quinta-feira, 9 de julho de 2009

Homem sem camisa é atentado ao pudor




















Atenção rapazes : em Paris, nunca tirem a camisa, mesmo quando no verão os termômetros resolverem ultrapassar os 30 graus. Vocês correm o risco de darem de cara com um policial que vai fazê-los pagar uma multa de 140 euros por “atentado ao pudor”. A menos que estejam no perímetro de Paris-Plage, a praia artificial criada todo ano em agosto pela prefeitura de Paris na margem direita do Sena.
A história de um americano que teve de pagar a multa me foi contada por meu cabeleireiro que ouviu de uma cliente americana. Há poucos dias, fez calor em Paris. Um amigo dela acalorado tirou a camisa e descobriu que homem sem camisa em Paris é atentado ao pudor. Pagou 140 euros.
Nas praias francesas, as mulheres pegam sol sem sutiã desde priscas eras e ninguém olha, a não ser trabalhadores imigrantes, eventualmente de passagem. Eles não estão acostumados a ver isso por suas terras.
Além de seios de fora, crianças nuas brincando na areia é muito comum nas praias francesas. As fotos foram feitas numa praia da Côte d’Azur.


Lula em Paris : prêmio da Paz na Unesco


“Ele é o representante de uma das grandes economias emergentes que parecem mais aptas a sair rapidamente da crise atual que as outras”. “Ele” é o presidente brasileiro Luiz Inacio Lula da Silva que o Le Monde apresenta como “Luiz Inacio da Silva – chamado “Lula”. O jornal francês de referência não o trata pelo apelido sem explicar aos leitores que trata-se de um apelido. Lula foi a manchete principal do jornal datado de 8 de julho: “Lula: em matéria de economia, o G-8 não tem mais razão de ser”. Na excelente entrevista, o presidente diz que teme que “certos países ricos façam do G-20 apenas um uso utilitário para superar a crise”. Ele defendeu foruns multilaterais que compreendam não somente os países do BRIC (Brasil, Rússia, India e China) mas também o México, a Africa do Sul, a Indonésia e os países árabes. Lula estava de passagem por Paris, onde encontrou o presidente Sarkozy no Palácio do Eliseu. Aplaudidíssimo ao final de seu discurso na Unesco, onde recebeu o “Prêmio Felix Houphouët-Boigny para a busca da Paz”, o presidente Lula estava acompanhado dos ministros Tarso Genro, Fernando Haddad e Celso Amorim. Da capital francesa, ele seguiu para Áquila, para o encontro do G-20. Na Unesco, depois de ouvir diversas autoridades (entre elas, o primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates e o ex-presidente Mário Soares) ressaltarem sua ação social no Brasil e sua ação pela paz e pelo Estado de direito na América Latina, Lula defendeu a paz como prerrogativa do Estado de direito para promover a dignidade humana e a justiça social. Lembrando a enorme dívida social que o Brasil tem com os mais fracos, o presidente afirmou : “Não haverá paz verdadeira enquanto houver fome, desigualdade e desemprego”.
Através de Lula e do reconhecimento internacional de sua ação em favor dos excluídos podemos sentir orgulho de ser brasileiros. Segundo informou a Unesco, um terço dos ganhadores do “Prêmio Felix Houphouët-Boigny para a busca da Paz” receberam depois o Nobel da paz. Para desespero dos tucanos, Lula tem chances de ser nosso primeiro Nobel.


Paris, capital do cinema


Embarras du choix é a melhor expressão para definir o dilema de escolher um filme em Paris, a menos que se possa ir ao cinema todo dia. Temos uma amiga, a socióloga, escritora e historiadora Régine Robin, cinéfila de carteirinha, que quando está em Paris, onde tem apartamento e mora parte do ano, vai ao cinema todo dia, às vezes duas vezes por dia. Em Paris, a festa do cinema dura 365 dias por ano. Todo mundo sabe que não há cidade mais cinéfila na face da terra, porque não há povo mais cinéfilo que o francês. Louis Lumière talvez explique essa paixão pelo cinema. A cidade tem atualmente “somente” 379 salas de cinema (em 1977 tinha 456 cinemas), entre as quais 89 são cinemas de arte. Depois de uma semana da “Fête du cinéma”, de 27 de junho a 3 de julho, na qual vi tudo o que podia, Paris entrou em ritmo de Festival Paris-Cinéma, o festival de cinema da cidade. Este ano, o festival tem a Turquia como país homenageado por ser o ano da Turquia na França. Um grande barato para quem quer ver em primeira mão o melhor da cinematografia turca. Mas tem também atores, atrizes e diretores homenageados. Este ano, retrospectiva dos melhores filmes do cineasta de Taiwan Tsaï Ming-Liang, da cineasta japonesa Naomi Kawase, da atriz Claudia Cardinale e do ator Jean-Pierre Léaud, o ator preferido de Truffaut. Além de clássicos do cinema italiano. Aproveito para ver “Divórcio à Italiana”, a obra-prima de Pietro Germi. Se eu não tivesse um jantar com amigos, teria ido à sessão no Saint-Germain-des-Prés apresentada por Chiara Mastroianni, filha do ator principal do filme, um tal de Marcello Mastroianni. Lamentei não poder ir à sessão em que Claudia Cardinale apresentou pessoalmente “La Viaccia”, de Mauro Bolognini, do qual é a atriz principal. Em compensação, há dois anos fui vê-la apresentar a nova cópia do clássico “A moça com a valise”, de Valerio Zurlini, juntamente com Jacques Perrin. Naquele dia pude constatar como o tempo é cruel com os homens. O jovem Perrin do filme tornou-se um senhor de cabelos brancos, enquanto Claudia, graças a Luc Montagnier, o prêmio Nobel de Medicina do Ano passado, inventor de pílulas à base de papaya para retardar o envelhecimento, continua linda e radiante. Ela faz a publicidade das tais pílulas de Montagnier. Mas não conta que além de pintar os cabelos deve ter passado por alguns liftings, ao contrário de Perrin que não pinta o cabelo e aceita que o tempo passe e deixe suas marcas. Entre os filmes deliciosos que passam em Paris, o novo Woody Allen, “Whatever works” um deleite para os fãs do diretor, que volta com seu personagem insuperável do intelectual neurótico nova-iorquino, interpretado pelo ator Larry David. Imperdível o ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro, Departures (A partida, no Brasil), do diretor Yojiro Takita, um dos mais belos e delicados filmes que vi em toda minha vida.

Stéphane Hessel, Monsieur droits de l'homme

Leia na revista Tropico:
Israel no banco dos réus
Por Leneide Duarte-Plon

Redator da Declaração dos Direitos Humanos, Stéphane Hessel explica tribunal para julgar crimes na Palestina. Leia aqui.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Michael Jackson, le dernier dandy

O melhor texto sobre a morte do “rei da pop” que li foi do filósofo e escritor Daniel Salvatore Schiffer que escreveu no Libération um artigo com o título acima. Ele explica por que Michael Jackson foi o último dandy, como conceituaram Oscar Wilde, Baudelaire e Albert Camus. Incrivelmente inteligente o texto de Schiffer. Wilde escreveu em “Fórmulas e máximas para o uso dos jovens”: “O primeiro dever na existência é ser o mais artificial possível”. Para Wilde, “o verdadeiro dandy deve ser ou uma obra de arte ou usar uma obra de arte”.
Baudelaire, outro dandy, em “Elogio da maquiagem” diz: “Quem ousaria limitar a arte a uma função estéril de imitar a natureza? A maquiagem não tem que se esconder, se escamotear. Ela pode, ao contrário, se exibir, senão com afetação, ao menos com uma espécie de candura”.
Schiffer escreve que essa “obsessiva e quase compulsiva vontade de criar uma aparência corporal cujas exigências formais não correspondem mais aos cânones naturais levando o rosto a se assemelhar a uma máscara (figura artística, em preto e branco de anjo e demônio) é a primeira prerrogativa da estética dandy”. A prova é que o assunto central da obra-prima da literatura dandy, ”O retrato de Dorian Gray”, de Wilde _ como também o mito eminentemente romântico de “Fausto”, de Goethe _ é uma busca permanente da juventude e da beleza. E, paradoxalmente, essa busca leva à morte.
Mas quem melhor resumiu o arquétipo do dandy foi, segundo Schiffer, Camus no livro “L’homme révolté”. Uma frase final para resumir o pensamento de Camus: “O dandy representa sua vida, já que não pode vivê-la. Ele a representa até a morte, menos em momentos em que está sozinho e sem espelho. Estar sozinho para o dandy é o mesmo que não ser nada”.
Daniel Salvatore Schiffer é autor dos livros « Philosophie du dandysme – Une esthétique de l’âme et du corps » e de « Oscar Wilde ». O que ele diz sobre o dandy cai como uma luva em Michael Jackson, um gênio atormentado. Teria sido ele o mesmo se tivesse deitado num divã?

Métro, boulot, dodo

A população francesa vive cada vez mais. Consequentemente, a Sécurité Sociale acumula um déficit monstruoso. Para remediar o rombo da Sécu, o governo estuda, sob protestos generalizados, a modificação da idade de aposentadoria, fixada atualmente em 60 anos, no mínimo. Na Suécia, a idade média de aposentadoria (não o previsto em lei mas a idade média de saída do mercado de trabalho) é de 64,2 pra os homens e 63,6 para as mulheres. Na França, essa idade média é de 59,5 para os homens e de 59,4 para as mulheres.
Todo mundo conhece a fama dos franceses. Para os estrangeiros, o francês é um “bon vivant” : gosta de beber bons vinhos, comer bem, com prazer e tempo para degustar o que come (e falar de comida, de como preparam e dos pratos e temperos exóticos que degustaram nas últimas férias). Um estudo da OCDE revelou que os franceses passam 130 minutos por dia à mesa (os pobres ingleses apenas 80 minutos!). Não preciso explicar a diferença entre o que comem os dois povos. A culinária inglesa não é conhecida por sua sofisticação e nem os ingleses pelo paladar refinado, ainda que as coisas venham mudando do outro lado do Canal da Mancha.
Mas além do recorde à mesa, os franceses também são os europeus que mais dormem. Mesmo que tenham criado a expressão métro-boulot-dodo para demonstrar o trepidante ritmo de vida urbano, os franceses dormem mais que os espanhóis, famosos pelas longas siestas. Quanto dorme em média um francês? 8 horas e 50 minutos por dia.
O jornalista Robert Solé, cuja crônica no Le Monde é uma delícia de concisão e inteligência, sugere três explicações: 1. A pátria dos direitos humanos dorme o sono dos justos e confia no seu governo. 2. O tempo passado sob os lençóis, não é apenas de sono. Há quem se divirta. 3. A França está totalmente entorpecida pelos antidepressivos. Os franceses são os maiores consumidores de antidepressivos do mundo.
Acho que a terceira é a mais plausível. Inclusive porque explica em parte o buraco da Sécurité Sociale: quem paga o antidepressivo, além das aposentadorias, é ela.

O Mitterrand de Sarkozy

De Gaulle teve André Malraux. François Mitterrand teve Jack Lang. Sarkozy estava por fora. Tinha Christine Albanel, uma ministra da cultura sem carisma, sem amigos na área artística, sem presença.
Agora, na mudança ministerial que resolveu fazer depois das eleições européias, Sarkozy entrou para o time dos presidentes que têm um ministro da cultura “in” capaz de fazer brilhar a cultura francesa. Com a nomeação de Frédéric Mitterrand, sobrinho do ex-presidente, Sarkozy tem o seu Mitterrand no governo. As más línguas dizem que ele nomeou um sobrenome e que tudo isso é para fazer mais mal ao já combalido partido socialista. Mas Frédéric, um homem de cultura e independente, nunca foi exatamente um homem de esquerda. Era sobrinho de um ícone da esquerda e tinha uma vida cultural trepidante: é escritor, teve programa cultural na TV e ocupava atualmente, nomeado por Sarkozy, o cargo de diretor da Villa Médicis, o importante centro cultural francês em Roma.
Esta semana, Mitterrand inaugurou o ano da Turquia na França, cujos eventos estiveram ameaçados depois que Sarkozy reiterou várias vezes sua oposição à entrada da Turquia na União Européia. Os turcos não gostam de Sarko, 73% deles dizem não confiar no presidente francês.
Quanto a Jack Lang, num livro de entrevistas publicado este ano, o ex-ministro da cultura de Mitterrand dizia que não entraria no governo Sarkozy. E confirmava que foi sondado para ser o ministro da Cultura de Sarko no dia da vitória do presidente, em 2007. Lang recusou o convite e explica:
“Ministro para quê? Para assumir uma orientação da qual discordo? Como eu poderia ser solidário com uma política fiscal que condenei publicamente, uma política educacional catastrófica, uma política penal que é o oposto de minha concepção dos direitos humanos?”
Isso não impediu que o ex-ministro de Mitterrand fosse a Cuba como enviado especial de Sarkozy para encontrar o presidente Raul Castro. Mas em Cuba, ele não precisa assumir a política fiscal, educacional e penal de Sarko.

De olho na mídia

Esse é o nome de um site de caçadores de antissemitas (deolhonamidia.org.br). De um amigo judeu recebo um desenho publicado no site com o texto:
Uma imagem que vale por mil palavras - A charge abaixo, publicada na coluna Dry Bones do Jerusalem Post e traduzida em conjunto com o grupo Artision caiu em nossas mãos um dia após a publicação do nosso último comentário. Ela traduz tudo que ele quis passar e muito mais em uma imagem só (uma ilustração com diálogos, mas ainda assim um desenho). Reflexo de omissões e distorções criminosas da ONU, mídia e governo Obama, ela é um protesto contra um mundo ainda intrinsecamente antissemita.
Atenção, o mundo é antissemita ! A frase já veio sublinhada.
O remetente é psicanalista e está convencido de que sou antissemita por tudo o que já escrevi no meu blog criticando a política dos sucessivos governos e governantes racistas e expansionistas de Israel.
A charge que veio junto, que infelizmente não pude copiar mostra alguém dormindo e uma voz que anuncia, “A Coréia do Norte está preparando uma guerra nuclear” e o personagem continua a dormir. Depois alguém grita “Genocídio sudanês em Darfur”, o sono continua. Novo alerta: “Risco no Paquistão, terrorismo islâmico crescendo”, ele dorme. “Loucos iranianos, traficantes de droga na América Latina, piratas na Somália”, o sono continua. No último quadrinho: “Judeus constroem casas na Margem Ocidental”. O personagem que dormia, se levanta e diz: ”Como?”
Repassei a amigos com meu comentário:
Esse desenho e o que ele expressa não estaria próximo da paranóia, definida no dicionário de psicanàlise como "delírio sistematizado" que "inclui o delírio de perseguição, a erotomania, o delírio de grandeza e o delírio de ciúme"?
O desenho é de uma enorme "mauvaise foi". A "Margem Ocidental" é nada menos que o território palestino, a Cisjordânia, que pertence (por decisão da ONU de 1948) a um povo que há 60 anos espera construir nele um Estado para viver como vizinho ao Estado de Israel.
Quem defende os "judeus que constroem casas na Margem Ocidental" seria capaz de defender a ocupação da França pelos alemães?
A resistência a essa ocupação é consagrada como uma das páginas mais nobres da história francesa.
De Maria Rita Kehl, psicanalista conhecida por sua honestidade intelectual, recebo o e-mail:
“Oi, Leneide, todo meu apoio a você. Também acho uma tremenda má fé interpretar a condenação à política racista e abusiva do estado de Israel como antissemitismo. Se quiser, pode incluir essa opinião no seu blog. Tenho visto muitos documentários onde aparecem judeus que apoiam os palestinos contra o abuso da força daqueles que, protegidos pelo exército israelense, expulsam os moradores e constroem casas na Margem Ocidental. Então esses judeus seriam antissemitas por reivindicarem justiça para seus vizinhos? Um beijo. Rita Kehl.
Aqui na França, como no Brasil, os judeus se dividem há alguns anos entre os que apoiam Israel incondicionalmente e os que criticam a política racista e colonialista do país. Tenho uma amiga, Régine Robin, socióloga e historiadora conceituada que vive entre Paris e Montréal quando não está fazendo conferências em universidades do mundo inteiro, que foi expulsa da casa de amigos judeus de Paris, porque seu marido fez restrições severas à política de Israel. O jantar foi interrompido e eles partiram. Detalhe: tanto Régine quanto seu marido, ambos professores aposentados da Universidade de Quebec-Montréal, são judeus. E ambos criticam com veemência a política expansionista e brutal de Israel.
A Anistia Internacional divulgou no dia 1 de julho um relatório sobre o bombardeio de Gaza que matou centenas de civis, entre eles 300 crianças, 115 mulheres e 85 homens idosos, entre os 1400 palestinos mortos (houve 5000 feridos). O relatório acusa o exército israelense de ter usado a população civil para formar um escudo humano para se proteger dos ataques do Hamas. Além disso, os civis palestinos eram obrigados a examinar objetos suspeitos de serem bombas. A Anistia Internacional solicita procedimentos judiciais para condenar Israel por “crimes de guerra”.
Mais um ato de um “mundo intrinsecamente antissemita”?

terça-feira, 16 de junho de 2009

Boal e Niemeyer

No mês de dezembro de 2007 passei a ter coragem de afirmar meu desejo de viver cem anos.
Nunca imaginei viver tanto e muito menos ousava expressar esse desejo. Mas a partir de 18 de dezembro daquele ano passei a dizer sem inibição que gostaria de viver cem anos. Quem desencadeou essa coragem foi Oscar Niemeyer. Ao chegarmos ao Rio para as festas de fim de ano, fomos jantar, meu marido e eu, num restaurante italiano de Ipanema, na praça General Osório, convidados por Cecilia e Augusto Boal. Ao chegarmos, vimos que a mesa redonda, à direita da porta de entrada estava ocupada pelo arquiteto, sua mulher e uns quatro amigos. Ele fumava uma cigarrilha e tinha um copo de vinho na mão.
Acontece que três dias antes, Niemeyer festejara 100 anos. Três dias depois desse acontecimento extraordinário, estava num restaurante, bebendo, conversando e festejando a vida com amigos.
Sentados à mesa, Cecilia me provocou: “Vai falar com ele. Fala da entrevista”. Eu tinha feito uma entrevista com Niemeyer por e-mail para o jornal comunista L’Humanité, publicada pouco antes. Boal também foi provocado a ir cumprimentar o centenário ilustre que, como ele próprio, sempre foi engajado na defesa do Brasil e dos oprimidos. Nem Augusto Boal nem eu tivemos coragem de interromper Niemeyer para cumprimentá-lo por seu aniversário.
Mas a partir desse dia passei a dizer sem problemas que se é possível chegar lá com saúde e com lucidez, eu também quero viver 100 anos.

Estado Palestino by Netanyahu

Robert Solé é um jornalista do Le Monde, ex-ombudsman, que assina uma pequena e deliciosa crônica diária na última página. Vale a pena reproduzir a de hoje. Num texto conciso, ele resume a questão palestina atual, depois do discurso do primeiro ministro israelense. Solé imagina uma carta aos palestinos assinada por Netanyahu: “Caros amigos palestinos, Eu, Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, reconheço solenemente que vocês têm direito a um Estado. Mas isso supõe um certo número de condições. 1. Esse Estado não terá um Exército. Não se preocupem: nós cuidaremos da defesa desse Estado com toda a atenção que vocês imaginam. 2. Esse Estado deve procurar um território. Isso é problema de vocês, nós não devemos nos envolver nisso. Em todo caso, não contem com a Cisjordânia: nossas colônias continuarão a se desenvolver lá, graças a um crescimento natural de população. 3. Vocês devem escolher a capital do Estado. Saibam simplesmente que Jerusalém nos pertence e que ela é indivisível. Eis o que tenho a dizer. Fiz um grande passo que deve acalmar Obama e vai me dar um Nobel da paz. A bola agora está no campo de vocês. Benjamin Netanyahu P.S. Se o futuro Estado puder evitar ter uma Constituição, um Parlamento, uma polícia, uma justiça, uma diplomacia e serviços públicos, isso facilitaria muito as coisas".

Monsieur le Président de la République

Recebi hoje um comunicado do « Collectif Interuniversitaire pour la coopération avec les universités palestiniennes ». No seu e-mail, o presidente do Coletivo convida pessoas interessadas a assinarem a carta que ele enviou ao presidente Sarkozy, datada de 16 de junho, na qual o coletivo protesta contra a visita do primeiro ministro de Israel, chefe de um « governo abertamente colonialista, aliado ao partido de extrema direita racista de A. Lieberman”.
A carta pergunta a Sarkozy: “Seria preciso lembrar os sessenta anos de ocupação da Palestina, sessenta anos de injustiças para com os palestinos, os entraves à livre circulação, a negação de seus direitos fundamentais e suas aspirações legítimas? Seria preciso lembrar o bloqueio intolerável a que estão submetidos os cidadãos da Faixa de Gaza, as sucessivas agressões feitas pelo exército israelense, a destruição das infra-estruturas, em particular o bombardeio das universidades?
Chegou o tempo de sancionar as violações do direito internacional e do direito humanitário por Israel. Peço-lhe que anule esse encontro enquanto o governo israelense não tiver dado provas de uma atitude para com os palestinos respeitosa do direito internacional e do direito humanitário”.
Não preciso dizer que pus meu nome abaixo da assinatura do presidente do Coletivo, Roland Lombard, e enviei o envelope com a carta assinada ao Palácio do Eliseu.
Agora que tenho todos os direitos dos cidadãos franceses, ouso protestar de todas as formas, assinando petições entre outras, sem temer que a polícia de Sarkozy me “reconduza à fonteira”, como dizem eufemisticamente os responsáveis pela expulsão de estrangeiros.

Parlamento europeu vira à direita

No domingo, 7 de junho, fui cumprir meu dever de cidadã : votei para o Parlamento europeu na lista do Front de Gauche, que reunia o Partido Comunista e o recém-criado partido de Jean-Luc Mélenchon, um ex-socialista. Ajudei com meu voto a eleger um único deputado dessa coalizão para o Parlamento europeu: Patrick Le Hyaric, atual diretor do jornal comunista L’Humanité, minha leitura obrigatória de todos os dias, além do Libération e do Le Monde.
O parlamento europeu segue a tendência européia de virada à direita. Em todos os países da União Européia as listas da direita tiveram mais votos, seja na França, na Itália ou na Inglaterra. Na França, os socialistas tiveram um resultado abaixo do medíocre, aprofundando a crise no Partido, que já vai mal desde a derrota (a terceira para a direita) de Ségolène Royal e do congresso de Reims. Os trabalhistas britânicos realizaram o pior resultado desde 1918, enfraquecendo ainda mais Gordon Brown.
Na França, a grande surpresa foi a enorme votação dos ecologistas que conseguiram eleger o mesmo número de deputados europeus que os socialistas: 14 deputados, entre eles Daniel Cohn-Bendit, ele mesmo, Dany le rouge de maio de 68, e José Bové.
A lista dos ecologistas tirou votos de eleitores tradicionais do PS e dos centristas do Modem, de François Bayrou, eterno presidenciável que sofreu uma séria derrota.
Cohn-Bendit foi capa do Libération por três dias seguidos. Ele desmente a especulação de que possa ser presidenciável em 2012. Ele responde: “Presidente? Isso não é vida”.
Quem viver verá.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Arte em Veneza


O bilionário francês François Pinault , proprietário, entre outras empresas, da Christie’s, uma das maiores casas de leilão do mundo, inaugura dia 6 de junho na Punta della Dogana, conjunto arquitetural do século XV, bem na entrada do Grande Canal, que os venezianos chamam de Canalazzo, mais um museu de arte contemporânea com obras de sua coleção particular.
Pinault, que já adquirira o Palazzo Grassi em Veneza, antiga propriedade da família Agnelli, possui agora os dois mais importantes espaços de arte contemporânea da cidade dos doges. Ambos já valeriam a visita até vazios. Com a coleção Pinault, o visitante tem um “tour d’horizon” da arte contemporânea do mundo inteiro.
Mais um bom pretexto para voltar a Veneza.
Na foto, o prédio do museu Punta della Dogana num dia de névoa do mês de abril deste ano, visto de um quarto do hotel Monaco et Grand Canal

Okinawa, um modelo de longevidade

O Japão, recordista mundial de longevidade, tem mais de 36 mil centenários. Hoje, há 1500 japoneses com mais de 105 anos e 33 com mais de 110. O número de pessoas com cem anos dobrou nos últimos 5 anos no país. Proporcionalmente à população, o arquipélago de Okinawa, que faz parte do Japão, tem duas vezes mais centenários que o resto do país. A França, o segundo colocado no mundo, tem "apenas" 20 mil centenários.
O professor Makoto Suzuki, fundador do Estudo dos centenários de Okinawa, veio a Paris falar de suas pesquisas sobre o envelhecimento da população desse arquipélago. Há 38 anos ele dirige o estudo que acompanhou 2073 casos de centenários. Hoje existem 900 centenários em Okinawa, dos quais apenas 15% são independentes.
O doutor Suzuki falou aos jornalistas acompanhado do epidemiologista Jean-Marie Robine, presidente do Comité Internacional Longévité et Santé e do médico nutriterapeuta Jean-Paul Curtay. Segundo o Dr. Suzuki, o Estudo dos Centenários de Okinawa revelou um modelo alimentar e um modo de vida que permitem a maior longevidade saudável do mundo. Okinawa é um arquipélado de 44 ilhas habitadas e tem um recorde mundial de longevidade com 87 anos em média para as mulheres e sete anos menos para os homens. Em Okinawa vivem 61 centenários para cada 100 mil habitantes, duas vezes mais que a média do Japão e três vezes mais que a França.
Para envelhecer com saúde o médico explicou que vários fatores precisam estar reunidos : a dieta, a manutenção de uma atividade física, uma vida sem excessos e a existência de um tecido social em torno da pessoa que envelhece. No caso dos alimentos, a maneira de prepará-los parece ser tão importante quanto o próprio alimento. Pelo que contam os médicos, os velhinhos de Okinawa comem coisas muito estranhas à nossa dieta para que o regime deles possa ser seguido à risca. Depois de ver os livros, spas e medicamentos que prometem combater o envelhecimento seguindo o modelo de Okinawa fiquei com a impressão que ele é, antes de mais nada, um bom filão mercadológico. O que não nega o fenômeno dos centenários da ilha mas garante uma fonte de renda a muitas indústrias que vivem do marketing em torno de Okinawa.
Mamãe, aqui não é a praia, né ?
Fazer cooper no Jardin du Luxembourg é um dos prazeres dessa primavera parisiense. Percorro a pé três vezes, num passo rápido, o perímetro do parque mas não tenho noção de quantos quilômetros tem a pista de corrida dos atletas. Ao fim da última volta, me sento numa das cadeiras verdes para pegar sol e ler por uma hora. São momentos de pura felicidade em que o corpo recebe uma boa dose de atenção.
Nesta segunda, um dia feriado, estava sentada no meu momento de leitura. Tirei a blusa, passei um creme e fiquei me bronzeando de maiô, calça comprida e tênis. Um menininho de uns três anos, de óculos escuros, como a maioria das crianças francesas em dias de sol, passou perto com o pai e a mãe. Ele repetiu duas vezes a pergunta sem que eu tenha ouvido a resposta: “Maman, ce n’est pas la plage, là?” Ele não via nem água nem areia mas via um maiô da cintura para cima, sentado numa espreguiçadeira do parque.
Formais (ou conformistas?) até a raiz dos cabelos, as francesas que fazem cooper no parque não costumam ter a idéia de pôr um maiô por baixo da blusa para, uma vez sentadas, retirá-la uns minutos ao se expor ao sol. Também nunca vi um homem sem camisa, bronzeando-se ao sol no parque. Cada momento, cada lugar tem seu código vestimentário. Roupa de praia não é roupa de parque.
Para exposição ao sol de biquíni ou sunga, o prefeito Bertrand Delanoë criou “Paris Plage”, que dura um mês e atrai os mais descontraídos que, de frente para o Sena, fingem que estão na Côte d’Azur. Lá é que é lugar de pegar sol de maiô. Em agosto, no auge do verão europeu, "Paris Plage" é uma mistura de parisienses desinibidos, suburbanos ociosos e turistas curiosos.



segunda-feira, 25 de maio de 2009

Aznavour toujours




“Le grand Charles”. Era assim que alguns jornalistas se referiam a De Gaulle, um homem alto, além de um grande homem. No mundo das artes, o “grand Charles” é baixinho mas seu talento, enorme. Um gigante no palco, Charles Aznavour completou 85 anos e teve direito a um especial na televisão, no canal líder de audiência, TF1.
Os olhos brilham cheios de inteligência e vida, a presença em cena é a mesma de sempre, a voz, um pouco mais rouca. Ele é o último monstro sagrado da canção francesa, que atravessa época de escassos talentos.
Para comemorar e cantar em dueto com Aznavour, Lisa Minelli veio dos Estados Unidos. Placido Domingo cantou uma canção com o amigo e Carla Bruni, não a Sarkozy mas a cantora, veio cantar com o grande compositor “que ela adora”. Foi a primeira vez que Carla apareceu num programa da TV francesa, como cantora, depois do casamento com o presidente. Ela havia dito que não faria mais turnês e shows enquanto fosse a primeira dama. Mas para homenagear Aznavour, não hesitou em subir ao palco e cantar em dueto uma de suas canções preferidas.
Foto de Leneide Duarte-Plon - Na parede, um cartaz de um show de Edith Piaf

Bon courage, Chouchou



Aliás, num vídeo que pode ser visto em diversos sites de jornais e revistas franceses, Carla chama o presidente de “chouchou”, quando lhe deseja um bom dia de trabalho (Bon courage, Chouchou). Sarkozy aparece de surpresa no meio de uma entrevista que ela dava como primeira dama, no Palácio do Eliseu, a jornalistas de uma revista feminina. O presidente troca algumas frases com as jornalistas e com Carla, fazendo gênero simpático e descontraído.
Barack Obama não imagina como depois de sua posse ficou difícil a vida de Sarkozy, que imaginou por algum tempo ser o presidente mais importante do planeta. Sobretudo, quando por seis meses presidiu a União Européia no ano passado.
A concorrência de Barack (Nicolas lascou “Barak” na carta de congratulações pela vitória) é uma pedra no sapato de Sarkozy que conta com o charme e a descontração de Carla Bruni para construir a imagem de um político moderno e dinâmico. Algo como um novo Kennedy, sonho que ele não esconde.
Ele já tem sua Jackie. Falta-lhe o charme e a elegância de John.



J’adore Rio



Ainda no show business, um ator e uma cantora fizeram recentemente elogios rasgados ao Rio e ao Brasil. Desta vez, sinceros.
Costumo ser muito cética quando leio elogios de estrangeiros que visitam o Brasil e dizem ter “adorado a cidade, o povo, a beleza das mulheres” e outras platitudes. O que se imagina que eles vão dizer a jornalistas brasileiros? Vão criticar a sujeira, as crianças de rua, os mendigos, as favelas, provas do nosso atraso e das desigualdades seculares?
Rrecentemente, numa revista francesa, em dois números quase seguidos, duas entrevistas me fizeram sorrir de prazer. Pelo conteúdo, um elogio ao que temos de melhor, nossa música. Mas sobretudo pela sinceridade : ambos falavam a jornalistas franceses e ao público francês.
A primeira foi com o ator Vincent Cassel, 43 anos, filho do ator Jean-Pierre Cassel, falando de seu filme mais recente. No destaque chamado carnet intime, ele tem de citar um disco. Cassel responde: “João Gilberto”, de João Gilberto. Ele virou minha cabeça quando eu tinha 17 anos e era somente um disco de bossa old school (em inglês no texto). Eu o ouço o tempo todo até hoje. Na pergunta um lugar, ele diz: “O Brasil, sem dúvida alguma”.
A outra personalidade foi a cantora e jazzwoman Diana Krall. Ela acaba de lançar um maravilhoso CD chamado “Quiet Nights”. Para quem não se recorda é o nome da canção Corcovado em inglês. O CD é uma maravilha, um deleite de A a Z. Numa entrevista sobre o disco ela diz : “No ano passado, fui ao Rio. Fiquei apaixonada por essa cidade, o país, a música, o repertório do compositor Antonio Carlos Jobim e isso se transformou num álbum. Esse disco é uma carta de amor ao Brasil, a meu marido, aos meus filhos gêmeos, a Vancouver também, a cidade onde vivo. O disco tem um certo erotismo, uma certa sensualidade. E isso é totalmente assumido.”
Maravilhosa Diana com sua voz incrível e seu piano delicioso.



Lei francesa só punirá os desinformados



Hadopi. Estranho nome para a lei francesa que pretende acabar com a pirataria na internet. Na realidade, a lei que vai controlar e punir os usuários da rede que baixam ilegalmente músicas e filmes tirou seu nome "fantasia" da sigla que define a autoridade administrativa criada pela França para sustar os acessos ilegais pela internet : Haute Autorité de Protection des Droits sur Internet (Alta autoridade de proteção dos direitos na internet), um órgão composto de nove membros.
A lei Hadopi se chama Loi Création et Internet (Lei criação e internet). Mas o que pegou foi Hadopi (com acento tônico no i), por facilitar o trabalho de jornalistas para títulos mas também pelo inusitado do nome.
Aprovada pela Assembléia Legislativa e pelo Senado na semana passada, a lei Hadopi tenta proteger e garantir a sobrevivência do direito autoral. A indústria do disco e do cinema são as beneficiárias da lei. Mas ela está longe de ser uma unanimidade.
Primeiro, pela forma de aplicação. Em seguida, pela discordância que gera no seio da própria Europa. Na semana que precedeu a aprovação da lei Hadopi pelo Senado francês, os eurodeputados se posicionaram (por 407 votos contra 57 e 101 abstenções) considerando que a suspensão do acesso à internet de um internauta comprovadamente autor de download ilegal só pode ser feita por decisão de Justiça e não por uma autoridade administrativa, como prevê a francesa Hadopi.
A íntegra desse artigo pode ser lida aqui.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Boal vive



O dramaturgo e diretor Augusto Boal, criador do método do Teatro do Oprimido, praticado em mais de 70 países, foi homenageado pelo jornal comunista L’Humanité. Foi um momento de grande tristeza escrever esse obituário, que pode ser lido aqui.

Para homenagear Boal, a revista online Tropico republica uma longa entrevista que fiz com ele em Paris, em 2007. A íntegra dessa entrevista, publicada em parte pelo jornal L’Humanité no mesmo ano, pode ser lida aqui no site.

Veneza sem venezianos

Fotos Leneide Duarte-Plon

A sereníssima continua misteriosa, bela e única. E agora, ameaçada.
Leio que o prefeito Massimo Cacciari luta com um orçamento achatado pelo governo de Silvio Berlusconi. Daí, a permissão para uma grande marca colocar os enormes outdoors que servem para proteger o palácio dos doges durante obras de restauração. A prefeitura precisa faturar para preservar os palácios. Mesmo que a cidade já tenha uma intensa programação cultural que atrai milhões de turistas todo ano para o fabuloso carnaval, para a Bienal de arte e o Festival de cinema.
Mas apesar de receber um número de turistas sempre enorme, fascinados pela beleza inigualável, a cidade vai se esvaziando de seus habitantes. Em 1931, havia 164 mil venezianos, hoje eles são apenas 60 mil. Com cerca de 20 milhões de turistas por ano, uma média de 55 mil por dia, há dias em que tem mais turista que habitante na cidade dos doges.

Prepúcios de Cristo

Os meninos judeus são levados à sinagoga por pais praticantes no oitavo dia do nascimento para a cerimônia religiosa da circuncisão. Jesus não foi exceção. Seu prepúcio foi cortado por um rabino.
Mas como nenhum homem é dotado de mais de um prepúcio, Jesus não era, nesse caso também, uma exceção e deve ter tido um único prepúcio cortado. Como explicar, então, a exibição de três prepúcios de Jesus pela Igreja católica apostólica romana?
Em seu livro reeditado em Paris, Traité des reliques, o teólogo e reformador francês Jean Calvin, (1509-1567), pai do protestantismo francês, denuncia a idolatria e critica a prática mercantilista da Igreja católica de exibir relíquias para angariar dinheiro. No livro, Calvino revela um fino humor e uma irreverência pouco conhecida. Ele conta que a Igreja guarda pelo menos três prepúcios de Cristo: um na igreja de São João de Latrão, em Roma, outro na igreja de Carroux e um terceiro na igreja de Hildesheim. Não tenho foto dos prepúcios.
Quanto a pedaços da cruz de Cristo, todos reunidos dariam para construír dezenas de cruzes.

Mundo cão

Na semana passada, doze clandestinos afegãos foram descobertos no norte da França, perto de Calais, dentro de um caminhão cisterna, poucos minutos antes de ser carregado de ácido sulfúrico. Por pouco, esses jovens afegãos que pensavam que o caminhão ia atravessar o canal da Mancha não viraram uma pasta, derretidos pelo ácido.
E o pior é que o caminhão em questão nem ia para a Inglaterra, o Eldorado dos migrantes que vêm tentar passar o canal. O caminhão ia para a Bélgica.
Isso é vida real. Na ficção, foi lançado há poucas semanas um extraordinário filme francês chamado Welcome tratando do tema da imigração clandestina e do que os franceses chamam de “delito de solidariedade”. Sem ácido sulfúrico mas com fim trágico também.
Na França, ajudar um clandestino pode dar cadeia.

Fotos polêmicas

Uma exposição de fotos polêmicas pode ser vista ainda este mês na Biblioteca Nacional da França, no sítio Richelieu, o prédio histórico da BNF.
A exposição reúne oitenta imagens que causaram escândalo. Entre elas, a foto feita por um astronauta de outro astronauta no solo lunar. Quem não conhece a história? A famosa foto divulgada pela NASA do astronauta Neil Armstrong andando na lua em 20 de julho de 1969 tirada por seu companheiro de viagem Buzz Aldrin com uma Hasselblad seria um “fake”, que colocaria em questão até mesmo a viagem do homem à lua. A história é tão mirabolante que vale a pena ser contada : o cientista autodidata Ralph René diz em um livro de 1992 que a bandeira americana se move ao vento em um espaço onde a atmosfera não existe. Tem mais: o fotógrafo David Percy analisa as anomalias dessas fotografias divulgadas pela NASA. Segundo ele, existem diversas fontes de iluminação na foto, não há cratera sob o reator do módulo e nem poeira sobre os equipamentos. Além disso, segundo ele, a luz solar é difundida uniformemente em todo o espaço, como na atmosfera terrestre. Esses são alguns dos argumentos que alimentam a teoria do complot, segundo a qual a NASA teria enganado o mundo inteiro simulando em estúdio ou nos desertos americanos as expedições lunares.
Há quem jure que Stanley Kubrick realizou essas imagens para obter como empréstimo a sofisticada câmera da NASA que lhe permitiu filmar cenas noturnas de Barry Lyndon sem luz artificial.
As fotos, que datam do início da era da fotografia até hoje são acompanhadas de um texto que esclarece o tipo de conflito jurídico ou ético que elas geraram. O cartaz da exposição é a famosa foto de Oliviero Toscani, para a marca Benetton, em que um jovem padre beija na boca uma bela freira.

sábado, 2 de maio de 2009

Augusto Boal


Eu era fascinada pela inteligência, pelo entusiasmo e pela generosidade de Augusto Boal. Afabilidade e bom humor eram marca registrada desse homem de teatro para quem “cidadão não é aquele que vive em sociedade, é aquele que a transforma”. Defendia os oprimidos, quando a maioria prefere fazer aliança com os opressores. Frequentava os deserdados, quando poderia desfrutar das facilidades oferecidas pelos privilegiados. Participou do show business sem nunca se deixar ofuscar pelo brilho e pela superficialidade desse mundo. Era simples e otimista e, aos 78 anos, guardava uma alegria de criança. Escolheu seu campo desde cedo e, por isso, sofreu prisão e tortura durante a ditadura.
Tive o privilégio e o prazer de desfrutar da amizade de Augusto. Torci por ele quando foi indicado, no ano passado, ao Nobel da Paz pela sua maior criação, o teatro do oprimido. Acompanho seu trabalho há muito tempo, votei nele para a Câmara dos Vereadores do Rio. Eu o considerei meu Nobel da Paz, mesmo que o prêmio tenha ido para um finlandês ou dinamarquês, quem lembra do nome dele? Numa de suas viagens de trabalho pela Europa, fiz uma longa entrevista com Boal sobre o teatro do Oprimido, para o jornal comunista L’Humanité, (Augusto Boal, le théâtre contre l’oppression), publicada em março de 2007. A íntegra dessa entrevista foi publicada em português na revista online Tropico (http://pphp.uol.com.br/tropico/html/index.shl).
Nunca perdi a oportunidade de encontrá-lo em Paris ou no Rio, com meu marido e com Cecília, sua mulher. Uma vez, fomos com eles a Montreuil, onde Boal deu uma palestra sobre o teatro do oprimido para uma platéia entusiasmada com o brilho de suas idéias e com a técnica do seu teatro. Ouvi-lo era um deleite. Sua vida e o teatro do oprimido foram uma lição de solidariedade e fraternidade. Pessoas que em qualquer parte do mundo vivem situações de opressão podem se expressar através do método desenvolvido por ele.
O mundo inteiro o admirava. O teatro do oprimido é praticado em mais de 70 países. Ele vivia entre dois aviões, viajando por todos os continentes. Seu teatro é objeto de teses de diversas universidades do mundo.
A última vez que vi Augusto foi em Paris, no mês de março. Ele viera à Europa para, entre outras coisas, receber uma homenagem na Unesco, que o nomeou Embaixador Mundial do Teatro, no dia internacional do teatro, 27 de março. Sua maravilhosa mensagem, lida em todos os teatros do mundo, foi traduzida em 45 línguas e os cartazes das traduções foram colados numa das paredes perto do auditório onde ele foi homenageado (ver postagem desse blog no dia 27 de março).
Augusto Boal era o brasileiro mais admirável do Brasil atual. Faz parte do meu panteão de grandes homens apaixonados pelo Brasil. Nesse grupo figuram Barbosa Lima Sobrinho, Apolônio de Carvalho, Hélio Pellegrino e Alceu de Amoroso Lima.
Neste sábado, o Brasil ficou mais pobre.

So French !


“Un grand cru”. Foi como o jornal Libération classificou o primeiro de maio francês que levou dez vezes mais gente às ruas para protestar que um primeiro de maio “normal”, isto é, sem crise.
Em Paris, o cortejo saiu de Denfert-Rochereau sob um céu ensolarado e uma temperatura primaveril de 20 graus e desceu o Boulevard Saint-Michel em direção à Bastilha.
Pela primeira vez, oito centrais sindicais manifestaram unidas o descontentamento com a política de Sarkozy e sua gestão da crise. Como sempre, as avaliações do número de manifestantes variaram de acordo com os interesses. Para a polícia, havia 465 mil pessoas nas ruas e para a CGT um milhão e duzentas mil nas diversas cidades onde houve manifestações. Nas passeatas de 29 de janeiro e de 19 de março deste ano, havia mais gente nas ruas em toda a França. Na de março, a CGT estimou em 3 milhões o número de manifestantes, “apenas” 1,2 milhão segundo a polícia.
Os jornais atribuem a menor afluência desta terceira grande manif do ano, ao fato de o 1° de maio ter caído numa sexta, o que criou um fim de semana prolongado levando muita gente a preferir viajar em vez de ir desfilar para dizer a Sarko que “ça ne va pas”. Muitos se fantasiaram de palhaços.

Uma amiga inglesa de passagem por Paris foi comigo ver a manif e repetia fascinada: “Isso é tão tipicamente francês!” Ela já me acompanhara a uma conferência do ex-embaixador Stéphane Hessel, de 92 anos, e ficara impressionada com o número de pessoas que se deslocaram numa noite chuvosa, depois de um dia de trabalho, para ouvir um dos redatores da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) falar de Gaza e da situação da Palestina ocupada.
“So French”!

*Fotos de Leneide Duarte-Plon