segunda-feira, 13 de junho de 2011

Sartre X Lanzmann

Há gigantes e anões. Sartre era um gigante. Claude Lanzmann…

Ambos viveram com Simone de Beauvoir. Sartre foi para Beauvoir o que os dois filósofos definiram como « amour nécessaire ». Lanzmann foi um « amour contingent », amores passageiros, paralelos ao « necessário », que tanto Beauvoir quanto Sartre teorizaram e praticaram durante toda a vida.

Entrevistei Lanzmann para a Folha de São Paulo este ano. Ele vai participar da Flip e diz em sua biografia (Lebre da Patagônia, publicado no Brasil pela Companhia das Letras) que considera Sartre « le plus grand écrivain français ». Ele conta que quando foram a Israel, Sartre lhe disse que não queria nenhum encontro com « gente de uniforme ». « Nem mesmo do sexo feminino », recomendou o filósofo a Lanzmann, « propagandista quase oficial do Exército israelense », como ele mesmo se define (p. 313 da edição francesa) no seu livro.

Entre 1970 e 1974, Sartre deu entrevistas a John Gerassi. O livro acaba de sair e se chama Les entretiens de Sartre avec John Gerassi (Edições Grasset). De Claude Lanzmann, Sartre diz no livro : « Ele é um bom burguês que faz a apologia de Israel sem ver o que se passa com os pobres palestinos, expulsos de suas casas, sem indenização, seus filhos expulsos das escolas por estrangeiros armados até os dentes. Lanzmann vê os israelenses como vítimas do Holocausto. E para ele quem quer que critique a política israelense é antissemita ».

Até hoje Lanzmann faz parte do grupo de intelectuais judeus franceses que perseguem todos os que, como Eyal Sivan, ousam denunciar a colonização e o apartheid imposto aos árabes israelenses. Sivan é um cineasta judeu israelense, que morou na França e recebeu o prêmio de Roma, do Ministério da Cultura, em 1990. Foi professor na Sorbonne e fez Route 181, com o cineasta palestino Michel Khleifi, um documentário sobre Israel-Palestina. Entrevistei Sivan para o Jornal do Brasil quando seu filme foi lançado na França.

Sivan é um antissionista militante que denuncia a utilização política da memória do genocídio judaico durante a Segunda Guerra e prega a desobediência civil. Ele é um dos participantes da campanha de boicote a produtos israelenses vindos das colônias, chamada Boycott, désinvestissement et sanctions, que tem o apoio do bispo Desmond Tutu, prêmio Nobel da Paz, do embaixador Stéphane Hessel, autor do livro « Indignez-vous », dos escritores Tarik Ali, Eduardo Galeano, Arundhati Roy, dos cineastas Jean-Luc Godard e Ken Loach, entre muitos outros.

Por suas posições antissionistas Eyal Sivan sofreu ameaças de morte em Paris e deixou a França. Ele é colaborador assíduo da revista De l’autre côté, editada pela Union Juive Française pour la Paix.

Un bateau français pour GAZA

Dia 18 de junho um barco francês se juntará a outros na direção de Gaza. Un bateau français pour Gaza (www.unbateaupourgaza.fr) é uma iniciativa de 60 associações, sindicatos e partidos políticos, com o apoio de alguns políticos.

Na França, a defesa da criação do Estado Palestino é uma causa que reúne inúmeras associações, entre elas a Union Juive Française pour la Paix que milita por uma paz justa no Oriente Médio « sem ocupação, nem colônias, nem estradas de contorno, nem muros, nem barreiras militares (check points) nem mil e uma humilhações impostas aos palestinos e a quem quer visitar a Cisjordância e Gaza. Somente com uma paz justa poderemos romper a espiral da violência e do terror do terrorismo de Estado israelense ou do terrorismo dos grupos armados palestinos. O direito internacional e as resoluções da ONU devem se impor. A paz não é o apartheid à israelense. Saber viver é saber viver juntos”.

Democracia relativa - Estado étnico

O respeitado historiador israelense Ilan Pappé, professor de História e Diretor do Centro Europeu para Estudos Palestinos da Universidade de Exeter e autor de livros formidáveis, entre eles « Le nettoyage ethnique de la Palestine » (A limpeza étnica da Palestina) escreveu sobre a revolução egípcia no artigo Revolução no Egito é ruim para Israel : Israel é um lugar onde todos os generais que ordenaram o massacre de manifestantes palestinos e judeus contra a ocupação agora concorrem ao mais alto cargo, o de chefe do estado-maior das forças armadas.

Um deles é Yair Naveh, que deu ordens, em 2008, para matar palestinos suspeitos até mesmo quando eles podiam ser presos de maneira pacífica. Ele não vai para a cadeia, mas a jovem Anat Kamm, que tornou públicas essas ordens, enfrenta agora nove anos de prisão por revelá-las ao diário israelense Haaretz. Nenhum general ou político israelense passará um único dia na prisão por requisitar tropas para disparar contra manifestantes desarmados, civis inocentes, mulheres, velhos e crianças. A luz que irradia do Egito e da Tunísia é tão intensa que também ilumina os espaços mais escuros da "única democracia do Oriente Médio" [como Israel se autodenomina].

(…)

De um jeito ou de outro, o grito da Praça Tahrir é um aviso de que as falsas mitologias da "única democracia do Oriente Médio", do fundamentalismo cristão hardcore (muito mais sinistro e corrupto do que a Fraternidade Muçulmana), do lucro da cínica corporação das indústrias militares, do neo-conservadorismo e do lobby brutal não vão garantir a sustentabilidade da relação especial entre Israel e Estados Unidos para sempre ».

Tomara que ele tenha razão…

Outro historiador israelense, Schlomo Sand, professor de História na Universidade de Tel-Aviv escreveu uma carta aberta ao Ministro das Relações Exteriores Francês, Alain Juppé, publicada no jornal L’Humanité, o único jornal francês que cobre de forma equilibrada o conflito Israel-Palestina. O título já diz muito ; « Israel não pode ser reduzido a um Estado Judaico ». Na carta, o historiador diz : « Nenhum dirigente palestino responsável poderá reconhecer Israel como Estado judaico e hipotecar dessa forma os direitos fundamentais dos israelenses árabes (20% da população de Israel).

Em outro trecho de sua carta, Schlomo Sand escreve : « Imaginemos que Nicolas Sarkozy exija da comunidade internacional o reconhecimento da França como Estado gaulês-católico, isto é, etnorreligioso e não mais como a República francesa, a que reúne todos os franceses e francesas. Estou seguro de que a maior parte das pessoas compreenderia o objetivo do presidente e reprovaria, sem que seja necessário dizer mais nada ».

Segundo Sand, um Estado sob medida para uma comunidade étnica aliena uma grande parte de seus cidadãos. Ele termina a carta dizendo : « O futuro de Israel dependerá da criação de um Estado Palestino e o reconhecimento de Israel como Estado de todos os seus cidadãos constitui uma garantia para sua segurança e perenidade ».


Drummond, Quintana, Torres: um clube seleto

Antonio Torres entrou para o seleto clube do qual fizeram parte Mário Quintana e Carlos Drummond de Andrade, dois grandes poetas nunca eleitos para a Academia Brasileira de Letras. Quintana, porque foi preterido, perdendo para nulidades. Drummond por nunca ter querido apresentar a candidatura. Uma Academia capaz de eleger o general Aurélio de Lyra Tavares (membro da junta militar que governou por alguns meses antes da posse de Médici), « poeta » que se assinava Adelita, e José Sarney não era digno de recebê-lo, deveria cogitar Drummond com seus botões.

Otto Lara Resende, grande escritor e acessoriamente jornalista, querido amigo, foi eleito para a cadeira número 40 da Academia, em 1980. Ao morrer em 1992, a cadeira número 40 foi ocupada pelo novo eleito, o « jornalista » Roberto Marinho. Um amigo disse com propriedade: « O Otto é o único escritor eleito duas vezes para a Academia. A primeira vez por sua obra. A segunda, pelos discursos que escreveu para o « jornalista » Roberto Marinho”.

O « escritor » Roberto Marinho publicou em vida um livro, a coletânea de discursos (escritos pelo seu ghost-writer, conhecido pelo nome de Otto Lara Resende). Não conheço a obra póstuma deste « jornalista ». Vai ver que é fabulosa.

Leio os artigos de intelectuais sobre a morte de Jorge Semprun, grande intelectual, resistente ao nazi-fascismo, espanhol que fixou residência na França depois de voltar do campo de concentração de Buchenwald. Um grande humanista, como salientaram todos. Um grande escritor também, além de roteirista de cinema, tendo trabalhado com Costa-Gavras no roteiro de grandes filmes deste cineasta. Nunca foi eleito para a Academia Francesa, antro de reacionários, por « seu passado comunista ».

Preciso acrescentar algo mais ???


PERFIL *** O leitor

Maurice Nadeau, um século de vanguarda literária

RESUMO
Editor, crítico e historiador da literatura, Maurice Nadeau, ainda ativo aos 100, revelou talentos que vão de Henry Miller a Michel Houellebecq. Pioneiro ao publicar o marquês de Sade em 1947, disputou com Pauvert o título de editor moderno do pornógrafo e tornou-se desafeto de André Breton, líder dos surrealistas.

LENEIDE DUARTE-PLON

NO APARTAMENTO do Quartier Latin em que vive desde a década de 40, Maurice Nadeau tem por companhia solitária o gato preto Grisbi. O espaço, grande e claro, é pequeno para os livros, que se esparramam por todos os cômodos. Nas estantes, distingue-se praticamente tudo o que foi publicado na Bibliothèque de La Pléiade, coleção do cânone francês editada desde os anos 30. A profusão de volumes é a fatura de cem anos de vida deste jornalista, escritor, crítico e editor, completados no último dia 21.
Para marcar a data, o mundo intelectual parisiense programou um sem-fim de homenagens àquele que apresentou aos franceses Henry Miller, Malcolm Lowry, Roland Barthes, Samuel Beckett, Georges Bataille, Georges Perec, Jack Kerouac, Raymond Queneau, Claudio Magris e Michel Houellebecq.
Comecemos pelo fim da lista de serviços prestados à literatura. "Houellebecq é um artesão de talento, preocupado em aparecer e ser conhecido", diz Nadeau, que apostou, em 1994, no jovem desconhecido. Houellebecq havia recebido negativas de várias editoras e lhe fez a corte durante meses, até convencê-lo a publicar seu primeiro romance, "Extensão do Domínio da Luta" [Sulina, trad. Juremir Machado da Silva, 142 págs., esgotado]. "Ele sabe contar histórias num estilo sem enfeites, sóbrio, que, no fundo, não me desagrada", comenta.
Apesar de o livro mais recente de Houellebecq, "O Mapa e o Território" (a ser lançado no Brasil em junho, pela Record), ter recebido em 2010 o Goncourt, o mais cobiçado dos prêmios literários franceses, a obra não convence seu primeiro editor: "Não vejo no livro a verdade de uma vida interior da qual nos falava Walter Benjamin. Há temas interessantes, engraçados, mas um pouco fáceis, que cedem à moda de ser contra tudo". A franqueza de Nadeau é proverbial.
"Maurice é um leitor. Sua vida, feita de austeridade, concentração e modéstia, é a vida de um leitor. A leitura é quase um vício para ele, que partilhou conosco a maior parte das descobertas na literatura do século 20, publicando, analisando e dissecando textos do mundo inteiro.
Ele não quer saber da origem nem da história pessoal do escritor. O que lhe interessa é o texto", diz a escritora e jornalista Laure Adler, que lançou "Le Chemin de la Vie" (o caminho da vida), livro de entrevistas com Nadeau.
No rol de eventos dedicados a ele, houve espaço para dois documentários: "Maurice Nadeau, Révolution et Littérature", de Gilles Nadeau e Alain Poulanges, e "Maurice Nadeau, Le Chemin de la Vie", de Ruth Zylberman.
Realizado por seu filho Gilles, o primeiro trata do engajamento do intelectual na Resistência ao nazismo, numa célula trotskista, além de se debruçar sobre sua passagem pelo jornal "Combat" como crítico literário. O segundo é um retrato do incansável caça-talentos.

UÍSQUE NA REDAÇÃO A idade provecta não parece pesar sobre o corpo alto e vigoroso de Nadeau. Ele continua a caminhar empertigado e faz passeios semanais no jardim de Luxemburgo, a dois passos de seu apartamento.
Durante a manhã, lê os manuscritos que lhe enviam. À tarde, num andar com vista para o museu Georges Pompidou, trabalha na revista "La Quinzaine Littéraire", que fundou em 1966, e em sua editora. A reunião de pauta acontece às quartas, às 18h, embalada a goles de uísque ""os mais sisudos optam por água mineral Perrier e suco de laranja.
Na "Quinzaine Littéraire", escreve, sem remuneração, a fina flor da intelectualidade francesa. A revista, sem publicidade, vive da fidelidade de seus assinantes. Os colaboradores estrelados sabem que são eles que acumulam prestígio ao deitar críticas nas páginas da "Quinzaine", e não o contrário. As estatísticas hiperbólicas construídas ao longo da carreira (40 mil artigos publicados na "Quinzaine", 500 livros editados, 66 anos de edição) não arrefecem o ânimo de Nadeau, que ignora planos de aposentadoria.
"Poderia ter parado há 40 anos, mas sei que já estaria morto", diz. A descoberta mais recente é Yann Garvoz, jovem canadense que qualifica como "Sade moderno".

SADE Aliás, de Sade Maurice Nadeau entende. Foi ele que, em 1947, retirou o "divino marquês", como o chamam os franceses, do Inferno, a protegidíssima seção de livros eróticos e pornográficos da Biblioteca Nacional.
Durante meses, o editor foi lá copiar textos de Sade, até ter a obra pronta para publicação. "Quando publiquei a antologia de textos filosóficos de Sade, ela foi retirada das livrarias na França. Depois disso, Sade se tornou um autor lido e conhecido", gaba-se Nadeau.
A amizade ""logo degenerada em rivalidade"" com o editor Jean-Jacques Pauvert veio justamente do interesse de ambos pelo escritor, então proscrito.
Salomônica, a cronologia que consta da edição Pléiade das obras completas de Sade menciona, no mesmo ano (1947), a publicação de uma antologia por Nadeau e o início da edição das obras completas por Pauvert.
Além disso, os antagonistas figuram entre os especialistas consultados para a realização do trabalho da Pléiade.
Numa entrevista ao jornal "Le Monde" em 2006, ao ser questionado sobre inimigos, Nadeau respondeu: "Tenho um, Jean-Jacques Pauvert. Mas não sei mais por quê, e ele provavelmente também não".
Outro amigo que virou desafeto foi o poeta André Breton, autor dos "Manifestos do Surrealismo".
Conhecido por seu narcisismo e descontente com a "História do Surrealismo" publicada em 1945 por Maurice Nadeau ""que provavelmente não a escreveu tão bem como ele próprio teria feito"", Breton não esconde seu prazer em demolir Nadeau no artigo "Flagrant Délit" (flagrante delito), de 1949. Nele, o teórico espezinha um erro do então crítico de "Combat", que pensara ter descoberto um poema original de Rimbaud. Quem conta o episódio é Pauvert, em suas memórias. Nadeau anunciava com "falsa modéstia" a novidade: o manuscrito da obra perdida mais célebre de Rimbaud, "La Chasse Spirituelle" [a caça espiritual], teria sido encontrado.
Estava com Pascal Pia, diretor de "Combat". A notícia gerou comoção no meio intelectual francês.
Havia, porém, quem questionasse a autenticidade. O erro de avaliação de Nadeau é chamado por Pauvert de "impostura". E Breton, ao denunciar o pastiche, identificado posteriormente como obra de dois jovens comediógrafos, vingava-se do antigo companheiro trotskista e de sua versão da história do surrealismo.
Vinte e cinco anos depois, ao tomar conhecimento da intenção de Pauvert de reeditar o artigo demolidor de Breton, Nadeau teria suplicado a ele que abortasse o projeto. "É preciso levar em conta a inacreditável ingenuidade de Maurice Nadeau [...] Como pôde pensar que eu censuraria Breton em favor dele?", alfineta Pauvert.
"Apesar de não ter mudado nem sequer uma linha, Breton autografou para mim uma reedição dos
Manifestos do Surrealismo', enfatizando sua viva estima, que em outros tempos foi amizade'", contemporiza Nadeau.
Sem querer, do meio de seu anedotário Nadeau pinça um episódio que corrobora a imagem inocente colada nele por Pauvert. Conta o editor que, certa vez, dois homens entraram em sua casa, num intervalo de minutos.
Um se apresentou como funcionário da prefeitura de Paris; outro, como policial à caça de um bandido. Por obra de uma mise-en-scène exemplar, os golpistas conseguiram levar dinheiro e pertences do dono do imóvel.

PREJUÍZO Convidado em 1953 por René Julliard, Maurice Nadeau se integrou às Editions Julliard, onde passa a dirigir a revista "Les Lettres Nouvelles" (novas letras), além de uma coleção literária. Depois, vieram as editoras Denoël, Laffont e, por fim, as edições Le Sycomore/Maurice Nadeau.
Seja como assalariado de casas de prestígio, seja à frente de sua própria empresa, Nadeau tem por norma só publicar autores que lhe agradem. A tradução financeira desse rigor era prejuízo para os patrões.
"Julliard sabia que perdia dinheiro com meus autores, mas que a editora ganhava uma aura intelectual", diz. "Meus patrões editores sempre perdiam dinheiro. Acabavam me mandando embora depois de algum tempo." Como escritor, Nadeau também teria do que se orgulhar: seu "Gustave Flaubert Écrivain" ganhou o prêmio da crítica literária em 1969; anterior, "História do Surrealismo" (1945) é referência na matéria, apesar das críticas de Breton. "Ele é um escritor completo, como os melhores que edita", escreveu o italiano Claudio Magris, no número especial da "Quinzaine" dedicado ao centenário de seu fundador.
Longe das letras, o jornalista viveu a experiência da clandestinidade na Resistência e escapou por pouco de ser preso pela Gestapo. As convicções trotskistas não se esvaíram com o fim da guerra. Ele segue votando na esquerda e se entusiasmou com as recentes revoltas no mundo árabe: "Teocracia e democracia é uma rima impossível. O mais interessante nas revoluções tunisiana e egípcia é que tudo veio do povo, da base. Não foi algo dirigido nem mesmo pelos intelectuais".
Na língua de Maurice Nadeau, maturidade e idealismo dão um jeito de rimar.

O jornalista escapou por pouco de ser preso pela Gestapo. As convicções trotskistas não se esvaíram com o fim da guerra

Durante a manhã, lê os manuscritos que lhe enviam. À tarde, trabalha na "Quinzaine Littéraire", fundada por ele em 1966

Em 2006, ao ser questionado sobre inimigos, Nadeau disse: "Tenho um, Jean-Jacques Pauvert. Mas não sei mais por quê"

*** Publicado na Ilustríssima da Folha de São Paulo em 12 de Junho de 2011



sexta-feira, 10 de junho de 2011

Anne Sinclair, Amélia à la française, uma mulher fálica

Ela foi um dos rostos mais conhecidos da França, apresentadora do programa de entrevistas políticas 7 sur 7, de 1984 a 1997. Atualmente, é o centro de interesse de alguns psicanalistas franceses e do grande público, que se pergunta o que lhe passa no coração e na mente.

Anne Sinclair, 62 anos, nascida Anne-Elise Schwartz, deve ser a chave do mistério Strauss-Kahn. « Ela é uma mulher fálica », diz um psicanalista. Segundo a imprensa, o desejo da presidência vinha dela. Dominique Strauss-Kahn realizou (se realmente cometeu o estupro) um ato de libertação de uma campanha que inconscientemente não queria viver, diz outro psicanalista, cometeu um suicídio simbólico, pondo fim a sua carreira política quando sua popularidade estava no auge e era apontado como o melhor candidato do Partido Socialista para vencer Sarkozy em 2012. Antes do « affaire », Anne Sinclair declarara a um jornal que « a França está madura para eleger um presidente judeu » (como ela, neta do marchand Paul Rosenberg, herdeira de uma fabulosa fortuna, contada em bilhões de euros, posta a serviço da carreira do marido e que serve hoje para protegê-lo na difícil situação em que se encontra).

Anne Sinclair escreveu no seu blog, em 2008, depois que o affaire de DSK com a economista húngara do FMI foi desqualificado como abuso de poder na investigação interna do órgão : « Isto foi um affaire de uma noite, já viramos a página e nos amamos como no primeiro dia ». Antes dela, Hillary Clinton também aprendeu a engolir sapos e virar páginas na vida com Bill. Anne Sinclair se diz « blindada para o poder do boato ».

Veremos se o casamento vai resistir depois de passado o furacão do processo.

O tsunami – DSK é de esquerda ?

O « affaire » DSK foi como um tsunami, cuja violência é difícil de avaliar por quem não mora na França. Nesta segunda, todos pararam para ver e ouvir ao vivo o desenrolar do processo. Antes do affaire, Strauss-Kahn era o melhor colocado entre os políticos do Partido Socialista para derrotar o atual presidente Sarkozy na eleição de 2012. Pelas pesquisas, ganhava folgadamente no primeiro e no segundo turno, se a eleição fosse antes da semana fatídica. Ele era uma espécie de messias ansiosamente esperado que ao declarar sua candidatura e deixar o FMI em junho iria reunir as forças de esquerda em torno do projeto socialista. No segundo turno, DSK mandaria Sarkozy de volta para casa com sua mulher e o violão. Carla iria cantar em outra freguesia, não mais nos salões dourados do Elysée.

O sonho presidencial de Strauss-Kahn não era mais segredo para ninguém. De passagem por Paris em abril, encontrou-se com jornalistas para conversas em off nas quais admitia claramente sua próxima saída do FMI. Mas pairava uma dúvida. Antes da hecatombe, nos debates políticos, jornalistas e políticos de esquerda costumavam fazer a pergunta : « Dominique Strauss-Kahn é de esquerda ? » Os socialistas próximos de DSK não tinham dúvidas. Já Jean-Luc Mélanchon (criador do Parti de Gauche), como outros (inclusive a autora deste blog), tinha a resposta : um homem que aceita dirigir o FMI, com a imposição pelo órgão de políticas restritivas para os assalariados, aperto de cinto para os mais fracos, não pode mais ser considerado de esquerda.

O que é ser de esquerda ? Vou ficar sabendo o que dizem alguns intelectuais e políticos sobre o tema quando for ver o filme lançado esta semana em Paris. Après la gauche é do cineasta Jérémy Forni e nele políticos e intelectuais como Susan George, Lionel Jospin, Antonio Negri, Bernard Stiegler, Eric Hazan, Jean Ziegler, Robert Castel, Edwy Plenel, entre outros, debatem o que é a esquerda hoje, depois do desaparecimento da URSS e da recente crise financeira.

O que se passou na suite 2806 dia 14 de maio ? Por coincidência, 28/06 era a data limite que os candidatos do PS têm para depositar as candidatura às eleições primárias que indicarão o representante do partido em 2012. Um detalhe que mostra que, muitas vezes, a realidade pode ser mais intrigante que a ficção…

Se fosse na França, um « affaire » como esse nunca seria do conhecimento público, sustentam alguns. A polícia francesa trataria de abafar o caso, o poderoso (fosse americano, francês ou russo) partiria em paz e a « femme de chambre » se calaria para sempre. Jornalistas, sociólogos e feministas enfatizam que muitos outros casos escandalosos (envolvendo DSK ou outros personagens) eram do conhecimento dos jornalistas e nunca chegaram ao público. O affaire DSK mudou para sempre o panorama político francês. Um novo caso, desta vez envolvendo o ministro e prefeito de Draveil, Georges Tron, mistura abuso de poder e assédio sexual. O ministro se demitiu (pressionado pelo Eliseu). Esse afastamento imediato, logo depois da denúncia, é a prova de que nunca mais o mundo político francês será o mesmo. Detalhe : aqui na França existe o que se chama cumul des mandats : um ministro pode ser prefeito, deputado e ministro e exercer ao mesmo tempo as três funções. Ou apenas duas delas, deputado e prefeito, como dezenas deles.

Entre as dezenas de piadas em torno do affaire DSK, duas são publicáveis :

O filme sobre a campanha de Sarkozy para presidente, lançado em Cannes, se chama « La conquête du pouvoir » (A conquista do poder). O filme sobre DSK vai se chamar « La quéquette du pouvoir » (quéquette é uma gíria para o órgão sexual masculino). Por associação, me vêm à mente outras palavras que designam o órgão sexual masculino e são todas femininas. « Bizarre », diria minha amiga Françoise…

Outra piada diz que DSK « confundiu as primárias com as preliminares ». Em francês, há uma rima rica (Il a confondu primaires avec préliminaires…).

Abaixo, o texto que escrevi para o Observatório da Imprensa sobre o mea-culpa da imprensa francesa, acusada por muitos de « omertà » pois o diretor-geral do FMI carregava uma série de histórias conhecidas no meio jornalístico.

Caso Strauss-Kahn - A omertà da imprensa francesa

Leneide Duarte-Plon, publicado no Observatório da Imprensa de 25/5/2011

Por que os jornalistas franceses se calaram tanto tempo? A imprensa deve publicar tudo o que os jornalistas sabem sobre a vida privada dos políticos? Onde termina a vida privada e onde começa a vida pública? Por que a imprensa francesa nunca comentou as histórias de donjuanismo de Dominique Strauss-Kahn, o ex-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional?

Excetuando-se o caso que ele teve com uma economista do FMI, denunciado por um jornal americano e investigado pelo Fundo para ver se era o caso de afastar ou não o então diretor por assédio sexual, na França ninguém ousava escrever sobre o Don Juan que assediava jornalistas e colegas de trabalho. Com a tese de que a relação foi consensual, o FMI fechou aquela página e os socialistas se preparavam para apostar no brilhante economista para representá-los na eleição presidencial de 2012. DSK era o preferido da esquerda contra Sarkozy.

No entanto, le tout Paris jornalístico conhecia a fama de sedutor e mesmo de libertino (libertin, em francês, aquele que vive uma sexualidade livre, sem entraves, como os libertins do século 18) do personagem. Por que todos se calaram todo tempo?

Acusados pela imprensa internacional de timidez na melhor das hipóteses, incompetência e conivência na pior, os jornalistas franceses responderam com horas e horas de discussão, páginas e páginas de artigos tentando se justificar nos jornais, revistas semanais e programas de debates na televisão e no rádio. O jornal Le Monde publicou, entre outras, duas páginas exclusivamente de artigos sob o título geral "O papel da mídia no affaire DSK", seguido do subtítulo "Os jornalistas praticaram a ormetà em relação a Dominique Strauss-Kahn? Houve conivência entre os jornalistas e DSK?"

Num dos artigos, o jornalista Nicolas Beau relembra que seus colegas praticaram a omertá por 14 anos, escondendo da opinião pública francesa o que sabiam: que o então presidente da República François Mitterrand tinha uma filha fora do casamento; que a protegia às custas do contribuinte francês (com um esquema de segurança); e da cumplicidade dos jornalistas, impedidos de publicar a história por respeito à lei que reza que "todo cidadão tem direito ao respeito de sua vida privada".

Os jornalistas sabiam das relações extraconjugais dos presidentes Giscard d’Estaing e Jacques Chirac, e nunca uma linha sequer saiu nos jornais durante os respectivos mandatos. A mulher de Chirac mencionou as relações extraconjugais do marido em um livro de entrevistas a Patrick de Carolis, publicado quando ele ainda estava no poder.

Só até a porta do quarto

"A informação pára na porta do quarto de dormir", escreveu o semanário Le Canard Enchaîné em seu editorial do primeiro número depois do "affaire DSK. O jornalista Franz-Olivier Giesbert, diretor da revista Le Point defende a tese de que como não havia nenhum caso de delito, a imprensa não tinha que investigar a vida sexual de Dominique Strauss-Kahn, assim como não tem de investigar a vida de quem quer que seja.

A exceção à lei do silêncio foi o jornalista de Libération, Jean Quatremer, que escreveu no seu blog em 2007, logo depois da nomeação de Strauss-Kahn para a direção do FMI: "O único problema de Strauss-Kahn é sua relação com as mulheres. Apressado, ele beira frequentemente o assédio. Uma fraqueza conhecida da mídia, mas da qual ninguém fala..."

O único que teve a coragem e a audácia de comentar, em 2009, com um humor cáustico, a fama de Don Juan do então diretor do FMI foi o humorista Stéphane Guillon, numa crônica que fazia diariamente na estação de rádio France Inter. As alusões e os trocadilhos do genial texto de Guillon desagradaram ao poderoso DSK. Entrevistado ao vivo poucos minutos depois da crônica, Dominique Strauss-Kahn demonstrou seu descontentamento no ar. Poucos dias depois, o humorista foi demitido da rádio, uma das estações que fazem parte da estatal Radio France. A demissão provava que para o poderoso DSK "jornalista bom é jornalista calado".

A quem compreende o francês sugiro o vídeo de Stéphane Guillon lendo sua crônica (gravado ao vivo) e a reação de DSK

http://www.liberation.fr/medias/0101320078-comment-stephane-guillon-a-ulcere-dsk-sur-france-inter

Neste link

Pressões da assessoria

No livro Sexus politicus, lançado em 2006, que analisa a sexualidade dos políticos franceses, os jornalistas Christophe Deloire e Christophe Dubois escreveram um capítulo dedicado a DSK e nele mencionavam, sem dar o nome dela, o caso da jornalista Tristane Banon, com quem Strauss-Kahn marcou um encontro para uma entrevista. Ao chegar, a jovem descobre que o apartamento é uma garçonnière com um sofá e uma cama como únicos móveis. Tristane contou que DSK tentou estuprá-la. Esse caso era conhecido de inúmeros jornalistas – que fizeram um silêncio ensurdecedor. O advogado da jornalista justifica: "É aterrorizador se opor a alguém como Dominique Strauss-Kahn".

Depois do atual affaire, o Libération lembrava que El País publicara um artigo de seu correspondente em Paris no qual atribuía a Sarkozy a recomendação feita a DSK, em 2007, logo depois de sua nomeação para o FMI: "Cuidado, nos Estados Unidos não se brinca. Evite entrar sozinho num elevador com uma estagiária. Você sabe de que eu estou falando. A França não pode se permitir um escândalo".

Na Itália, o jornal do irmão de Berlusconi, Il Giornale, atacou duramente os franceses num editorial: "Strauss-Kahn era de fato um homem doente que não foi impedido a tempo, pagando paradoxalmente pela sutil hipocrisia de uma França onde a imprensa não hesita em dar lições de transparência e moralidade aos outros, mas que diante de seus poderosos – seja Strauss-Kahn ou Sarkozy – se mostra extraordinariamente covarde. Covarde até a omertà".

O Times de Londres escreveu que os "britânicos podem ser pudicos em relação ao sexo enquanto os franceses são fascinados pelos sedutores políticos". Para o diário britânico, o escândalo DSK pode ser visto "como o machismo no banco dos réus, a cultura francesa do segredo que considera que ser mulherengo faz parte de uma longa tradição francesa: liberté, égalité, infidélité".

Na Newsweek, Michelle Goldberg escreveu que o silêncio da imprensa francesa que protegia DSK lembra uma conspiração para permitir a um homem poderoso a exploração de mulheres desprotegidas. "E os defensores de Strauss-Kahn, entre eles o eminente Bernard-Henri Levy, aparecem não como humanistas refinados, mas como membros de um clã de personalidades narcísicas dotadas de um sentimento desmesurado de que tudo lhes é permitido".

Os escrúpulos dos jornalistas não se limitavam aos escândalos sexuais de DSK. A omertà funcionava em todos os níveis. Quando o jornal France-Soir revelou – poucos dias antes do escândalo de Nova York – que os ternos de DSK custavam até 30 mil dólares, feitos pelo mesmo alfaiate de Barack Obama, em Washington, a agência France Presse confirmou a informação, mas a jornalista que fez a investigação sofreu todas as pressões imagináveis dos marqueteiros que cuidam da imagem do ex-chefe do FMI.

Todos iguais perante a Justiça ?

O campeão da democracia Bernard-Henri Lévy mostrou-se indignado pelo fato de DSK ser tratado pela Justiça americana como um cidadão como outro qualquer. Ora, para ele, a Justiça americana deveria tratar o então diretor-geral do FMI com as honras devidas aos poderosos e não como um cidadão comum. Afinal, a Justiça Americana é cega? Resposta a partir desta semana…

Árvore da vida, o garoto da bicicleta e Godard

Tree of life, de Terence Malick, Palma de ouro do festival de Cannes deste ano é um poema filosófico. Não agradou unanimemente à crítica francesa, dividida entre os que consideram Malick e o filme absolutamente geniais (com os quais concordo) e os que não se entusiasmam ou são imunes ao filme. Malick tem um currículo de pasmar : é filósofo, formado em Harvard e professor do MIT. Além do mais, é o contrário do mundo do show-business que faz tudo para aparecer. Para eles, aparecer é existir.

Já Malick não se deixa fotografar nem dá entrevistas. Estava no Festival de Cannes mas ninguém o viu, não apareceu nem mesmo para receber o prêmio. Seus amigos justificaram : Terence é tímido. O cineasta é simplesmente um homem genial, um intelectual discreto, o oposto da gente do show business onde a maioria faz tudo para aparecer.

Le gamin au vélo dos irmãos Dardenne é outro filme de Cannes (Grand Prix deste ano) que deve ser visto. O menino do filme é um ator de grande talento, o roteiro é vigoroso, os diálogos despojados. Tudo é justo e necessário na narrativa do drama humano de um menino rejeitado pelo pai. Uma aula de como fazer cinema sem « bavardage » e sem psicologia.

Vivre sa vie, de Jean-Luc Godard, de 1962, com Anna Karina com 22 anos e já uma atriz premiada no festival de Berlim, em 1961, por seu trabalho em Une femme est une femme, também de Godard, volta a Paris em nova cópia. No seu quarto filme, o cineasta, revelado no genial A bout de souffle (Acossado) mostra mais uma vez que faz cinema para inventar e subverter normas e regras da sétima arte. A forma é revolucionária, personagens filmados de costas, dialogam por longos minutos e o espectador os vê, quando muito, no reflexo do espelho do café. Econômico nos diálogos, o filme consolidou o prestígio de Godard e é uma declaração de amor a Anna Karina, então sua mulher. A câmera de Godard é totalmente apaixonada pela atriz que está no apogeu de sua beleza. Na sessão de sábado à tarde, no Quartier Latin, o fotógrafo François-Marie Banier (o queridinho de Liliane Bettencourt, a dona da L’Oréal) fazia fotos da fila antes de entrar para (re)ver o filme.

Depois de se separar de Godard, Anna Karina atriz trabalhou com outros diretores consagrados, escreveu quatro romances, gravou discos e dirigiu o filme Victoria, em 2008.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Leslie Caron e o sonho de Hollywood // Strauss-Kahn e o pesadelo novaiorquino

Com quem você teve mais prazer em dançar, com Gene Kelly ou com Fred Astaire ? Essa pergunta só pode ser respondida por uma atriz viva depois da morte da maravilhosa Cyd Charisse. A francesa Leslie Caron, 80 anos, explica a diferença entre dançar com um e com o outro, ambos geniais. Ela era a entrevistada nesta sexta do programa das 8 da manhã da rádio France Culture, um must que nos antena com o mundo da política e da cultura.

Caron acaba de lançar um livro de memórias e sua passagem por Hollywood é um dos pontos fortes da obra, na qual ela traça perfis precisos e deliciosos (segundo os jornalistas que leram o livro) de atores, diretores e atrizes com quem trabalhou. Uma grande dama na vida real que alia discrição à classe. A adorável francesinha de « Lili », « Gigi » e « Um americano em Paris » mora hoje em Villeneuve-sur-Yonne onde tem um restaurante de cozinha tradicional chamado « La Lucarne aux chouettes ».

Uma delícia de entrevista para começar o dia e variar do pesado noticiário político em torno do provável estupro novaiorquino que sacode a França, para deleite da direita (que comemora em silêncio) e desolação dos amigos de Dominique Strauss-Kahn, que o defendem como se a vítima fosse ele. Quem se interessar em ler uma das críticas dessa postura pode ler no link do Nouvel Observateur ou no Le Monde :

http://tempsreel.nouvelobs.com/actualite/politique/20110520.OBS3587/les-anglo-saxons-ec-ures-par-ces-intellectuels-qui-defendent-dsk.html ou

http://www.lemonde.fr/dsk/article/2011/05/20/affaire-dsk-bernard-henri-levy-defend-sa-classe-sociale_1524692_1522571.html#ens_id=1522342

O americano Jonah Goldberg criticou na National Review : « Enquanto Bernard-Henri Levy se escandaliza que uma camareira possa levar ao tribunal um “grande” homem como Dominique Strauss-Kahn por uma agressão sexual, eu me sinto orgulhoso de viver num país onde uma faxineira pode desalojar um dirigente internacional de um avião que vai decolar para Paris ».

Matt Welch, editor da revista Reason, chama BHL de « miliardário narcisista de camisa desabotoada », referindo-se ao look do « filósofo » francês que adora aparecer. Um dos editorialistas do The Economist o define como « o autor do pior livro já escrito sobre os Estados Unidos (American Vertigo) e o critica por louvar os méritos de DSK sem pensar na mulher que se diz vítima de agressão sexual.

Na França, segue-se o noticiário em torno de DSK como uma novela, que aqui não existe. Nunca os jornais venderam tanto, nunca se viu tanto jornal de televisão quanto na semana que passou. Os noticiarios da TV entram com os correspondentes ao vivo, abrindo espaço até mesmo em programas como o Grand Journal de Canal Plus, feito diretamente de Cannes durante o festival. Nas ruas, nos cafés, nos escritorios, DSK e seu pesadelo novaiorquino é o assunto de todas as conversas. Uma pesquisa informa que 57% dos franceses ouvidos pensam que ele caiu numa armadilha.

O grande debate na imprensa francesa se dá em torno da lei de proteção à vida privada, um álibi para os jornalistas que nunca investigaram as histórias de assédio sexual que circulam há anos entre jornalistas e políticos envolvendo o mesmo personagem : Dominique Strauss-Kahn. Os jornalistas franceses foram coniventes com o sedutor brilhante e poderoso ou foram, de certa forma, cumplices de um predador sexual?

Midnight in Paris – Para Allen, festa em Paris é eterna

Woody Allen tinha perdido um pouco a inspiração depois do genial Match Point. Com Midnight in Paris (Minuit à Paris) ele volta à melhor forma, realizando um filme inteligente, leve, engraçado. Um prazer da primeira à última cena. A cidade mais bonita do mundo, que nas entrevistas Allen coloca em pé de igualdade com Nova York, aparece em todo seu esplendor, como um personagem em si. O personagem principal, o alter ego de Allen, vive uma espécie de conto de fadas que começa quando o relógio soa as 12 badaladas. Na excelente trilha sonora (não esqueçamos o bom gosto de Woody Allen, que além do mais é músico) uma surpresa: "Recado", música brasileira da década de 50, com tratamento jazzístico.

O roteiro é genial e o filme simplesmente delicioso, com piadas antológicas. Fui ver logo que foi lançado, durante o festival de Cannes, e vou aproveitar o primeiro momento de folga para rever. Com o festival, os lançamentos de bons filmes se acumulam e Terence Malick me espera.

MITTERRAND, 30 ANOS DEPOIS – O legado político e segredos de família

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris

*Publicado no Observatório da Imprensa em 17/5/2011

A abolição da pena de morte foi obra dele. A reconciliação com a Alemanha (quem não lembra da emblemática foto de mãos dadas com Helmut Kohl?), também. A quinta semana de férias para os trabalhadores, o imposto sobre as grandes fortunas, as nacionalizações, a pirâmide do Louvre, o arco de La Défense, a Bibliothèque National de France, as 39 horas de trabalho semanais, a aposentadoria aos 60 anos, o salário mínimo social a todos os necessitados, Revenu minimum d’insertion, consagrado pela sigla RMI.

A herança de Mitterrand é colossal e ajudou a forjar o mito do "único presidente de esquerda da Quinta República", "beatificado" pelos socialistas durante as comemorações dos 30 anos de sua eleição, neste 10 de maio de 2011, alguns dias depois da beatificação de João Paulo II. Pelo estilo de governar, pelo gosto do poder e pela autoridade natural que lhe era imputada, o socialista foi chamado por uma certa imprensa francesa de direita de "Mitterramsés" (a pirâmide do Louvre ajudou a aproximação com os faraós).

Mas a eleição de Mitterrand na Union de la Gauche, forjada com os comunistas, também ocasionou uma fuga de capitais fenomenal, que ameaçou o franco francês e o novo governo então recém-instalado no Palácio do Eliseu. No Libération, o trabalhista britânico Denis MacShane conta que no dia seguinte, 11 de maio de 1981, tomou o avião de volta a Londres cercado de homens de negócios parisienses que seguravam nervosamente as pastas 007, apavorados com a chegada da esquerda ao poder. "No avião, havia pelos menos 10 bilhões de francos que deixavam a França", diverte-se trinta anos depois MacShane.

Prognóstico errado

Os 30 anos da chegada ao poder do presidente socialista, um chefe de Estado de estatura inegável, homem de cultura extraordinária, foram comemorados na mídia com suplementos especiais nos jornais de esquerda, como Libération e Le Monde, e documentários exibidos na televisão. Os que não viveram a era Mitterrand não têm do que se queixar. A eleição do presidente que trouxe a esquerda ao poder e nomeou ministros comunistas (o que inquietou enormemente Ronald Reagan e seu vice-presidente George Bush, assim como Margaret Thatcher) foi rememorada com uma avalanche de festas e encontros, mas sobretudo de textos e análises na imprensa escrita.

Le Monde constatava na manchete do número datado de 10 de maio que "Mitterrand volta a ser o ícone da esquerda" 30 anos depois de sua eleição. E, como homenagem, presenteou os leitores com um suplemento de 16 páginas, réplica exata das páginas que analisaram e noticiaram a eleição de 10 de maio de 1981. Um deleite para colecionadores. Naqueles tempos, o jornal não publicava fotos e na primeira página a única imagem é de Pierre Mendès-France, na publicidade da biografia escrita por Jean Lacouture. Uma frase de Mendès-France remete sutilmente ao fato do dia: "Toda política não é suja. Toda ação não é vã."

Na noite de comemorações, depois do telejornal da noite, o canal France 2 fez uma homenagem que começou às 20h35 e entrou pela madrugada. Changer la vie-Mitterrand 1981-1983, de Serge Moati, cineasta que foi assessor do presidente para assuntos de audiovisual e depois dirigiu o canal público France 3, abriu a série de três filmes em torno do presidente.

Em Changer la vie, que pertence ao gênero que os franceses chamam de docufiction, pois mistura imagens de arquivo com cenas reais vividas por atores, Moati reconstitui sua relação com o presidente e os principais fatos de seu governo, inclusive o câncer, diagnosticado pouco depois da eleição de 1981 e do qual os franceses só tomaram conhecimento dois anos antes de ele deixar o poder, em 1995. No excelente docufiction, o médico que diagnosticou o câncer de Mitterrand lhe anuncia a doença e responde ao presidente com um prognóstico de seis meses e um ano de vida. Era 1981. Ele sobreviveu quase 15 anos, até 8 de janeiro de 1996.

Os "segredos de família"

O segundo filme, François Mitterrand à bout portant – 1993-1996, é um excelente documentário que reconstitui os quatro últimos anos da vida do presidente, o suicídio do ex-primeiro-ministro Pierre Bérégovoy e a obsessão do presidente em resistir à doença para terminar seu segundo mandato.

O terceiro programa da noite dos 30 anos da vitória socialista, François Mitterrand-Secrets de famille, foi o único que tratou da vida pessoal de Mitterrand. O programa dedicou uma longa reportagem à vida dupla que o presidente levou por mais de vinte anos dividindo seu tempo entre a mulher Danielle e a amante Anne Pingeot. Da relação com Anne, o presidente teve uma filha, Mazarine, revelada por Paris Match pouco antes de sua morte.

As cenas do enterro com as duas famílias reunidas foram vistas no mundo inteiro e impressionam pela dignidade das duas mulheres que partilharam a vida do grande político. Os filhos contaram como a família viveu a duplicidade do presidente, reconstituíram as dificuldades da organização da visita de Danielle após a morte do marido, que passou os últimos meses de vida pós-Eliseu com Anne e sua filha, num apartamento funcional do governo francês.

Depois de revelados por Paris Match, os "segredos de família" foram tema de livros e reportagens, mas nunca tinham sido contados em imagens pelos próprios filhos do presidente. Mazarine e seus irmãos, Jean-Christophe e Gilbert, relatam como viveram ao lado desse pai que fez tudo para manter em segredo a existência da outra família. Discretas, Danielle e Anne Pingeot só aparecem em fotos e imagens de arquivo.

Impopularidade de Sarkozy

Ao contrário do que se passaria numa sociedade puritana, como a americana, a vida dupla de Mitterrand não arranhou em nada sua imagem para a posteridade. No país de Voltaire, os jornalistas sempre respeitaram a vida privada dos políticos e os jornais não tratam das histórias de alcova de seus dirigentes, mesmo se le tout Paris conhecesse as histórias galantes de Giscard d’Estaing, de Mitterrand e de Chirac.

Mas isso foram outros tempos. Sarkozy chegou ao poder, começou a expor sua vida privada em conversas e em passeios ostensivamente públicos, iniciando a queda vertiginosa nas pesquisas. Mas este exibicionismo chocante foi apenas um dos motivos do atual fenômeno de impopularidade presidencial nunca vista.

Emmanuel Carrère - O romancista da realidade

*Publicado na Folha de São Paulo em 09-04-2011

Leneide Duarte-Plon, de Paris

O último livro do escritor, cineasta e roteirista francês Emmanuel Carrère, 54 anos, Outras vidas que não a minha (Alfaguara Brasil) foi um extraordinário sucesso de crítica e de vendas na França, em 2009. O tsunami que Carrère presenciou no Sri Lanka, em 2004, é um dos panos de fundo do livro, que ele não chama de romance. Os personagens principais são reais : dois juízes jovens, Etienne e Juliette, engajados na defesa de pessoas humildes superendividadas e atingidos por tragédias pessoais. O autor e narrador está presente na história mas não como personagem central como em Um romance russo.

Nessa entrevista exclusiva à Ilustrada, Carrère, que estará na Flip em julho, explica como criou seus últimos livros, entre o romance e o jornalismo :

« Há criação romanesca mas não na forma de imaginação, o que é contado nos meus livros é verídico. Tenho a impressão de utilizar todos os recursos do romance com um material que não é imaginário ».

Filho da escritora Hélène Carrère d’Encausse, descendente de nobres russos e secretária perpétua da Academia Francesa de Letras, o escritor acha que é um privilégio poder fazer três tipos de trabalho diferentes mas pensa que é como escritor que se expressa melhor. No outono europeu, Emmanuel Carrère lança seu novo livro, Limonov (Editora P.O.L.).

Em julho, Carrère fará sua terceira viagem ao Brasil. Além dele, a França será representada por Claude Lanzmann e Michel Houellebecq, ganhador do prêmio Goncourt de 2010 por seu livro O mapa e o território (La carte et le territoire, Ed.Flammarion). Além de Outas vidas que não a minha, outros livros de Emmanuel Carrère já foram publicados no Brasil : Férias na neve (Rocco, 1998), O bigode (Rocco, 2002), adaptado para o cinema pelo próprio Carrère, O adversário (Record, 2007) e Um romance russo (Alfaguara, 2008).

Você vai ao Brasil em julho para a FLIP, um encontro anual de autores e do público em Paraty. Será sua terceira ida ao país. O que você espera desse contato com o público brasileiro?

Emmanuel Carrère : Não sei qual é o interesse do público brasileiro pelo que escrevo. Não tenho ideia de como meus livros são recebidos no Brasil. Vou descobrir.

Michel Houellebecq também irá a Paraty. Você disse que fica « impressionado por Houellebecq, pela visão que ele tem do mundo, do momento de civilização que vivemos ». Segundo você, Houellebecq é um « rock star ». Por que ele é interessante ?

Emmanuel Carrère : Ele é realmente um grande romancista, um dos maiores romancistas atuais. Tem uma grande capacidade de observação, um enorme talento romanesco que é também o talento de fazer com que as pessoas queiram ler, que as pessoas queiram virar a página, com uma verdadeira reflexão sobre o mundo atual. Continuo a achar que ele é um escritor extraordinário.

Mesmo sendo um personagem bizarro…

Emmanuel Carrère : Mesmo assim. Verdade que ele é um personagem singular, interessante…

Por que você escreve romances ?

Emmanuel Carrère : Não escrevo romances. Os livros que faço não são romances há muitos anos. Escrevi romances em outro tempo, o último romance que escrevi foi em 1995. Os livros que escrevo atualmente não são romances, são muito romanescos, são escritos de forma romanesca mas uma parte da definição de um romance é que seja uma história inventada.

E como você os define, como auto-ficção?

Emmanuel Carrère : Ah, não, isso eles não são. Não defino, são livros.

Seriam uma mistura de reportagem e de romance ? Existe neles ainda um tanto de imaginação, de criação romanesca…

Emmanuel Carrère : Há criação romanesca mas não na forma de imaginação, o que é contado nos meus livros é verídico. De fato, nas regras da reportagem ou do jornalismo tem-se um contrato com o leitor que assegura que o que é narrado é verdadeiro. Por outro lado, a organização, a forma da narrativa é absolutamente romanesca. Tenho a impressão de utilizar todos os recursos do romance com um material que não é imaginário

Você estava escrevendo um novo romance sobre a Rússia, sobre o escritor russo Eduardo Limonov. Nesse livro, é a história recente da Rússia que lhe interessa?

Emmanuel Carrère : Acabo de terminar esse livro, que sai no outono europeu. Chama-se Limonov. É um livro sobre o fim do comunismo e o pós-comunismo. Limonov está com quase 70 anos, sua história vai da Batalha de Stalingrado até os dias de hoje.

É uma biografia ?

Emmanuel Carrère : Eu não usaria essa palavra porque não se assemelha ao que se vende normalmente com esse nome de biografia.

Mas também não é um romance…

Emmanuel Carrère: Não, tudo é verdade, tomei algumas liberdades de construção, mas é verídico.

Por que você escolheu Eduardo Limonov como personagem central de seu novo livro ? O que o atraiu nesse personagem ?

Emmanuel Carrère : Ele é ao mesmo tempo um aventureiro e alguém cuja vida me permite contar 50 anos de história de maneira muito, como dizer… É mais ou menos como se ele estivesse sempre lá onde coisas estranhas aconteciam na história contemporânea. Desse ponto de vista, acho que ele é um bom heroi romanesco.

Ele viveu sempre na Rússia ?

Emmanuel Carrère : Não, ele estava na Rússia mas uma parte do livro se passa nos Estados Unidos e na França. Limonov viveu 20 anos no Ocidente.

Você foi fazer entrevistas come ele ?

Emmanuel Carrère : Eu o encontrei, mas não fiz entrevistas.

O livro é uma espécie de biografia autorizada ?

Emmanuel Carrère : Não, acho que ele não vai gostar. Penso que em geral as pessoas não gostam quando alguém conta suas vidas. É uma regra geral. Eu tenho uma interpretação de sua vida e suas atividades com a qual ele não vai estar de acordo. Não é uma biografia autorizada de forma alguma. Na realidade, não é uma biografia, apenas conta sua vida.

A biografia é sempre limitada…

Emmanuel Carrère : O livro sobre Limonov é uma biografia no mesmo sentido que Outras vidas que não a minha é uma biografia dos dois juízes, Juliette e Etienne, no mesmo sentido que O adversário é uma biografia de Jean-Claude Romand. Isso não corresponde exatamente ao que se chama uma biografia. Mas ao mesmo tempo, literalmente pode-se dizer que é uma biografia porque é a narrativa da vida de uma pessoa, biografia é isso. Assim como penso que auto-ficção é uma palavra ruim, biografia não é uma palavra ruim.

Você é roteirista, escreve romances, ou livros, dirigiu um documentário e um filme de ficção. Qual a atividade mais importante em sua vida ?

Emmanuel Carrère : Escrever livros é a atividade na qual penso que me saio melhor. Acho que sou um escritor melhor que cineasta e é esta atividade de escritor que me dá mais satisfação. Mas é uma grande sorte poder escrever roteiros e fazer filmes. Escrever livros é uma atividade muito solitária, muito exigente que pode ser extremamente gratificante mas também muito angustiante. E nesse aspecto é muito bom poder parar e fazer outra coisa.

Você pensa continuar a exercer as três atividades ?

Emmanuel Carrère : Comecei a trabalhar para uma série de televisão para Canal Plus, uma história fantástica, sobrenatural, e talvez eu dirija alguns episódios. Comecei a escrever o roteiro com outros roteiristas. Ainda está em fase embrionária mas é muito excitante.

Você disse que Um romance russo é o livro do fim de sua análise. Da psicanálise você diz que ela salvou você, de certa maneira. Você também é leitor de Freud. Como você o lê ?

Emmanuel Carrère : Acho que a psicanálise contribuiu para me salvar. Gosto muito de Freud, é um escritor magnífico. Tenho uma grande admiração por ele e por seu estilo, apesar de não poder lê-lo em alemão.

A psicanálise está sendo muito atacada hoje sobretudo na França, pátria de Lacan, pelas neuro-ciências…

Emmanuel Carrère : No plano teórico sou incapaz de tomar posição nesse debate mas acho que sou um usuário satisfeito da psicanálise. Pessoalmente, tenho uma gratidão em relação a ela…

Em relação a Freud então…

Emmanuel Carrère : Não, em relação à psicanálise e à prática da psicanálise, não falo da teoria…

Mas foi Freud quem a criou…

Emmanuel Carrère : Sim, mas ela é algo que se faz, é uma prática.

« Outras vidas que não a minha » foi um grande sucesso de crítica e de vendas na França. O livro é mobilizador, as pessoas se emocionam. Você diz que o livro não é auto-ficção porque ele é 100% verdadeiro, nele a parte de ficção é reduzida a zero.

Emmanuel Carrère : E além disso ele não é tão autobiográfico. Um romance russo é um livro no qual eu era o narrador e o personagem principal, enquanto Outras vidas que não a minha não sou o centro do livro.

Um romance russo , no qual você é o centro do livro, é um livro de auto-ficção ? Existe o que se chama na França de auto-ficção ?

Emmanuel Carrère : Essa palavra me incomoda, não acho que ela é feliz, mas ao mesmo tempo me interesso pelo que se chama auto-ficção. No fundo, acho que se apresenta isso como uma moda literária…

Seria uma forma de narcisismo dos autores, uma forma de falar deles mesmos em seus romances ?

Emmanuel Carrère : O que me espanta é que se apresente como uma moda algo que é mais antigo que o romance. As pessoas sempre foram levadas a escrever suas vidas. O romance é um gênero muito mais especializado, muito mais recente, como a tragédia em cinco atos, como o soneto, uma coisa particular. Enquanto que escrever sua vida ou escrever sobre fatos dos quais fomos testemunhas ou sobre o que pensamos é a mais antiga pulsão que nos leva a escrever. Santo Agostinho, Rousseau fizeram isso. Acho estranho chamar de auto-ficção o que é parte da literatura autobiográfica. Gosto da literatura autobiográfica de maneira geral.

Você diz apreciar a frase de Hemingway que dizia : « Conheço tantas palavras complicadas quanto os outros mas simplesmente me dou a um trabalho enorme para não utilizá-las. » Essa é sua preocupação como escritor. Por quê ?

Emmanuel Carrère : Engraçado é que há poucos dias eu dei uma entrevista para uma revista americana. E a jornalista me dizia que ela fica impressionada pela extensão do vocabulário usado nos meus livros. Isso contradiz um pouco o que penso, faço um grande esforço para utilizar um vocabulário simples mas isso não me impede de utilizar um vocabulário abundante.

Qual o romance que você gostaria de ter escrito ?

Emmanuel Carrère : Não sei. Não tenho necessariamente vontade de ter escrito livros de que gostei muito. Estou lendo com muita admiração « 2666 » de Roberto Bolaño, mas não gostaria de tê-lo escrito de forma nenhuma. Penso que deve ter sido uma experiência muito difícil escrever esse livro. Mas o leio com grande admiração.

O jornalista e a teoria do complô

Charles Enderlin acusado de não ser um “bom judeu”

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris

* Publicado no Observatório da Imprensa em 26/4/2011

O conflito Israel-Palestina, que já dura mais de seis décadas, fez mais uma vítima colateral. A vítima é o jornalista Charles Enderlin, correspondente do canal France 2 em Jerusalém, onde vive há quarenta anos. O jornalista não foi atingido por qualquer bala perdida, mas há dez anos luta com a serenidade dos justos para provar que é falsa a versão difundida por grupos de sionistas franceses e americanos de que uma de suas reportagens era uma mise-en-scène.

O caso, que ficou conhecido como o affaire Al-Dura, uniu a ultra-direita israelense, alguns jornalistas franceses, alguns intelectuais pró-israelenses e grande parte da comunidade judaica francesa, além do poderoso Conseil Représentatif des Institutions Juives de France (Crif).

Esses grupos, liderados por dois ou três personagens adeptos da teoria do complô, tentam há dez anos matar profissionalmente um dos maiores jornalistas franceses, autor de notáveis livros sobre o Oriente Médio e um dos mais equilibrados analistas do conflito que opõe israelenses e palestinos. Et pour cause.

Há poucos meses, Charles Enderlin disse "basta" e resolveu tornar pública a história que muitos conheciam sem, contudo, saber de todos os detalhes. Cansado de ver seus filhos e sua família estigmatizados, ele escreveu um livro extraordinário chamado Un enfant est mort (Uma criança morreu), no qual, a partir do título, reafirma a veracidade da morte do menino palestino Mohamed Al-Dura, de 12 anos.

Nesse formidável depoimento pessoal, ele desmonta peça por peça o edifício de falsas verdades construídas pacientemente e divulgadas durante dez anos em diferentes mídias, sobretudo na França e nos Estados Unidos. Enderlin informa no livro que um de seus inquisidores é a Liga de Defesa Judaica, "organização criada nos Estados Unidos pelo rabino racista Meir Kahane e que é proibida em Israel".

A batalha dos detratores

No dia 30 de setembro de 2000, num lugar chamado Netzarim, em Gaza, durante a segunda Intifada, Mohamed Al-Dura foi morto por tiros vindos dos soldados israelenses, enquanto seu pai, Jamal, tentava protegê-lo das balas. As cenas foram ao ar no jornal das 20h do canal France 2, narradas por Charles Enderlin, que estava na Cisjordânia cobrindo outros choques entre palestinos e soldados israelenses. Na véspera, os soldados israelenses tinham atirado em civis palestinos na Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém e os conflitos explodiram na Cisjordânia e em Gaza.

As imagens de Netzarim, em Gaza, foram feitas pelo cinegrafista que trabalha com Enderlin, Talal Abou Rahmeh. Ora, para os detratores de Enderlin, sendo Talal palestino, ele é logicamente um "agente da OLP", suspeito de ter montado um filme para sujar a imagem do exército israelense. Mas, como Charles Enderlin frisa no livro, de texto elegante como seu autor, há anos Talal tem permissão de trabalhar em Israel e nos territórios palestinos e os serviços secretos israelenses nunca tiveram qualquer suspeita em relação a ele. Nem antes nem depois da reportagem em que se vê a morte de Mohamed.

Em torno do caso Al-Dura foram feitos documentários, reportagens e muitas entrevistas para provar que eram falsas as imagens da reportagem de Enderlin. A batalha dos detratores do jornalista – que acusam France 2 e Enderlin de terem divulgado uma montagem feita pelos palestinos – começou nas comunidades judaicas na França e nos Estados Unidos. "Como se fosse preciso limpar simbolicamente o exército israelense da suspeita de ter atirado e assassinado deliberadamente uma criança, como se fosse preciso conservar a imagem de pureza imortalizada por Claude Lanzmann no seu filme Tsahal", escreveu o jornalista Pierre Haski, que também foi correspondente em Israel, na revista online Rue 89.

A dificuldade de ser um "bom judeu"

Dois franceses, Philippe Karsenty e Luc Rosenzweig, sustentados pelo establishment pró-Israel na França, tentam provar há dez anos que a reportagem de Enderlin é uma montagem e que não somente o pai não morreu (o que é verdade), mas o filho também não morreu e vive ainda em Gaza. O menino foi enterrado em Gaza, as fotos do cadáver estão reproduzidas no livro, o pai foi tratado em um hospital da Jordânia e visitado pelo rei, mas os detratores sustentam que os ferimentos do pai de Mohamed são antigos, apesar dos relatórios de médicos que o trataram em Gaza e na Jordânia.

Por outro lado, o exército de Israel nunca levou a questão à Justiça, provavelmente por não ter mais dúvidas sobre a proveniência dos tiros que mataram o menino. Karsenty, no entanto, passou a percorrer os Estados Unidos fazendo conferências pagas nas universidades americanas sobre "a manipulação da mídia no affaire Al-Dura". Há, ainda, quem tente provar que o menino morreu por balas palestinas.

Nunca, porém, os defensores dessas teorias apresentaram qualquer prova convincente. O governo israelense não retirou a carteira de jornalista de Charles Enderlin, como queriam alguns, mas também não tentou apurar a fundo a questão, limitando-se a deixar que a teoria do complô circule pelo mundo.

"Para ser um `bom judeu´ é preciso aceitar a tese da reportagem encenada no caso Al-Dura?", pergunta Enderlin no seu livro, ao comentar como é viver há dez anos sob suspeita de não ser um "bom judeu". "Acho que as organizações judaicas cometem um enorme erro ao apoiarem essa campanha", diz o jornalista.

História resumida

Mohamed Al-Dura tornou-se o símbolo da violência israelense contra os palestinos. Para alguns, sua morte, filmada ao vivo, parece uma realidade difícil demais para ser admitida, mesmo quando se sabe que na guerra de 2088-2009, em Gaza, o exército israelense matou várias dezenas de crianças como Mohamed. Mas essa morte era diferente. Ela se deu diante de uma câmera e chocou de tal forma que a foto de Mohamed estava no vídeo da execução do jornalista americano Daniel Pearl por grupos islâmicos no Paquistão um ano depois.

Quanto a Charles Enderlin, ele teve sempre o total apoio do canal France 2 nos tribunais (ele processou Karsenty por difamação). Em 2008, por iniciativa da revista Le Nouvel Observateur, uma petição em sua defesa recebeu dezenas de milhares de assinaturas.

Na internet, um vídeo chamado L’affaire Enderlin resume a história da reportagem que gerou o affaire Al-Dura. Nele, o jornalista Charles Enderlin conta os efeitos sobre sua vida pessoal da campanha contra ele, o que o levou a processar Philippe Karsenty. Nesse vídeo, pode-se avaliar a qualidade dos detratores de Charles Enderlin.