pelo próprio antropólogo entre os índios do Brasil, o Musée du Quai Branly, o novo museu de Paris dedicado às artes primordiais ou “arts premiers” (antes chamadas de “arts primitifs”) programou uma homenagem original ao professor Lévi-Strauss: durante todo o dia, cem “personalidades do mundo da arte e da ciência” vão ler trechos de sua obra. Entre os cem, estarão o “tout Paris” intelectual, que inclui Julia Kisteva, Bernard-Henri Lévi, Jacques-Alain Miller, Elisabeth Roudinesco, além da antropóloga brasileira Manuela Carneiro da Cunha, que assina um texto sobre “Tristes Trópicos” no caderno especial do “Le Monde” dedicado ao mestre.
O estruturalismo, o pensamento selvagem, o cru e o cozido, os tristes trópicos. Mesmo quem não é especialista do pensamento de Claude Lévi-Strauss é tomado de emoção por vê-lo completar um século.
A Folha de São Paulo me pediu uma entrevista com Lévi-Strauss há poucos meses. A assistente do mestre se desculpou. O professor não dá mais entrevistas.
Na quinta-feira, véspera do aniversário, o canal franco-alemão “Arte” dedicou o dia inteiro à vida e à obra do professor que publicou “Tristes trópicos”, em 1955, com digressões sombrias a respeito das perspectivas da civilização mundial, marcada, segundo ele, pelo inchaço demográfico e pela homogeneização cultural.
A qualidade literária do livro é tal que naquele ano a Academia Goncourt publicou um comunicado lamentando não se tratar de um romance, pois teria sido ele o premiado. O antropólogo ficou sem esse prêmio, mas outros não lhe faltaram, inclusive a eleição para a Academia Francesa. Lévi-Strauss terminou sua vida ativa como professor no Collège de France, mas muito jovem lecionara na Universidade de São Paulo, que viu nascer.
O que fica da vida e da obra de Lévi-Strauss é um olhar novo sobre as chamadas sociedades primitivas. Suas fotos e os objetos de sua coleção estão reunidos no Musée du Quai Branly. Seu último livro, “Saudades do Brasil”, reúne as fotos do antropólogo que diz desconfiar da fotografia porque ela lhe dá “a sensação de um vazio, de uma falta, pois há sempre algo que a objetiva não consegue captar”.
Lévi-Strauss disse uma vez que o mundo que ele conheceu e amou tinha apenas dois bilhões e meio de indivíduos. Segundo ele, a perspectiva de sermos em breve nove bilhões coloca a espécie humana “numa espécie de regime de envenenamento interno”.
Na Fundação Cartier, os Yanomami brasileiros dizem num filme extraordinário de Raymond Depardon e Claudine Nougaret sobre o desenraizamento de populações no mundo: “Quando os brancos chegarem com as grandes máquinas nessa floresta, eles sujarão as águas. E morrerão todos como nós. Não pensem que somente os Yanomami vão morrer”.
CONTRA O RACISMO
Do historiador Tzevetan Todorov leio um texto que nos remete à antropologia e a Lévi-Strauss. Um recado sucinto e definitivo aos que, como Bush, Berlusconi e outros “pensadores”, tentam hierarquizar os seres humanos por raça ou pertencimento a tribos ou culturas:
“Pela maneira como se percebe e se acolhe os outros, os diferentes, pode-se medir nosso grau de barbárie ou de civilização... Ser civilizado significa ter a possibilidade de reconhecer plenamente a humanidade dos outros, apesar dos rostos e hábitos diferentes dos seus; saber se colocar no lugar do outro e saber se olhar de fora de si mesmo”.
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
CHER BARAK
Sarkozy pediu a assessores para ser acordado logo que a vitória anunciada pelas pesquisas fosse confirmada. Apenas quatro minutos depois da fala de John McCain admitindo a derrota, uma hora antes de Gordon Brown e duas horas antes de Angela Merkel, o presidente francês assinava uma carta manuscrita ao novo presidente. Ela começava com um “Cher Barak”. Sem o c antes do k. Quem revelou o erro na ortografia do nome de Obama foi o jornal alemão Bild, que escreveu a notícia com o título: “Errado”.
Maldosos, esses alemães, ou apenas sarkofóbicos?
Sarkozy fez questão de ser o primeiro chefe de Estado a cumprimentar Barack Obama por sua vitória. O "Le Monde" assinalava, num texto deliciosamente irônico, que o presidente francês vai ter que fazer muito mais fogos de artifício para aparecer agora que a “Obamania” tomou conta do mundo. Era fácil brilhar tendo ao lado figuras lamentáveis como Bush ou Berlusconi. Fica mais difícil com o carismático Obama no cenário político mundial.
Outro que mais uma vez se excedeu foi o milionário com pinta de camelô bem-sucedido que governa a Itália. Ao dizer que Obama é “jovem, belo e bronzeado” Berlusconi mostrou-se, mais uma vez, à altura de sua biografia de “parvenu”. E dispensa comentários.
FRANÇOIS, JACQUES E NICOLAS
Os últimos presidentes franceses se chamaram François, Jacques e Nicolas.
Quando a França elegerá um Muhamad ou Jamel? Respondo: “Ce n’est pas demain la veille”, como diz o ditado francês. A expressão que acho deliciosa (“amanhã não é a véspera”) quer dizer exatamente isso: nem tão cedo um francês mestiço governará o país.
No momento em que o mundo inteiro festejava a eleição do primeiro presidente americano mestiço, os jornalistas e intelectuais franceses começaram a se interrogar sobre a visibilidade das minorias na França.
O realidade não é muito animadora. Isso sem nem levar em conta a remotíssima hipótese de um presidente negro ou mestiço no país de Voltaire. Apenas uma olhada na mídia e no Parlamento já daria para perceber o atraso da França em matéria de promoção da diversidade étnica.
Tanto na vida política quanto na mídia francesa as minorias de origem árabe, asiática ou africana estão muito pouco representadas. Na Assembléia Legislativa há apenas uma deputada de origem africana. Nenhum deputado de origem árabe ou asiática toma assento entre os 577 deputados franceses.
Na mídia audiovisual, essa representação também é muito menor do que o ideal, segundo o Observatório da diversidade na mídia, criado no ano passado e ligado ao Conselho Superior do Audiovisual (CSA). Como álibi, os canais France 3 e TF1 têm respectivamente Audrey Pulvar e Harry Roselmack, dois belos e competentes apresentadores de origem africana.
No país dos direitos humanos, em que falar de raça ou origem étnica é uma heresia intolerável (não se sabe quantos árabes, negros ou judeus existem na França por causa do tabu de recensear a população por características étnicas ou mesmo origem religiosa), a luta contra discriminações no audiovisual está inscrita na lei sobre igualdade de oportunidades, adotada em 2006 no governo de Jacques Chirac.
No ano passado, a imprensa debateu durante várias semanas a validade de recensear a população através de classificações étnico-raciais, como queria o governo Sarkozy. A iniciativa foi denunciada como uma deriva perigosamente racista pela associação “SOS Racisme”, que publicou uma petição contra o recenseamento étnico, assinada por intelectuais e diversas personalidades.
No dia 15 de novembro do ano passado, o Conselho Constitucional validou a lei do governo Sarkozy que introduzia testes de DNA no direito dos estrangeiros. Por outro lado, o mesmo Conselho anulou o artigo que autorizava as estatísticas étnicas.
Eis alguns trechos da petição de “SOS Racisme”, assinada por milhares de pessoas. Em francês, para manter o sabor do texto original:
(...)
Je refuse que quiconque me réclame ma couleur de peau, mon origine ou ma religion… Ni l’Etat, ni mon chef d’entreprise, ni un institut de sondage. Je refuse que l’on puisse faire de même avec mon conjoint, mes enfants ou mes parents… Mon identité ne se réduit pas à des critères d’un autre temps… Celui de la France coloniale ou d’avant août 44.
Je m’oppose à un Etat qui réhabilite une nomenclature raciale en se fondant sur la couleur de peau ou établisse un référentiel ethnico-religieux sur la base d'origines ou d'appartenances confessionnelles réelles ou supposées en totale contradiction avec les libertés et droits fondamentaux de la personne.
(…)
Autoriser de telles les « statistiques ethniques » conduit à renforcer une vision ethnicisante du monde et offre une prétendue caution scientifique aux stéréotypes racistes qui continuent malheureusement de travailler de l’intérieur la société française. Après les tests ADN qui organisent un « tri » parmi les immigrés, la dimension raciale et/ou ethnique ne doit pas servir à diagnostiquer les Français.
Je refuse que l’on m’enferme dans une catégorie ethno-raciale pour finalement, à l’aide de cette dangereuse grille d’interprétation, définir mes droits et juger mes comportements …
(…)
Maldosos, esses alemães, ou apenas sarkofóbicos?
Sarkozy fez questão de ser o primeiro chefe de Estado a cumprimentar Barack Obama por sua vitória. O "Le Monde" assinalava, num texto deliciosamente irônico, que o presidente francês vai ter que fazer muito mais fogos de artifício para aparecer agora que a “Obamania” tomou conta do mundo. Era fácil brilhar tendo ao lado figuras lamentáveis como Bush ou Berlusconi. Fica mais difícil com o carismático Obama no cenário político mundial.
Outro que mais uma vez se excedeu foi o milionário com pinta de camelô bem-sucedido que governa a Itália. Ao dizer que Obama é “jovem, belo e bronzeado” Berlusconi mostrou-se, mais uma vez, à altura de sua biografia de “parvenu”. E dispensa comentários.
FRANÇOIS, JACQUES E NICOLAS
Os últimos presidentes franceses se chamaram François, Jacques e Nicolas.
Quando a França elegerá um Muhamad ou Jamel? Respondo: “Ce n’est pas demain la veille”, como diz o ditado francês. A expressão que acho deliciosa (“amanhã não é a véspera”) quer dizer exatamente isso: nem tão cedo um francês mestiço governará o país.
No momento em que o mundo inteiro festejava a eleição do primeiro presidente americano mestiço, os jornalistas e intelectuais franceses começaram a se interrogar sobre a visibilidade das minorias na França.
O realidade não é muito animadora. Isso sem nem levar em conta a remotíssima hipótese de um presidente negro ou mestiço no país de Voltaire. Apenas uma olhada na mídia e no Parlamento já daria para perceber o atraso da França em matéria de promoção da diversidade étnica.
Tanto na vida política quanto na mídia francesa as minorias de origem árabe, asiática ou africana estão muito pouco representadas. Na Assembléia Legislativa há apenas uma deputada de origem africana. Nenhum deputado de origem árabe ou asiática toma assento entre os 577 deputados franceses.
Na mídia audiovisual, essa representação também é muito menor do que o ideal, segundo o Observatório da diversidade na mídia, criado no ano passado e ligado ao Conselho Superior do Audiovisual (CSA). Como álibi, os canais France 3 e TF1 têm respectivamente Audrey Pulvar e Harry Roselmack, dois belos e competentes apresentadores de origem africana.
No país dos direitos humanos, em que falar de raça ou origem étnica é uma heresia intolerável (não se sabe quantos árabes, negros ou judeus existem na França por causa do tabu de recensear a população por características étnicas ou mesmo origem religiosa), a luta contra discriminações no audiovisual está inscrita na lei sobre igualdade de oportunidades, adotada em 2006 no governo de Jacques Chirac.
No ano passado, a imprensa debateu durante várias semanas a validade de recensear a população através de classificações étnico-raciais, como queria o governo Sarkozy. A iniciativa foi denunciada como uma deriva perigosamente racista pela associação “SOS Racisme”, que publicou uma petição contra o recenseamento étnico, assinada por intelectuais e diversas personalidades.
No dia 15 de novembro do ano passado, o Conselho Constitucional validou a lei do governo Sarkozy que introduzia testes de DNA no direito dos estrangeiros. Por outro lado, o mesmo Conselho anulou o artigo que autorizava as estatísticas étnicas.
Eis alguns trechos da petição de “SOS Racisme”, assinada por milhares de pessoas. Em francês, para manter o sabor do texto original:
(...)
Je refuse que quiconque me réclame ma couleur de peau, mon origine ou ma religion… Ni l’Etat, ni mon chef d’entreprise, ni un institut de sondage. Je refuse que l’on puisse faire de même avec mon conjoint, mes enfants ou mes parents… Mon identité ne se réduit pas à des critères d’un autre temps… Celui de la France coloniale ou d’avant août 44.
Je m’oppose à un Etat qui réhabilite une nomenclature raciale en se fondant sur la couleur de peau ou établisse un référentiel ethnico-religieux sur la base d'origines ou d'appartenances confessionnelles réelles ou supposées en totale contradiction avec les libertés et droits fondamentaux de la personne.
(…)
Autoriser de telles les « statistiques ethniques » conduit à renforcer une vision ethnicisante du monde et offre une prétendue caution scientifique aux stéréotypes racistes qui continuent malheureusement de travailler de l’intérieur la société française. Après les tests ADN qui organisent un « tri » parmi les immigrés, la dimension raciale et/ou ethnique ne doit pas servir à diagnostiquer les Français.
Je refuse que l’on m’enferme dans une catégorie ethno-raciale pour finalement, à l’aide de cette dangereuse grille d’interprétation, définir mes droits et juger mes comportements …
(…)
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Cildo Meireles na Tate Modern


São sete salas, metade do quarto andar do enorme prédio da Tate Modern, em Londres. Todas repletas de obras de Cildo Meireles. Um verdadeiro passeio por 40 anos de trabalho, uma antologia de sua obra. Um acontecimento cultural que no dia do vernissage, 13 de outubro, levou 1200 pessoas à Tate, inclusive diretores de alguns dos maiores museus do mundo.
É uma verdadeira consagração, a maior para um artista brasileiro vivo na Europa, segundo a Tate. O brasileiro é o primeiro latino-americano vivo a ter uma retrospectiva de sua obra no maior museu britânico de arte moderna e foi apresentado por um crítico do jornal “The Guardian” como “o mais importante dos herdeiros de Lygia Clark e Hélio Oiticica ». Meireles foi também o primeiro artista brasileiro a ter uma mostra individual no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA).
Entre as 80 obras do artista carioca de 60 anos, as instalações monumentais foram as que mais impacto causaram no vernissage. Entre elas, « Fontes », feita de relógios nas paredes e fitas métricas pendendo do teto, « Volátil », na qual o público entra pisando em um monte de talco industrial, e « Desvio para o vermelho », em que todos os objetos da casa são totalmente vermelhos. Para poder entrar no espaço fechado de « Volátil » e de « Desvio para o vermelho » era preciso esperar numa fila.
Como a exposição do artista brasileiro dura praticamente três meses (de 14 de outubro a 11 de janeiro) e a Tate Modern recebe 12 mil visitantes por dia, ela tem um potencial de um milhão e oitenta mil visitantes (se todos os que forem à Tate Modern visitarem a exposição Cildo Meireles).
Essa extraordinária exposição não vai ser vista no Brasil devido ao altíssimo custo. Dommage. De Londres, ela segue para Barcelona, Houston, Toronto e Los Angeles.
A Tate Gallery, do outro lado do Tâmisa, expõe Francis Bacon, um dos maiores pintores ingleses do século XX. Uma magnífica exposição, que visitei calmamente, em raro momento de introspecção, num dia cinzento. A ida a Londres já teria valido a pena por Cildo Meireles e Francis Bacon. Mas fui também conhecer o Museu Freud, onde fiz uma visita guiada pelo próprio diretor, Michael Molnar. Fiquei emocionada ao ver o consultório londrino com o famoso divã em que Freud deitava seus pacientes, em Viena e depois em Londres. Apesar de ter emprestado 90 peças da coleção de estatuetas antigas de Freud ao Museu Rodin, que realiza uma exposição em Paris sobre as coleções Freud e Rodin, o museu de Londres ainda tem dezenas de pequenas estátuas antigas, uma das paixões de Freud e do escultor francês.
La Ciotat dos irmãos Lumière e da luz dos desenhos de Georges Rinaudo


Um dos primeiros filmes da história do cinema é de autoria dos irmãos Lumière e foi filmado numa cidade da costa mediterrânea francesa que ficou imortalizada no título : “L’arrivée d’un train en gare de La Ciotat”.
O filme é um documentário super-curto de apenas 52 segundos e foi rodado em 1895, nessa cidade da Provence, que tem pequenas praias e uma baía famosa por sua beleza. A cidade viveu muito tempo em torno dos estaleiros navais e foi escolhida pelos inventores do cinema como cenário do documentário porque a família Lumière, de ricos industriais de Lyon, tinha na cidade um palacete – le palais Lumière – onde passava o verão.
A história de La Ciotat está ligada a duas invenções: o cinema e a pétanque. Do cinematográfico, ficou o cinema Eden, considerado a mais antiga sala de cinema do mundo. Tombado, o prédio está sendo restaurado para voltar a funcionar em breve. Da pétanque, inventada há cem anos, ficou em La Ciotat a paixão pelo esporte das pesadas bolas que se lançam com uma das mãos, com um movimento de corpo que lembra o do boliche. Apesar de provençal, a pétanque foi exportada para toda a França. No Jardin du Luxembourg, em Paris, um terreno de pétangue reúne aficionados do jogo todos os dias. Existe até um clube organizado com estatuto e sócios. É tipicamente um esporte de aposentados. Praticamente não há jovens entre os jogadores.
Há alguns anos freqüento pelo menos uma vez por ano a região de La Ciotat, onde temos um amigo que é artista plástico. Georges Rinaudo desenha a lápis a partir de fotografias, cartões postais ou imagens da imprensa. Faz também desenhos de observação ao vivo como os que ilustram o livro “Retours à La Ciotat”, um livro de desenhos do porto e dos estaleiros, com textos de Michel Plon e Louis Olive. Mas o artista prefere trabalhar a partir de imagens de fotógrafos. Rinaudo é um fino observador e colecionador de imagens que revisita em finas hachuras, pequenos e delicados traços, milhares de pequenos pontos que formam paisagens e rostos. É um trabalho de uma delicadeza e beleza extraordinárias. Ele criou uma técnica própria, única, feita de traços milimétricos que renovam através do crayon sombras, textura, volumes e cores as imagens fixadas pela máquina fotográfica. Georges, que um dia se definiu como un “dessinateur de photos” se “vinga” da prerrogativa da fotografia de descrever o mundo no lugar do desenho, como assinala o fotógrafo Yves Gallois, na apresentação do belo livro “Dessins de Photographies 1966-2000.”
Apesar de ser um apaixonado por imagens, Georges nunca foi flagrado com uma máquina fotográfica na mão. Nem dele nem de ninguém. Seu olhar observa a fotografia já pronta, impressa, no papel e dela se apropria. E suas mãos fazem a transposição da imagem para seu universo, dando um sentido com seu olhar, fazendo-nos descobrir nova imagem no papel coberto de sutis traços do lápis de cor.
Parodiando Picasso, Georges escreveu: “Eu não acho, eu não procuro, eu reflito”.
Espetando Sarko
A Justiça francesa julgou na semana passada o pedido do advogado do presidente Sarkozy de retirar o boneco com seu rosto chamado “Poupée vaudou”. O boneco continua sendo vendido já que a Justiça considerou que esse livro-objeto com a efígie do presidente tem sua circulação legitimada pela liberdade de expressão que deve existir numa democracia. O tribunal julgou que o “Manuel vaudou Nicolas Sarkozy” está “dentro dos limites autorizados da liberdade de expressão e do direito ao humor” e que pode continuar sendo vendido. O chefe de Estado pedia a retirada imediata do objeto alegando um direito à sua imagem absoluto e exclusivo.
O manual é um livro-objeto apresentado numa embalagem com uma boneca de tecido com a imagem do presidente, 12 agulhas e um texto de 56 páginas. Está sendo vendido pela internet desde outubro e custa 12,95 euros. No boneco, as frases e feitos mais detestáveis de Sarkozy podem ser espetados com as agulhas, como por exemplo, 170%, a percentagem do aumento que o chefe de Estado se outorgou logo depois de assumir o poder. Ou então a frase “Trabalhar mais para ganhar mais”, um dos leitmotivs da campanha.
Ségolène Royal que também foi brindada com um manual vodu com sua efígie não entrou na justiça tentando impedir a venda. Ela deve saber que a livre expressão de idéias é um dos pilares da democracia.
Será que Sarkozy esqueceu?
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