segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Fête de l’Huma







No fim de semana de 11 a 13 de setembro o jornal L’Humanité realizou mais uma tradicional e imperdível reunião da esquerda francesa, a Fête de L’Huma, que dura três dias. Organizada pelo jornal do Partido Comunista Francês (que já não tem mais a foice e o martelo nem é “órgão oficial do PCF”, como antes, mas continua sua luta pelos ideais comunistas), a festa é uma mistura de Feira da Providência com Bienal do Livro multiplicadas por dez.


A Fête de l'Huma é conhecida e frequentada por um número enorme de franceses. O espaço é um grande parque de La Courneuve, uma cidade dos arredores de Paris, e este ano mais de 600 mil pessoas, entre proletários e intelectuais que acreditam que um outro mundo é possível, foram ver o que a esquerda tem a propor para mudar o status quo. Mas quem vai à Fête de l’Huma não vai só tratar de política. Ponto de encontro da gauche francesa, muitos jovens vão também para comer, beber, se encontrar e ouvir música. Tudo com muitas faixas e cartazes engajados, claro. Mas o principal objetivo é angariar fundos para o jornal e reunir simpatizantes e militantes do PCF, além dos principais políticos de esquerda que vão defender a eterna união da esquerda, uma das metas mais difíceis da gauche do mundo inteiro.


Este ano houve, como de hábito, mega-shows de artistas como Manu Chao, que dispensa apresentação, e Julien Clerc, um compositor e cantor conhecidíssmo na França e que, entre outras qualidades, faz músicas para letras de Carla Bruni.
Fui no sábado e no domingo. No sábado pude ver quando o ministro da Cultura, Frédéric Mitterrand, cercado por um enxame de cinegrafistas e jornalistas, entrava no Village du Livre. Os militantes mais exaltados gritavam: "Mitterrand dehors" (fora Mitterrand), "Mitterrand traître" (Mitterrand traidor) e outras “gentilezas”.
Quem convidou Mitterrand para a festa deve ter ficado sem saber o que fazer para conter os jovens que seguiam o grande grupo de jornalistas gritando o que pensam do fato de um sobrinho do ex-presidente socialista ter entrado para o governo Sarkozy.
*Fotos de Leneide Duarte-Plon

Niemeyer em Paris



Os franceses criaram há alguns anos dois dias chamados "Les journées du patrimoine". Nesse fim de semana de setembro, todos são convidados a visitar os prédios tombados, castelos ou símbolos do poder, normalmente fechados à visitação pública.
Aproveitei o domingo para levar minha filha para conhecer a sede do Partido Comunista Francês, na Place du Colonel Fabien, prédio tombado de Oscar Niemeyer. Fizemos a visita depois da palestra de Gérard Fournier, num dia de sol do verão que se despedia de Paris. Foi um prazer redobrado percorrer a obra de Niemeyer com todas as informações sobre as circunstâncias de sua concepção e construção.
A criação dos "dias do patrimônio" é polêmica. Valéry Giscard d'Estaing, que recebeu no fim de semana pessoalmente os interessados em visitar seu castelo d’Estaing, disse aos jornalistas que foi ele quem instituiu em 1980 a data. Já Sarkozy, ao receber a multidão que foi conhecer o Palácio do Eliseu disse achar ótima “a ideia de Jacques Lang de criar esses dias do patrimônio”.
O próprio ministério da Cultura comunicou oficialmente que essa era a 26 edição das jornadas do patrimônio, estabelecendo a criação em 1983, sob a presidência de Mitterrand.
Pobre Giscard. Até a direita atribui a Mitterrand uma ideia genial que ele diz ser sua.

Leite derramado


As fotos nos jornais são impressionantes. Mais impressionantes são as imagens nos telejornais. Os produtores de leite franceses, belgas e do Luxemburgo encheram dezenas de caminhões-cisternas em ações-relâmpago e despejaram nos campos em torno do Mont Saint-Michel o líquido branco produzido pelo trabalho de centenas de homens e mulheres. As vacas contribuíram com o principal, claro.
Na semana passada, o protesto em diversos locais diferentes serviu para chamar a atenção para as perdas que os produtores de leite sofrem com o fim da política europeia de cotas e com os preços irrisórios pagos pelos industriais.
Outros produtores menos radicais preferiram distribuir gratuitamente o leite nas fazendas a vendê-lo por um preço vil.
Segundo a FAO, organismo da ONU que cuida da agricultura no mundo, três quartos do bilhão de seres humanos subalimentados do planeta são agricultores.

France Telecom: 23 suicídios em 18 meses

Os franceses são os maiores consumidores de antidepressivos do mundo.
Agora, deram para se suicidar. Nos últimos 18 meses, 23 empregados da empresa France Telecom – que era estatal e foi privatizada parcialmente no governo Chirac - se suicidaram. A maioria no próprio local de trabalho. Saldo lamentável do capitalismo e das privatizações.
Alguns deixaram cartas alegando pressões insuportáveis, depois da privatização “à la française” (isto é, por etapas) dessa antiga companhia estatal. Há dois anos, houve outra onde de suicídios de empregados dos fabricantes de automóveis Renault e Peugeot.
Christophe Desjours, autor de Souffrance en France (A banalização da injustiça social – FGV) e Suicide et travail, que faire ? (PUF, 2009) explica que existe uma solidão e um sentimento de abandono por parte do trabalhador com os novos métodos de trabalho, configurando-se “um deserto no sentido arendtiano do termo : a solidão total”.
Segundo o psicanalista, os gestores que só olham o resultado em números não querem saber como eles são obtidos. Seria como se os assalariados estivessem loucos por não conseguirem atingir os objetivos. “Mas os objetivos que impõem são incompatíveis com o tempo de que o empregado dispõe”.
Christophe Dejours acrescenta: “As empresas constroem slogans para dar a impressão de que o que elas fazem é gerenciar recursos humanos mas na realidade trata-se de uma gestão “lenço de papel”: pegam as pessoas, espremem e as jogam fora. O ser humano no fundo é uma variável de reajuste, o que conta é o dinheiro, a gestão, os acionistas, o conselho de administração”.

sábado, 12 de setembro de 2009

A vingança de Gaia ou o fim da civilização

“Na Inglaterra ele é um dos darlings da mídia. Célebre na Alemanha, popular no Japão, traduzido na Espanha. A França seria estreita e cartesiana demais ou simplesmente provinciana?” Quem pergunta é um jornalista do Le Monde no perfil de James Lovelock, publicado no lançamento de seu livro The revenge of Gaia, em 2006. O provincianismo da França é uma alusão ao desconhecimento da obra de Lovelock no país.
Sir Lovelock, de 89 anos, construiu a hipótese científica que afirma que a Terra constitui um ser vivo que se autorregula. No início era apenas uma hipótese. Hoje, ela constitui uma teoria, aceita internacionalmente. Ele explica que “o sistema Terra se comporta como um sistema unitário autorregulado, formado por componentes físicos, químicos, biológicos e humanos”.
Quem se interessa por meio ambiente já ouviu falar dessa teoria na qual o meio ambiente e o ser humano são compreendidos como parte de um todo e o planeta como um ser em permanente busca do equilíbrio. Segundo Lovelock, a Terra é uma interação entre o vivo e o não-vivo.
O aquecimento global, consequência da ação humana, segundo o cientista, vai ser responsável por uma catástrofe, pois o processo irreversível já começou. Quando a temperatura na Terra aumentar 8° centígrados (lá pelo ano 2050) a maior parte da superfície do planeta terá se transformado em deserto e os sobreviventes irão viver em torno do polo Ártico.
“Mas não haverá lugar para todos, haverá guerras e populações desesperadas disputando espaço vital. Não é a Terra que está ameaçada mas a civilização”, diz o cientista, membro da Royal Society e cujos títulos incluem o de doutor em química e cientista da Nasa, onde trabalhou para pesquisas em Marte.
Ele não crê no desenvolvimento sustentável como solução para as ameaças que pesam sobre o planeta e prega a diminuição drástica do consumo de bens materiais. Mas para isso, será preciso, segundo Lovelock, que as sociedades industriais saiam da inércia atual.



Prisão com dignidade

A Justiça do país dos direitos humanos reconhece as deficiências do seu sistema penitenciário.
Este ano, o Estado foi condenado a pagar a três ex-detentos da prisão de Nantes por “condições de detenção que não respeitam a dignidade da pessoa humana”. Isso foi em julho e a République vai pagar 6 mil euros a um dos três ex-detentos e 5 mil aos dois outros. Já tinha havido um julgamento similar no ano passado, em Rouen.
Periodicamente lemos nos jornais denúncias de condições degradantes de algumas prisões francesas. A de Nantes, por exemplo, tem 419 presos para uma capacidade de 291 lugares. Suicídios de presos são também frequentes nas prisões do país de Voltaire.
Se a justiça brasileira obrigasse a União ou os Estados a pagarem por “condições de detenção que não respeitam a dignidade da pessoa humana”, imagino que iriam à falência.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Férias I


















Todos os anos, os franceses são convidados a pensar nos seus animais domésticos antes de sair de férias. Com a chegada do verão as sociedades protetoras de animais multiplicam os apelos aos donos de cães e gatos para que não os abandonem antes de partir para as sagradas férias de verão*.

Quem não consegue um esquema de vizinho, amigo ou local profissional para deixar o animal não pensa duas vezes: joga o fiel companheiro na rua e pega o caminho das férias.
Brigitte Bardot e outros defensores dos animais ficam furiosos com os desalmados que abandonam seus bichinhos. Tudo por causa de alguns dias de férias.
Tenho duas amigas que vieram para a Europa na década de 70 e, entre outras atividades de verão, viveram algum tempo cuidando de gatos e plantas de pessoas que viajavam de férias.

*As fotos são na Gare de Lyon, em junho.

Férias II

O açougueiro da Rue Bréa já fechou as portas por um mês. O sapateiro, idem. A nossa tinturaria do Boulevard Raspail fechou neste sábado. As padarias mais próximas estão fechadas por um mês. O chocolatier Jean-Paul Hévin (um dos melhores de Paris) aproveita o mês de agosto para fazer obras e renovar a bela loja da Rue Vavin. Assim como a padaria que fica do mesmo lado.
Paris está vazia. Os parisienses que já saíram de férias no mês de julho vivem numa cidade sem carros, sem barulho e quase sem parisienses, já que a maioria parte em agosto. Há quem curta essa Paris com um quê de cidade do interior. Eu prefiro a cidade viva, com os parisienses andando sempre com um passo apressado ou sentados nas varandas dos cafés.
Outro dia recebi uma sobrinha que vinha a Paris pela primeira vez e lhe contei como funciona a cidade em julho-agosto. Mostrei as lojas fechadas com um cartaz que anuncia o dia da reabertura. Ela, que mora em Brasília, custou a crer que esse fenômeno se repete todo ano.
Quem não conhece Paris num mês de agosto não pode imaginar boutiques e lojas fechadas para férias coletivas. As férias de verão são tão importantes que a própria língua tem duas palavras para designar quem sai de férias em julho e em agosto: “juilletistes e aoûtiens”.
Eu, uma aoûtienne convicta, interrompo o blog por um mês. Em setembro, ele reabre.

Cálice

A igreja anglicana suspendeu por um tempo a distribuição de vinho da Santa Ceia aos fiéis. Gripe A oblige. O cálice que passa de um fiel ao outro não vai mais ser usado pelos anglicanos da Inglaterra. Há algumas semanas, os fiéis participam do sacramento comendo apenas o pedaço de pão. Pela primeira vez na história da Igreja Anglicana, a igreja da Inglaterra modificou o sacramento da comunhão. Na igreja parisiense (protestante) que frequento, o cálice de metal (prata ou estanho?) ainda circulou nesse domingo e todos beberam um gole do vinho, depois de comerem o pedaço de pão. Inclusive eu. Me pergunto se os pastores franceses também vão se render ao princípio de realidade e, como os pragmáticos britânicos, suspender o vinho bebido na taça que circula entre os fiéis.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

As férias do “capitão coragem”

Fazendo cooper, o presidente Sarkozy teve um mal-estar no domingo, 26 de julho. Nesta quinta, 30 de julho, o presidente, como os ministros, troca Paris pelas anuais férias de verão. O presidente vai passar três semanas na Côte d’Azur, na propriedade da família de Carla Bruni. Os ministros, que, como a maioria dos parisienses, vão deixar a cidade deserta, têm uma única obrigação: não estar a mais de duas horas de avião de Paris. Por isso, o primeiro-ministro François Fillon passará suas férias na Toscana. Para mim, a Toscana é um dos lugares mais bonitos da Itália, da Europa e do mundo. Um paraíso onde milionários do mundo inteiro têm casa de campo. E onde eu comprarei uma casa, quando ganhar na euromilhões, a loteria que funciona em vários países europeus.
Christian Salmon, pesquisador do Centro de pesquisas sobre as artes e a linguagem e autor do excelente livro Storytelling – La machine à fabriquer des histoires et à formater les esprits (La Découverte, 2008), analisou no Le Monde o excesso de cobertura do mal-estar do presidente pela imprensa francesa:
"O mal-estar teria passado despercebido em outros tempos. Mas a superexposição de Nicolas Sarkozy, a hipercentralização do poder e sua hiperatividade em termos de agenda midiática mergulham a sociedade francesa num estado de alerta permanente. Existe uma dramatização um tanto doentia, ligada à personalização das instituições políticas e à `novelização´ da vida política. Não se trata mais somente de contar histórias (storytelling), mas de manter a opinião pública em estado de permanente mobilização. Tudo isso faz parte do sintoma de `superexcitação, hiperatividade, superexposição´. O Palácio do Eliseu fez tanto marketing do `capitão coragem´ diante da crise que um simples mal-estar toma proporções quase de um naufrágio".
Leia também
A política como ficção – Leneide Duarte-Plon entrevista Christian Salmon (17/11/2008).


Novo debate sobre o véu islâmico

Os países europeus se veem às voltas com mulheres muçulmanas que cobrem a cabeça com um véu, o hidjab. Alguns, como a França, o proíbem em repartições e escolas. Outros premitem o uso em todos os ambientes. Mas além do discreto hidjab, algumas muçulmanas usam o niqab, que cobre o corpo todo mas deixa os olhos à vista. Outras usam a forma mais radical de ocultação do corpo feminino, a burca, que cobre corpo e rosto e tem apenas uma tela no lugar dos olhos. Na França, são 367 mulheres que usam a burca, segundo o Le Monde de 30 de julho. Convenhamos, não é muito num país de 60 milhões de habitantes.
Acontece que o presidente Sarkozy, em seu discurso diante do Parlamento reunido em Versalhes em junho, inaugurando novo protocolo que permite que o presidente francês se dirija pessoalmente aos parlamentares (antes ele enviava mensagem lida e não podia falar no Parlamento), deixou claro seu ponto de vista sobre o assunto : “O problema da burca não é apenas religioso. É um problema de liberdade e dignidade da mulher. Ela é um sinal de dominação sobre a mulher. Digo solenemente: a burca não é bem-vinda no território da República francesa”.
Segundo ele, a França não pode aceitar mulheres prisioneiras sob uma grade de pano, totalmente isoladas da vida social e de qualquer identidade. “Não é essa a idéia que fazemos da dignidade da mulher”, terminou Sarkozy.
Uma missão de informação parlamentar sobre o uso desse véu integral foi nomeada pelo governo para discutir o caminho a seguir. Pode vir a proibir o uso no espaço público “em nome da laicidade, da dignidade da mulher e da segurança e da ordem pública”. Como a burca permite a alguém (mulher ou homem) se esconder totalmente por trás da roupa, é possível que uma lei seja proposta em fins de janeiro, quando a missão parlamentar concluir suas consultas a sociólogos da religião, filósofos e feministas. “Se uma muçulmana decide usar o hijab ou uma judia usar uma peruca, isso não me incomoda. Por outro lado, o véu integral aniquila a mulher”, diz Olivia Cattan, da Association Paroles de femmes, no jornal Libération e uma das dezenas de pessoas que vão ser ouvidas pela missão parlamentar.
No meu livro "Por que elas são (in)fiéis", Ediouro, 2006, escrevi na página 29:
“Nas sociedades islâmicas, o uso do véu é uma forma de manter controle sobre o corpo da mulher, visto como permanente fonte de tentação. Em nome do livro sagrado do profeta Maomé, tiranos fanáticos escondem suas mulheres sob os mantos para se convencerem de que elas não existem como seres desejantes, como iguais.
No livro "Psychanalyse à l’épreuve de l’Islam", o psicanalista Fethi Benslama diz que “o véu islâmico é uma coisa (em iltálico no texto) pela qual o corpo feminino é ocultado em parte ou totalmente porque este corpo tem um poder de encanto e fascinação. Em outras palavras, o que é ostentatório para a religião é o corpo da mulher, ao passo que o véu seria um filtro que resguarda e protege de seus efeitos perturbadores”.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Apagaram o cigarro de Alain Delon


Na França, a Lei Evin proíbe toda publicidade de fumo, em qualquer mídia.
Por isso, uma foto de Alain Delon de 1966 em que o ator tinha um cigarro na mão direita foi retocada agora para “apagar” o cigarro, na nova publicidade do perfume Christian Dior, Eau Sauvage. Não é de admirar que a Dior vá buscar uma foto dele no auge da beleza para a nova campanha do perfume. O ator é considerado por muitos o francês mais bonito de todos os tempos (quem não lembra da câmera de Visconti lambendo o rosto de Delon em Rocco e seus irmãos, literalmente subjugada pela beleza do ator?).
Delon não é o primeiro a ter uma foto adaptada pelo politicamente correto. Este ano, a cinemateca francesa organizou a retrospectiva e exposição da obra de Jacques Tati. Os cartazes que foram espalhados pela cidade e dentro das estações de metrô mostravam Tati numa bicicleta sem seu cachimbo, devidamente apagado pelos publicitários zelosos. Esse excesso de zelo foi criticado pelo próprio autor da lei, o ex-ministro Claude Evin, e também pela atual ministra da Saúde, Roselyne Bachelot. Ambos acharam ridículo apagar o cachimbo de Tati, uma de suas marcas mais fortes. Agora apagaram o cigarro de Delon, depois de terem tirado o cigarro dos dedos de Sartre para uma exposição sobre o filósofo da Biblioteca Nacional da França, há poucos anos.

120 velinhas

A velha dama de ferro comemorou 120 anos comme il faut.
Não, não estou falando de Margaret Thatcher, tão idosa que vai ficando esquecida por conta da idade, mas ainda longe dos 120. Em vez de pedir que esquecessem o que fez (ou escreveu) ela tratou de começar por si mesma. Esqueceu quase tudo por conta daquele médico alemão, Dr. Alzheimer.
Estou falando da Torre Eiffel. Para seus 120 verões ela teve direito, dia 14 de julho, aos fogos de artifício mais espetaculares de sua história. Comemorou-se a festa nacional e o aniversário de uma das mais visitadas atrações da capital, com o Louvre e a Notre Dame. Antes dos fogos, os franceses e turistas (700 mil pessoas) puderam assistir ao show do velho roqueiro francês Johnny Hallyday, de 66 anos, que se despede dos palcos em uma turnê por várias cidades. A escolha do cantor foi feita por Sarkozy, um fã incondicional. Gosto não se discute.
Por falar na Torre, no Libération podemos ler pérolas de cultura inútil por conta das matérias especiais de verão, quando a política francesa funciona no piloto automático e pouca coisa acontece. Todo mundo sai de férias, inclusive o presidente e os ministros (alternadamente, claro). Leio matéria sobre “o salto do século” feito por François Reichelt, um francês que pensava ter inventado o paraquedas. Ele morreu em fevereiro de 1912, saltando do primeiro andar da Torre Eiffel, diante de poucos curiosos e alguns jornalistas, vestido de uma espécie de macacão-capa, supostamente apto a amortecer sua queda. Não funcionou e o infeliz inventor morreu estatelado aos pés da torre.
Mais um pouco de cultura inútil: a invenção patenteada de um paraquedas foi feita pelo francês Jacques Garnerin em outubro de 1802. Ele tinha saltado pela primeira vez em 1797 no parque Monceau em Paris. Mas o nome parachute (paraquedas) foi criado pelo físico francês Sébastien Lenormand, o primeiro a saltar do primeiro andar de uma casa com um guarda-sol em cada mão!

Delito de solidariedade = estrangeiros fora!

Liberté, égalité e fraternité são palavras edificantes. Mas nem sempre fáceis de aplicar. Na defesa da lei que ficou conhecida por instaurar o “delito de solidariedade”, o governo francês está às voltas com as associações de ajuda aos imigrantes. Uma queda de braços que foi magnificamente ilustrada no filme francês Welcome, que passa no Brasil com o nome de Bem-vindo, pelo que li nos jornais. O ministro da imigração Eric Besson, ex-socialista cooptado por Sarkozy (como o ministro das Relações Exteriores, Bernard Kouchner) não gosta que chamem o artigo L 622-1 – o código de entrada de estrangeiros – de delito de humanidade, delito de generosidade ou delito de solidariedade. O artigo citado diz que “toda pessoa tendo, por ajuda direta ou indireta, facilitado ou tentado facilitar a entrada, a circulação ou a permanência irregular de um estrangeiro na França é passível de pena de cinco anos de prisão e 30 mil euros de multa”.
Associações como o Secours Catholique, Emmaüs e a Cimade querem acabar com as penas para o que chamam de “delito de solidariedade” e defendem a modificação da lei.
Na Itália berlusconiana, a direita pede a médicos e enfermeiros que atendem pessoas ilegais que os denunciem! A direita européia adota cada vez mais um discurso neofascista e o parlamento europeu deu uma guinada à direita depois das eleições européias de junho. Triste Europa!

A evitar ?

Pouco tempo antes de ter de pegar o avião para ir ao Brasil, caíram três aviões, dois no mar e um tupolev iraniano sobre o continente, abrindo uma enorme cratera. De todas as catástrofes, apenas uma sobrevivente, a jovem Bahia, de 14 anos, moradora da região parisiense.
Para meu desespero, a companhia em que vou voar, TAM, está no grupo D (a evitar) de uma classificação de 57 companhias aéreas. Desespero : o que fazer? Jogar fora a passagem já comprada? Comprar uma passagem de uma companhia do grupo A?
A lista de classificação das companhias aéreas pelo grau de fiabilidade foi publicada por um jornal francês depois do acidente da Air France na rota Rio-Paris. Os critérios da classificação foram, entre outros, a idade dos aviões, a manutenção, os incidentes e acidentes ocorridos. Esse estudo foi baseado em dados técnicos fornecidos pelo Observatório da Segurança aérea e do turismo de Genebra (Obssat, em francês). Quem fez o estudo foi François Nénin, jornalista especializado em segurança aérea.
O grupo A (bom nível) tem as companhias mais seguras, na ordem publicada: Singapore Airlines, Qatar Airways, Cathay Pacific, Emirates, Easyjet, Air Canada, Lufthansa, British Airways, Tunisair, United Airlines. No grupo B (nível correto) estão várias outras, começando pela Air France. No grupo C (sob reserva) mais uma dezena, entre elas American Airlines e Continental Airlines. A brasileira TAM abre o grupo D (a evitar) e o grupo E contém as da lista negra, proibidas na Europa ou na lista de espera da proibição.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Homem sem camisa é atentado ao pudor




















Atenção rapazes : em Paris, nunca tirem a camisa, mesmo quando no verão os termômetros resolverem ultrapassar os 30 graus. Vocês correm o risco de darem de cara com um policial que vai fazê-los pagar uma multa de 140 euros por “atentado ao pudor”. A menos que estejam no perímetro de Paris-Plage, a praia artificial criada todo ano em agosto pela prefeitura de Paris na margem direita do Sena.
A história de um americano que teve de pagar a multa me foi contada por meu cabeleireiro que ouviu de uma cliente americana. Há poucos dias, fez calor em Paris. Um amigo dela acalorado tirou a camisa e descobriu que homem sem camisa em Paris é atentado ao pudor. Pagou 140 euros.
Nas praias francesas, as mulheres pegam sol sem sutiã desde priscas eras e ninguém olha, a não ser trabalhadores imigrantes, eventualmente de passagem. Eles não estão acostumados a ver isso por suas terras.
Além de seios de fora, crianças nuas brincando na areia é muito comum nas praias francesas. As fotos foram feitas numa praia da Côte d’Azur.


Lula em Paris : prêmio da Paz na Unesco


“Ele é o representante de uma das grandes economias emergentes que parecem mais aptas a sair rapidamente da crise atual que as outras”. “Ele” é o presidente brasileiro Luiz Inacio Lula da Silva que o Le Monde apresenta como “Luiz Inacio da Silva – chamado “Lula”. O jornal francês de referência não o trata pelo apelido sem explicar aos leitores que trata-se de um apelido. Lula foi a manchete principal do jornal datado de 8 de julho: “Lula: em matéria de economia, o G-8 não tem mais razão de ser”. Na excelente entrevista, o presidente diz que teme que “certos países ricos façam do G-20 apenas um uso utilitário para superar a crise”. Ele defendeu foruns multilaterais que compreendam não somente os países do BRIC (Brasil, Rússia, India e China) mas também o México, a Africa do Sul, a Indonésia e os países árabes. Lula estava de passagem por Paris, onde encontrou o presidente Sarkozy no Palácio do Eliseu. Aplaudidíssimo ao final de seu discurso na Unesco, onde recebeu o “Prêmio Felix Houphouët-Boigny para a busca da Paz”, o presidente Lula estava acompanhado dos ministros Tarso Genro, Fernando Haddad e Celso Amorim. Da capital francesa, ele seguiu para Áquila, para o encontro do G-20. Na Unesco, depois de ouvir diversas autoridades (entre elas, o primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates e o ex-presidente Mário Soares) ressaltarem sua ação social no Brasil e sua ação pela paz e pelo Estado de direito na América Latina, Lula defendeu a paz como prerrogativa do Estado de direito para promover a dignidade humana e a justiça social. Lembrando a enorme dívida social que o Brasil tem com os mais fracos, o presidente afirmou : “Não haverá paz verdadeira enquanto houver fome, desigualdade e desemprego”.
Através de Lula e do reconhecimento internacional de sua ação em favor dos excluídos podemos sentir orgulho de ser brasileiros. Segundo informou a Unesco, um terço dos ganhadores do “Prêmio Felix Houphouët-Boigny para a busca da Paz” receberam depois o Nobel da paz. Para desespero dos tucanos, Lula tem chances de ser nosso primeiro Nobel.


Paris, capital do cinema


Embarras du choix é a melhor expressão para definir o dilema de escolher um filme em Paris, a menos que se possa ir ao cinema todo dia. Temos uma amiga, a socióloga, escritora e historiadora Régine Robin, cinéfila de carteirinha, que quando está em Paris, onde tem apartamento e mora parte do ano, vai ao cinema todo dia, às vezes duas vezes por dia. Em Paris, a festa do cinema dura 365 dias por ano. Todo mundo sabe que não há cidade mais cinéfila na face da terra, porque não há povo mais cinéfilo que o francês. Louis Lumière talvez explique essa paixão pelo cinema. A cidade tem atualmente “somente” 379 salas de cinema (em 1977 tinha 456 cinemas), entre as quais 89 são cinemas de arte. Depois de uma semana da “Fête du cinéma”, de 27 de junho a 3 de julho, na qual vi tudo o que podia, Paris entrou em ritmo de Festival Paris-Cinéma, o festival de cinema da cidade. Este ano, o festival tem a Turquia como país homenageado por ser o ano da Turquia na França. Um grande barato para quem quer ver em primeira mão o melhor da cinematografia turca. Mas tem também atores, atrizes e diretores homenageados. Este ano, retrospectiva dos melhores filmes do cineasta de Taiwan Tsaï Ming-Liang, da cineasta japonesa Naomi Kawase, da atriz Claudia Cardinale e do ator Jean-Pierre Léaud, o ator preferido de Truffaut. Além de clássicos do cinema italiano. Aproveito para ver “Divórcio à Italiana”, a obra-prima de Pietro Germi. Se eu não tivesse um jantar com amigos, teria ido à sessão no Saint-Germain-des-Prés apresentada por Chiara Mastroianni, filha do ator principal do filme, um tal de Marcello Mastroianni. Lamentei não poder ir à sessão em que Claudia Cardinale apresentou pessoalmente “La Viaccia”, de Mauro Bolognini, do qual é a atriz principal. Em compensação, há dois anos fui vê-la apresentar a nova cópia do clássico “A moça com a valise”, de Valerio Zurlini, juntamente com Jacques Perrin. Naquele dia pude constatar como o tempo é cruel com os homens. O jovem Perrin do filme tornou-se um senhor de cabelos brancos, enquanto Claudia, graças a Luc Montagnier, o prêmio Nobel de Medicina do Ano passado, inventor de pílulas à base de papaya para retardar o envelhecimento, continua linda e radiante. Ela faz a publicidade das tais pílulas de Montagnier. Mas não conta que além de pintar os cabelos deve ter passado por alguns liftings, ao contrário de Perrin que não pinta o cabelo e aceita que o tempo passe e deixe suas marcas. Entre os filmes deliciosos que passam em Paris, o novo Woody Allen, “Whatever works” um deleite para os fãs do diretor, que volta com seu personagem insuperável do intelectual neurótico nova-iorquino, interpretado pelo ator Larry David. Imperdível o ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro, Departures (A partida, no Brasil), do diretor Yojiro Takita, um dos mais belos e delicados filmes que vi em toda minha vida.

Stéphane Hessel, Monsieur droits de l'homme

Leia na revista Tropico:
Israel no banco dos réus
Por Leneide Duarte-Plon

Redator da Declaração dos Direitos Humanos, Stéphane Hessel explica tribunal para julgar crimes na Palestina. Leia aqui.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Michael Jackson, le dernier dandy

O melhor texto sobre a morte do “rei da pop” que li foi do filósofo e escritor Daniel Salvatore Schiffer que escreveu no Libération um artigo com o título acima. Ele explica por que Michael Jackson foi o último dandy, como conceituaram Oscar Wilde, Baudelaire e Albert Camus. Incrivelmente inteligente o texto de Schiffer. Wilde escreveu em “Fórmulas e máximas para o uso dos jovens”: “O primeiro dever na existência é ser o mais artificial possível”. Para Wilde, “o verdadeiro dandy deve ser ou uma obra de arte ou usar uma obra de arte”.
Baudelaire, outro dandy, em “Elogio da maquiagem” diz: “Quem ousaria limitar a arte a uma função estéril de imitar a natureza? A maquiagem não tem que se esconder, se escamotear. Ela pode, ao contrário, se exibir, senão com afetação, ao menos com uma espécie de candura”.
Schiffer escreve que essa “obsessiva e quase compulsiva vontade de criar uma aparência corporal cujas exigências formais não correspondem mais aos cânones naturais levando o rosto a se assemelhar a uma máscara (figura artística, em preto e branco de anjo e demônio) é a primeira prerrogativa da estética dandy”. A prova é que o assunto central da obra-prima da literatura dandy, ”O retrato de Dorian Gray”, de Wilde _ como também o mito eminentemente romântico de “Fausto”, de Goethe _ é uma busca permanente da juventude e da beleza. E, paradoxalmente, essa busca leva à morte.
Mas quem melhor resumiu o arquétipo do dandy foi, segundo Schiffer, Camus no livro “L’homme révolté”. Uma frase final para resumir o pensamento de Camus: “O dandy representa sua vida, já que não pode vivê-la. Ele a representa até a morte, menos em momentos em que está sozinho e sem espelho. Estar sozinho para o dandy é o mesmo que não ser nada”.
Daniel Salvatore Schiffer é autor dos livros « Philosophie du dandysme – Une esthétique de l’âme et du corps » e de « Oscar Wilde ». O que ele diz sobre o dandy cai como uma luva em Michael Jackson, um gênio atormentado. Teria sido ele o mesmo se tivesse deitado num divã?

Métro, boulot, dodo

A população francesa vive cada vez mais. Consequentemente, a Sécurité Sociale acumula um déficit monstruoso. Para remediar o rombo da Sécu, o governo estuda, sob protestos generalizados, a modificação da idade de aposentadoria, fixada atualmente em 60 anos, no mínimo. Na Suécia, a idade média de aposentadoria (não o previsto em lei mas a idade média de saída do mercado de trabalho) é de 64,2 pra os homens e 63,6 para as mulheres. Na França, essa idade média é de 59,5 para os homens e de 59,4 para as mulheres.
Todo mundo conhece a fama dos franceses. Para os estrangeiros, o francês é um “bon vivant” : gosta de beber bons vinhos, comer bem, com prazer e tempo para degustar o que come (e falar de comida, de como preparam e dos pratos e temperos exóticos que degustaram nas últimas férias). Um estudo da OCDE revelou que os franceses passam 130 minutos por dia à mesa (os pobres ingleses apenas 80 minutos!). Não preciso explicar a diferença entre o que comem os dois povos. A culinária inglesa não é conhecida por sua sofisticação e nem os ingleses pelo paladar refinado, ainda que as coisas venham mudando do outro lado do Canal da Mancha.
Mas além do recorde à mesa, os franceses também são os europeus que mais dormem. Mesmo que tenham criado a expressão métro-boulot-dodo para demonstrar o trepidante ritmo de vida urbano, os franceses dormem mais que os espanhóis, famosos pelas longas siestas. Quanto dorme em média um francês? 8 horas e 50 minutos por dia.
O jornalista Robert Solé, cuja crônica no Le Monde é uma delícia de concisão e inteligência, sugere três explicações: 1. A pátria dos direitos humanos dorme o sono dos justos e confia no seu governo. 2. O tempo passado sob os lençóis, não é apenas de sono. Há quem se divirta. 3. A França está totalmente entorpecida pelos antidepressivos. Os franceses são os maiores consumidores de antidepressivos do mundo.
Acho que a terceira é a mais plausível. Inclusive porque explica em parte o buraco da Sécurité Sociale: quem paga o antidepressivo, além das aposentadorias, é ela.

O Mitterrand de Sarkozy

De Gaulle teve André Malraux. François Mitterrand teve Jack Lang. Sarkozy estava por fora. Tinha Christine Albanel, uma ministra da cultura sem carisma, sem amigos na área artística, sem presença.
Agora, na mudança ministerial que resolveu fazer depois das eleições européias, Sarkozy entrou para o time dos presidentes que têm um ministro da cultura “in” capaz de fazer brilhar a cultura francesa. Com a nomeação de Frédéric Mitterrand, sobrinho do ex-presidente, Sarkozy tem o seu Mitterrand no governo. As más línguas dizem que ele nomeou um sobrenome e que tudo isso é para fazer mais mal ao já combalido partido socialista. Mas Frédéric, um homem de cultura e independente, nunca foi exatamente um homem de esquerda. Era sobrinho de um ícone da esquerda e tinha uma vida cultural trepidante: é escritor, teve programa cultural na TV e ocupava atualmente, nomeado por Sarkozy, o cargo de diretor da Villa Médicis, o importante centro cultural francês em Roma.
Esta semana, Mitterrand inaugurou o ano da Turquia na França, cujos eventos estiveram ameaçados depois que Sarkozy reiterou várias vezes sua oposição à entrada da Turquia na União Européia. Os turcos não gostam de Sarko, 73% deles dizem não confiar no presidente francês.
Quanto a Jack Lang, num livro de entrevistas publicado este ano, o ex-ministro da cultura de Mitterrand dizia que não entraria no governo Sarkozy. E confirmava que foi sondado para ser o ministro da Cultura de Sarko no dia da vitória do presidente, em 2007. Lang recusou o convite e explica:
“Ministro para quê? Para assumir uma orientação da qual discordo? Como eu poderia ser solidário com uma política fiscal que condenei publicamente, uma política educacional catastrófica, uma política penal que é o oposto de minha concepção dos direitos humanos?”
Isso não impediu que o ex-ministro de Mitterrand fosse a Cuba como enviado especial de Sarkozy para encontrar o presidente Raul Castro. Mas em Cuba, ele não precisa assumir a política fiscal, educacional e penal de Sarko.

De olho na mídia

Esse é o nome de um site de caçadores de antissemitas (deolhonamidia.org.br). De um amigo judeu recebo um desenho publicado no site com o texto:
Uma imagem que vale por mil palavras - A charge abaixo, publicada na coluna Dry Bones do Jerusalem Post e traduzida em conjunto com o grupo Artision caiu em nossas mãos um dia após a publicação do nosso último comentário. Ela traduz tudo que ele quis passar e muito mais em uma imagem só (uma ilustração com diálogos, mas ainda assim um desenho). Reflexo de omissões e distorções criminosas da ONU, mídia e governo Obama, ela é um protesto contra um mundo ainda intrinsecamente antissemita.
Atenção, o mundo é antissemita ! A frase já veio sublinhada.
O remetente é psicanalista e está convencido de que sou antissemita por tudo o que já escrevi no meu blog criticando a política dos sucessivos governos e governantes racistas e expansionistas de Israel.
A charge que veio junto, que infelizmente não pude copiar mostra alguém dormindo e uma voz que anuncia, “A Coréia do Norte está preparando uma guerra nuclear” e o personagem continua a dormir. Depois alguém grita “Genocídio sudanês em Darfur”, o sono continua. Novo alerta: “Risco no Paquistão, terrorismo islâmico crescendo”, ele dorme. “Loucos iranianos, traficantes de droga na América Latina, piratas na Somália”, o sono continua. No último quadrinho: “Judeus constroem casas na Margem Ocidental”. O personagem que dormia, se levanta e diz: ”Como?”
Repassei a amigos com meu comentário:
Esse desenho e o que ele expressa não estaria próximo da paranóia, definida no dicionário de psicanàlise como "delírio sistematizado" que "inclui o delírio de perseguição, a erotomania, o delírio de grandeza e o delírio de ciúme"?
O desenho é de uma enorme "mauvaise foi". A "Margem Ocidental" é nada menos que o território palestino, a Cisjordânia, que pertence (por decisão da ONU de 1948) a um povo que há 60 anos espera construir nele um Estado para viver como vizinho ao Estado de Israel.
Quem defende os "judeus que constroem casas na Margem Ocidental" seria capaz de defender a ocupação da França pelos alemães?
A resistência a essa ocupação é consagrada como uma das páginas mais nobres da história francesa.
De Maria Rita Kehl, psicanalista conhecida por sua honestidade intelectual, recebo o e-mail:
“Oi, Leneide, todo meu apoio a você. Também acho uma tremenda má fé interpretar a condenação à política racista e abusiva do estado de Israel como antissemitismo. Se quiser, pode incluir essa opinião no seu blog. Tenho visto muitos documentários onde aparecem judeus que apoiam os palestinos contra o abuso da força daqueles que, protegidos pelo exército israelense, expulsam os moradores e constroem casas na Margem Ocidental. Então esses judeus seriam antissemitas por reivindicarem justiça para seus vizinhos? Um beijo. Rita Kehl.
Aqui na França, como no Brasil, os judeus se dividem há alguns anos entre os que apoiam Israel incondicionalmente e os que criticam a política racista e colonialista do país. Tenho uma amiga, Régine Robin, socióloga e historiadora conceituada que vive entre Paris e Montréal quando não está fazendo conferências em universidades do mundo inteiro, que foi expulsa da casa de amigos judeus de Paris, porque seu marido fez restrições severas à política de Israel. O jantar foi interrompido e eles partiram. Detalhe: tanto Régine quanto seu marido, ambos professores aposentados da Universidade de Quebec-Montréal, são judeus. E ambos criticam com veemência a política expansionista e brutal de Israel.
A Anistia Internacional divulgou no dia 1 de julho um relatório sobre o bombardeio de Gaza que matou centenas de civis, entre eles 300 crianças, 115 mulheres e 85 homens idosos, entre os 1400 palestinos mortos (houve 5000 feridos). O relatório acusa o exército israelense de ter usado a população civil para formar um escudo humano para se proteger dos ataques do Hamas. Além disso, os civis palestinos eram obrigados a examinar objetos suspeitos de serem bombas. A Anistia Internacional solicita procedimentos judiciais para condenar Israel por “crimes de guerra”.
Mais um ato de um “mundo intrinsecamente antissemita”?