sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Pagamos o salário dos que boicotam os cidadãos




De volta a Paris, fui votar no Plebiscito pela Constituinte, no Consulado Brasileiro, por pensar que mudar o sistema político do Brasil deve ser prioridade de todo brasileiro.
Surpresa e estupefação.
A urna estava na porta do consulado, na calçada, pois os responsáveis pela organização da votação não haviam recebido autorização do cônsul geral de Paris, embaixador Julio Zelner, para  fazer a votação dentro do Consulado, na Av. Franklin Roosevelt.
Situação bizarra votar na rua, em Paris. Defendi a Constituinte com mais entusiasmo ainda.
Segundo Carla Sanfelici, coordenadora do Conselho de Cidadãos  de Paris, foi feito um pedido ao Embaixador Sérgio França Danese, Subsecretário-Geral das Comunidades Brasileiras no Exterior, com cópia para a Ministra Maria Luiza Ribeiro Lopes da Silva. Houve também  inúmeras  solicitações de audiência junto ao então cônsul geral de Paris, embaixador Julio Zelner. Este nunca se dignou a receber o Comitê do Plebiscito.
Depois de ter  tomado conhecimento de que havia sido autorizada uma urna no interior do prédio do Ministério das Relações Exteriores, em Brasilia, a coordenadora do Conselho de Cidadãos de Paris voltou a insistir junto a Julio Zelner. Não obteve resposta.
Se isso não é um boicote a um Plebiscito Popular, não sei o que é.

O cristianismo revisitado por um ateu, ex-cristão

Emmanuel Carrère já provou ser um grande romancista.
Sua obra é premiada e apreciada pelos milhares de leitores que aguardam com ansiedade cada novo livro.
Estou entre eles. Por isso, no dia seguinte à minha volta a Paris fui comprar o novo Carrère, que acabara de ser lançado : Le Royaume (O Reino).
Escrito na primeira pessoa, como quase todos os outros, Carrère magnetiza logo nas primeiras páginas. Ele tenta entender os três anos em que viveu como um convertido ao cristianismo, antes de se tornar ateu.
Ao contrário do livro de José Saramago (O evangelho segundo Jesus Cristo), um romance sobre Jesus _ um verdadeiro livro de filósofo ateu, para quem as três religiões monoteístas não passam de ilusão (como já pensava Freud, entre outros) _ o livro de 630 páginas de Carrère é uma investigação histórica sobre as origens do cristianismo, baseada em dois dos principais personagens daqueles tempos : Paulo, que se chamava Saulo, considerado o verdadeiro criador do cristianismo; e Lucas, que escreveu o evangelho que tem seu nome, além do livro de Atos dos Apóstolos. Carrère se pergunta como aquela saga cheia de desafios à razão pura pode fascinar a tal ponto, dois mil anos depois de contada.

Os grandes jornais e os críticos franceses não pouparam elogios ao romance. Le Monde deu duas páginas no suplemento de livros, com um texto assinado pela acadêmica Florence Delay.
Abaixo, um trecho do editor do suplemento, Jean Birnbaum, “Viver? Que boa ideia” :
“É uma das cenas mais memoráveis do Reino construído por Emmanuel Carrère. Na página 23, ele conta sua única sessão com o psicanalista François Roustang. Diante dele, o escritor evoca o impasse no qual se encontra, suas dores de barriga, seus pensamentos suicidas. Depois pergunta a Roustang se ele o aceita como analisando. Este responde que não. « Vejo que tudo o que lhe interessa é provar mais uma vez o quanto você é capaz de colocar seus psicanalistas em cheque e considerá-los derrotados », responde Roustang. « Você deveria passar a outra coisa ». « Sim, mas a que exatamente? », pergunta o escritor. « Você falou de suicídio. Ele não tem boa reputação atualmente, mas pode ser uma solução.” Depois de ouvir o silêncio por longos segundos, o terapeuta conclui: « A outra opção é viver ». Fim do tratamento. « Pouco a pouco, sem que tenha revisto o psicanalista, as coisas começaram a melhorar », conta Carrère.
A outra opção é viver… Fórmula de uma fulgurante simplicidade na qual se reconhece o estilo audacioso e provocador que distingue François Roustang. Franco-atirador da cena freudiana, passou da Companhia de Jesus à « seita lacaniana », depois passou da psicanálise à hipnose. Roustang compartilha com Carrère a mesma repugnância pelos relatos blindados de certeza, tem a convicção de que o humor permite dinamitá-los. Por isso, é preciso se felicitar pelo fato que Le Royaume, de Carrère, chegue às livrarias ao mesmo tempo que um belo livro com artigos assinados pelo psicanalista, reeditados em livro de bolso com o título « Feuilles oubliées, feuilles retrouvées » (Petite Bibliothèque Payot).
Eu conheci François Roustang na casa de um renomado psicanalista argentino, exilado em Paris desde a ditadura. Depois de ter sido jesuíta, Roustang tornou-se psicanalista, me haviam contado. Meu interlocutor frisou com ar desolado o fato de Roustang ter sido tentado pela hipnose.
Sem hipnose, mas com perspicácia e numa única sessão, ele conseguiu o resultado que seu paciente buscava : trocar as idéias suicidas pelo desafio da vida.
Royaume é o fruto dessa aposta de Carrère na vida.


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Maio de 68, eleições europeias etc


Mesmo quem não viveu o Maio de 68 em Paris conhece Daniel Cohn-Bendit, Danny le Rouge, o estudante ruivo judeu-alemão que se tornou o símbolo daqueles dias turbulentos.
Por incomodar demais o governo francês, ter-se tornado um símbolo da revolução estudantil e ser estrangeiro, Cohn-Bendit acabou sendo expulso da França. Em solidariedade a ele, as ruas ecoavam nas passeatas : “Nous sommes tous des juifs allemands.”
Quem não se lembra de slogans como “É proibido proibir” ou “Soyez réalistes, demandez l’impossible”? Este é considerado por Philippe Sollers como o mais belo slogan de Maio de 68.
Picasso, 1968
Na época, Sollers era maoísta, como Jacques-Alain Miller e dezenas de outros jovens intelectuais rebeldes, que depois ou aderiram ao stablishment ou continuaram rebeldes mas não mais jovens. Sollers tornou-se o supra-sumo do intelectual parisiense. Casado com a psicanalista e escritora Julia Kristeva, mora entre Paris e Veneza, cidade que ele venera e sobre a qual escreveu o delicioso Dictionnaire amoureux de Venise. Miller casou-se com a filha de Lacan, Judith, e é um  renomado psicanalista, executor testamentário da obra de Lacan, responsável pela publicação dos famosos seminários.
Cohn-Bendit virou Danny le Vert, foi deputado europeu pelo Partido Verde (Europe-écologie Les Verts) até este mês. Ele anunciara sua "aposentadoria" no ano passado informando que não se candidataria a novo mandato nas eleições europeias de maio. Em compensação, fã de futebol, vai à Copa, de onde comentará os jogos para o jornal Libération e para o excelente canal franco-alemão Arte. Fará um documentário na Copa que Arte divulgará.
Na semana passada topei com Cohn-Bendit duas vezes no hotel onde estava hospedada até domingo por causa de obras em casa. Ele é amigo do dono do hotel, um militante ecologista francês. O Solar hotel é regido pela militância ecológica, tudo o que se come no café da manhã é orgânico e a ecologia faz a lei no estabelecimeto. 

Uma bicicleta para uso dos clientes está incluída no preço da diária. Não há wi-fi nos quartos, somente no andar térreo, para proteger os hóspedes das ondas nefastas, suspeitas de causar diversas doenças.

Na quarta-feira à tarde, Danny me olhou e sorriu quando entrou no sala do café da manhã para encontrar um jornalista da TV. Eu lia tranquilamente meus mails. Ouvi toda a entrevista, pois estávamos sozinhos naquele momento. Concordei com todos os argumentos de Cohn-Bendit para defender a Europa e as críticas que fez aos chamados “eurocéticos”.
No dia seguinte, lá estava ele de novo, dando uma entrevista a outro jornalista, na hora do café da manhã.
Cohn-Bendit não parou de dar entrevistas na semana de pré-eleições europeias. Foi capa da revista do Le Monde que saiu no fim de semana, foi página inteira do Libération, como um arauto da Europa. Os jornalistas o adoram. Ele é inteligente, faz análises políticas justas e, por isso, é figurinha fácil nos principais jornais televisivos e programas de debates. É o que os jornalistas chamam “un bon client”. Na semana passada tentou com todos os argumentos possíveis convencer os franceses a irem votar.
“A Europa é nossa chance. Sem a Europa, os Estados-Nações que a formam são fracos para enfrentar gigantes como a China, a Rússia, os Estados Unidos, a Índia ou outros emergentes.” Ele lembra que a única chance de evitar novas guerras no continente é a construção de uma Europa solidária, com uma política externa comum, que enfrente os grandes problemas sem cacofonia.
Domingo, mais de quatrocentos milhões de eleitores europeus eram esperados para mostrar se ainda acreditam nesse projeto. Eles preferiram ir à pesca ou colher cerejas. Na França, a abstenção foi enorme, de quase 60%. Mesmo se os eleitores tinham as mais diversas opções entre as listas que apresentaram candidatos. Havia até mesmo um bizarro Cannabis sans frontières (foto). 

O Front National, partido de extrema-direita dirigido por Marine Le Pen (filha de um ex-torturador da guerra da Argélia chamado Jean-Marie Le Pen) é o grande vencedor. Xenofóbico, neofascista, o FN tornou-se o primeiro partido político da França.
Pouco a pouco, a França reforça seus laços com o passado pétainista, do tempo da colaboração com o nazismo.
Um amigo, jornalista italiano, nos escreveu de Roma um mail propondo-nos asilo político na Itália. 
Uma tentação...


Portinari, um ilustre desconhecido no Grand Palais



Esta é sua quarta viagem a Paris mas é a primeira em que as obras o representam. Nas outras três, Portinari veio em carne e osso. Em 1929, com bolsa de estudos, em 1946, para uma exposição na galeria Charpentier e, em 1957, para uma grande exposição de 136 obras.

Mas desde então, Paris não viu mais nenhuma exposição do  maior pintor brasileiro do século XX. Agora, os dois murais monumentais, “Guerra e Paz”, que Portinari realizou para a ONU, de 1952 a 1956, são o centro da magnífica exposição inaugurada com grande pompa dia 6 de maio no Grand Palais, um dos museus mais prestigiosos de Paris.

A mostra foi fruto da vontade de dois presidentes socialistas, François Hollande e Dilma Rousseff, que quiseram, assim, lembrar a mensagem humanista de Portinari. Essa é a primeira vez que essa obra monumental sai da América e atravessa o oceano Atlântico, depois de ter sido exposta com enorme sucesso no Rio e em  São Paulo. Os paineis haviam voltado ao Brasil para serem restaurados por uma equipe de restauradores dirigida por Edson Motta Filho e Claudio Valério Teixeira.
Portinari aderiu ao Partido Comunista Brasileiro em 1945. Por isso, não pôde entrar nos Estados Unidos para a colocação de seus paineis. O país estava mergulhado na caça às bruxas do macartismo, a patrulha anticomunista  vivia seu apogeu. Por ser comunista, o artista nunca viu sua maior obra no local para o qual fora destinada.
O jornal Libération apresentou Portinari  como “um dos maiores artistas da América Latina, o Michelangelo brasileiro”, cuja obra é marcada pela luta contra o racismo e a miséria. Mas o brasileiro ainda é um artista pouco conhecido na França, o que lamenta o jornalista Vincent Noce, que fez em sua reportagem uma apaixonada defesa da obra de Portinari, também comparado a Diego Rivera, o grande pintor mexicano, a quem foi dedicada uma grande exposição no ano passado, em Paris.
Se depender do Libé, que dedicou quatro páginas centrais em cores e repletas de fotos dos deslumbrantes paineis e de outras obras do pintor, Portinari já não será mais um ilustre desconhecido dos franceses.
Em outro artigo no mesmo jornal, o conservador do Centro Pompidou, Nicolas Liucci-Goutnikov assinala o caráter mestiço e multicultural da sociedade brasileira, perfeitamente representada na arte do Modernismo, do qual Portinari foi o maior representante na pintura.
O fato de ter sua obra praticamente escondida dos olhos do público explica o precário conhecimento do artista no estrangeiro. Seu filho,  João Cândido, informa que 95% da enorme obra de Portinari não é visívil por estar em casas de colecionadores. Segundo ele, das 5.100 obras inscritas no catálogo raisonné do artista, apenas 200 estão no estrangeiro.
Agora, é preciso aproveitar a chance rara de ver Portinari no Grand Palais onde, além dos impressionantes e magníficos paineis, outros quadros e dezenas de estudos para Guerra e Paz podem ser vistos, além de vídeos que contam a restauração e mostram o sucesso da exposição no Rio e em São Paulo.
A deslumbrante exposição de Portinari em Paris, que revi neste domingo, termina no dia 9 de junho.  
*Publicado dia 26 de maio, no Observatório da Imprensa
Gréco no Olympia
Ela está muito bem para seus 87 anos. Mas quem pensa que uma “vieille dame” de 87 anos só quer se poupar para durar um pouco mais não conhece Juliette Gréco. A musa dos existencialistas de Saint-Germain-des-Prés, que despertou grandes paixões, inclusive em Miles Davis, com quem teve um affair tórrido, deu dois concertos no Olympia no mês de maio.
Fomos vê-la no sábado, dia 17, e não havia um só lugar vazio.
Apesar de não ter mais voz (ainda jovem sua presença era mais forte que sua voz), ela tem um incrível domínio do métier. Como sempre fez, interpreta seus antigos sucessos como uma atriz, sua voz desfila toda a gama de emoções: ela sabe dar às letras das músicas um toque de ironia, melancolia ou provocação. Deshabillez-moi, Ne me quitte pas ou ainda La javanaise, sucessos que ela criou para compositores como Nyel-Verlor, Jacques Brel e Serge Gainsbourg faz seus fãs vibrarem como no passado. A média de idade dos espectadores é, digamos, avançada, mas vi jovens e até mesmo crianças.
Acompanhada ao piano por seu marido, o compositor Gérard Jouannest, e por um jovem acordeonista, a musa foi  recebida por um público que não poupou uma standing ovation quando entrou em cena e quando deixou o palco.
Une grande dame, que viveu intensamente sua militância à esquerda, quase foi presa pela Gestapo que deportou sua irmã e sua mãe a um campo de concentração, nunca deixou de ser feminista e sempre se mostrou interessada pelos novos compositores que surgem na música francesa. Entrevistei-a há alguns anos para a Carta Capital e guardei uma foto de nosso encontro, feita por sua assessora de imprensa.


No youtube, Gréco diz como ela quer ser despida por seu amante:


Os 100 mais
Entre as 100 personalidades  mais influentes do mundo eleitas pela revista Time não havia nenhum brasileiro.
Também nenhum francês fazia parte da lista.

Mas lá estão José Mujica, Snowden, Putin, Angela Merkel, Michelle Bachelet, Obama e Hilary Clinton.

Depois de Lula, a política brasileira perdeu a visibilidade no resto do mundo. O ex-presidente foi o Homem do Ano, de 2009, da revista semanal do jornal Le Monde,  inaugurando o título que a revista criou naquele ano.

Quando o Brasil revelará novos Aírton Senna, Villa-Lobos ou Tom Jobim para voltar a ser admirado no mundo fora dos campos de futebol?  




“Traduzir” Machado

Essa moça que quer "traduzir" Machado comete um equívoco. Quem aprovou projeto tão estapafúrdio? Nivelar por baixo não vai nos levar a formar leitores de qualidade. Depois não nos lamentemos pelo fato de não termos nenhum Nobel em nenhuma área do conhecimento.
Simplificando, simplificando, a gente vai ficando para trás. Em vez de ter ambição de fazer os menos letrados se tornarem leitores dos verdadeiros escritores, preferimos tomar um atalho para “simplificar” os gênios. 
Por que não dar Paulo Coelho ou José Sarney para os simples lerem?


A nova família


Na França, 56% das crianças já nascem de pais não casados. O site americano Vox.com pensa que os franceses estão inventando a nova família. Campeões de nascimentos sem os laços do casamento, os franceses são seguidos da Suécia, com 55%, dos Estados Unidos, com 41%, do Canadá, com 27%. E no fim da fila vem Israel, com apenas 5% de crianças nascidas de pais não casados.

domingo, 30 de março de 2014

VIVA LA MUERTE! Bandeira das Forças Armadas da ditadura

 « O Brasil ou faz sua revolução socialista — a revolução dos pobres, dos deserdados, desgraçados, degredados e degradados — ou então jamais se integrará como nação dona de si e de sua totalidade nacional capaz de ser sujeito e não objeto da história […] essa gente (a burguesia brasileira), ao menor sinal de abatimento, ou mal‑estar, entregou, entrega e entregará o país aos militares, e estes são o braço armado dos ricos contra os pobres […] A saída — beco sem saída — é a força das armas, é a repressão, é a violência a serviço da morte contra a vida. VIVA LA MUERTE! É esta a bandeira das Forças  Armadas no Brasil. »(Helio Pellegrino carta a Otto Lara Resende de 25-07-68)


Copa do Mundo 2014. JO 2016.
Direitos Humanos 20… ?
Com esse título, o boletim da ACAT (Action des Chrétiens pour l’Abolition de la Torture) denuncia graves violações dos direitos humanos no Brasil  de « populações carentes ».
Clique sobre  as imagens para aumentar
O texto explica como funciona a polícia no Brasil, uma polícia civil e uma militar, realizando prisões arbitrárias e utilizando a tortura « em total impunidade », sob o pretexto de realizar uma « guerra contra o crime organizado ».

Segundo o texto, a polícia brasileira é responsável por 2 mil mortes por ano. Não raro, os policiais participam de redes de corrupção, extorsão, tráfico de armas e de drogas. As principais vítimas são jovens rapazes habitantes dos bairros pobres. “Os juízes que tentam condenar essas práticas se tornam alvo de intimidações e de ameaças.”
A violência policial se agravou nos últimos anos com a perspectiva da Copa do Mundo de futebal de 2014 e dos Jogos olímpicos de 2016. Segundo o boletim da ACAT, com o objetivo de tranquilizar os organizadores, as autoridades cobrem ou reforçam as intervenções brutais das forças policiais.
«Os policiais multiplicam as invasões de domicílio, torturas, desaparecimentos (35 mil no Rio de Janeiro desde 2007, segundo a ONG Rio de Paz) e execuções.»
Para quem quiser passar à Ação contra a tortura, o boletim  propõe uma carta a ser enviada ao ministro da Justiça José Eduardo Cardozo pedindo, entre outras coisas que “as missões de manutenção da ordem pública sejam feitas exclusivamente pelas forças de polícia civil.”





Um homem torturado: nos passos de frei Tito de Alencar
Leneide Duarte-Plon e Clarisse Meireles
Editora Civilização Brasileira
420 páginas

“Ato de memória insurgente, a leitura deste livro, sem dúvida, alimenta e atualiza em cada um de nós a capacidade de indignação.” – Frère Xavier Plassat


Para Tito de Alencar Lima, 4 de novembro de 1969 foi o primeiro dia de uma prisão que duraria um ano e dois meses. Torturado no Deops e depois na Operação Bandeirantes, sob a acusação de pertencer à Ação Libertadora Nacional (ALN) – organização de luta armada fundada por Carlos Marighella –, Tito foi destruído psiquicamente por seus carrascos.
Escolhido a contragosto para ser um dos presos trocados pelo embaixador suíço, em 11 de janeiro de 1971, banido do território nacional por decreto, o frade dominicano viajou para Santiago do Chile juntamente com sessenta e nove presos políticos.
Na capital chilena, Tito deu entrevista aos cineastas americanos Haskell Wexler e Saul Landau, autores do documentário “Brazil, a report on torture” (Brasil, um relato de tortura), com testemunhos de ex-presos políticos torturados nas prisões brasileiras. Na Alemanha, foi entrevistadona TV e responsabilizou parte do clero conservador por conivência com a ditadura, que negava a existência de torturas.
Passou por Roma, onde não pôde falar a religiosos no Colégio Pio Brasileiro porque a hierarquia, conhecendo sua fama de “terrorista”, não quis recebê-lo. Foi para Paris, onde, por dois anos, morou no Convento Saint-Jacques. Na capital francesa militou ao lado de brasileiros na denúncia das torturas praticadas pela ditadura.
No Convento Sainte-Marie de LaTourette, perto de Lyon, para onde se mudou em 1973, esperava encontrar  um porto seguro e retomar os estudos de teologia. Em meio à natureza, no alto de uma colina, Tito encontrou o silêncio, mas não a tranquilidade. Levara dentro de si seus torturadores. Em 10 de setembro de 1974, o corpo do frade foi visto por um camponês, pendendo de uma árvore, perto de uma área inóspita, às margens do rio Saône. Tito foi enterrado no cemitério do convento. Seu corpo voltou ao Brasil em 1983. Hoje, repousa em Fortaleza.
O filósofo Jean Améry, amigo de Primo Levi, escreveu que quem foi submetido à tortura fica “incapaz de sentir-se em casa neste mundo”. O ultraje do aniquilamento é indelével, “a confiança no mundo que a tortura apaga é irrecuperável”.

 De 4 de novembro de 1969, dia em que foi preso, a 10 de agosto de 1974, quando foi encontrado morto, Tito viveu como alguém que não se sentia mais em casa neste mundo. Tito de Alencar Lima preferiu a morte a conviver com a tortura, que não se apagava de sua memória.

Duas psicanalistas dicionarizadas

A convite de Chantal Major escrevi para o Dictionnaire des femmes Créatrices, publicado pela Editions des Femmes, um resumo biográfico de Helena Besserman Vianna e de Nise da Silveira, duas brasileiras que honraram a profissão de psicanalista. Abaixo os verbetes :
BESSERMAN VIANNA, Helena (Rio de Janeiro 1932 – 2002)
Médecin et psychanalyste
Helena Besserman Vianna fut qualifiée de  « pasionaria » pour son courage et sa ténacité dans la dénonciation, en 1973, d’un analyste en formation dans une société de psychanalyse de Rio de Janeiro comme participant activement à des séances de torture pendant la dictature militaire. Dans sa lutte contre le silence et l’oubli elle aura ainsi mis à mal la prétendue « neutralité psychanalytique ».
C’est le journal communiste clandestin Voz Operária qui publia la nouvelle en donnant le nom du médecin, Amilcar Lobo, ainsi que celui de son analyste, Leão Cabernite, qui présidait à l’époque la Société Psychanalytique de Rio de Janeiro (SPRJ), associée à l’IPA (Association Psychanalytique Internationale). Cette information fut transmise avec une note manuscrite à la revue argentine Cuestionamos que dirigeait alors la psychanalyste Marie Langer qui s’était réfugiée en Argentine après avoir fuit le régime nazi. La nouvelle circula à travers le monde psychanalytique et arriva à la connaissance du Président de la Confédération Psychanalytique d’Amérique Latine (COPAL),  et du Président de l’Association Psychanalytique Internationale (IPA), Serge Lebovici.
Pour identifier l’auteur de la dénonciation anonyme, la SPRJ fit appel à un spécialiste pour procéder à des investigations graphologiques qui permirent de reconnaître l’écriture d’Helena Besserman Vianna. Au lieu de vouloir établir la véracité de la dénonciation, la SPRJ préféra qualifier l’information de « calomnie ».
Helena Besserman Vianna, qui appartenait à la Société Brésilienne de Psychanalyse de Rio de Janeiro (SBPRJ-IPA),  sera désignée comme calomniatrice par les Conseils des deux Sociétés de Rio, soumise aux pires intimidations. Elle échappera, parfois de justesse, à l’exécution de nombreuses menaces ainsi qu’à un attentat. Par ailleurs, la SBPRJ empêcha la psychanalyste d’accéder au statut de membre titulaire.
En 1994, elle publie à Rio Não conte a ninguém – Contribuição à história das Sociedades Psicanalíticas do Rio de Janeiro (Imago), livre dans lequel elle raconte, documents à l’appui, son combat de 20 ans. Politique de la Psychanalyse face à la Dictature et à la torture – N’en parlez à personne (L’Harmattan, 1997) est publié à Paris avec  une préface et une lettre ouverte de René Major qui était alors Président de la Société Internationale d’Histoire de la Psychiatrie et de la Psychanalyse. Dans sa lettre, René Major présente sa démission comme membre de l’Association psychanalytique internationale.
Cette histoire inspira à René Major la convocation des Etats Généraux de la Psychanalyse, qui eurent lieu à Paris en juillet 2000 et furent marqués par un discours mémorable de Jacques Derrida. C’est dans ce cadre qu’Helena Besserman Vianna annonça sa démission de l’IPA.
Fille de juifs polonais et membre du Parti Communiste Brésilien jusqu’en 1968, Helena Besserman Vianna exerça la psychanalyse à Rio où elle fut formée par Zenaira Aranha. Elle  reprit ensuite une analyse à Paris avec André Green.
Avec Teresa Pinheiro, elle a écrit « As bases do amor materno » (Escuta, 1991) autour de la conférence de Margarete Hilferding sur l’amour maternel.
DA SILVEIRA, Nise, psychiatre (Maceió 1906 – Rio de Janeiro – 1999)
Quand la psychiatre Nise da Silveira commence ses études de médecine à Salvador de Bahia, elle a 16 ans et elle est la seule femme de la promotion  (158 élèves) de 1926, où elle rencontre Mário Magalhães da Silveira qui deviendra son mari. En 1933, elle passe un concours public et devient médecin de l’hôpital de Praia Vermelha, à Rio de Janeiro. En 1936, arrêtée comme communiste pendant la dictature de Getúlio Vargas, elle devient un des personnages du roman Memórias do cárcere (Mémoires de la prison) du grand écrivain  Graciliano Ramos, arrêté dans la même prison. Après 18 mois de détention, elle fut libérée mais écartée du service public pour des raisons politiques. Le plus important héritage de Nise da Silveira - qui étudia à Zurich à l’Institut Carl Gustav Jung de 1957 à 1958 et entre 1961 et 1962 - demeure le Musée des Images de l’Inconscient (Museu de Imagens do Inconsciente) qu’elle créa en 1952 dans le Centro Psiquiátrico Pedro II. Dans cet établissement, elle avait fondé en 1946 un service de thérapie occupationnelle qu’elle dirigea jusqu’en 1974 et dans lequel les malades mentaux s’exprimaient par le moyen de dessins, de peintures et de sculptures. Farouchement opposée à l’utilisation par la psychiatrique traditionnelle des chocs électriques, elle mena un combat sans merci contre la pratique de la lobotomie encore à l’usage à l’époque. En 1956, elle fonda la Casa das Palmeiras, à Rio de Janeiro, qui fonctionne comme hôpital de jour pour les patients ayant quitté l’hôpital psychiatrique. Son travail a inspiré la création de plusieurs musées e institutions thérapeutiques comme l’Association Nise da Silveira-Images de l’Inconscient à Paris, le Centro de Estudos Imagens do Inconsciente, de l’Université de Porto, au Portugal ou encore le Museo Attivo delle Forme Inconsapevoli à Gênes, en Italie. Le musée Imagens do Inconsciente de Rio de Janeiro possède un fonds de plus de 300 mille travaux  de malades mentaux parmi lesquels Fernando Diniz et Bispo do Rosário, qui sont devenus très célèbres. Nise da Silveira créa en 1957 un groupe d’études de psychanalystes, psychiatres et psychologues qui se réunirent jusqu’à sa mort en 1999. Elle a notamment écrit Jung: vida e obra (1968), Imagens do Inconsciente (1981) - Images de l’inconscient (Halle Saint-Pierre Passage Piétons Editions, Paris, 2005) et Cartas a Spinoza (1990). Plusieurs films et expositions ont été réalisés au Brésil sur l’œuvre de Nise da Silveira qui a reçu en 1993 la médaille Chico Mendes pour son combat pour les droits de l’homme.