segunda-feira, 2 de junho de 2008

A tragédia chinesa e os filhos únicos

O terremoto na China enlutou milhares de famílias e revelou o avesso da política do filho único instituída na época de Mao. No terremoto, morreram milhares de crianças que se encontravam em escolas construídas sem a tecnologia anti-terremoto. As mães tinham festejado o dia das mães na véspera do tremor de terra de Sichuan com seus filhos únicos que pereceriam no dia seguinte.

Este é o primeiro desastre humanitário da geração do filho único. Esta semana, quinze dias depois do terremoto, o governo chinês anunciou uma permissão para um segundo filho às mulheres que perderam o filho único. O problema é que muitas dessas mulheres já passaram da idade de procriar. Outras perderam os maridos, outras trabalham longe das famílias e não podem se dar ao luxo de recomeçar. Hoje, calcula-se que existam 40 milhões de crianças deixadas com os avós no interior por pais que vão trabalhar nas cidades grandes chinesas em busca de trabalho.

Desde 1980, a China aplica a política do filho único por família nas cidades, dois filhos entre as minorias étnicas e a possibilidade de ter mais um filho nas famílias do campo, cujo primeiro filho é uma menina. Quem desrespeita essas normas, paga uma alta multa. Uma criança para dois pais e quatro avós significa uma criança para seis adultos. Em 2020, haverá mais velhos que adultos na China.

Se não existisse esse rígido controle demográfico, em vez dos atuais 1 bilhão e 300 milhões de chineses, o país teria uma população de 300 milhões de pessoas a mais, o que teria freado o extraordinário desenvolvimento chinês. Mas, segundo observadores chineses, essa geração de filhos únicos pensa que tudo lhes é devido, não aprendeu a dividir nada. Em conseqüência, entre os casais oriundos de famílias de filhos únicos há maior número de divórcios, segundo um estudo sociológico.

Qual a lição que o país vai tirar da tragédia? Será possível liberar o número de filhos em breve? O planeta será capaz de alimentar uma população que cresce sem nenhum controle?

Para Dior, Sharon é linda. De boca fechada

Leio que Christian Dior tenta apagar um fogo aceso por Sharon Stone durante o festival de Cannes. A atriz declarou que a catástrofe do terremoto da China era o “castigo cármico” pela política chinesa no Tibet. Dior pediu desculpas ao povo chinês pela afirmação da atriz e retirou todos os posters da estrela em anúncios da marca francesa das suas lojas de Pequim.

Depois que Sharon começou há três anos a fazer anúncios da marca Dior, a liberdade de expressão da atriz se mostra uma coisa no mínimo delicada. A solidariedade de Sharon Stone, cujo rosto está associado à marca Dior por um contrato de muitos milhões de dólares, pode ser um desastre para o grupo LVMH, proprietário da marca. Suas críticas à política de repressão chinesa no Tibet podem fazer as vendas despencarem se os chineses resolverem boicotar Dior que tem 68 lojas na China.

A marca de luxo francesa se apressou em pedir desculpas aos chineses e dizer que não concorda em nada com Sharon. Que ela tenha as simpatias políticas pelo Dalai Lama, tudo bem, mas que não venha atrapalhar as vendas dos produtos Dior. Para Dior, a engajada Sharon é mais interessante de boca fechada.

Gatos escaldados, os franceses já foram alvo da ira chinesa no mês de março. Os supermercados Carrefour da China amargaram muitos dias de quedas nas vendas devido ao boicote chinês depois dos protestos na passagem da tocha olímpica por Paris. No dia em que a tocha desfilou por Paris, manifestantes pró-Tibet, franceses e tibetanos, gritavam slogans anti-chineses e conclamavam ao boicote dos Jogos Olímpicos. Quem foi boicotado foram os produtos franceses.

Dior correu para apagar o incêndio e evitar uma onda de boicote de seus produtos. Mas os jornais franceses anunciam uma nova onde de boicote: os chineses suspenderam tdos os pacotes turísticos para a França.

O efeito tocha olímpica continua.

Campeões do mundo de férias

Na França, as férias são sagradas. Quando o verão vai se aproximando, os franceses têm um assunto onipresente. Quanto mais perto se chega de julho e agosto, mais se ouve frases do tipo: “Eu saio de férias na semana que vem”. “Falaremos depois das férias”. “Onde você vai passar as férias?”

A impressão que se tem é que ninguém fica no lugar no verão. Nos dois meses do alto verão, todo o país está em permanente movimento, com pessoas saindo e outras chegando de férias. Em Paris, um grande número de lojas, padarias, açougues, floristas e mesmo pequenas empresas fecham as portas em férias coletivas, sobretudo no mês de agosto.

Na língua francesa, existe até mesmo um adjetivo para designar quem sai de férias em julho e em agosto: são os “juillettistes” e os “aoûtiens”. É assim que os “vancanciers” são chamados, de acordo com o mês em que saem, seja para se bronzear numa praia no próprio país, seja em busca de aventuras em países “exotiques”. No verão, os franceses se dividem em “juillettistes” e “aoûtiens”.

Os franceses dão tanta importância às viagens de férias que existem associações para proporcionar férias às crianças de famílias desfavorecidas. Essas pessoas são vistas como privadas de um direito fundamental : o direito de sair de férias e conhecer novos horizontes.

Eu tinha a impressão de que os franceses são o povo que mais tira férias no mundo. Minha “observação do terreno” apontava nesse sentido. Mas uma coisa é o achismo. Outra, são as estatísticas. Agora posso afirmar com base em dados publicados : os franceses são os “campeões do mundo” de férias. Quem diz é uma pesquisa internacional do Instituto Harris Interactive para o site de viagens online Expédia.fr.

Em 2008, os italianos tiveram 33 dias de férias, seguidos dos espanhóis, (31 dias), dos holandeses e austríacos (28 dias). Os britânicos tiveram 26 dias e os alemães, 27 dias. O estudo diz que os americanos tiveram apenas 14 dias de férias.

Quanto aos franceses, eles tiveram 37 dias de férias em média.

Bons vivants, eles sabem apreciar os bons vinhos, as boas comidas e as férias. Isso pode estar na origem da longevidade extraordinária deles, a segunda logo depois da longevidade dos japoneses.

sábado, 24 de maio de 2008

Os limões da discórdia

A última cena do filme Les citronniers (Os limoeiros), do israelense Eran Riklis, é o desfecho melancólico da história do filme. Mas também é uma metáfora da história de dois povos, palestinos e israelenses, separados por um muro real que os transforma em prisioneiros da lógica da ocupação militar e da lei do mais forte.

O ministro israelense da Defesa, que tem sua casa protegida pelo muro erguido por Israel, não é menos prisioneiro que a mulher palestina que ele observa do outro lado. Ambos são vítimas de uma lógica de apartheid e ódio que parece não ter fim.

O filme não tem nenhuma cena de violência real, não mostra nenhum atentado. Vê-se rapidamente uma tentativa de atentado sem grande violência e sem importância no roteiro. A história gira em torno da dura e árida vida de uma viúva palestina que sobrevive à ocupação israelense graças ao pomar de limoeiros herdados do pai. Até o dia em que um ministro de Israel vem se instalar, com todo o aparato militar de guaritas e guarda-costas, numa confortável casa vizinha a seu terreno. Impedida de acesso ao seu pomar, ela contrata um advogado palestino e, assessorada por ele, resolve entrar na Justiça.

A atriz Hiam Abbas é uma das poucas atrizes capazes de representar em hebraico, árabe, inglês e francês. Sua extraordinária presença ilumina qualquer filme de que participe. Les citronniers é antes de tudo ela, sua expressividade, sua beleza mediterrânea, uma espécie de atriz talhada para a tragédia grega, mas que vive outra tragédia, deslocada no tempo e no espaço. Ela tem algo de Irene Papas, a mesma presença que ilumina a tela. Mas o filme é também um roteiro de uma grande inteligência, que evita os clichês sem esconder o absurdo e a violência da ocupação israelense.

Hiam Abbas viveu em Israel antes de vir morar em Paris e se casar com o ator Zinedine Soualem. Ela já trabalhou com Steven Spielberg no filme Munique, com Amos Gitaï em Désengagement e Free zone, com o próprio Eran Riklis em La fiancée syrienne e com Hany Abu-Assad em Paradise now.

Les citronniers é imperdível. Um grande filme para uma grande atriz.

Paris (colorida e alegre) para alemão ver

Nenhuma ocupação é colorida. A realidade de qualquer ocupação é em preto e branco atroz, violenta. As cores, quando existem, podem ser rapidamente tingidas pelo vermelho do sangue dos resistentes.

Por se saber que a ocupação de Paris pelos alemães não foi um mar de rosas, as imagens do fotógrafo André Zucca, numa exposição surpreendentemente bela geraram um longo e polêmico debate na imprensa. Pode haver descontração numa exposição da ocupação nazista de Paris?

Alguns jornalistas e intelectuais se chocaram com as fotos de uma Paris colorida, quase normal, na mesma época em que alguns franceses arriscavam a vida na resistência clandestina. Seria possível mostrar Paris em 1941, sob Ocupação nazista, como se fosse uma cidade descontraída, uma Paris de cartão postal, com elegantes nas corridas de cavalo de Auteuil e o cotidiano normal de bairros chiques como o Champs Elysées ou populares como o mercado Les Halles?

A ambigüidade das fotos coloridas explodiu como uma bomba nesta primavera parisiense, dando origem a um debate intenso sobre o poder da fotografia e sua relação com o real.

A exposição “Des Parisiens sous l’Occupation” (Parisienses sob a Ocupação) é a primeira de fotos de André Zucca na França. O próprio nome foi mudado por causa do debate suscitado. Ela se chamava “Les Parisiens sous l’Occupation” (Os parisienses sob a Ocupação) o que já parecia uma intenção de mostrar que ali se viam não alguns, mas os parisienses em geral.

As fotos coloridas que deram origem à polêmica na imprensa mostram pessoas que entram e saem do metrô, freqüentam cinemas e bebem nos terraços de café. Ao mesmo tempo, as fotos ocultam a trágica realidade dos resistentes torturados e mortos, os horrores da guerra, a perseguição dos judeus. Há apenas duas fotos em que são vistos um homem e uma mulher com a estrela amarela no peito, caminhando pelas ruas do Marais, tradicional bairro judeu, onde fica a Biblioteca Histórica da Cidade de Paris que desde março expões as 270 fotos de Zucca.

As fotos de Zucca foram encomendadas pelos nazistas para publicação na revista alemã Signal, célebre pela qualidade da fotografia, mas acabaram não sendo publicadas. A revista era diretamente ligada a Goebbels. Para que os menos informados não pensem que são fotos de alguém que fixava ao acaso o cotidiano de Paris, a prefeitura organizou debates e conferências públicas em torno do tema da comunicação visual e da fotografia de propaganda.

Por saberem o valor das imagens, os alemães controlavam estreitamente as ruas. O “privilégio” de fotografar a cidade era dado a fotógrafos, escolhidos a dedo. As fotos em preto e branco dessa época, pouco numerosas, foram feitas por fotógrafos sob estreito controle. E os caros filmes Agfacolor, ainda mais raros, eram fornecidos somente a poucos fotógrafos credenciados, como Zucca.

Algumas fotos mostram os soldados alemães, mas o que se vê é uma ocupação light, com tropas descendo a Avenida Champs Elysées depois da troca diária da guarda do Arco do Triunfo, a Rue de Rivoli enfeitada com a bandeira do Reich, ou ainda soldados misturados aos civis franceses fazendo compras no Mercado das Pulgas.

No fim da guerra, André Zucca foi julgado por colaboração com o ocupante, mas não foi condenado à morte como tantos outros colaboracionistas notórios. Mudou de nome, de cidade e morreu longe de Paris.

Germaine Tillion: um século de engajamento

E por falar em ocupação, a França perdeu uma grande dama que ganhou o respeito de todos por ter sempre combatido o bom combate: a antropóloga Germaine Tillion morreu aos 101 anos. Pessoas como ela mostram que o país dos direitos humanos soube forjar no século passado seres humanos dignos desse nome. Os torturadores da guerra da Argélia são, felizmente, a exceção.

Em 1942, ela era membro da Resistência do Musée de l’Homme quando foi presa pelos alemães e deportada para Ravensbrück. Quem a traiu foi o abade Alesch, um agente duplo que ao mesmo tempo trabalhava para o serviço secreto alemão. Em Ravensbrück, a antropóloga escreve uma opereta para divertir suas colegas do campo de concentração.

Germaine Tillion esteve engajada em todas as boas causas de seu tempo: depois de lutar contra a ocupação alemã, denunciou a tortura dos militares franceses na Guerra da Argélia e no fim da vida, centenária e ativa, ainda militava pelos novos parias da sociedade francesa, os trabalhadores estrangeiros “sans-papiers”.

Uma grande dama, que viveu mil e uma vidas durante um século. Para ela, as palavras generosidade e fraternidade não eram substantivos abstratos

sexta-feira, 16 de maio de 2008

A penúltima vez que a burguesia francesa teve medo

Forget 68. É o desejo de Daniel Cohn-Bendit e o título de seu livro, um dos 85 lançados em Paris este ano para comemorar os 40 anos da revolta dos estudantes e dos trabalhadores franceses, que paralisou a França e marcou o país para sempre.

A direita detesta Maio de 68. Sarkozy disse que é preciso “liquidar com essa herança”. Quando ele pensa nela, refere-se ao levante estudantil que parou as universidades e enfrentou a polícia com paralelepípedos arrancados das ruas do Quartier Latin, transformado num verdadeiro campo de batalha. Um detalhe: não houve uma única morte em diversos dias de confrontos violentos, com carros incendiados e barricadas em torno da Sorbonne. Ele pensa também nas greves de todas as categorias, que paralisaram a França e a presidência do general De Gaulle.

A esquerda glorifica Maio de 68 relembrando as greves dos trabalhadores e as conquistas históricas.

Na Universidade de Nanterre, a revolta estudantil tinha um rosto: o estudante de sociologia Daniel Cohn-Bendit, apelidado pela imprensa de “Dany, le rouge” porque era ruivo e porque era membro de um partido anarquista.

Nanterre ficou como um dos símbolos da revolta dos estudantes franceses de Maio de 68. Mas, com o passar do tempo, tudo foi se apagando na amnésia coletiva. Sobraram as imagens emblemáticas do Quartier Latin sem paralelepípedos, arrancados pelos estudantes para atacar os policiais, dos carros queimados, das barricadas perto da Sorbonne. Festejado pela mídia a cada dez anos, Maio de 68, com as reivindicações e conquistas da esquerda operária e estudantil, ainda incomoda a direita. O filósofo e ex-ministro Luc Ferry, autor de um livro sobre o período, tenta reduzir as revoltas dos estudantes e dos trabalhadores a um movimento por liberdade individual e casamento por amor.

Mas, segundo o filósofo e psicanalista Bertrand Ogilvie, de 55 anos, professor de filosofia em Nanterre, Maio de 68 foi, antes de tudo, “a penúltima vez que a burguesia francesa teve medo”. A última foi em 1981, com a vitória de Mitterrand e a fuga de capitais para o exterior.

O Maio de 68 francês começou em 22 de março, em Nanterre, quando os estudantes fizeram um movimento pedindo a libertação de militantes do “Comitê Vietnã”, em prisão domiciliar. Um jovem estudante de sociologia de 22 anos propõe a ocupação de um dos prédios da Universidade por toda a noite. Esse militante anarquista se chamava Daniel Cohn-Bendit e, naquele dia, outros estudantes se juntam a ele. Está lançado o “Movimento 22 de março”.

Nanterre era um centro importante de estudantes anarquistas, como Cohn-Bendit que pertencia ao grupo anarquista Preto e Vermelho, militantes trotskistas, como Daniel Bensaïd, ou jovens da Juventude Estudante Cristã. O diretor da faculdade de Letras não era outro senão o filósofo Paul Ricoeur. Daniel Cohn-Bendit era conhecido por suas intervenções nas aulas de Alain Touraine. Com a radicalização do movimento estudantil, Cohn-Bendit, que tinha adotado a nacionalidade alemã de seu pai para fugir ao serviço militar, é expulso da França em 22 de maio.

Hoje, Nanterre é dividida entre estudantes de direita e um grupo menor, cerca de 20%, de estudantes de esquerda, dos cursos de filosofia, sociologia, artes do espetáculo e linguística.

“O espírito de Maio de 68 está muito longe de Nanterre hoje” diz o estudante de filosofia Djamel Boubegtiten. Mas ele vê na luta pela causa dos “sans-papiers”, trabalhadores estrangeiros sem documentos, perseguidos pelo governo para expulsão e mão-de-obra explorável por patrões sem escrúpulos, a nova forma de militantismo dos estudantes de esquerda como ele.

Os filósofos Alain Badiou, Étienne Balibar e Bertrand Ogilvie também estão engajados na defesa dos direitos dos “sans-papiers”, os novos párias da sociedade francesa e européia.

Resumindo, em Nanterre os estudantes de cursos como Direito e Economia, Finanças e Gestão são de direita. Os de Filosofia, Sociologia e Literatura são de esquerda. Os primeiros são a esmagadora maioria. “Durante a greve do ano passado, muitos não escondiam o orgulho de serem brancos, ricos e de direita”, conta Djamel Boubegtiten. “Quando bloqueamos a entrada aos cursos, vimos alguns fazerem a saudação nazista diante de nós para nos provocar”.

Os tempos mudaram. Nanterre não é mais a mesma. A França não é mais a mesma. Daniel Cohn-Bendit prefere que se esqueça Maio de 68.

Plantar para alimentar homens ou automóveis ?

O sociólogo suíço Jean Ziegler, que acaba de deixar o posto de Relator Especial das Nações Unidas para o direito à alimentação, autor do livro “O Império da vergonha”, responsabiliza os donos do mundo (leia-se os países ricos) pela epidemia de fome no planeta, que já começou a dar sinais de uma gravidade extrema, com o do preço dos cereais e as revoltas que se espalham por diversos países, para protestar contra a inflação galopante.

“Quando se lança, nos Estados Unidos, graças a 6 bilhões de dólares de subvenções, uma política de produção de energia alternativa que rouba 138 milhões de toneladas de milho do mercado de alimentos, está se lançando as bases de um crime contra a humanidade pela sede de energia... Pode-se entender o desejo do governo Bush de se tornar independente das importações de energias fósseis mas isso desestabiliza o resto do mundo. E quando a União Européia decide atingir a produção de 10% desses combustíveis em 2020, quem carrega esse fardo é o campesinato africano”.

Será que é uma boa decisão plantar cana-de-açúcar no Brasil, em vez de produtos alimentícios?


Papa à vista para a América Latina?

Leio no jornal comentário do especialista em Vaticano sobre a saúde frágil de Bento XVI, ex-cardeal Ratzinger, responsável pela feroz campanha que feriu de morte a Teologia da Libertação.

Leio também o perfil do Cardeal Oscar Rodriguez Maradiaga, arcebispo de Tegucigalpa, Honduras, e fico feliz de ver que a Igreja Católica oscila entre os conservadores, como Ratzinger, e figuras modernas e solares como o cardeal Maradiaga.

Um livro de entrevistas com ele acaba de sair em Paris. Ele imagina que já é hora de a Igreja Católica eleger um papa que não seja europeu. O futuro papa, segundo Maradiaga, deveria vir do Terceiro Mundo, particularmente da América Latina onde vive a metade dos católicos do mundo. O cardeal Maradiaga, novo presidente da Caritas Internacional, já foi ouvido no Forum de Davos e é muito respeitado nos organismos internacionais como o FMI ou a OMC. Ele garante que o etnocentrismo de Roma levou a uma condenação absoluta da teologia da Libertação, que dava frutos verdadeiros do ponto de vista pastoral junto a assembléias não politizadas. O cardeal Maradiaga tem um espírito jovem para seus 66 anos: gosta de voar de helicóptero e, como músico que é, aprecia a bossa-nova. Como homem da Igreja define como vê o futuro papa: “Um homem do século XXI, que conciliará tradição e inovação”.

Um “papabile” que desponta?

sexta-feira, 2 de maio de 2008

FRANCO BASAGLIA: A LUTA PELO FECHAMENTO DOS ASILOS

O psiquiatra italiano Franco Basaglia, um dos principais combatentes da luta contra a existência dos hospitais psiquiátricos, costumava dizer que a primeira coisa que se encontra quando se entra num asilo não é a doença ou a loucura mas a miséria.

Com essa frase, o psicanalista Patrick Faugeras inicia seu magnífico texto de apresentação do livro de cartas enviadas pelos doentes mentais de Volterra. O livro se chama “Lettres mortes – Correspondance censurée de la nef des fous (Hôpital de Volterra 1900-1980)".

As cartas nunca chegaram ao destino. O asilo, como o cárcere, era sinônimo de isolamento total. As cartas eram interceptadas pela direção do hospital e viravam arquivo. Patrick Faugeras transformou-as num belo e emocionante livro. Fez fotos, traduziu algumas cartas dos doentes mentais e escreveu a apresentação. As cartas encerram a tragédia da doença e do isolamento social. Falam de esperanças e sonhos vãos. As fotos do hospital vazio, paredes de pintura descascada, janelas e portas abertas, depois do fechamento dos hospitais psiquiátricos italianos pela lei 180, são imagens de artista, belas como quadros hiper-realistas.

A lei 180 também chamada “lei Basaglia” foi votada em 1978, depois de uma longa batalha, e resultou no fechamento de todos os hospitais psiquiátricos da Itália. Foi o maior avanço da psiquiatria do século passado, a primeira lei do mundo a decretar a abolição dos asilos.

Há alguns dias, outro livro, desta vez do próprio Franco Basaglia, traduzido por Patrick Faugeras e apresentado pelos biógrafos do psiquiatra italiano, Mario Colucci e Pierangelo di Vittorio, reunia em Paris um grupo significativo de psicanalistas e psiquiatras para ouvi-los falar de Basaglia. Foi na livraria Tschann, no Boulevard du Montparnasse.

Em 1979, um ano antes de sua morte, Franco Basaglia foi convidado a ir ao Brasil com Robert Castel, que acabava de publicar, com Françoise Castel e Anne Lovell, um estudo sobre a situação da psiquiatria norte-americana. Robert Castel também estava na livraria Tschann relembrando Basaglia.

As conferências de “Psychiatrie et démocratie - Conférences brésiliennes”, foram feitas por Basaglia em São Paulo, Rio e Belo Horizonte e editadas na Itália e no Brasil com o nome de “Conferências Brasileiras”.

Colluci e Di Vittorio escrevem no texto de apresentação: Ir contra o escândalo do asilo quer dizer começar a questionar a medicina como forma de governo político dos homens. Freqüentemente, Basaglia invoca os “direitos humanos” para denunciar a condição dos internos. Talvez fosse interessante saber que, na mesma época, Foucault começava a falar dos “direitos dos governados”.

Quem viu o filme de Sandrine Bonnaire sobre sua irmã Sabine (Elle s’appelle Sabine) pode ter uma idéia de como a indústria farmacêutica e a psiquiatria podem transformar um paciente psiquiátrico. Sabine era uma garota bonita, tinha um corpo delgado e um comportamento fora da norma. Vivia com a família, tocava piano e chegou a fazer algumas viagens ao exterior com sua irmã, a atriz Sandrine Bonnaire, com quem sempre teve uma relação de proximidade e afeto.

Depois de ser internada num hospital psiquiátrico por sua mãe, que tinha dificuldade em cuidar dela sozinha, Sabine se transforma numa massa disforme, pesada. Seu olhar é vazio, ela parece ausente. Os remédios, o isolamento em célula totalmente fechada a chave, o sofrimento vivido num serviço de psiquiatria de um hospital francês transformaram a garota, que ficou irreconhecível. O contraste das imagens de antes e depois da internação é chocante.

Os laboratórios farmacêuticos agradecem aos psiquiatras os serviços prestados oferecendo viagens para estações de esqui, conforme nos contou um deles. Tudo discreta e civilizadamente.

Doses monumentais de produtos químicos para acalmar os doentes mentais é o caminho mais fácil para a psiquiatria.

O mais difícil, o mais humano é o caminho que propõe Franco Basaglia.

Numa conferência feita em São Paulo ele diz:

Paralelamente ao asilo, há uma outra instituição que tem uma função de integração similar, a prisão. Esta instituição, em todos os países do mundo tem por finalidade a reabilitação do detento, como o asilo tem por finalidade o tratamento do doente mental. Penso que cada um de nós não pode deixar de sorrir ironicamente quando ouve dizer que a prisão e o asilo têm por objetivo a reabilitação de seus “hóspedes”. Na realidade, tanto o asilo quanto a prisão servem para conter o desvio dos pobres, marginalizar os que já são excluídos da sociedade. Em grande parte, asilo e prisão são intercambiáveis. Podemos pegar um detento e colocá-lo num asilo ou pegar um louco e colocá-lo na prisão, as funções institucionais são as mesmas. (...) A esta lógica absurda e infame do asilo, nós dissemos não. Depois, compreendemos que a internação de “loucos miseráveis” era uma conseqüência do fato de essas pessoas não serem produtivas numa sociedade que é baseada na produtividade e que, se elas continuavam doentes, era pela mesma razão, porque eram improdutivas, inúteis para um sistema social como o nosso.


As idéias subversivas de Basaglia continuam mais atuais do que nunca.

LIBERAÇÃO FEMININA

Maio de 68 mudou a França profundamente. Os trabalhadores obtiveram conquistas formidáveis, como o substancial aumento do salário mínimo e outros direitos sociais, fruto da greve geral que paralisou praticamente todos os setores do país.

Mas o movimento de maio marcou também uma revolução de costumes e mentalidades. Somente depois de 68 foram implantadas em todo o país as classes mistas no ensino público. Até então, em toda a França, meninos e meninas estudavam em escolas republicanas onde se lia: “École de filles” ou “École de garçons”. Até hoje essas escolas, agora mistas, têm essas inscrições gravadas na fachada.

Em 1968, para poderem abrir uma conta bancária, as mulheres francesas ainda tinham que pedir autorização aos maridos. Parece medieval, mas faz apenas quarenta anos.

CENTENÁRIOS
A França tem um dos maiores índices de longevidade do mundo. O órgão de recenseamento francês revelou há poucos dias que o país tem 20 mil centenários.

Segundo um estudo americano, o vinho tinto, sobretudo o Bordeaux, seria um dos responsáveis pelo que eles chamaram de “paradoxo francês”. Esta é a expressão que alguns cientistas utilizam para explicar por que o povo francês come em diversas regiões pratos bastante calóricos, mas tem uma das menores incidências de doenças cardiovasculares do mundo.

Graças ao bom vinho, bebido em quantidades razoáveis, ou seja, dois copos em média, por dia.

Um brinde ao vinho tinto que limpa as artérias e prolonga a vida, com moderação, claro. Tchin tchin.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Paris-Pequim: a corrida de obstáculos

As imagens são impressionantes : a bandeira tricolor (bleu, blanc, rouge) com o símbolo nazista é queimada diante de vários supermercados Carrefour, na China. Chineses gritam, indignados, slogans anti-franceses. Na web, outros incitam ao boicote dos produtos franceses.

Depois que a tocha olímpica passou por Paris e foi alvo de manifestações hostis de tibetanos, de franceses pró-Tibet e de militantes da ONG Réporters sans Frontières, que chegou a colocar uma grande bandeira na fachada da Notre-Dame com os anéis olímpicos com a forma de algemas, o clima entre a China e a França ficou sujeito a chuvas e trovoadas. No dia do desfile, o percurso da tocha encurtou, ela passou parte do tempo escondida num ônibus, que seguia os policiais e o aparato de carros para protegê-la.

Mas a proteção de milhares de policiais franceses espalhados por Paris não impediu as manifestações pró-Tibet. E os chineses se sentiram ultrajados.

Os chineses de Paris fizeram diversas manifestações públicas, com bandeiras e slogans, em defesa do governo chinês e das olimpíadas. Eles culpam os franceses pelo fiasco da festa da tocha na cidade-luz. E em toda a China, patriotas melindrados começaram a conclamar ao boicote dos produtos franceses, através da internet, para responder aos franceses que pregam o boicote aos jogos olímpicos. O supermercado Carrefour, que tem dezenas de pontos de venda em todo o país, é o mais atingido pela campanha de hostilidades.

A situação começou a ficar tão séria que Sarkozy mandou dois emissários a Pequim, o ex-primeiro ministro Jean-Pierre Raffarin e o presidente do Senado, com cartas pessoais ao presidente da República e à atleta chinesa paraplégica, que desfilou em Paris com a chama na mão, protegendo-a com seu próprio corpo no mometo em que um tibetano tentou arrancá-la de suas mãos. Ela se tornou uma heroína do dia para a noite na China.

Raffarin levou ao presidente chinês a biografia do General De Gaulle, o presidente que reconheceu a China Comunista, com a dedicatória de Sarkozy.

Para piorar o clima de tensão, Bertrand Delanoë, o prefeito de Paris recém-reeleito, propôs o título de cidadão de Paris ao Dalai Lama e ao dissidente chinês Hu Jia. Foi a gota d’água. De um lado o presidente francês tenta acalmar os ânimos, do outro lado o socialista Delanoë homenageia um dissidente e o Dalai Lama.

Os chineses, pouco acostumados ao debate de opiniões e à liberdade de posições divergentes coexistindo num mesmo país, consideraram a homenagem uma provocação e uma interferência nos negócios internos chineses.

Na China, há uma grande manifestação anti-francesa programada para o dia 1° de maio.
Será que as chinesas emergentes vão deixar de comprar suas caras bolsas Louis Vuitton e seus perfumes Chanel n° 5 em protesto contra o país que pretende dar lições de direitos humanos à China?

Sarkozy tem 28% de aprovação

Nicolas Sarkozy está no mais baixo nível de aprovação de um presidente francês, no fim do primeiro ano de mandato: 72% dos franceses desaprovam sua ação, segundo pesquisa publicada esta semana.

O jornal de direita Le Figaro prefere dar a seus leitores a informação pelo ângulo positivo. Diz que 28% dos franceses aprovam o governo Sarkozy.

Nesta quinta-feira à noite, o presidente falou aos franceses num debate com cinco jornalistas representando diversos canais de televisão. Ele tentou explicar suas opções e justificar por que os franceses têm o sentimento de que as promessas eleitorais não transformaram suas vidas.
A inflação e a queda do poder aquisitivo é o assunto diário na mídia francesa e “le moral des ménages” (o moral das famílias) só faz se degradar. A inflação de 2007, a maior dos últimos anos, vai fazer com que o governo antecipe a revalorização do salário mínimo (Smic), feita todos os anos em 1° de julho. Este ano, dia primeiro de maio, o Smic será aumentado de 2,3%, o que não chega a cobrir a inflação oficial, que foi de 2,6% em média.

No bolso dos dois milhões de assalariados franceses que ganham o salário mínimo a inflação foi sentida como bem maior pois o básico, isto é, os alimentos, o gás, a eletricidade e a gasolina tiveram aumentos bem acima da taxa média da inflação.

Mitterrand e o fantasma de Vichy

Na terça-feira, o canal France 2 (estatal) levou ao ar o “docu-fiction” (um filme de ficção baseado em fatos reais, geralmente tirado de um livro ou entrevistas) “Mitterrand em Vichy”.

Trata-se do período de um ano em que o jovem Mitterrand, aos 24 anos, passou na cidade de Vichy, onde estava instalado o governo colaboracionista do general Pétain, depois da rendição aos alemães. Mitterrand acabava de voltar da Alemanha, depois de se evadir de um campo de soldados franceses prisioneiros.

Essa passagem da vida do presidente socialista esteve ocultada até 1994, dois anos antes de sua morte, quando o jornalista Pierre Péan lançou o livro “Une jeunesse française”, que repercutiu como uma bomba entre amigos e inimigos do velho presidente.

Era o último ano do mandato de Mitterrand, que governou por 14 anos a França. O presidente veio a público explicar como e por que motivos trabalhou como documentarista para o governo de Vichy até cair na clandestinidade e se entregar corpo e alma à Resistência e à libertação da França.

O nome Vichy na França ficou conotado para sempre. A elegante e hoje démodée cidade de estação de águas virou sinônimo do governo colaboracionista. Seu nome ficou ligado ao crime do Estado francês que entregou os judeus, nascidos na França ou vindos de outros países europeus, ao ocupante nazista. A grande maioria não voltou dos campos de concentração.

Chirac, em um discurso memorável, reconheceu a responsabilidade da França na prisão e deportação dos judeus franceses para os campos de concentração nazistas. Mitterrand sustentava que não era a França a responsável por esse crime, mas um grupo de franceses que governou o país sob ocupação.

O filme foi seguido de um documentário em que jornalistas como Edwy Plenel e intelectuais como Edgar Morin e Jean Lacouture discutiam o passado vichysta de Mitterrand e o choque que as revelações do livro provocaram na época.

Aposentadoria

Na semana passada uma pessoa ganhou sozinha o prêmio da loteria chamada Euromilhões, vendida em vários países da Europa.

Era um francês.

O prêmio dá para resolver os problemas da maioria das pessoas. Com 58.367.681,00 de euros na conta corrente qualquer um pode se aposentar com tranqüilidade.

sábado, 19 de abril de 2008


Charles Aznavour : a vitória do talento contra o “físico difícil e a voz ingrata”*

Leneide Duarte-Plon, de Paris


Ele é o último “monstro sagrado” da canção francesa. Aos 82 anos, Charles Aznavour, que morou com Edith Piaf sem, no entanto, ter tido um caso de amor com ela, visita o Brasil pela “quinta ou sexta vez” para cantar em diversas capitais. “As pessoas que se dão bem não devem necessariamente passar pela cama”, diz explicando a amizade que o uniu a Piaf, que ele define como “cúmplice” de um mesmo amor pela música.
O cantor, que no início da carreira ouvia o comentário de que tinha “um físico difícil e uma voz ingrata” conseguiu impor um estilo de cantor-ator, considerado pouco comercial quando começou.
Baixo, feio e com a voz “ingrata” que a natureza lhe deu, Charles Aznavour tem uma presença mágica em cena, que o transformou num ídolo da canção mundial. Ele já vendeu 100 milhões de discos e lota as salas de espetáculos das principais capitais do mundo há 50 anos.
Em 2004, Aznavour escreveu sua autobiografia, “Le temps des avants », sem nenhum “negro” por trás do texto, conta orgulhoso. A autobiografia já foi traduzida em 12 línguas e só em francês vendeu mais de 250 mil exemplares. O compositor prefere ser chamado de “escritor de canções” em vez de “autor de canções”.
Um problema de audição que faz com que ouça uma tonalidade diferente em cada ouvido quase o afastou dos palcos. Mas com a tenacidade de sempre ele conseguiu contornar a dificuldade e continuar cantando.
Nessa entrevista exclusiva à Folha de São Paulo, dada na sede de sua gravadora, em Paris, Aznavour conta como numa mesma noite, ciceroneado pela cantora Marlene, de quem Piaf era fã, ele conheceu todos os grandes nomes da música brasileira, na primeira viagem que fez ao Brasil.



Folha - Qual sua relação com o público brasileiro e como você o define ?

Charles Aznavour : Eu não vivo no Brasil, logo não posso dizer qual minha relação com o público brasileiro. Fui cinco ou seis vezes ao Brasil e sempre foi muito agradável. Acho que o Brasil tem uma população que entende o francês e esses fazem parte do meu público. Outros vêm por curiosidade.

Folha - Você gravou em inglês, italiano, espanhol e alemão. Nunca se sentiu tentado pelo português nem pelas canções brasileiras ?

Aznavour : Eu canto as minhas canções, por isso não canto canções brasileiras. Nunca tive contato com tradutores para o português de minhas canções. Os tradutores me enviavam traduções de minhas canções em alemão, espanhol, italiano e inglês e trabalhávamos juntos. Nunca me propuseram traduções em português. E eu nunca forcei.

Folha – Você é apresentado no estrangeiro como o último dos monstros sagrados da canção francesa. Você acha que a canção francesa vive um período de crise?

Aznavour : A canção francesa atual é menos conhecida no estrangeiro. Mas ela é importante e temos jovens que fazem coisas muito boas.

Folha – Mas são pouco conhecidos no estrangeiro…

Aznavour : De fato, não são muito conhecidos. São também canadenses do Quebec que são conhecidos na França, na Bélgica, na Suiça, no Líbano, onde a língua francesa é importante.

Folha – No início de sua carreira, dizia-se que você tinha “um físico difícil e uma voz ingrata”. Diziam também que seu estilo de cantor-ator era pouco comercial. Como você conseguiu impor seu estilo?

Aznavour : Ele se impôs sozinho, não fiz nada. Continuei, não quis mudar, não quis ser diferente do que eu era. Não se pega um trem andando. Eu não tentei fazer yé-yé-yé, rock ou rap. Fiz o que fiz e isso se tornou uma espécie de clássico. As pessoas vêm me ouvir como um show clássico, com uma diferença, eu tenho mais público que os músicos que fazem música clássica.

Folha – Você cantou em São Paulo e no Rio umas cinco ou seis vezes. Você cantou em outras cidades brasileiras?

Aznavour : Cantei também em Brasilia e este mês vou cantar numas seis cidades inclusive Recife e Brasília. Não tenho certeza. O que sei é ir cantar e visitar a cidade depois e fazer fotos.

Folha – Você gosta de visitar as cidades onde canta ?

Aznavour : Gosto muito da América do Sul, da América Central. E gosto muito também dos países orientais. Os outros me interessam menos. Na Ásia, não há muita coisa a descobrir além da tecnologia. Enquanto nos países da América Latina e no Oriente Médio há muita coisa a descobrir.
Folha - Você conhece a música brasileira ?
Aznavour : Sim, conheci muito bem. Quando fui a primeira vez ao Brasil, havia uma cantora chamada Marlene que tinha cantado no programa de Edith Piaf no Bobino de Paris por muito tempo e de quem Piaf gostava muito. E a conheci porque eu morava na casa de Piaf. E quando cheguei ao Brasil Marlene me disse: “Preparei uma surpresa para você, vou te mostrar o que há de mais novo aqui”. Ela tinha preparado uma noite com Jobim, João Gilberto, Elizeth Cardoso. Em uma noite, conheci o Brasil. Havia também um rapaz chamado Santos que morreu num desastre de avião e que cantava maravilhosamente bem...

Folha - Agostinho dos Santos …

Aznavour : Isso mesmo. Ele cantava uma das maravilhosas canções que ouvi nessa noite. Tinha uma que se chamava qualquer coisa do sol. Era assim. La la la la ...

Folha – Estrada do Sol ?

Aznavour – Isso mesmo. Conheci outras cantoras mas não pessoalmente. Maysa, Simone, todas as pessoas que cantam bem.

Folha – Você conheceu Edith Piaf, diz que morou na casa dela, mas não teve uma relação amorosa com ela. Você pode contar por quê?

Aznavour : Eu era cúmplice dela. Na época, eu estava apaixonado e vivia um outro amor. Não se abandona a vida que a gente tem para viver com uma pessoa famosa por puro interesse, por carreirismo. Eu não sou um carreirista. Há muitas mulheres que eu amei, muitas, com quem não tive uma vida sexual. Edith Piaf e Amália Rodrigues são duas delas. Conheci muito bem Amália, tínhamos uma grande cumplicidade, eu a via menos que Piaf, claro, mas penso que as pessoas que se dão bem não devem necessariamente passar pela cama. Nós éramos cúmplices, gostávamos das mesmas coisas.

Folha – Você fez 60 filmes e compôs mais de mil canções. Há um sonho de artista que não pôde realizar? Qual?

Aznavour : Não, tive um sonho que era nadar e não sei nadar bem. Meu sonho mesmo era escrever. E isso sempre fiz. Mesmo quando me contestavam todas as outras coisas, nunca tiveram nada a dizer quanto ao que eu escrevia. E talvez seja o único cantor que escreveu sua biografia sozinho. Na França, descobriram que eles tiveram sempre um “negro”, menos eu. Não porque eu seja melhor que os outros, mas porque amo escrever. Não vou dar o trabalho que gosto de fazer a outra pessoa. Minha autobiografia vendeu 250 mil exemplares na França e foi traduzida em doze línguas.

Folha – « Hier encore », « La bohème », « Que c’est triste Venise », « La mamma » são canções que ajudaram muitos estrangeiros a se interessar pela língua francesa. Quais seus poetas favoritos?

Aznavour : Gosto muito de um poeta armênio que leio em francês e de poetas iranianos que leio em francês, também. Leio também Fernando Pessoa. Tenho uma canção na qual falo de Pessoa, que muita gente não conhece. Talvez eu seja o único francês que escreveu fados. O último se chama “Fado fado” e nele tento explicar o que é o fado. Porque cada vez que se pergunta o que é o fado, respondem “o fado é o fado”. Escrevei então esse fado em que falo de Pessoa e de Amália Rodrigues.

Folha – Existe uma canção de um outro compositor que você gostaria de ter feito?

Aznavour : Há muitas. Eu gostaria de ter escrito todas as belas canções do mundo.

Folha – E da canção francesa ?

Aznavour : « Il y a de la joie » e « La mer », ambas de Charles Trenet.

Folha – Charles Trenet é o maior de todos os compositores francese ?

Aznavour : Não gosto de classificar de maior, diria que é o « mestre ». Não se deve dizer o maior, deve-se dizer o mestre. Quando se vai à escola, tem-se muitos mestres e isso faz nossa cultura. Fiz minha cultura através dos mestres.

Folha – Você teve outros mestres ?

Aznavour : O mestre nos precede sempre. Meus mestres foram Victor Hugo, Racine, Molière e La Fontaine. Os mestres vêm antes de nós. Mas aprecio muitos compositores do mundo todo.

Folha – Qual foi o momento mais emocionante de sua carreira ?

Aznavour : Foi quando meus pais foram olhar um dia um grande cartaz de meu espetáculo da altura de um prédio de cinco andares, perto to Moulin Rouge e ficaram olhando alguns minutos, completamente fascinados e felizes.

Folha – Você estava com eles ?

Aznavour : Não, eu os observava de longe. Esse foi o momento mais emocionante da minha vida, lá pela década de 50.

Folha – Era como um presente para eles ?

Aznavour : Era uma coisa formidável. Tinham dito a eles : “Seus filhos não vão ser nada”. Eram pessoas que vieram para a França como imigrantes e nem falavam francês, aprenderam depois. Eles abandonaram seus sonhos para cuidar dos filhos. Isso foi o momento mais emocionante.

Folha – Você cantou na maioria das cidades importantes do mundo. Qual o público mais difícil ou mais exigente? E o mais caloroso?

Aznavour : O mais difícil é o público esnobe. Ele pode ser de qualquer país. Aplaude com as pontas dos dedos ou com luvas. Viram tudo, ouviram tudo, conhecem tudo. Esse público pode dar opinião sobre tudo e sempre uma opinião crítica. Esse é o público ruim.

Folha – Você teve muitas vezes um público assim?

Aznavour : Tive. Mas esse mesmo público mudou depois. Quando voltei já não era o mesmo. Foi em Monte Carlo quarenta anos atrás. A gente tinha a impressão de que eles estavam sentados sobre as mãos.

Folha - E qual o público mais caloroso ?

Aznavour : Em todos os lugares. O público que gosta do artista é sempre caloroso. Ele é caloroso de maneira diferente nos diferentes países, é normal. Não é o mesmo entusiasmo em Buenos Aires ou em Nova York. Mas ele é entusiasmado cada um a seu modo. São maneiras diferentes de demonstrar. Minha mulher é sueca. A primeira vez que fui cantar na Suécia ela me preveniu : “Os suecos não são como os franceses, não fique chateado se eles forem frios”. E eles foram como os outros. Eu então disse a ela: “ Você vê, era preciso que um armênio-francês viesse para que eles mudassem”.

Folha – Qual é o segredo para conquistar um público ?

Aznavour : Não tem segredo.

Folha – É o talento?

Aznavour : Acho que é a verdade que passa. Ou se pensa que um artista é fabricado ou a gente o vê como verdadeiro. Hoje, há poucos artistas fabricados porque os jovens se entregam cada vez mais a esse métier. É a verdade que faz o sucesso e depois é a sinceridade que o mantém.

Folha – Você teve uma das carreiras mais longas e mais importantes da canção francesa. Vai poder realmente parar depois dessa turnê?

Aznavour : Eu sou obrigado a parar.

Folha – Por quê?

Aznavour : Porque num dado momento não poderei mais subir num palco.

Folha – Mas esse momento pode ir sendo adiado, não?

Aznavour : Quando tive um grande problema de ouvido disse que pararia. E então consegui me disciplinar para que meu ouvido só ouvisse o que era preciso. Mas foi muito difícil e continua sendo. De um ouvido ouço um tom diferente que do outro. Isso é terrível. De repente, o violino que deve tocar ao mesmo tempo que o piano os ouço com dois tons diferentes.

Folha – E o que acontece?

Aznavour : Eu me disciplinei. Passei a ouvir apenas o que quero ouvir, apenas o que tenho necessidade de ouvir. Mudei introduções, há instrumentos que tive que tirar pois não dava para mantê-los.

Folha – E quando você pretente parar de vez de cantar?

Aznavour : Quando eu tiver totalmente destruído. (Risos).

Folha – Quando você encerra essa turnê?

Aznavour : Não faço mais turnê. Para ir à América do Sul, sou obrigado a fazer uma viagem mais longa, não posso fazer duas cidades e voltar. Mas na França não faço mais turnê. Na Europa também não. Vou à Itália e volto. Vou à Alemanha e volto. Vou ao Oriente Médio e volto. Só viagens curtas e fáceis. As longas são difíceis. Volto da América do Sul no mês de maio e não trabalho até o mês de julho quando vou ao Québec para cantar um dia somente.

*Entrevista publicada originalmente na Folha de São Paulo de 11 de abril de 2008