segunda-feira, 19 de abril de 2010
Lula na ONU?
No ano passado, o presidente Sarkozy lançou, numa cúpula do G-20, a candidatura do presidente Lula para a Secretaria-geral da ONU. Agora o Times de Londres volta ao tema. Quando passar a presidência a seu sucessor (ou sucessora) o presidente Lula pode se preparar para a candidatura no final de 2011. Mas nada impede que Ban Ki-Moon, o atual secretário seja candidato à sua própria sucessão.
O presidente brasileiro tem um saldo positivo em seus dois mandatos presidenciais. Quem diz é um dos maiores cientistas políticos franceses, Alain Rouquié, que foi embaixador no Brasil de 2000 a 2003 e é um especialista em América Latina, diretor de pesquisa emérito da Fondation Nationale des Sciences Politiques et de l’Amérique Latine Contemporaine. No jornal L’Humanité (comunista), Alain Rouquié ressaltou a coragem de Lula “de dizer que o importante era criar empregos”. Segundo ele, Lula não rompeu com a ortodoxia econômica e prosseguiu a política de seu predecessor. A política social de Lula e a política externa contribuíram para a consolidação de seu prestígio, segundo o embaixador.
Em entrevista que fiz com o embaixador Rouquié (ainda inédita) sobre seu livro A l’ombre des dictatures-La démocratie en Amérique Latine, para a revista Trópico, ele diz:
“O presidente Lula garantiu a continuidade da política econômica, ampliou a política social de seu predecessor, aprofundou-a e se comportou como um democrata, não tentou mudar a constituição para ter um terceiro mandato. Ele deu uma projeção internacional ao Brasil como nunca se viu”. Mas apesar disso, Alain Rouquié diz não ser evidente que Lula possa eleger sua sucessora pois “carisma não é transferível e um presidente é eleito pelo seu programa e não pelo balanço positivo de seu predecessor”.
Ano 2040 DC: 2 bilhões vivendo em favelas
« Au Brésil, les pauvres meurent dans la boue” (No Brasil, os pobres morrem na lama). Esse título de uma página internacional do jornal comunista L’Humanité faz mal. Não porque eu seja brasileira. Mas porque são meus semelhantes.
Os dados da ONU são alarmantes: se nada for feito na área de urbanização nos países mais pobres, haverá dois bilhões de pessoas vivendo em favelas daqui a trinta anos, segundo relatório da ONU divulgado em 2008. Hoje já existem 200 milhões de chineses, 160 milhões de indianos e 50 milhões de brasileiros vivendo em favelas.
Em números absolutos, o Brasil ocupa o terceiro lugar em população favelada (medalha de bronze) e tem 36,6% de sua população vivendo em casas precárias, construídas em áreas parcial ou completamente insalubres. Consolo para quem precisa de consolo: a Tanzânia, a Etiópia e o Sudão têm uma percentagem da população bem maior morando em favelas: 92,1%, 99,4% e 85,7% respectivamente.
A pobreza urbana e as favelas, decorrentes da migração do campo para as cidades, serão o problema mais importante e politicamente explosivo deste século, segundo uma previsão do Banco Mundial.
Au revoir, Siné
Mais um jornal fecha as portas. O semanário Siné Hebdo, irreverente, mal-educado e engajado teve menos de dois anos de vida. Comprei os primeiros números a partir de setembro de 2008 e vou comprar o último que sai dia 28 de abril. Comprei esporadicamente mas sempre como um ato de engajamento político. Siné foi demitido de Charlie Hebdo, um jornal satírico do qual era uma das atrações principais por ter feito uma piada com o filho de Nicolas Sarkozy, Jean, zombando do oportunismo e do arrivismo do herdeiro. Acusado de antissemitismo por caçadores de antissemitas (um dos esportes favoritos de alguns judeus franceses), Siné ficou sem emprego, processou seus acusadores, ganhou o processo e fundou seu jornal. Agora, apesar de vender 37 mil exemplares todo mês, o jornal não suportou o custo industrial e anuncia o fechamento.
Em julho de 2008, respondendo às acusações de antissemitismo, Siné escreveu:
"Quanto ao meu suposto antissemitismo, nunca fui antissemita, não sou antissemita, nunca serei antissemita. Condeno radicalmente os que são antissemitas, mas não tenho nenhum apreço pelos que, judeus ou não, jogam irresponsavelmente essa palavra abjeta na cara de seus adversários para desconsiderá-los, sabendo que esta acusação é o insulto supremo depois do Holocausto (Shoah). Isso está se tornando insuportável. No que me diz respeito, tenho tanta antipatia por todos os que, judeus ou não, defendem o regime israelense, quanto pelos que defendiam o apartheid na África do Sul. Há mais de 60 anos luto contra todas as formas de racismo e se tivesse tido idade de esconder judeus durante a ocupação o teria feito sem hesitar, como o fiz pelos argelinos durante a guerra da Argélia. Estou do lado de todos os oprimidos!"
Vida longa para Siné!
Violência, o melhor repelente de turistas
O cemitério do Père Lachaise, a maior área verde de Paris intramuros (dentro do Boulevard periférico), recebeu no ano passado 2 milhões de visitantes.
A Torre Eiffel, o monumento pago mais visitado do mundo, recebeu 7 milhões de visitantes.
A igreja Notre-Dame de Paris, o monumento mais visitado da capital francesa e da França, recebeu 13,5 milhões de visitantes.
Veneza recebe 21 milhões de turistas por ano. O Palacio dos Doges entrou na última fase das obras de restauração com o reforço das fundações e a limpeza da pedra por laser. O prédio gótico vai ficar tão bonito quanto no dia da inauguração.
Em 2009, a França recebeu 74 milhões de turistas do mundo inteiro, um pouco menos que no ano anterior. Mas ainda é o primeiro destino mundial de turistas.
O Brasil recebeu 5 milhões de turistas em 2008, segundo a Embratur.
Será que o país não tem um potencial turístico maior?
Quando entrevistei Pál Sarkozy, pai do presidente Sarkozy, esta semana para a Folha de São Paulo, sobre a exposição de pintura que ele inaugura na semana que vem em Paris, ele relembrou uma viagem ao Rio, há vinte anos. Da cidade, ele lembrava do réveillon, das mulheres de nádegas esculturais e do risco, aceito por todos os cariocas como um toque de exotismo. “Ninguém pode parar no sinal vermelho sob risco de perder tudo, até a vida”.
Como violência não é uma fatalidade, prefiro não comentar. Cada leitor tire sua conclusão.
Godard por Antoine de Baecque
O livro é uma maravilha, uma grande viagem ao mundo de Godard, de A bout de souffle (Acossado, 1960) até Socialisme (2010). Na semana passada, comprei mais mais 6 DVDs de Godard que não tinha na coleção. Estou vendo e revendo tudo o que posso. O trabalho de Antoine de Baecque é admirável, um texto delicioso e uma pesquisa de historiador rigorosa. Vamos ver como Cannes vai receber Socialisme, em maio, e se Godard vai aparecer.
Abaixo a entrevista publicada na Folha de São Paulo (Suplemento Mais de domingo).
São Paulo, domingo, 11 de abril de 2010
O homem cinema
O biógrafo Antoine de Baecque diz em entrevista à Folha que tentou desvendar a vida real por trás do mito; prestes a fazer 80 anos, Godard lança o novo filme, "Socialismo", em maio, em Cannes
LENEIDE DUARTE-PLON
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS
Um é o cineasta mais estudado, debatido e polêmico da França, um dos criadores da nouvelle vague. Seu nome é uma espécie de palavra-slogan que significa cinema.
O outro é um historiador e jornalista, especialista no movimento de vanguarda do cinema francês da virada dos anos 50/60, autor de uma biografia de Truffaut (em coautoria com Serge Toubiana, ed. Record), ex-diretor da revista "Cahiers du Cinéma" e ex-editor de cultura do jornal "Libération".
Quando Antoine de Baecque resolveu fazer a biografia de Jean-Luc Godard, o cineasta não se mostrou entusiasta. Dizia que sua obra é que interessa, não sua vida. Mas a editora Grasset comprou imediatamente a ideia.
O resultado é uma obra de 944 páginas -"Godard"-, em que o nome está sutilmente dividido (GOD numa linha, ARD, na outra).
Trata-se de um livro magistral sobre a vida e a obra de um dos maiores cineastas do século 20, que fará 80 anos em 3 de dezembro e cujo primeiro filme, "Acossado" ("À Bout de Souffle"), foi lançado exatamente há 50 anos, em março de 1960. E já nasceu clássico, revolucionando a linguagem cinematográfica.
Assim como Godard, De Baecque lê o "L'Equipe", diário especializado em esportes. O jornal está sobre a mesa de centro em sua casa, enquanto recebe a Folha para esta entrevista exclusiva.
Apesar de autor da primeira biografia de Godard a ser escrita na França, De Baecque não viu a obra que o cineasta vai apresentar em maio, em Cannes. "Socialisme" [Socialismo, com lançamento no Brasil previsto para 2011] tem no elenco a cantora Patti Smith, o filósofo francês Alain Badiou e o historiador palestino Elias Sanbar.
O filme deve, sem dúvida, provocar polêmica. Afinal, não é esse o maior prazer do controvertido Godard?
FOLHA - Quem é Jean-Luc Godard?
ANTOINE DE BAECQUE - Como ele mesmo diz, "eu sou uma lenda viva". É um mito. Acho que ele tem razão, Godard diz a verdade. O que é uma lenda viva? É um nome -Godard- que significa cinema no mundo inteiro; é uma espécie de palavra-slogan que quer dizer cinema. Foi algo que aconteceu muito rapidamente, e ele viveu grande parte de sua vida sob esse peso. A partir disso, era preciso tentar ver o que havia por trás. O interessante é esquecer um pouco a lenda, confrontá-la com os fatos e atos de uma vida.
FOLHA - O que encontrou além do mito?
DE BAECQUE - Não há na vida de Godard segredos que expliquem seu personagem, seu destino, sua genialidade. Não é como Truffaut... Este era um bastardo, que tinha uma espécie de trauma de infância que fazia com que o pequeno Truffaut estivesse sempre presente, não muito longe do homem que se construiu justamente para superar esse trauma, o fato de não ter tido pai e não ter sido amado. Em Godard, não há segredo de família, exceto quando se fala de rupturas, pequenas decisões em sua vida que explicam o personagem -sobretudo a ruptura com a família, quando decidiu fazer cinema.
FOLHA - Por que precisou romper com a família para fazer cinema?
DE BAECQUE - Godard vem de uma grande família protestante, rica, culta, uma espécie de aristocracia do espírito. Na França, os Monod são uma grande família, que queria uma cultura nobre para o filho mais velho -e não o cinema. Essa ruptura foi acompanhada de uma série de outras, muitas vezes violentas em relação ao meio familiar, o que tornou Godard um adolescente ladrão. Furtou muitas coisas de muitas pessoas, inclusive em família. Por exemplo, um livro original autografado por Paul Valéry, que roubou da grande biblioteca de seu avô -a grande figura da família e amigo daquele poeta. Furtou um livro da coleção do avô para vender. Isso culminou em seu banimento pelos Monod. Foram essas rupturas que fizeram com que Godard se construísse como Godard. Ele renegou muito a si mesmo, mudou bastante de rumo, numa contradição permanente consigo mesmo. De certa forma, isso faz parte de sua própria mitologia, algo que ele mesmo dissera em entrevistas.
FOLHA - O interessante no livro é acompanhar a realização de cada filme, suas relações com os produtores, com os atores. Tudo isso torna a biografia uma fonte inesgotável para os cinéfilos.
DE BAECQUE - Sim, mas também é uma biografia de cineasta. Espero mexer com o discurso estabelecido dos godardianos. Sobre ele, existe um discurso onipresente, extremamente importante, que respeito, que li e que até mesmo contribuí para criar. Mas gostaria que o livro destruísse essa ideia forte -a de que a vida de Godard não tem importância e de que seus filmes podem ser compreendidos sem passar por ela.
FOLHA - Como surgiu a ideia da biografia?
DE BAECQUE - Eu já havia tido contato com Godard, tinha feito entrevistas com ele quando dirigia os "Cahiers du Cinéma" e quando fui editor de cultura do "Libération". Nas entrevistas, ele é o contrário de um bom assunto biográfico: não gosta de falar de sua vida, não gosta que falem de si e é muito desconfiado. O que me levou a escrever o livro foi essa dificuldade.
FOLHA - Foi a editora quem encomendou o livro ou o sr. o propôs?
DE BAECQUE - Fui eu que propus, dizendo que tinha vontade de fazer uma coisa impossível, escrever uma vida de Godard. A editora topou, mas Godard não estava de acordo.
FOLHA - O sr. o contatou?
DE BAECQUE - Eu disse que iria escrever a vida dele.
FOLHA - E como ele reagiu?
DE BAECQUE - Ele me disse: "Você não vai conseguir; de qualquer forma o importante é a obra, não a pessoa".
FOLHA - Evidentemente, o sr. não concorda com isso.
DE BAECQUE - Ao contrário, acho que a vida de Godard tem um duplo interesse. Ela é feita de contradições, de rupturas, de mil encontros. Ele viveu no mundo do cinema de maneira intensa e tem uma vida densa, uma existência rica, ao contrário do que ele mesmo diz. Sua vida é tão fascinante pelo modo como ilumina a vida de seus contemporâneos. Seu cinema e seu modo de viver são o que capta as diferentes épocas que atravessou. Minha ambição é, como digo na introdução do livro, conhecer o gosto do café de Godard. Ele disse de maneira virulenta, um pouco insolente: "De que serve saber que tomo café de manhã?", isso para dizer que a vida não tem importância. Godard tem o gênio de apreender o que faz a vida de uma época; ele é o melhor radar para captar isso e devolvê-lo com um estilo particular.
FOLHA - O sr. diz que seu livro "atrairá o descontentamento de Godard, sua contestação humilhante, até mesmo uma carta de insultos, e o opróbrio dos godardianos do mundo todo". Por quê?
DE BAECQUE - O que me deixa feliz é que o livro está sendo bem recebido pelos não godardianos. Godard o recebeu, mas ainda não se manifestou. Penso que dirá algo sobre ele, pois apresentará "Socialismo" em Cannes, em maio. Acho que irá reconhecer que representa muito trabalho, que é benfeito, mas não poderá deixar de dizer que não é assim que se compreendem seus filmes. E acho que ficará furioso com algumas passagens.
FOLHA - Por exemplo?
DE BAECQUE - Suas relações interpessoais, suas relações com as mulheres. Ele não gosta de falar disso, das rupturas difíceis, dos mortos que o cercam. Acho indispensável falar disso para tornar a vida de Godard compreensível. Penso que não irá reagir bem. Será que vai escrever uma carta, me humilhar em público?
FOLHA - O sr. diz que Godard é, ainda hoje, um dos artistas mais célebres, mais comentados e mais analisados do mundo. Por quê?
DE BAECQUE - É um personagem que fascina muita gente. Cresci vendo filmes como "Salve-se Quem Puder - A Vida", "Passion", "Carmen de Godard". Eu tinha 20 anos. Ao mesmo tempo em que os de Truffaut, como "O Homem Que Amava as Mulheres", "A Mulher do Lado" , que me deram vontade de escrever sobre o cinema, fizeram de mim o que me tornei. Isso me formou.
FOLHA - O sr. diz que Godard "soube moldar seu próprio personagem de bufão midiático, de Diógenes comunicador". Acontece que o bufão é também um melancólico. Ele é tudo e o contrário de tudo, um paradoxo ambulante?
DE BAECQUE - Godard é feito de contrastes, de paradoxos. É extremamente generoso, mas muito centrado em si mesmo, egocêntrico. Também pode ser extremamente doce e violento, pudico e extrovertido, terno e perverso. Mas está mais para o lado da melancolia, de uma forma de tristeza, de tragédia.
FOLHA - De misantropia também?
DE BAECQUE - Sim. É uma pessoa para quem o fato de não estar bem é inspirador. Ele sempre filmou pessoas que carregavam um mal-estar, fez filmes que acabam sempre mal. É essa infelicidade, um estado do ser, o mal-estar, o trauma em relação à história, às mulheres, à família, em relação a si mesmo, à sua própria personalidade, que o inspiram. É muito mais o cineasta de personagens habitados pela infelicidade do que de personagens felizes.
FOLHA - O sr. é autor de uma biografia e um dicionário Truffaut e de um livro sobre a nouvelle vague. O atual cinema francês está à altura de Truffaut e Godard? Quais são os grandes talentos atuais?
DE BAECQUE - Desde a nouvelle vague, desde os anos 60, todos os anos muitos iniciantes fazem um primeiro ou um segundo filme. Isso é muito importante na França, mais que em outros países. É uma constante no cinema francês. De maneira geral, um terço dos filmes franceses são um primeiro ou um segundo filme.
FOLHA - E esses jovens cineastas chegam a construir uma carreira?
DE BAECQUE - Mais ou menos, assim como na nouvelle vague. Naquela época, havia 120 cineastas que fizeram um primeiro filme em três anos e, depois, somente 10 ou 15 continuaram -cerca de 10%. Hoje, é a mesma coisa, talvez um pouco mais. A nouvelle vague legou a essa juventude a vontade de fazer cinema. Ser artista, hoje, passa pelo cinema.
FOLHA - Mas, na França, há o Estado com as subvenções e toda sorte de ajuda...
DE BAECQUE - As subvenções ajudam, mas existe a vontade de fazer cinema quando se é jovem, e isso vem da nouvelle vague. Mas o que falta, hoje, é a polêmica, uma certa violência, rebelião. Isso foi o que Truffaut e Godard encarnaram quando eram críticos, nos anos 60. Hoje, o cinema francês é bastante consensual, falta-lhe aspereza. É muito diversificado, mas falta agressividade. Há herdeiros de um ou de outro.
FOLHA - Justamente. O que Godard representa hoje para um jovem cineasta?
DE BAECQUE - Acho que duas coisas contraditórias: de um lado, o velho babaca no panteão metido a dar lições. Godard gostou de fazer esse papel e acabou detestado por isso mesmo. O velho que vem nos contar como se faz cinema, que era melhor antes. Essa é a imagem do "Godard que pertence ao passado, isso não nos interessa mais". A outra é a de Godard como "meu irmão visionário, a inspiração direta, espécie de Rimbaud". Nas escolas de arte, nas escolas de cinema, essa imagem de Godard é muito importante.
FOLHA - E prevalece sobre a outra?
DE BAECQUE - Podem coabitar. A influência de Godard perdura e é algo que me parece importante -e não só na França.
FOLHA - Logo, ele não é uma figura do passado...
DE BAECQUE - Seus filmes perturbam, estimulam esses jovens, sem passar pela história do cinema. Existem no presente e ainda repercutem -isso é o que faz a força de Godard. O cinema de Truffaut é mais datado, mas tem muita influência por sua vida. Em Truffaut, o que conta é a maneira de viver, de amar o cinema, sua maneira de amar os filmes.
FOLHA - O que mais ficou de Truffaut, em sua opinião, é o lado de crítico de cinema?
DE BAECQUE - É mais o homem Truffaut que tem significado para o cinema. Já em Godard, o que mais fica é a forma, a obra.
FOLHA - E, assim como Godard e Truffaut, o sr. não teve nunca vontade de fazer cinema, de ser cineasta?
DE BAECQUE - Fiz documentários. O último, "Deux de la Vague" [Dois da Onda, escrito por ele e dirigido por Emmanuel Laurent, com estreia no Brasil prevista para 28/5], trata da amizade e da ruptura entre Truffaut e Godard. É um filme de imagens de arquivo, e não é a mesma coisa que fazer cinema como cineasta.
FOLHA - Godard foi acusado de antissemitismo. O que o sr. pensa dessa acusação?
DE BAECQUE - É um contrassenso. Godard é antissionista, seu pensamento se reformou no início dos anos 1970, como denúncia do imperialismo americano e do expansionismo do Estado de Israel, por solidariedade com a causa palestina. Isso o leva a uma visão da história como uma espécie de maldição ligada ao extermínio dos judeus, ao Holocausto, que para ele é o acontecimento central do século 20. Ele não é negacionista; ele diz que as vítimas se transformaram em carrascos.
FOLHA - Godard cultiva o gosto pelo paradoxo e pela provocação. Com "Socialisme", seu novo filme, quem ele quer provocar?
DE BAECQUE - Quer provocar uma discussão sobre a morte do comunismo, como o filósofo Alain Badiou, que faz o papel de um filósofo no filme e diz que "o comunismo é uma ideologia com o futuro diante dela". Acho que se encontraram em torno dessa ideia e se entendem perfeitamente, ao pensarem que o futuro da utopia é o socialismo. Isso é bastante provocador num mundo como o nosso, que quis enterrar o comunismo.
________________________________________
GODARD
Autor: Antoine de Baecque
Editora: Grasset (França)
Quanto: 25, R$ 59 (944 págs.)
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Lucian e Sigmund
Freud, Lucian – o iconoclasta

O pintor inglês Lucian Freud, de 88 anos, pinta como seu avô abriu caminho para a descoberta da psicanálise: derrubando tabus. “Eu quero que a pintura seja carne”, diz o artista. Em sua pintura, o retrato não é sublime nem sublimado, os retratados são circunspectos, quase melancólicos. O nu em Lucian Freud é cru, muitas vezes chocante. E os modelos, longe de representarem ideais de beleza, são pessoas comuns, representados no atelier do artista em poses não convencionais em que os órgãos sexuais não se escondem pudicamente, a cena parece um instantâneo. Os quadros refletem a relação que existe entre Lucian Freud e seus personagens.
A maior exposição já feita em Paris de Lucian Freud, que veio de Londres para a inauguração, está no Beaubourg (Centre Georges Pompidou) até o dia 19 de julho. O portrait que o artista fez da rainha Elizabeth II não está na exposição de cerca de 50 quadros.
Freud, Sigmund – o visionário
A pedido de leitores, volto à famosa carta do criador da psicanálise sobre o sionismo.
Freud, que manteve uma longa correspondência com Einstein sobre a guerra e as pulsões que levam os homens a matar e exterminar seus semelhantes, nunca defendeu o sionismo. Ao contrário, manifestou-se contra a criação de um Estado para os judeus na Palestina. Uma carta na qual ele expressa claramente sua pouca simpatia pelo projeto sionista foi escondida deliberadamente pelos defensores da causa sionista até poucos anos atrás.
As cartas de Freud são um capítulo à parte em sua obra. A maior parte delas é conhecida e estudada exaustivamente. Outras, cerca de um terço, classificadas como confidenciais por seus descendentes e herdeiros, fazem parte do “Arquivo Freud” e encontram-se na Biblioteca do Congresso, em Washington.

A carta em que Freud faz restrições ao sionismo foi escrita em 26 de fevereiro de 1930 e endereçada a Chaim Koffler, membro da Fundação para a Reinstalação dos Judeus na Palestina (Keren Hayesod). Koffler havia pedido a Freud, como a outros intelectuais judeus, um texto de apoio à causa sionista. Traduzida por Jacques Le Rider para o francês, ela foi publicada pela revista Le Nouvel Observateur em dezembro de 2004, depois de ter sido publicada pelo jornal italiano Corriere della Sera, em julho de 2003. Em 1978, foi citada em inglês num artigo dedicado a Freud e a Herzl e em 1991, depois de ter sido mencionada em uma revista semanal argelina para mostrar que Freud não tinha simpatia pelo sionismo. A carta foi traduzida em inglês integralmente pelo psicanalista americano Peter Loewenberg para provar que Freud fora vencido pela História.
O texto da carta mostra o quanto Freud era cético em relação ao projeto sionista de reinstalação dos judeus na Palestina. Por isso mesmo, ela foi cuidadosamente escondida por tanto tempo para cumprir a promessa de Abraham Schwadron a Koffler de que “nenhum olho humano a veria”. Dada a autoridade moral do autor, a carta poderia ser uma pedra no caminho dos que construíam o projeto sionista.
Em um dos trechos, Freud diz: “não penso que a Palestina possa vir a tornar-se um Estado judaico”. Como lembra a historiadora da psicanálise Elisabeth Roudinesco, Freud combatia todas as formas de religião, inclusive o judaísmo. “Ele aceitava dificilmente a idéia de um Estado judaico viável pois tal Estado feito por e para os judeus não poderia ser, no seu entender, um Estado secular”. No final da carta, Freud fala do sionismo como de “uma esperança injustificada” e diz que não se sente capaz de exercer o papel de consolador de um povo “perturbado” por essa esperança.
Eis o texto que traduzo para o português a partir da tradução francesa de Le Rider:
Viena, 19 Berggasse,
26 de fevereiro de 1930.
Caro Doutor,
Não posso fazer o que o senhor deseja. Minha dificuldade em despertar o interesse do público por minha personalidade é impossível de superar e as circunstâncias críticas atuais não me parecem favorer essa empreitada. Quem quer influenciar o maior número de pessoas deve ter algo de empolgante a dizer, e isso meu julgamento pouco entusiasmado pelo sionismo não me permite. Tenho com certeza os melhores sentimentos de simpatia pelos esforços consentidos livremente, sinto-me orgulhoso pela nossa universidade de Jerusalém e me regozijo da prosperidade dos estabelecimentos dos nossos colonos. Mas, por outro lado, não penso que a Palestina possa vir a tornar-se um Estado judaico nem que o mundo cristão, como o mundo islâmico, possam um dia estar dispostos a confiar seus lugares santos aos cuidados dos judeus. Me pareceria mais sensato fundar uma pátria judaica sobre um solo não conotado historicamente; decerto, sei que para um objetivo tão racional, jamais seria possível suscitar a exaltação das massas nem a cooperação dos ricos. Admito também, com pesar, que o fanatismo irrealista de nossos compatriotas tenha sua parte de responsabilidade no despertar da desconfiança dos árabes. Não posso ter a mínima simpatia por uma piedade mal interpretada que faz de um pedaço do muro de Herodes uma relíquia nacional e por causa dela desafie os sentimentos dos habitantes da região.
Julgue o senhor mesmo se, com um ponto de vista tão crítico, eu posso ser a pessoa certa para fazer o papel de consolador de um povo perturbado por uma esperança injustificada. Freud.
Dezessete anos depois de escrita a carta, o Estado de Israel deixou de ser um sonho dos sionistas para se tornar realidade.
Mas quem pode dizer que Freud não anteviu a catástrofe?
A historiadora da psicanálise Elisabeth Roudinesco assinala que “Freud teve a intuição magistral de que a questão da soberania dos lugares santos estaria um dia no centro de uma querela quase insolúvel, não somente entre os três monoteísmos mas entre os dois povos irmãos residentes na Palestina. Ele temia, com razão, que uma colonização abusiva acabasse por opor, em torno de um pedaço de muro idolatrado, os árabes fanáticos e anti-semitas aos judeus fundamentalistas e racistas”.
Mais recentemente, num magnífico artigo publicado no jornal Le Monde de 18 de agosto de 2006, o filósofo Etienne Balibar e o físico Jean-Marc Lévy-Leblond percorrem a história de Israel para analisar a atualidade política do Oriente Médio e todas as ameaças que pesam sobre o mundo, em função do barril de pólvora em que se transformou a região.
No terceiro parágrafo do brilhante texto, os dois intelectuais escrevem: “A segunda guerra mundial foi um ponto de ruptura: ela trouxe o enfraquecimento do império britânico e levou à Palestina centenas de milhares de pessoas que escaparam à exterminação dos nazistas. O que conferiu ao Estado de Israel, criado pela “partilha” de 1947, uma nova legitimidade moral, sancionada pelo reconhecimento internacional quase unânime e pela admissão às Nações Unidas. O que não impede que o Estado que se proclamou como “Estado judaico” (apesar da presença em seu seio de uma grande minoria árabe musulmana e cristã) e se deu por missão reunir no seu solo o maior número possível de judeus religiosos ou leigos do mundo inteiro (imigrantes recentes ou assimilados há muitos anos em seus países respectivos, vindos de culturas diversas e sendo vítimas de anti-semitismo em graus muito diferentes) tenha nascido na guerra e mesmo no terrorismo. Isso por causa da hostilidade irredutível (ao menos até a iniciativa do presidente Sadat) dos Estados árabes que o cercavam, por causa do próprio nacionalismo e panarabismo ascendente que os levavam a recusar a instalação de Israel na Palestina, depois a desejar sua destruição e ser alvo de intenção simétrica, mais ou menos confessada, de expulsão da população árabe autóctone. A frase de Golda Meir: “uma terra sem povo para um povo sem terra” _ em total contradição com a realidade _ trazia em si uma lógica de eliminação, que continha em germe os elementos da catástrofe atual. Essa lógica de eliminação foi imediatamente denunciada por certos intelectuais (como Einstein, Buber, Arendt ou o fundador da universidade hebraica de Jerusalém, Judah Magnes)”.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Et mes fesses?
« Et mes fesses, tu les aimes, mes fesses ? »
Quem não se lembra dessa cena do filme Le mépris, de Jean-Luc Godard, na qual Camille (Brigitte Bardot) pergunta a Paul (Michel Piccoli) se ele gosta de certas partes de seu corpo? A cena na cama, com a atriz nua, num ângulo em que seu charme arredondado é valorizado (ela é filmada de perfil, deitada de bruços) não constava do roteiro original. Foi imposta pelo produtor americano que achou que a primeira versão do filme não explorava suficientemente os atributos de BB. Produzido por Carlo Ponti, Joseph Levine e Georges de Beauregard, Godard teve que se curvar diante de Levine, que disse que pagava um salário fabuloso à atriz para que os espectadores a vissem como Deus a criou e não pudicamente vestida.
Godard revivia na vida real a situação do criador diante do poder do dinheiro, como Paul diante do produtor arrogante, vivido por Jack Palance.
Quem não viu o filme ou quer rever a cena é só ir no link :
http://www.youtube.com/watch?v=v_m85eoa-8s
A apresentação do filme é godardiana : não há letreiros mas a voz de Godard que diz a ficha técnica. Na biografia de Godard, recém-lançada, Antoine de Baecque conta que o diretor canalizou a atriz ao máximo para que seu personagem paire totalmente ausente, meio indiferente àquele set de filmagens no qual a história se desenrola na Cinecittà e em Capri, um filme dentro do filme. Le mépris é todo feito de sutileza, de finesse, o gênio de Godard adaptando um texto de Alberto Moravia. Para Antoine de Baecque, se não restasse nenhum filme de Brigitte Bardot, ficaria Le mépris, no qual Godard a dirige magistralmente, deixando-a pairar etérea, tirando da atriz toda coqueteria e artificialidade.
A biografia de Godard, que se chama apenas GODARD, as três primeiras letras separadas das três últimas, em linhas diferentes, é um deleite para os cinéfilos de todas as latitudes, de todas as gerações.
O caderno de Saramago
Reproduzo um trecho do carderno do maior escritor de língua portuguesa, em que ele fala da perseguição que sofre na Espanha o juiz Baltasar Garzón. O texto de Saramago serve de reflexão para nós que contestamos a lei de Anistia brasileira:
“Invoca-se aqui a Lei da Amnistia para justificar a perseguição a Baltasar Garzón, mas, em minha opinião de cidadão comum, a Lei da Amnistia foi uma maneira hipócrita de tentar virar a página, equiparando as vítimas aos seus verdugos, em nome de um igualmente hipócrita perdão geral. Mas a página, ao contrário do que pensam os inimigos de Baltasar Garzón, não se deixará virar. Faltando Baltasar Garzón, supondo que se chegará a esse ponto, será a consciência da parte mais sã da sociedade espanhola que exigirá a revogação da Lei da Amnistia e o prosseguimento das investigações que permitirão pôr a verdade no lugar onde ela tem faltado. Não com leis que são viciosamente desprezadas e mal interpretadas, não com uma justiça que é ofendida todos os dias”.(10-02-2010)
Carla B
Os blogs pulularam nas últimas semanas falando da primeira dama francesa e de seu marido. Ela e o presidente estariam vivendo aventuras extraconjugais. Jornais italianos e ingleses repercutiram os boatos. Nenhum jornal francês ousou reproduzir as fofocas mas o jornal Le Figaro aproveitou uma entrevista exclusiva com Carla Bruni para perguntar: “Como a senhora vê os boatos da internet sobre seu casamento?” Ela respondeu que boatos fazem parte da natureza humana, mesmo se a degradam. “Desprezo os falsos jornalistas que usam os blogs como se fossem uma fonte digna de crédito. Mas os fato de divulgarem notícias inventadas é um perigo para a democracia e põe em risco uma profissão que tem na integridade da informação sua principal razão de ser.”
Para quem quer conhecer melhor Carla B (como o jornal Le Canard Enchaîné a chama numa coluna fictícia que ele publica semanalmente, Le Journal de Carla B.) aconselho ir ao site do Figaro. No fim da entrevista, ela confirma que estará no filme que Woody Allen fará em Paris neste verão (junho).
No Sarkozy day
Um grupo de franceses antisarkozistas resolveu protestar no dia 27 de março instituindo um “dia sem Sarkozy”. Chamava-se No Sarkozy Day e esse nome do dia de protesto já mostra como o inglês invadiu o espaço público da França, mas isso é outra história. Pelo que li num jornal apenas mil pessoas responderam à convocação e foram protestar contra Sarko.
A maioria dos franceses preferiu dar outro recado. Nas eleições regionais de março, metade dos eleitores não foi votar. A outra metade que foi votou majoritariamente na esquerda.
Hoje, um grupo de deputados do partido do presidente numa ação inédita de rebelião contra Sarkozy publica no Le Monde um texto contra o famoso e controvertido “blouclier fiscal”, um presente aos ricos (menos impostos pagos mais dinheiro para os iates e jatos) e uma fonte a menos de receita para o Estado. Acusado de favorecer o mundo das finanças e governar para os ricos, o presidente nunca esteve tão baixo nas pesquisas. O primeiro ministro Fillon está 19 pontos acima dele. Já se fala em diversas candidaturas para 2012 dentro do UMP, partido que elegeu Sarkozy. Pelo jeito, ele já não é o candidato natural e vai haver engarrafamento de candidatos a candidato pelo UMP.
Ratos e camundongos
Estavámos no Le Select, Cecília B. e eu, quando passou um camundongo. Uma francesa deu um pequeno salto ao vê-lo passar. Nós seguimos com os olhos o bichinho fugindo, escapulindo aos olhares humanos.
Poucos dias antes, estava eu com Alcino L. no mesmo Select quando um pequeno camundongo nos surpreendeu muito perto dos nossos pés.
Cecília B. chamou o maître e contou o que vira. Ele se pôs a fazer piadas com a aparição, a dizer que Mickey, o famoso gato que mais parece um paxá e é um mito do Select, adora esses encontros com os bichinhos que, pelo visto, pululam por lá.
Agora, leio no Libération uma matéria incrível: Paris passa por uma uma explosão demográfica, tem 6 milhões de ratos e camundongos. Três para cada habitante. Sim, porque Paris intramuros tem apenas dois milhões de habitantes. Mas como esses bichinhos nojentos privilegiam os lugares sujos e insalubres, há muito mais ratos nos bairros pobres de Paris, oito a dez por habitante. Uma concentração de ratos para os habitantes mais desfavorecidos. Um especialista explica que com o inverno rigoroso que tivemos, eles procuram os lugares mais aquecidos e onde há alimentos.
Daí as aparições no Select.
“Que outros se vangloriem das frases que escreveram, eu me sinto orgulhoso das que li” (Jorge Luis Borges)
sábado, 27 de março de 2010
Hexágono cor-de-rosa
E o que é pior, dezessete ministros de Sarkozy eram candidatos a presidentes de regiões. Todos, sem exceção, foram derrotados. Uma derrota histórica. Por outro lado, a ex-candidata à presidência, Ségolène Royal, foi eleita presidente de sua região (Poitou-Charentes) com mais de 60% dos votos do segundo turno.
O presidente sai enfraquecido com essa eleição que teve no primeiro turno 53% de abstenção e no segundo um pouco menos (48,9). Um recorde histórico. Quase a metade dos eleitores não saiu de casa para votar no segundo turno mas em alguns subúrbios da região parisiense, somente 30% do eleitorado votou. Onde foram parar os eleitores de direita que votaram em Sarkozy em 2007? A maioria não votou e muitos voltaram aos braços do Front National de Jean-Marie Le Pen.
No final, a esquerda teve 54,1% dos votos, a direita ficou com 35,4% e o Front National, de extrema-direita, 9,4% dos votos nacionais com picos de 22% na região Provence-Alpes-Côte d’Azur e 18,31% na região Nord-Pas de Calais, onde a filha de Le Pen, Marine, representa a linha ultranacionalista do pai. Jean-Marie Le Pen, de 82 anos, volta a assustar a direita republicana renascendo de suas próprias cinzas. O próprio Sarkozy pensara ter liquidado o velho xenófobo e eurocético, ao lhe roubar parte do eleitorado na eleição presidencial de 2007. Agora, esses desiludidos de Sarkozy voltaram aos braços do antigo líder.
Com a vitória esmagadora da esquerda e a volta em força de Le Pen, Sarkozy fez esta semana uma pequena mudança técnica no ministério. Virou o leme para a direita para acalmar seus correligionários. Mas não mudou o primeiro-ministro Fillon, que continua muito mais popular que ele nas pesquisas de opinião. Mas segundo o Le Monde desta quinta-feira, datado de 26, existe uma tensão entre o presidente e o primeiro-ministro. Tanto que o presidente ordenou a Fillon a anulação de uma entrevista ao vivo no telejornal de maior audiência, prevista para a quarta-feira.
Na reforma, Sarkozy apenas trocou alguns ministros e diz que vai continuar as reformas, muito impopulares, pois foi eleito para isso. A reforma do regime de aposentadorias _ contra a qual protestaram milhares de pessoas nas ruas de Paris e diversas cidades (quase um milhão de pessoas desfilaram na terça-feira, 23, contra as mudanças na aposentadoria) _ ainda vai gerar muito debate e passeatas.
O desemprego continua em alta, o poder de compra cai cada vez mais nas classes populares nas cidades e no campo, um milhão de pessoas ficaram fora do seguro-desemprego no mês passado por terem chegado ao final do período de garantia. Mais fome e precariedade, mais filas nos restaurantes que servem sopas populares em todo o país (Secours Catholique e Restos du Coeur). Enfim, somente os ricos estão contentes com a política do presidente que limitou os impostos a 50% para as faixas mais elevadas (o chamado bouclier fiscal).
Como se não bastasse, nessa quinta-feira, 25 de março, o ex-primeiro-ministro e ex-chanceler Dominique de Villepin lançou as bases de um novo partido de direita (ainda sem nome) que vai preparar sua campanha para a eleição presidencial de 2012. Os dois homens nutrem um pelo outro um ódio digno das grandes tragédias shakespeareanas, o que já levou Villepin ao banco dos réus no processo Clearstream (as falsas listas de contas secretas num paraíso fiscal em que o nome de Sarkozy aparecera). A Justiça inocentou-o mas a procuradoria recorreu e haverá novo julgamento, uma manobra do Palácio do Eliseu, segundo Villepin.
O ar de abatimento de Sarkozy é mais do que explicável.
Godard em Cannes
Jean-Luc Godard faz 80 anos em dezembro e lança um novo filme, “Socialisme”, em Cannes, no mês de maio. O cineasta que é sinônimo de cinema, de Nouvelle Vague, mas também de provocação e polêmica, foi biografado pelo jornalista Antoine de Baecque que entrevistei esta semana para o caderno Mais, da Folha de São Paulo. Godard, o livro de quase mil páginas, é um extraodinário trabalho de três anos do jornalista e historiador do cinema. Um verdadeiro mergulho na vida, mas sobretudo na obra, do cineasta mais estudado e discutido da Nouvelle Vague. Uma leitura obrigatória para os cinéfilos. Godard está muito ocupado com a montagem de seu filme e ainda não disse o que pensa do livro. Antoine de Baecque, que foi diretor da revista Cahiers du Cinéma e editor de Cultura do jornal Libération, além de autor de uma biografia de François Truffaut, escrita com Serge Toubiana, imagina que o cineasta, que sempre se manifestou contra a idéia de uma biografia, pode mandar uma carta de insultos ou manter um silêncio absoluto.
Skinner vive
Um crime de Estado a menos. Talvez um inocente a mais fora da prisão, em breve.
Na quarta-feira, o americano Hank Skinner, de 47 anos, escapou da morte uma hora antes da execução, no Texas. Os últimos 15 anos ele passou no corredor da morte. A mais alta jurisdição americana decidiu pedir os testes de DNA que podem inocentar Skinner, que sempre negou os três crimes da noite do réveillon de 1993 : a morte de sua companheira e dos dois filhos dela. Até hoje a Justiça tinha negado o pedido do acusado de realizar testes de DNA que, segundo ele, vão provar sua inocência. Skinner afirma que estava desmaiado no momento em que as três pessoas foram assassinadas, o que foi provado pela presença de barbitúricos em seu sangue. Nos últimos anos, os Estados Unidos libertaram 17 condenados do corredor da morte, graças aos testes de DNA.
Nesta quarta-feira, em Paris, dezenas de manifestantes abolicionistas foram pedir clemência para Skinner diante da Embaixada dos Estados Unidos. A atual mulher do preso, a francesa Sandrine Ageorges-Skinner recebeu o apoio do Quai d’Orsay na sua luta pela obtenção dos testes de DNA.
Um processo cheio de irregularidades fez recuar a Justiça que se negara até agora a autorizar os testes. O governador do Texas, Rick Perry, autorizou a execução em 2004 de Todd Willingham mesmo tendo, horas antes, tomado conhecimento de um relatório que o inocentava. O Estado do Texas, o campeão americano em condenações à morte, executou 451 pessoas desde 1976.
Patrizia, Emmanuelle e Macha
Neste mês em que se comemorou em Paris o Printemps des Poètes versão 2010, fui ouvir a poetisa italiana Patrizia Cavalli dizer poesias de sua autoria. Cavalli veio de Roma especialmente para o evento na sede das Editions des Femmes, em Saint-Germain-des-Prés. Um lugar elegante e charmoso. O livro de Patrizia Cavalli Mes poèmes ne changeront pas le monde foi traduzido para o francês por duas tradutoras de talento, que conheço bem, a poetisa Danièle Faugeras e a professora universitária e tradutora Pascale Janot.
Os poemas de Patrizia Cavalli me transportaram imediatamente para o mundo pictórico da também romana Giovanna Picciau. Nunca duas artistas me pareceram dialogar na poesia e na pintura em tão grande harmonia. As duas artistas romanas talvez nem se conheçam pessoalmente mas o mundo e os personagens delas têm muito em comum.

Na mesma tarde, ouvi ainda duas grandes atrizes da Nouvelle Vague: Macha Méril (Une femme mariée, de Jean-Luc Godard) e Emmanuelle Riva (Hiroshima mon amour, de Alain Resnais). Riva leu poemas e Méril disse textos de George Sand de uma peça (Feu Sacré) que está em cartaz em Paris como parte das comemorações do bicentenário de Chopin. Dia 30, Macha Méril autografa no Salão do Livro de Paris seu livro Un jour, je suis morte (Bibliothèque des voix).
Ao dar uma olhada na enciclpopédia eletrônica, descubro que a atriz e escritora Macha Méril é filha de um príncipe russo e se chama na realidade Maria-Magdalena Wladimirnovna Gagarina. De fato, ela tem porte de princesa e continua linda, com aquele ar “distingué” que sempre apreciei.
Encontros como esse com mulheres inteligentes, pequenos prazeres parisienses de início de primavera, são momentos de real felicidade.
sábado, 20 de março de 2010
Freud e o sionismo
Ao ler os jornais e constatar o impasse do “problema” do Oriente Médio com a ocupação israelense se eternizando e a criação do Estado Palestino sendo transferida para as calendas gregas, como não pensar em Freud e sua famosa carta?
Segundo a historiadora da psicanálise Elisabeth Roudinesco, “Freud considerava o sionismo como uma perigosa utopia, mas também como uma patologia, isto é, como um modo de compensação dos sentimentos nacionais frustrados pelo antissemitismo”. Ele escreveu em 1930 uma carta explicando a um amigo porque não podia defender a criação de um país para os judeus na Palestina. Essa carta ficou secreta até poucos anos atrás quando foi traduzida para o francês e comentada no Nouvel Observateur pela historiadora. Agora, ela volta ao tema da carta de Freud em seu novo livro Retour sur la question juive e comentou em entrevista exclusiva que fiz para a revista Tropico: “Defendo soluções para evitar um mundo que seria o pior pesadelo, o de judeus racistas e árabes antissemitas. E nesse pesadelo já estamos”.
« Eu confesso, boicoto os produtos de Israel”
O autor da carta aberta à ministra da Justiça da França, publicada com esse título no jornal L’Humanité (comunista) não é nenhum antissemita. Chama-se Serge Grossvak e é membro da União Judaica Francesa para a Paz (Union Juive Française pour la Paix).
A carta começa com a frase ”Eu confesso, boicoto os produtos de Israel” e continua: “Não quero esses produtos frutos do sangue e da dominação. Ele exalam um cheiro de ódio e de opressão. Eu os recuso pensando em meus pais que me falaram do martírio sob os nazistas. Esse inferno que devorou nossa família. “Nunca mais” era o clamor do coração no fim do pesadelo. “Nunca mais”, disseram os sobreviventes. Filho de judeus imigrantes, eu aprendi essa lição como um dever de humanidade, como um engajamento de solidariedade, como uma exigência de vida. Eu boicoto hoje para que os descendentes de um grande martírio possam sair do caminho assassino, para que o Estado de Israel e seu povo, perdido num extremismo que não para de crescer, abandonem essa tirania.
Eu confesso, lanço um apelo ao boicote dos produtos desse país hoje guerreiro, conquistador e opressor, desse país que abdicou de qualquer moral. Eu confesso e convido a todos a este ato de resistência. Ato pacífico. Ato de razão. Meu apelo é um clamor contra a indignidade dos crimes cometidos, contra a prática das colônias. (...)
Eu confesso ter participado de ações de boicote, por minha dignidade humana e pela honra dos meus antepassados. Porque não posso suportar a idéia de abandonar no sofrimento e na injustiça o povo da Palestina. Porque sou descendente de Marek Edelman, de Joseph Epstein e de Raymond Aubrac, minha raiz é judaica e sempre ao lado dos oprimidos, de todos os oprimidos.
Senhora Ministra, prenda a mim e não Sakina*. Esses atos de resistência visam esse Estado apontado como autor de “crime de guerra e crime contra a humanidade” pelo juiz Goldstone (judeu como eu mesmo).
(...)
Senhora ministra, nada me fará renunciar a meu compromisso pela paz e pela Justiça, para que o povo palestino recupere sua dignidade em seu país independente, nas fronteiras de 1967 e com Jerusalém Oriental como capital. Que os criminosos sejam levados ao tribunal internacional. Que seja virada, enfim, essa página de ódio”.
*Sakina Amaud foi presa no dia 10 de fevereiro quando participava de uma ação coletiva e pacífica de apelo ao boicote de produtos israelenses diante do supermercado Carrefour em Mérignac, na França.
A utopia de Michel Warschawski
O militante pacifista, escritor e filho de rabino Michel Warschawski nasceu na França mas emigrou muito jovem para Israel. Ele é autor de diversos livros e fundou o Centro de Informação alternativa (The Alternative Information Center)
http://www.alternativenews.org/
Michel Warschawski escreve de Jerusalém desde 2008 para o jornal satírico francês SinéHebdo e é membro do comitê que criou o Tribunal Russell sobre a Palestina, instalado em março de 2009. Ele defende um estado binacional em que judeus e árabes coabitariam num mesmo Estado, com iguais direitos. Para explicar sua ligação com Israel, ele declarou em 2005: “Amo Israel como se ama uma criança nascida de um estupro. Não se pode culpar a criança das circunstâncias de sua concepção”.
A seguir, duas perguntas a Michel Warschawski :
Há quem proponha boicotar os produtos de Israel. O que o senhor pensa dessa proposta e de sua eficácia?
Michel Warschawski: Toda campanha que propõe sanções contra o Estado de Israel e tudo o que ele representa quando atenta contra o direito internacional e comete ou apoia crimes de guerra é positiva. O boicote é uma das expressões dessas sanções indispensáveis pelo menos no plano ético, independentemente de sua eficácia. Algumas formas de boicote são eficazes, sobretudo o boicote universitário e cultural que atinge camadas sensíveis da sociedade israelense.
A diabolização do Hamas lhe parece justificada?
Michel Warschawski: De maneira nenhuma. O Hamas é ao mesmo tempo um movimento de libertação nacional e a expressão democrática da maioria dos palestinos em Gaza e na Cisjordânia. Por essa razão ele deve ser reconhecido pela comunidade internacional.
Uma feminista na Coupole
Na quinta feira, dia 18, a ex-ministra Simone Veil entrou para a Academia Francesa, a Coupole como é conhecida. Atualmente são cinco mulheres entre os 40 membros. A primeira mulher eleita para a prestigiosa academia de letras, que serviu de modelo para a criação da academia brasileira, foi Marguerite Yourcenar, em 1980.
Veil foi ministra da saúde na presidência de Giscard d’Estaing e a responsável pela descriminalização do aborto com a criação do IVG (interruption volontaire de grossesse), o aborto legal, praticado em todos os hospitais públicos franceses a partir de 1975. Ela foi eleita a personalidade preferida dos franceses em 2010.
A humanista Simone Veil nasceu em Nice, em 1927, numa família judia e foi deportada para o campo de Auschwitz-Birkenau com 17 anos. Na França, fez parte do Conselho Constitucional até 2007 e como deputada europeia presidiu o Parlamento europeu de 1979 a 1982. Em 2007, publicou sua autobiografia, Une vie, que vendeu quase 600 mil exemplares, na qual rememora sua passagem pelo campo de concentração, fala de seu ateísmo e de seu feminismo. Três presidentes estiveram presentes à cerimônia : Sarkozy, Chirac e Giscard d’Estaing.
SarK.O.
Os eleitores franceses votaram dia 14 no primeiro turno das eleições regionais para eleger o presidente das 22 regiões francesas, espécie de governadores de um país dividido em regiões. O presidente da região é o poder local mais próximo do cidadão (depois do prefeito). Mas 53% dos eleitores não foram votar, um abstencionismo recorde em eleições regionais. E os que votaram expressaram o descontentamento com as reformas de Sarkozy votando no Partido Socialista, no partido Europe écologie, que aparece como a terceira mais importante formação política francesa, e no Front de Gauche (que reúne o Partido Comunista, o Parti de Gauche e a Gauche unitaire). O segundo turno promete uma vitória esmagadora da esquerda. Com essa perspectiva, o Nouvel Observateur fez uma capa com a foto de Sarkozy e o título SarK.O. um trocadilho com o apelido do presidente (Sarko) e o knock out (K.O.) da direita.
Das 22 regiões francesas, 20 são atualmente governadas pelo PS (exceto a Alsácia e a Córsega). No segundo turno deste domingo há grandes chances que os dois últimos bastiões do partido do presidente (UMP) passem também a ser governados pela esquerda, com os socialistas majoritários na coalizão que se forma entre os dois turnos. O que tornará o mapa hexagonal totalmente rosa, cor dos socialistas.
Duas evidências: o Front National de Jean-Marie Le Pen ressuscitou e teve pouco mais de 10% dos votos na média nacional com pico de mais de 20% na Côte d’Azur (região Provence-Alpes-Côte d’Azur). E os ecologistas franceses se afirmam como a tercera força política que vai pesar e muito para as eleições presidenciais de 2012.
Salto alto
Entrevistado na televisão sobre o filme que dirigiu (A single man) e que estreava em Paris, o estilista Tom Ford disse que gostaria de ver sua amiga e ex-manequim Carla Bruni novamente em saltos altos. “Ela fica tão elegante”.
Uma jornalista lembrou ao americano que o presidente francês é baixinho e sua mulher não pode usar saltos ao seu lado. Sarkozy chega mesmo a usar um salto discreto no sapato, o que pode ser constatado em algumas fotos. “Mas a Nicole Kidman sempre usou saltos quando era casada com Tom Cruise”, respondeu candidamente Ford.
Cultura, história e gastronomia

O que um turista espera encontrar na França ? Cultura, art de vivre, a gastronomia famosa, os monumentos históricos e as belas paisagens.
E em Paris ? Tudo isso e mais o mau humor proverbial dos parisienses. Mas nem assim os estrangeiros e franceses da província desertam a capital francesa, campeã mundial de turistas novamente em 2009. Eles chegam em avião, trem e automóveis para ver de perto o Sena e seus cais, a Notre Dame, a Torre Eiffel, o Louvre, a avenida Champs Elysées, o Centre Pompidou (Beaubourg para os parisienses), o jardim do Luxembourg (Luco para os parisienses), os cafés e bistrôs. No terraço de um café de Paris, acompanhado do Le Monde, de um café e de um croissant, no dolce farniente, o turista constata que a vida é bela e vale a pena ser vivida. Quem não é turista e tem talento literário, como a escritora Régine Robin, pode fazer dos cafés de Paris o celeiro de seus romances, entregando-se à arte de observar homens e mulheres e apurar os ouvidos para pescar frases ao acaso. Depois, é só usar a imaginação e nasce um romance.
Os turistas são unânimes em dizer que Paris é um sonho, um cenário ideal para momentos românticos, passeios culturais e deslumbramento com a arquitetura. As mulheres acham os homens franceses românticos e galanteadores. Mas homens e mulheres se queixam do mau humor e da pouca cordialidade dos parisienses, campeões de frases cortantes.
O turismo é o primeiro setor econômico da França e gera quase um milhão de empregos. Em 2009, a França recebeu 80 milhões de turistas de um total mundial de 880 milhões e mantém a liderança de destinação principal entre todos os países. Isso significa 40 bilhões de euros de receitas ligadas ao turismo, terceiro lugar mundial, logo depois dos Estados Unidos e da Espanha.
***Fotos: Jardin du Luxembourg e Musée du Louvre com obra de Tunga. Fotos de Leneide Duarte-Plon
segunda-feira, 15 de março de 2010
Flor sem clitóris
A vida de Waris Dirie daria um romance. Por estar convencida disso, ela escreveu Fleur du désert e sua biografia vendeu 11 milhões de exemplares. O filme baseado no livro foi lançado esta semana em Paris onde Waris Dirie está hospedada num hotel cinco estrelas para fazer a promoção. A modelo desfilou nas capitais da moda, foi James Bond Girl, fez publicidade para Revlon, Chanel e Benetton e posou para o fotógrafo Richard Avedon, entre outras coisas. Em 1998, escreveu Fleur du désert e em 2002 criou a Waris Dirie Foundation para lutar contra a excisão também chamada de circuncisão feminina. Essa prática arcaica e bárbara, que ela chama de “ritual obscurantista”, é realizada ainda hoje em diversos países africanos.
O ritual consiste em cortar parte do clitóris e dos lábios vaginais da criança, muitas vezes recém-nascida, para torná-la no futuro insensível ao ato sexual. Muitas meninas morrem, como uma das irmãs da modelo, vítimas de infecção pela falta total de assepsia.
Segundo Waris Dirie, todo ano três milhões de meninas são submetidas à excisão e cerca de 150 milhões de mulheres vivem com essa marca no corpo. “Me roubaram algo que não poderei jamais recuperar”, diz a ex-modelo que escreveu o livro para falar dessa violência, um crime denunciado pela União Européia. Em 2006, ela participou de uma reunião de cúpula de ministros da UE sobre as mutilações genitais femininas.
Muitos países endureceram as leis para punir os africanos que as praticavam clandestinamente em países europeus como a França. “A mutilação das mulheres não é tradição cultural nem religiosa. É um crime que clama por Justiça”, diz Waris Dirie.
Este ano sua fundação lançou nova campanha com cartazes e spots publicitários mostrando uma jovem branca com a legenda: “Ela será perfeita depois que lhe cortarem o clitóris”.
Em 2005, Waris Dirie se tornou austríaca e em 2007 recebeu a Légion d'Honneur francesa por seu trabalho humanitário.
Quem quiser conhecer a fundação é só ir ao endereço www.waris-dirie-foundation.com
“A pobreza tem rosto de mulher”
Para que serve o dia internacional da mulher? A data foi criada há cem anos com o objetivo de homenagear metade da espécie humana. Confesso que esse dia internacional da mulher sempre me irritou.
Este ano, no dia 25 de fevereiro os deputados franceses votaram uma lei destinada a lutar contra a violência conjugal. Um dos artigos mais comentados foi o que instaura o uso da pulseira eletrônica pelo cônjuge considerado violento pela Justiça para que seja monitorado e se mantenha afastado do domicílio da mulher ou companheira agredida. Mas a maior inovação dessa lei foi a criação de um “delito de violência psicológica”. Como a violência psicológica não deixa marcas no corpo e é difícil de provar e avaliar, esse delito seria apenas mais um adereço legal, segundo alguns magistrados.
Na França, um décimo das mulheres que vivem maritalmente com um homem são vítimas de violências físicas, sexuais e psicológicas e a cada três dias uma mulher morre no país vítima de violência conjugal. Parece enorme para um país democrático e civilizado. O dia internacional da mulher muda algo nessas estatísticas horríveis? Quantas mulheres no Afeganistão devem ser vítimas de violências físicas, sexuais e psicológicas? E no Iraque? Numa entrevista publicada na semana passada no L’Humanité a deputada afegã Fawzia Koofi afirmava que um dos principais objetivos da intervenção da comunidade internacional no Afeganistão foi a defesa dos direitos do homem e da mulher com a promoção da democracia. Passados alguns anos, ela vê o presidente Karzai cada vez mais dependente dos integristas que defendem a burca, os casamentos forçados e se opõem à educação das mulheres e qualquer participação delas na vida ativa do país. Segundo ela, a violência contra as mulheres aumentou nas províncias. Apesar de uma participação simbólica de algumas mulheres no parlamento, Fawzia Koofi denuncia a impunidade dos que ferem os direitos humanos. “A Justiça é sacrificada sempre no altar da segurança”.
O Dia internacional da mulher é uma concessão dos que detêm o poder à outra metade da população do planeta, que representa 70% dos pobres do mundo, juntamente com as crianças. A ex-diretora da Organização Mundial da Saúde (OMS), Gro Brundtland, disse há alguns anos a frase que resume a condição feminina no mundo atual: “A pobreza tem rosto de mulher”. As mulheres e seus filhos menores são 75% dos refugiados do mundo, segundo a ONU.
O bonde de Huppert e a saia de Adjani

Isabelle Huppert é não somente a melhor atriz do cinema francês contemporâneo - título que ela divide com Isabelle Adjani recém-premiada com o César de melhor atriz por seu magnífico desempenho em La Journée de la jupe - mas prova mais uma vez no palco seu magnetismo e seu domínio técnico. Dessa vez ela pegou o bonde e parou no Théâtre de l’Odeon onde o diretor Krzysztof Warlikowski encena Un tramway, baseado na peça de Tennessee Williams Um bonde chamado desejo. Huppert é uma Blanche Dubois friamente histérica, num cenário genial de Malgorzata Szczesniak. O texto básico é o de Williams mas a ele se juntam trechos de Flaubert, Sófocles, Platão e Torquato Tasso. No final, a sensação de ter visto uma montagem que marcará época mas sobretudo o deleite de passar três horas em companhia de uma grande atriz.
Voltando à outra Isabelle, no filme La journée de la jupe, do cineasta Jean-Paul Lilienfeld, Adjani é uma professora de francês numa classe da banlieue parisiense tentando dar sua aula sobre Molière. Ao descobrir um revólver que cai de uma mochila, ela entra numa espiral de exasperação até tomar a classe como refém e, finalmente, conseguir a atenção necessária para tratar de Molière, revólver em punho. Forças especiais da polícia entram em ação e o filme se transforma num thriller surpreendente. A história poderia ter acontecido em qualquer liceu da banlieue parisiense, onde cenas de violência e incivilidade acontecem com certa frequência e professores trabalham à beira de um ataque de nervos, como se vê em reportagens na imprensa escrita e na televisão.
Entre as exigências da professora para libertar a classe está a instituição do “dia da saia”, um dia no ano em que as meninas possam se vestir de saia nas escolas sem serem tratadas de “putas”. Dai o nome de uma importante associação feminista nascida na banlieue : Ni putes ni soumises para mostrar que as mulheres têm outros papeis na sociedade que fogem aos estereótipos de prostitutas ou donas de casa obediente ao marido num casamento patriarcal. A ideia do "dia da saia" parece bizarra para quem não vive a realidade da banlieue, onde vestir saia para ir à escola (isto é, mostrar as pernas) é tido como um exibicionismo de moças de vida fácil, na opinião de rapazes de cultura muçulmana e mentalidade machista.
O filme é imperdível. Perto dele, Entre les murs, de Laurent Cantet, palma de ouro em Cannes em 2008 perde em todas as comparações, apesar de ser um bom filme.
Cora, Clarice e Gabriella
A atriz brasileira Gabriella Scheer, radicada em Paris, se apresentou esta semana no Printemps des poètes com um grupo de profissionais e amadores no espetáculo Les couleurs du corps em que ela e outros atores e atrizes diziam textos de Baudelaire, Du Bellay, Alfio Centin, Mohammad Djalali, Rimbaud, Ronsard, Pedro Vianna e Renée Vivien, entre outros poetas e escritores. Gabriella interpretou com talento admirável dois textos, de Clarice Lispector e Cora Coralina, traduzidos para o francês.
Um grande momento de emoção estética, puro deleite para quem saiu de casa numa noite gelada de inverno e foi se aquecer na primavera dos poetas no Espace Quartier Latin.
sexta-feira, 5 de março de 2010
BHL, a loucura de Kant e o botulismo
O poder midiático do filósofo Bernard-Henri Lévy (BHL para a imprensa) na França é inesgotável e se afirma a cada novo livro. Dessa vez, porém, ele não podia prever o desastre.
Em fevereiro, ele reafirmou seu talento para ocupar a mídia: lançando De la guerre en philosophie e Pièces d’identité (coletânea de artigos) todos os principais jornais, revistas, programas de rádio e televisão convidaram BHL para falar de seus livros. Se não fosse uma revelação desconcertante do Nouvel Observateur BHL estaria no melhor dos mundos.
Na página 122 do primeiro livro, ele trata da “loucura” de Kant se apoiando no livro de um filósofo kantiano, um certo Jean-Baptiste Botul, autor de La vie sexuelle d’Emmanuel Kant. Detalhe: Botul (cujo nome é propositalmente próximo da palavra “botulismo”, doença mortal provocada por uma toxina) é um personagem de ficção do jornalista do Canard Enchaîné, formado em filosofia, Frédéric Pagès. O conteúdo do livro, assim como o autor Botul, é uma criação da imaginação de Pagès e não uma biografia sexual de Kant. Nessa biografia imaginária de Kant, inventada em 1996 por Pagès, informa-se que Botul fez uma série de conferências, logo depois da segunda guerra mundial, aos neokantianos do Paraguai (!). A Associação dos Amigos de Botul, que organiza conferências e leituras ajudou a perpetuar a ficção.
As conferências aos neokantianos do Paraguai não despertaram nenhuma suspeita no pobre BHL, descrito por um jornalista parisiense como “um dândi riquíssimo que vive em hotéis de luxo e viaja em jatos particulares”. Os detratores de Lévy, que não são poucos, receberam o furo do Nouvel Observateur como um presente dos deuses. O filósofo mais adulado pela imprensa francesa, não o mais respeitado por seus pares, caiu numa cilada e incluiu em sua bibliografia um livro sobre Kant escrito por um filósofo que nunca existiu ! Ele ja citara o mesmo Jean-Baptiste Botul na conferência que deu origem ao livro, na École Normale Supérieure, onde Lévy foi aluno de Jacques Derrida e Louis Althusser.
A imprensa do mundo inteiro comentou a gafe monumental do filósofo. Desapontado, Lévy tentou minimizar o iceberg no qual seu Titanic naufragou. Depois, irritado, disse que essa história só foi engraçada no início.
Difícil acreditar. BHL se leva muito a sério para rir do seu ridículo.
Escravidão light
24 horas sem eles
Eles são os novos párias do mundo globalizado. A ilusória liberdade de ir e vir termina quando resolvem morar num país estrangeiro sem papeis, isto é na clandestinidade, e, cúmulo dos cúmulos, decidem trabalhar para comer e morar! Eles são milhões em todo o mundo e a França é um dos países europeus onde as leis repressivas se sucedem cada vez mais duras para facilitar a expulsão de estrangeiros (29 mil expulsos no ano passado) e reprimir qualquer ajuda a esses homens e mulheres “sem papeis” (sans papiers).
O estrangeiro sem papeis é o novo pária do mundo globalizado. No ano passado, para fugir ao controle da polícia que batia à sua porta, uma chinesa se jogou pela janela em Paris. O Estado francês economizou uma vaga no avião que levaria chineses de volta à China. O filme Welcome mostra como os cidadãos franceses que ajudam ou acolhem esses estrangeiros são passíveis de controle policial e estão sujeitos a sanções. As associações de ajuda aos estrangeiros apelidaram esse delito de “délit de solidarité”.
No dia 1° de março deste ano, dia de entrada em vigor na França da Lei Ceseda (Code de l’entrée et du séjour des étrangers et du droit d’asile) um coletivo de imigrantes resolveu parar por 24 horas : não trabalharam nem consumiram nada. Em Paris onde o movimento fez passeata com a imagem de um santo chamado “Saint Papier”, muitos cidadãos com papeis se solidarizaram: também não trabalharam nem compraram nada naquele dia.
Essa paralisação, que se estendeu a Roma, Nápoles, Bolonha e Lyon, tinha como objetivo mostrar o peso dos imigrantes na economia. Segundo dados do recenseamento de 2007, 2,4 milhões de imigrantes residentes na França trabalhavam ou se declaravam desempregados. Eles representam 8,6% da população ativa.
Milhares de trabalhadores sem papeis da França estão lutando há meses por meio de passeatas e greve (alguns estão em greve desde outubro) para terem direito ao título de permanência na França. Eles são assalariados, pagam impostos como qualquer trabalhador mas por serem ilegais são alvo de exploração de cerca de 2300 empresas. Por saberem da fragilidade dessas pessoas diante da lei, os empresários (donos de restaurantes, empresas de construção etc) oferecem salários mais baixos e se aproveitam da mão de obra barata que representam os sem papeis. Uma forma de escravidão light surgiu. Os sem papeis não podem denunciar a exploração dos patrões e em caso de desemprego não têm direito ao auxílio desemprego. E vivem dia e noite com o pavor da expulsão.
Alguns jovens afegãos recentemente foram expulsos de volta ao Afeganistão (o verbo expulsar é eufemisticamente transformado em reconduire à la frontière, ou seja, reconduzir à fronteira), apesar do protesto das associações humanitárias, que denunciam a ilegalidade da ação da polícia de Sarkozy. Deportar estrangeiros para um país em guerra é contrário às leis internacionais de direito de asilo.
Em janeiro, um documento assinado por intelectuais franceses foi enviado ao presidente Sarkozy pedindo o fim do Ministério da Identidade Nacional e da Imigração, criado em 2007. Ele chamava o ministério de “monstro administrativo que implantou a xenofobia de Estado e fez a França ultrapassar um limite simbólico na transformação de sua cultura política”.
Mães chimpanzés ou leite em pó?
As mulheres que acham que podem conciliar maternidade com aleitamento e vida profissional ativa não digeriram o último livro de Elisabeth Badinter, Le conflit: la femme et la mère. Numa das dezenas de entrevistas a jornais, revistas, rádio e televisão desde que o livro foi lançado, Elisabeth Badinter chegou a comparar o aleitamento materno a “uma redução da mulher ao estágio de uma espécie animal, como se fôssemos todas chimpanzés fêmeas”.
Há quem tenha se dado ao trabalho de buscar na biografia da filósofa feminista a causa de sua animosidade contra o leite materno e as fraldas de pano, que ela qualifica como “o retorno do naturalismo”, um retrocesso para as mulheres. Como ela é uma grande acionista da empresa de publicidade Publicis, da qual é presidente do conselho, há quem veja nas suas posições mais que a defesa da libertação das mulheres. Haveria um interesse em defender as fraldas descartáveis, o leite em pó e o alimento em pote para bebê.
Outras ressaltam que Badinter nunca se opôs à utilização da imagem da mulher nua ou com pouca roupa – a mulher objeto, em suma - para vender desde iogurtes a perfumes passando por lingerie e eletrodomésticos. A publicidade, lembram, nunca foi atacada por Badinter por usar o corpo da mulher de forma quase pornográfica. Et pour cause.
* Fotos de Leneide Duarte-Plon - Passeatas em Paris em 2010 e 2008

