sexta-feira, 30 de março de 2012

Lacan, um pai



Saindo do Le Select, em Montparnasse, encontramos nossa advogada que conversava com uma cliente. Ela nos apresenta a amiga. Trata-se de Sibylle Lacan, 70 anos, filha do primeiro casamento de Jacques Lacan, e autora do livro « Un père » (Gallimard, 1994).
Sibylle não é tão conhecida quanto sua irmã Judith, filósofa de formação, que com o marido, o psicanalista Jacques-Alain Miller, forma o « casal infernal », nas palavras da irmã. As duas irmãs por parte de pai nunca se frequentaram. E, no entanto, têm a mesma idade pois Lacan saía do casamento e iniciava a relação com Silvia Bataille, quando suas duas mulheres engravidaram.
No processo do “casal infernal” contra Elisabeth Roudinesco por causa de uma frase no último livro da historiadora da psicanálise (Lacan envers et contre tout) em que ela atribui a Lacan um secreto desejo de funerais católicos, houve uma cena emocionante quando Sibylle tomou a palavra para dizer que o casal Judith-Jacques-Alain realizou o enterro como um verdadeiro rapto do qual soube apenas pela imprensa dias depois. « Começava a apropriação post-mortem de Lacan, do nosso pai », disse chorando Sibylle Lacan.

Sarkozy, DSK e as prostitutas

A pior coisa que poderia ter acontecido a Nicolas Sarkozy foi o “affaire” Dominique Strauss-Kahn em Nova York, em maio do ano passado. Se Nafissatou Diallo não tivesse entrado naquela suite dando origem ao encontro que acabou em processo (encerrado no âmbito penal mas em curso no civil), DSK teria sido eleito o candidato nas primárias do Partido Socialista (era o candidato mais forte) e hoje Sarkozy estaria certo de ter mais 5 anos pela frente, num novo mandato.
O processo de Nova York, iniciado com a acusação de estupro, afastou DSK definitivamente das primárias do PS. Se ele tivesse sido indicado, como previsto, um segredo muito bem guardado durante meses pelos serviços de polícia franceses teria explodido e adeus sonho da presidência para Strauss-Kahn.
Sabe-se que muito antes do « affaire » de Nova York a polícia francesa já tinha informações sobre o que se chama “o affaire do Hotel Carlton de Lille”, sobre as “parties fines”, como os franceses chamam as orgias de sexo grupal, organizadas por amigos franceses para o então diretor-geral do FMI, com prostitutas. Sua participação ativa na organização dessas “parties fines” ou “soirées libertines” levaram a Justiça a indiciar DSK por « proxenetismo », um delito pelas leis francesas.
DSK era o candidato ideal para os partidários de Sarkozy, que guardavam a história do hotel Carlton de Lille para ser revelada pela polícia logo depois do início de sua campanha que seria abortada com esse grande escândalo.
Mas havia uma camareira no meio do caminho e DSK foi nocauteado antes de participar das prévias do PS.  

Gréco e Davis

No seu livro de memórias, « Je suis faite comme ça », Juliette Gréco conta que seu namoro com o músico Miles Davis na França do pós-guerra foi uma verdadeira paixão. Jean-Paul Sartre um dia perguntou a Davis por que ele não se casava com a jovem atriz, que depois se tornou cantora. Ele respondeu que levá-la para morar nos Estados Unidos casada com um negro era um destino cruel demais para ela. Eles seriam humilhados, ele não entraria nos mesmos lugares em que ela era autorizada a entrar por ser branca.
Depois que o músico voltou aos EUA, o romance chegou ao fim. Mas cada vez que cantava nos Estados Unidos ou em grandes capitais, Gréco recebia flores que lhe mandava Miles, de quem ela diz, aos 85 anos : « Eu sempre o amei e ainda o amo ».

Pierre Bourdieu, o insubmisso
Entrevista com o sociológo Franck Poupeau
Leneide Duarte-Plon, de Paris*
A França foi paralisada por vários dias em 1995, com greves de trabalhadores do setor público, do setor privado, além de estudantes, que se opunham à reforma das aposentadorias, proposta pelo então primeiro-ministro de direita Alain Juppé. Na melhor tradição francesa do intelectual engajado, que remonta ao Sartre da revolta dos estudantes de Maio de 1968 e a Emile Zola do caso Dreyfus, o sociólogo Pierre Bourdieu (1930-2002), juntando a teoria à prática, participou ativamente do movimento social, levando pessoalmente sua solidariedade aos trabalhadores em greve.
Em 1999,  Bourdieu, que nunca se colocou num pedestal de « maître à penser », caracterizando seu trabalho pelo equilíbrio da ambição e da modéstia, interpelou a social-democracia europeia, incapaz de se opor ao processo, já fortemente avançado, de destruição dos benefícios sociais do Welfare State, isto é, do Estado-providência. Hoje, ele estaria ao lado dos « indignados » que protestam contra a submissão do campo político ao poder da finança, segundo analistas conhecedores do homem e da obra.
Autor de uma obra intelectual monumental, o insubmisso e engajado professor do Collège de France - posto que representa o supra-sumo da carreira universitária na França - nasceu de pais camponeses e encarnou em sua vida pessoal a meritocracia da República Francesa, que o levou a cursar filosofia na prestigiosa École Normale Supérieure, tornar-se etnólogo e depois sociólogo. Ele é hoje o segundo intelectual mais citado no mundo, superado apenas por Michel Foucault e à frente do terceiro, Jacques Derrida, segundo o Institute of Scientific Information de Thomson Reuters, que faz o acompanhamento do número de citações em publicações acadêmicas. « Bourdieu atravessa as fronteiras das disciplinas e dos países » diz o sociólogo Loïc Wacquant, Professor da Universidade de Califórnia (Berkeley), que foi seu aluno em Paris.
Hoje, os conceitos de habitus, reprodução social, violência simbólica e capital cultural, forjados por Bourdieu, fazem parte do vocabulário manejado por todos os sociólogos do planeta.
Para marcar os dez anos da morte de Pierre Bourdieu, a editora Seuil, em co-edição com a editora criada pelo próprio Bourdieu, Raisons d’agir, inaugura a publicação dos cursos e seminários do sociólogo com o lançamento do curso Sur l’Etat Cours au Collège de France 1989-1992 (Raisons d’agir-Seuil, 657 páginas) que compreende três anos de seu curso no Collège de France, em torno da questão do Estado. A obra, que revela uma erudição e um rigor científico dignos dos grandes mestres, foi organizada por Patrick Champagne, Remi Lenoir, Marie-Christine Rivière e Franck Poupeau, que concedeu uma entrevista exclusiva à Cult, em Paris.
LDP : O senhor trabalhou com Pierre Bourdieu ? Em caso de resposta positiva, em que contexto ?
Franck Poupeau : Fiz minha tese de sociologia com Patrick Champagne, (um dos quatro organizadores do livro), graças a uma bolsa que Bourdieu me outorgou.  Depois, cuidei de seus contatos com os movimentos sociais franceses e europeus e me envolvi pouco a pouco com os trabalhos acadêmicos. Bourdieu participou do meu juri de tese. Desde 2003 sou o responsável editorial dos Atos da pesquisa em ciências sociais (Actes de la recherche en sciences sociales) e dirijo, com outros sociólogos, a editora Raisons d’agir.
LDP : O livro Sur l’Etat contém os cursos de Pierre Bourdieu no Collège de France durante três anos, publicado em janeiro deste ano. Dez  anos depois de sua morte, Bourdieu, o insubmisso, o iconoclasta, tornou-se um « clássico » ?
Franck Poupeau : Faz bastante tempo que Bourdieu é o sociólogo mais citado no mundo. Se você pegar, por exemplo, o Jornal Americano de Sociologia, não há praticamente um só artigo que não faça referência a seu trabalho. Mas esse curso apresenta a vantagem sobretudo de mostrar « um outro Bourdieu », não o dos livros, mas o que ensinava e que formou durante quarenta anos diversas gerações de pesquisadores. Nesse texto, vê-se um Bourdieu pedagogo, atento a seu público, hesitante muitas vezes, avançando e voltando, testando seus modelos e conceitos sobre um dos temas mais difíceis que existem. Depois desse livro, fica difícil para seus detratores insistir na imagem de um pensador dogmático com um sistema fechado.
LDP : Este livro, que inaugura a publicação dos cursos do sociólogo, chega num momento em que a crise financeira conduz à diminuição progressiva dos serviços públicos. O principal adversário de Bourdieu não era finalmente o neoliberalismo com seu Estado mínimo ?
Franck Poupeau : Vemos emergir essa problemática no fim do curso, quando ele faz alusão às pesquisas que tinha começado e que serão em seguida publicadas no livro « La Misère du monde ». Ele faz uma referência ao que chama « a retirada » do Estado sob a égide de reformadores neoliberais. Mas seu pensamento sobre o Estado não se resume a isto, vê-se que ele tenta superar a oposição entre o Estado opressor (teoria marxista) e o Estado social (corrente social-democrata), para pensar sua ambiguidade fundamental. O fato que ele tenha se dedicado à defesa do Estado social no fim de sua vida não significa que ele tinha esquecido as outras « funções » do Estado. Todo o curso é uma prova disso.
LDP : Na sua opinião, como Bourdieu veria a atual crise europeia que ameaça a unidade da Europa, com Estados-nações enfraquecidos sob o domínio do poder financeiro globalizado todo-poderoso, o alvo preferencial das críticas do sociólogo ?
Franck Poupeau : Na realidade, essa crise não é tão diferente da que já tinha se iniciado no fim dos anos 1990, alguns anos depois de seu curso sobre o Estado. Daí a atualidade de seus escritos posteriores, sobretudo « Contrefeux 2 » (Contrafogos 2) cujo sub-título é « para um movimento social europeu » - um movimento do qual sentimos a enorme necessidade hoje, para articular as lutas na Espanha, em Portugal, na Grécia e em todo lugar. O mínimo que se pode dizer é que Bourdieu teve muito pouca audiência e não foi muito seguido pelas organizações sociais e sindicais francesas nesse projeto, com exceção da organização sindical SUD.
LDP : No seu combate contra o neoliberalismo, Bourdieu participou com os operários nas fábricas, em Paris, durante as greves de 1995. Hoje o filósofo Alain Badiou se engaja na luta dos « sans-papiers », os trabalhadores ilegais, sem documentos. O intelectual engajado é uma instituição tipicamente francesa ?
Franck Poupeau : Existe uma espécie de tradição crítica no mundo intelectual francês, que Bourdieu estudou com a ideia de autonomia do campo intelectual, que teria se constituído com dificuldade contra os poderes temporais no fim do século XIX. Uma das razões de seu engajamento a partir das greves de dezembro de 1995, que ultrapassaram o mundo operário pois englobaram também os estudantes, os assalariados do setor público e em menor escala do setor privado, era que era a autonomia do campo intelectual que estava ameaçada há vários anos pelo domínio da mídia sobre os campos político e acadêmico. A intervenção de numerosos intelectuais da esquerda social-liberal apoiando a reforma das aposentadorias proposta pela direita neoliberal no poder (o Plano Juppé) somente veio confirmar essas análises e precipitou a visibilidade de seu engajamento público contra esses intelectuais.
LDP : Os conceitos de « campo » (champ), reprodução (reproduction) e de « dominação » (domination) se tornaram correntes, impostos pelos trabalhos de Bourdieu. O senhor pensa que sua obra, mais reconhecida que lida, será agora mais conhecida e estudada com a publicação desses cursos no Collège de France ? Quais serão os próximos cursos publicados ?
Franck Poupeau : A obra já imensa mas esse livro pode contribuir para difundir os conceitos com uma abordagem mais pedagógica. Ele se encontra no ponto nevrálgico de vários outros livros e eixos de pesquisa de Bourdieu : seus trabalhos sobre a casa béarnaise (da região do Béarn) ou kabyla para pensar a lógica da casa do Rei e do Estado dinastia, sua pesquisa sobre o mercado da casa individual para pensar a lógica do Estado burocrático, seus trabalhos sobre a teoria da prática e sobre a linguagem para pensar a noção de poder simbólico, etc. Resumindo, é um curso que pode ser lido por pesquisadores experientes e as reações que recebemos vêm confirmar isso.
LDP : Como Bourdieu teria visto e analisado a eleição de um operário metalúrgico, Lula, à presidência da 9a economia do mundo (na época, outubro de 2002), superando todos os determinismos culturais, políticos e sociais sobre os quais o sociólogo teorizou ?
Franck Poupeau : A procura dos determinismos obedece a um princípio científico claro, explicitar as condutas, as lógicas sociais, é o que dá sentido à sociologia. E a sociologia crítica se interroga sobre os limites desses determinismos e de seu poder explicativo, como fazia no fundo a filofia crítica kantiana. Por outro lado, para ficarmos na tradição filosófica, Bourdieu era profundamente spinozista e marxista : é o conhecimento desses determinismos que pode levar à libertação em relação a esses mesmos determinismos. A emancipação social não é dada, ela é conquistada, é o fruto de um trabalho coletivo, de um trabalho de mobilização, de educação popular e de politização. Creio que o Partido dos Trabalhadores e Lula correspondem, mesmo em suas ambivalências, a essa ideia. E que Bourdieu, que sempre quis ir à América Latina mas adiava sempre a viagem por causa das urgências francesas e europeias, e pela consciência de que não podia ir por dois ou três dias. Ele teria ficado fascinado de ver o surgimento dessas « esquerdas de governo » na América Latina, de Lula a Evo Morales, esquerdas que são o produto de mobilizações sociais, na intensidade e na duração, inéditas desse lado do Atlântico.
LDP : Essa publicação dos cursos Sur l’Etat nos leva à descoberta de um Bourdieu diferente do autor que conhecemos, ou pensamos conhecer, através de suas obras ?
Franck Poupeau : Trata-se de um curso oral, no qual a palavra é livre, menos censurada que no texto escrito, Bourdieu chama a atenção para isso, enfatizando a dificuldade de transmitir suas análises a um público muito heterogêneo : ele deve falar a « colegas » sociólogos como também a não iniciados na disciplina, daí o esforço de pedagogia, de explicação não somente de seus argumentos e teses mas também de sua estratégia de pesquisa, de seu programa científico. Existem, pois, páginas inéditas sobre o que significa construir um modelo da gênese do Estado, no cruzamento da histórica com a filosofia política e com a sociologia, que não se encontraria num livro. Há também longas reflexões sobre as pesquisas passadas que revelam todas as sutilezas delas.
LDP : Em que as análises de Bourdieu sobre o Estado podem esclarecer políticas implementadas depois de sua morte em 2002 ?
Franck Poupeau : No fim do curso, Bourdieu faz diversas referências ao que ele considerava naquele momento (em que ele trabalhava na pesquisa coletiva publicada, em 1993, sob o título La misère du monde) como um « abandono do Estado », a desconstrução não somente dos serviços públicos e das políticas sociais mas da ideia de « público » e do ideal de universalidade que tinha presidido - através dos séculos de lutas de concorrência, de monopolização e de acumulação de capital burocrático - à construção do Estado. O processo estava em curso na França, depois da América do Sul, do Reino Unido ou dos Estados Unidos e faltava, talvez, a suas análises o recuo que temos hoje para dizer que as políticas liberais são menos um desaparecimento do Estado do que uma transformação do Estado,  de seus modos de gestão administrativa e de controle das populações.
Curso de 12 de Dezembro de 1991 :
A Construção do espaço político, o jogo parlamentar.
“Certos autores insistiram no fato de o Parlamento, particularmente o Parlamento inglês, ser uma invenção histórica, que se refletirmos bem, não tem nada de evidente: é um lugar onde as lutas entre os grupos, os grupos de interesses, as classes, se preferimos, vão se dar segundo as regras do jogo que faz com que todos os conflitos externos a essas lutas têm algo de semi-criminoso. A propósito dessa « parlamentarização » da vida política, Marx fazia uma analogia com o teatro : ele via no Parlamento e no parlamentarismo uma espécie de engodo coletivo no qual os cidadãos se deixam lograr ; essa espécie de teatro de sombras ocultaria de fato as verdadeiras lutas que estão fora (1). Penso que é o erro sistemático de Marx. Já disse isso cem vezes aqui, é sempre o mesmo princípio. A crítica marxista, que não é falsa, torna-se falsa quando esquece de integrar na teoria aquilo contra o qual a teoria é construída (2). Não haveria razão de dizer que o Parlamento é um teatro de sombras se as pessoas não acreditassem que ele é algo diferente. E ele não teria nenhum mérito de dizer isso. Em certo sentido, Marx diminui seus próprios méritos esquecendo que aquilo contra o qual ele afirmou sua teoria sobrevive à sua teoria : o Parlamento pode ser este lugar de debates regulamentados, num sentido um pouco mistificado e mistificador, esta mistificação fazendo parte das condições de funcionamento dos regimes e, em particular, das condições de perpetuação dos regimes que chamamos democráticos. O Parlamento é, pois, esse lugar de consenso regulado ou de dissenso dentro de certos limites, que pode excluir ao mesmo tempo objetos de dissenso e sobretudo de maneiras de exprimir  o dissenso. Pessoas que não têm as boas maneiras de expressar o dissenso são excluídas da vida política legítima ».
1. Karl Marx, Le 18 Brumaire de Louis Bonaparte. Paris. Editions sociales, 1976 [1852].
*Publicada na revista CULT

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Navios de cruzeiro ameaçam a Sereníssima



Leio no « Libération » que a Unesco pede a interdição dos enormes navios que entram na lagoa de Veneza e passam pela Giudecca  despejando mais de dois milhões de visitantes por ano na Sereníssima. São mais de 500 mastodontes por ano que ameaçam a fauna e poluem o frágil meio ambiente da cidade. As ondas gigantes que produzem, juntamente com os vaporettos, atingem as fundações da cidade, composta de uma floresta de pilares de madeira. Além do mais, os gases que expelem poluem as fachadas dos palácios e monumentos.

A foto foi feita no verão passado.

É sempre assustador ver passar tão próximo da Giudecca e do Grande Canal um daqueles monstros brancos que despejam deslumbrados e apressados turistas de um dia no elegante e frágil Patrimônio Mundial da Humanidade.
 

O diretor de Cultura da Unesco resolveu aproveitar os efeitos da tragédia do Concordia para relançar a campanha de interdição dos gigantes poluidores de Veneza. Giorgio Orsini, prefeito de Veneza, que já batalha há anos contra a ameaça dos grandes navios à  sobrevivência da sua cidade, ganhou novo aliado.
 

Cruzeiro no Mediterrâneo… no thanks

Leio que os navios de cruzeiros são cada vez mais gigantescos. O Titanic tinha o equivalente a 46 mil toneladas, levava 3500 passageiros; o Costa Concordia tinha 112 mil toneladas e capacidade para 3780 passageiros e o Allure of the Seas tem 220 mil toneladas e capacidade para 8400 pessoas! Os ganhos das companhias de navegação com os cruzeiros não vêm apenas do preço das passagens, mas das despesas geradas nos cassinos e nas butiques. E quanto mais gente na verdadeira cidade ambulante, mais dinheiro nos cassinos e nas lojas. Os armadores são capitalistas que oferecem cruzeiros cada vez mais acessíveis para lucrar nos serviços e no comércio mas a segurança que oferecem está longe do ideal.
 

« Mesmo nas melhores condições, não se teria como salvar todo mundo em caso de naufrágio de um  desses gigantes dos mares », informou recentemente Jacques Loiseau,  presidente da Associação francesa de capitães de navios.
 

Boa informação para quem sonhou se aventurar um dia al mare.
 

A propósito do capitão Schettino, do Costa Concordia, que fugiu do navio em vez de dirigir a evacuação dos passageiros, sendo severamente repreendido pelo chefe da Capitania dos Portos, De Falco, Alberto Dines escreveu: “O circo brasileiro tem legiões de schettinos e poucos de falcos.  Nossos governantes abandonam os cidadãos”.
 

Dignidade e coragem faltaram ao capitão Schettino, como falta a nossos politicos. 


França : depois da sarkocaína, tratamento de lithium ?
 
 « Não é o discurso de Hollande que preocupa Sarkozy mas o que o candidato socialista encarna : uma presidência calma. Depois da sarkocaína, o tratamento de lithium para a França. Sarkozy tenta desarmar o antisarkozysmo, o verdadeiro motor da campanha ». A frase é de um comentário de Christian Salmon sobre o vibrante discurso de François Hollande no Le Bourget, domingo 22 de janeiro, diante de 20 mil militantes e dirigentes socialistas entusiasmados. O discurso marcou, segundo todos os observadores, a decolagem definitiva de Hollande na campanha e trouxe o desânimo à direita sarkozysta que vê seu campeão em declínio em todas as pesquisas.
 

Hollande atacou a tirania do mundo das finanças, defendeu uma 
França mais justa e menos voltada para as elites, prometeu proteger os serviços públicos fundamentais (educação e saúde), alvos do neoliberalismo sarkozysta,  e prometeu impostos mais justos. Os ricos pagarão mais, disse Hollande claramente.
 

Salmon é autor do formidável livro “Storytelling”, de 2007, no qual mostrou, como atualmente a política é escrita por marketeiros como o roteiro de um filme no qual os politicos devem encarnar um personagem pré-fabricado e bem desenhado.

Pérolas de Pelé : Racismo ? Não somos racistas…
 

Aos  71 anos, o Rei Pelé deu sua primeira entrevista ao jornal Le Monde, em janeiro, de passagem por Zurique.
 

Ao jornalista Mustapa Kessous que perguntou: "O senhor foi o primeiro negro a tornar-se ministro no Brasil. Problema de racismo? » Pelé responde: "Isso não existe no Brasil. E também é um absurdo dizer que existe racismo no futebol, ele é multicolor. Amarelos, negros e brancos". Pelé conta que só descobriu o racismo nos Estados Unidos, quando jogou no Cosmos.
 

Essa candura não surpreende quem lembra que o gênio do futebol expressou em plena ditadura a crença profunda dos ditadores : "O povo brasileiro não sabe votar". 
 

Quando o jornalista pergunta : « Que imagem do Brasil vocês querem mostrar na Copa? », Pelé responde : « O Brasil é a quinta potência mundial! Mas eu gostaria que houvesse menos pobreza e menos desigualdade social. Depois da Copa, haverá os Jogos Olimpicos em 2016. O governo e o povo devem aproveitar desses momentos importantes para modernizar o país."
 

É bom saber que Pelé descobriu a pobreza e a desigualdade social de um dos países mais iníquos do mundo!
 

Num momento de pura ingenuidade ele diz que "as famílias dos bairros pobres e favelas onde havia bandidos estão muito contentes" com a ação do governo para erradicar o banditismo. Não viu nada a criticar.
 

Depois de elogiar muito o estilo e as qualidades do jogador Messi, Pelé responde à pergunta. « Ele é melhor que você? ». « Quando Messi tiver marcado 1283 gols como eu, quando ele tiver ganho três Copas do mundo, voltaremos ao assunto ».
 

Pelé tem plena consciência do seu valor e sempre soube enxergá-lo. Mas não consegue enxergar o racismo brasileiro.
 

O pior cego…  é aquele que não quer ver.   
 


A maman (sem acento)
 
Uma amiga francesa, que não prima pela generosidade, para dizer de forma elegante que ela é avarenta como nunca vi ninguém, nos contou uma história que viveu recentemente.
 

Ela queria mandar fazer uma homenagem para o túmulo da mãe. Para isso, procurou uma loja que prepara placas para cemitérios. Ao saber o preço de cada letra quis recuar, horrorizada. A responsável pela loja lhe disse: “Em vez de Pour maman, a senhora pode escrever:  À maman. Já economiza algumas letras. Como ela continuava a reclamar do preço, a vendedora sugeriu: “Coloque A maman sem o acento, a senhora economiza mais um pouco”.
Resultado. A mãe da minha amiga recebeu a homenagem mais sucinta da história das lápides francesas. E sem acentos, para ficar mais em conta.
 

À toutes les mères, les psychanalystes reconnaissants
 

O psicanalista Patrick Faugeras, que tem um grande senso de humor, nos dizia que quando pensa no papel das mães na fabricação dos neuróticos e das neuróticas que vêm vê-lo no consultório tem vontade de propor aos colegas uma homenagem especial dos psicanalistas no dias das mães. Ao ver o filme de Clint Eastwood, “J. Edgar”, descobrimos uma das mais típicas fabricantes de neuróticos em ação.
 

Seguindo o raciocínio de Faugeras, a frase que pode ser lida na entrada do Panthéon de Paris : "Aux grands hommes, la patrie reconnaissante" seria transformada pelos psicanalistas em placa, na porta dos consultórios: "À toutes les mères, les psychanalystes reconnaissants". 
 

Sétima arte
 

Com “Hugo Cabret” Scorsese realizou um filme emocionante, uma verdadeira declaração de amor ao cinema ao retratar um dos pioneiros da sétima arte, Georges Méliès.

Os franceses, que inventaram o cinema, são o povo mais cinéfilo do mundo, todo mundo sabe. O extraordin
ário número de cinemas de Paris _ passando o que de melhor se produz no mundo da sétima arte, além de festivais permanentes de alguns dos melhores diretores mundiais _ faz da capital francesa a cidade mais cinéfila do mundo. Para saber o que está passando, a cada semana, o parisiense precisa comprar um pequeno guia (Pariscop, Officiel des Spectacles ou Télérama) ou se aventurar pela internet.
 

No ano passado, os franceses compraram 255 milhões de ingressos de cinema, 4,2% mais que em 2010. Somente em 1966 esse número foi superado. Enquanto isso, nos Estados Unidos, a curva é descendente : 2011 teve quase 4% menos de ingressos de cinema vendidos que no ano anterior.
The Artist, que já deu a Jean Dujardin um Golden globe pode continuar sua carreira vitoriosa e conquistar alguns Oscars. Não seria nada mau para o cinema francês. 
 

Ainda na área cultural, um estudo recente mostrou que 70% dos franceses lêem pelo menos um livro por ano. Mas, comparando-se com a década de 70,  os que lêem 20 livros ou mais baixou de 28% a 16%, enquanto os que lêem entre 1 e 10 livros por ano aumentou de 24% a 38%.
 

Nesse relatório sobre a prática cultural dos franceses, quem ganha é o cinema que no ano passado viu o número de espectadores aumentar. Quanto aos jornais, somente 29% dos franceses lêem atualmente um jornal todo dia, contra 55% na década de 70. 
 

Huffington Post também fala francês
 

Por Leneide Duarte-Plon em 26/01/2012 na edição 678 do Observatório da Imprensa

Ao assumir a direção do Le Monde, em fevereiro do ano passado, Erik Izraelevwicz escreveu um editorial em que dizia que “no campo da informação, a revolução introduzida pela internet não para de modificar o panorama. A experiência do Huffington Post nos Estados Unidos nos obriga a repensar nosso jornal, a nos situar numa cultura multimídia”. O Huffington Post americano tem 37 milhões de leitores por mês, o que faz dele o jornal online mais lido do mundo.
 

O Huffington Post francês foi lançado numa operação de marketing digna das grandes marcas, dia 23 de janeiro, na sede do jornal mais respeitado da França, Le Monde, que tem 34% do capital do novo jornal online. O jornal vai competir com os bem-sucedidos Rue89 e Mediapart, criados exclusivamente online, sem versão impressa, por jornalistas oriundos do Libération e do Le Monde, respectivamente.
 

Sem censura
 
Lançado nos Estados Unidos em 2005, o Huffington Post superou a versão online do The New York Times (uma exceção, pois as marcas da imprensa escrita ainda têm um lugar importante entre a mídia online). A versão francesa é totalmente produzida em Paris por uma redação de oito jornalistas (a redação americana tem 200) comandados pela jornalista Anne Sinclair, diretora editorial, que na vida privada é madame Strauss-Kahn.
 

Além de uma bem-sucedida carreira no jornalismo ela goza de uma quota de popularidade excepcional, tendo sido eleita a mulher do ano em 2011, seguida de Christine Lagarde e Martine Aubry. Anne Sinclair prometeu fazer um jornal tipicamente francês, em harmonia com a cultura do país, e anunciou blogs assinados por grandes personalidades do mundo político e cultural.
 

O lançamento reuniu um número de jornalistas, cinegrafistas e fotógrafos nunca visto em entrevista coletiva. Mais de 200 profissionais da imprensa foram à sede do Le Monde para conhecer o projeto. A fundadora do Huff Post, Arianne Huffington, veio dos Estados Unidos e apresentou seu novo rebento cercada dos responsáveis pela versão francesa: Louis Dreyfus, presidente do grupo Le Monde, Matthieu Pigasse, um dos acionistas do Le Monde e presidente da holding Les Nouvelles Editions Indépendantes (que edita o Huff além da revista impressa Les Inrockuptibles), David Kessler, diretor do Huff Post francês, Paul Ackermann, redator-chefe.
 

Mas parte daquele enxame de profissionais da imprensa se deslocou para ver e ouvir a mulher de Dominique Strauss-Kahn, que garantiu que todos os assuntos vão ser tratados pelo jornal, sem censura ou autocensura – mesmo a suíte do affaire que envolve seu marido, pois sabe separar vida privada da vida profissional.
 

Duas marcas

Propriedade do grupo AOL desde fevereiro do ano passado, o Huffington Post foi anunciado por Arianna Huffington como um modelo da informação online, misturando assuntos sérios com a leveza do lazer e da cultura e apresentando “storytellings com emoção e não apenas números e personagens”. Segundo Anne Sinclair, o jornal não é nem de direita nem de esquerda, mas “republicano e humanista”. E pretende ser sério e divertido.
O Huffington Post francês tem cinco rubricas: eleições presidenciais 2012, economia, internacional, cultura e tendências (que inclui novas tecnologias, arte de viver, moda e lazer).
 

Apesar de serem parceiras, as duas marcas que se unem no novo jornal – Le Monde e Huffington Post – são separadas e as redações totalmente independentes.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Tchin !


O millésime de Champagne 2011 é o melhor da história deste vinho depois do millésime 2007.
Aproveitemos e brindemos a 2012 !


Pênis em profusão e eretos

 
“Por que em Pompeia se erguiam esses falos ?” Esse é um título do jornal Le Monde de terça-feira, 10 de janeiro. Uma página inteira de fotos e de uma bela reportagem sobre a extraordinária exposição que o Musée Maillol de Paris dedica a Pompeia. Os falos da exposição, sempre eretos, não me chocaram mas me chamaram a atenção quando visitei a exposição com Samuel, de 13 anos. Chegamos a comentar com naturalidade o fato de estarem sempre em ereção, simbolizando a fertilidade.


Fiz fotos de um pênis diante na entrada de uma casa em Pompeia. Segundo o guia, o símbolo indicava um bordel. 




Mas segundo o Museu Maillol, uma professora teria escrito ao ministro da cultura Frédéric Mitterrand dizendo-se chocada. O diretor das pesquisas arqueológicas explica ao Le Monde : «Pompeia não é a cidade do pecado, a cidade pervertida, uma espécie de Sodoma, castigada pelos deuses. Numa sociedade que não conhecia nem a dúvida, nem o pecado, nem o pudor, nem a malícia típicas de nosso tempo, o sexo era vivido com grande naturalidade ». Daí o número de pênis eretos nas pequenas estatuetas e em grandes esculturas que podem ser vistas no Musée Maillol até 12 de fevereiro.


Das ruínas de Pompeia, descoberta no século XVIII, já foram escavados dois terços que representam 1500 casas ou palácios e templos, com mais de 20 mil metros quadrados de afrescos e 2 mil metros quadrados de mosaicos.
 

Mas com a crise e a falta de recursos para manter o sítio, muitas paredes de pedra com mais de dois mil anos correm o risco de ruir. Mais de 500 milhões de euros são necessários para manter o perímetro arqueológico e a receita com os ingressos de visitantes em Pompeia arrecada apenas 22 milhões por ano. Uma gota d’água.
 

Numa escultura que vi no Museu arqueológico de Nápoles falta o pênis de Alessandro Severo (225 d.C.), mas a perda parece compensada pela espécie de cetro que ele tem à mão. 


(Fotos de Leneide Duarte-Plon)
 

Uma bofetada em Le Pen

O criador do Front National, Jean-Marie Le Pen, simboliza o racismo e a xenofobia de uma parte da população francesa que detesta negros, árabes e estrangeiros em geral.
 

Por isso, a pesquisa que anualmente aponta a personalidade preferida dos franceses é uma bofetada no velho líder racista e ultra-nacionalista.  Publicada em 1° de janeiro 2012, ela informa que os franceses elegeram como personalidades preferidas três símbolos da França que Le Pen detesta : o primeiro colocado é um francês mestiço (o ex-tenista e atual cantor Yannick Noah), o segundo é um francês de origem argelina (o ex-jogador Zinedine Zidane)  e o terceiro é um francês negro, de origem africana (o ator Omar Sy, um show de interpretação em Intouchables). Noah e Zidane já estão há vários anos liderando a lista.
 

Iniciada em 1988, a pesquisa foi muito tempo dominada pelo comandante Cousteau (eleito 20 vezes a personalidade preferida dos franceses) e pelo abade Pierre (16 vezes), fundador de uma obra de caridade extraordinária chamada Emmaüs. A ex-ministra da Saúde Simone Veil, responsável pela lei que legalizou o aborto em 1975, é a quarta colocada. Nicolas Sarkozy é o 49°. 

Aliás, outro dia ouvi o pai de Sarkozy, Pal Sarkozy, dizer que se seu filho « tivesse 30 cm a mais ele não teria sido levado a se tornar presidente da República ». Ele queria dizer que a ânsia de poder e reconhecimento é uma compensação para o complexo que vem de sua baixa estatura. 

Napoléon era baixinho, convém não esquecer.
 

Bem-vindo à Palestina 2012



A colonização da Cisjordânia prossegue a passos largos. Israelenses fanáticos que teimam em ignorar as resoluções da ONU acharam um aliado de peso : a indiferença de Barack Obama e da Europa, que torna a criação do Estado Palestino uma miragem. O esfacelamento do território atribuído pela ONU em 1947 para a criação do Estado Palestino é uma realidade que interessa muito pouco atualmente à mídia, ofuscada pela primavera árabe.
Foto 329
 

Um apelo chamado Bem-vindo à Palestina 2012 (Bienvenue en Palestine 2012) foi lançado por personalidades como Desmond Tutu (bispo sul-africano e Prêmio Nobel da Paz por sua luta contra o apartheid), Noam Chomsky (Linguista e filósofo americano),  Jean Ziegler (vice-presidente do Advisory Committee do Conselho das Nações Unidas para os Direitos Humanos), da rabina Lynn Gottlieb (Shomer Shalom Network for Jewish Nonviolence) e de Bruce Katz (PAJU: Palestininos e Judeus Unidos, Canada) entre muitos outros nomes de ativistas judeus e palestinos. Eis o texto:
 
« Nós, signatários do presente, aderimos ao apelo Bem-vindo à Palestina, que visa a permitir aos defensores dos direitos humanos e dos direitos nacionais do povo palestino viajar livremente à Palestina em abril de 2012. Hoje, não há outra forma de entrar na Palestina senão passando por postos de controle israelenses. Israel fez da Palestina uma prisão gigante, mas desde quando prisioneiros não podem nem mesmo receber visitas ? Bem-vindo à Palestina 2012 vai de novo contestar a política israelense de isolamento da Cisjordânia, no momento em que colonos paramilitares e o exército cometem crimes contra uma população civil palestina sem defesa. Fazemos um apelo aos governos para defender os direitos dos palestinos de receber visitas e o direito de todos os cidadãos desses governos de visitarem livremente a Palestina. Os participantes da missão Bem-vindo à Palestina 2012  pedem que seja possível transitar pelo aeroporto de Tel Aviv sem problemas afim de se dirigirem à Cisjordânia onde são esperados para participarem de um projeto dedicado ao direito à educação para todas as crianças palestinas ». 


Perigo : Facebook 


A  policia francesa acaba de prender um jovem, suspeito do assassinato da namorada. Ele esteve foragido por países que não têm acordo de extradição com a França e resolveu voltar ao território francês para esquiar.
 

Cometeu, porém, um grave erro. Anunciou em sua página do Facebook e quando chegou ao aeroporto a polícia o esperava e o conduziu detido para início de um processo que não aconteceu antes porque não havia provas do crime e o rapaz sempre se declarou inocente. O pai da vítima nunca se convenceu de que o ex-namorado não seria o verdadeiro assassino e continuou a investigação. Obteve novas provas e testemunhas e agora a Justiça francesa vai finalmente julgar o acusado do crime.
 

Tudo por causa de uma indiscrição. As pessoas que têm uma página Facebook se comprazem em contar o que vão fazer ou fizeram. Como se o cotidiano e os pequenos prazeres individuais pudessem interessar à humanidade. A web é um depósito de narcisismos incontroláveis. E, dessa forma, Facebook tornou-se o maior delator da história da humanidade ! Há todos os dias histórias de empregadores que usam as informações para julgar seus empregados potenciais. Os riscos de Facebook são enormes.
 

Para quem não conhece o risco de controle das informações que circulam nesse big brother aconselho o testemunho de um jovem advogado alemão. Assustador.

http://www.youtube.com/watch?v=ObbiBeXevkE
 





Tributo à honestidade de Madame Carriou
 
 

Minha bolsa foi roubada quando me sentei para tomar um chocolate numa das deliciosas varandas de café de Paris. Coloquei a bolsa na cadeira ao lado e comecei a tomar notas para um texto que ia escrever. Uma pessoa sentou-se ao lado e no mesmo momento se levantou e saiu correndo com minha bolsa. Era um jovem magro, com aparência de cigano (romeno). Corri pedindo socorro mas o ladrão escapou e sumiu numa rua movimentada.
 

Começava para mim um calvário que ainda não teve fim. Tinha acabado de voltar do Brasil e ainda estava com todos os documentos brasileiros na bolsa, além da carteira de identidade, título de eleitor e cartões de créditos franceses, i-phone e mil e uma coisas importantes como as chaves de casa. Além de 300 euros que acabara de pegar num caixa eletrônico. No mesmo momento do roubo, voltei em casa depois de ligar para meu marido para ele ir abrir a porta de casa. Peguei nova bolsa, o passaporte francês que escapou do roubo porque estava em casa, e me dirigi à delegacia mais próxima.
 

Não sem antes pegar em casa 250 euros em notas de 50 e enfiar num bolso no alto da blusa. Depois de ter em mãos o documento da delegacia para todas as providências administrativas, voltei para casa. Entro no elevador e vejo um recado escrito por uma vizinha dizendo que encontrara dinheiro no elevador (sem precisar a quantia) e que o dono poderia lhe telefonar para receber o dinheiro. Procuro meus 250 euros e nada ! Depois do roubo da bolsa, era a segunda perda importante no mesmo dia. Ligo para a vizinha e lhe digo que perdera 250 euros em notas de 50 e ela me responde, « pode vir pegar ». Foi exatamente o que ela achara, cinco notas de 50 euros.
 

Perturbada com o roubo dos documentos, ao sair para a delegacia,  pensei que colocava no bolso da blusa e o dinheiro caiu no elevador sem que eu percebesse.
 

Se todas as pessoas que encontram 250 euros num elevador tivessem a preocupação de escrever um bilhete avisando ao possível proprietário, o mundo seria muito melhor.    

Golgota Picnic

 
O título da peça já é uma provocação. Sem terem visto a peça, os católicos integristas a julgaram « cristianofóbica ». Na entrada do teatro, cartazes espalhados por todo o hall diziam : « On ne vous empêche pas de croire, vous ne nous empêcherez pas de penser » (Não impedimos vocês de crer, vocês não nos impedirão de pensar).
 

A iconoclasta e poética Golgota Picnic passou por Paris, no Théâtre du Rond Point, como parte da programação  do Festival de Outono. O espetáculo já tinha sido apresentado em Toulouse sob protestos dos tradicionalistas católicos que a julgaram herética sem tê-la visto, como habitualmente. Dois homens foram presos tentando sabotar o sistema de alarme do teatro. Um aparato policial em torno do teatro esteve presente todas as noites de apresentação, de 8 a 17 de dezembro.

A peça do espanhol-argentino Rodrigo García desperta novamente a polêmica em torno da figura de Jesus Cristo, depois de "Sobre o conceito de rosto do filho de Deus", do italiano Romeo Castellucci   (comentada anteriormente neste blog).
 

O Cardeal de Paris André Vingt-Trois convidou os católicos  a uma vigília de preces na  Notre-Dame de Paris para protestar contra a peça que para ele « é um insulto a Jesus Cristo na cruz ».
 

A peça  de Garcia, dura duas horas e meia mas não se limita a criticar a civilização ocidental-cristã. Os atores são verdadeiras metralhadoras giratórias atirando em todas as direções. Numa das cenas, os cinco atores cantam em português Cálice, a maravilhosa canção de Chico Buarque. Os quatro atores da peça e a única atriz são porta-vozes do talentoso diretor e autor Rodrigo García, que segundo li passa parte do ano na Bahia.
 

“Em verdade vos digo, quem não tem senso de humor não entendeu nada da vida”, diz um deles. A última hora do espetáculo é um recital do premiado pianista Marino Formenti, tocando totalmente nu a peça de Haydn “Sete últimas palavras de Cristo”.

O fim de uma era

 
Por Leneide Duarte-Plon em 27/12/2011 na edição nº 674 do Observatorio da Imprensa


Sempre foi e sempre será uma triste tarefa a de noticiar o fim de um jornal. Foi duro para os jornalistas brasileiros verem a lenta decadência do Jornal do Brasil, seu desaparecimento na versão impressa, assim como foi penoso este mês para os jornalistas franceses verem chegar ao fim o France-Soir depois de 67 anos presente no panorama midiático francês.


Libération deu capa e a matéria principal de quatro páginas com a história do legendário France-Soir, além de uma análise da situação atual da imprensa francesa e das perspectivas futuras. No editorial assinado, Nicolas Demorand, diretor de Libération, escreveu que “o jornalismo da imprensa escrita é um esporte de combate” parafraseando o documentário sobre Pierre Bourdieu, A sociologia é um esporte de combate, de Pierre Carles. Como o brasileiro, o jornal francês vai manter sua versão online. Na França, France-Soir é o primeiro jornal impresso a parar de circular mantendo a versão online.
 

France-Soir fora comprado pelo milionário russo Alexandre Pougatchev, de 23 anos, em 2009, por 65 milhões de euros. O pai do jovem é um oligarca próximo de Vladimir Putin e já comprara o gigante da alimentação de luxo francês Hédiard. Mas tendo acumulado um prejuízo em 2010 de 31 milhões de euros, Pougatchev resolveu parar de perder dinheiro com a crescente perda de publicidade e de leitores. A equipe de 130 jornalistas que fazia o jornal impresso foi reduzida a 32 profissionais e o jornal passou a ter apenas uma versão online.
 

O fim da imprensa como a conhecemos
 

Criado em 1944 por Robert Salmon e Philippe Viannay, France-Soir é o diário que se originou do jornal clandestino da resistência contra os nazistas, Défense de la France, também fundado pelos dois jornalistas. Na época áurea de Pierre Lazareff, que comprara o jornal de seus fundadores, o jornal chegou a vender 1 milhão de exemplares diários.
 

O sociólogo Jean-Marie Charon, especialista da mídia, estima que essa tendência de passar do impresso ao web vai continuar na França. Os jornais La Tribune e L’Humanité podem seguir o mesmo caminho de France-Soir e passar a circular unicamente online. Nos Estados Unidos, onde a tendência ao fechamento dos jornais impressos é crescente, a imprensa diária já suprimiu 10 mil empregos desde 2007. Segundo o jornal Le Parisien, outro diário que migra lentamente para a internet, dois terços dos franceses se informa hoje pela internet.
 

Jean-Marie Charon arrisca uma profecia de especialista. Segundo ele, os cotidianos vão cada vez mais migrar para a internet. Alguns jornais manterão uma versão impressa apenas alguns dias da semana; outros, apenas um dia por semana. Ligados dia e noite no smartphone, no rádio e na TV, os leitores não têm mais tempo de ler um jornal impresso todo dia. E as novas gerações não formaram o hábito da relação sensorial, indispensável para alguns, do leitor com o papel do jornal.
 

Sem dúvida, o desaparecimento de uma geração que ainda compra ou assina um ou mais jornais diários marcará o fim da imprensa como nós a conhecemos.
***

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

SERENÍSSIMA VENEZA


O crítico de arte e ex-diretor do Musée Picasso de Paris, Jean Clair, não gosta de arte contemporânea, que escreve entre aspas. Não foi visto em Veneza, que neste verão estava mais bonita, mágica e mais misteriosa que nunca. A cidade dos doges, onde Mitterrand passava parte do verão todos os anos com Mazarine e Anne Pingeot, é uma eterna fonte de descobertas e alumbramento. Redescobrir Veneza com o Dictionnaire amoureux de Venise de Philippe Sollers foi um dos prazeres do mês de agosto, que passamos sempre na Itália, a menos que o Brasil se imponha por motivos de força maior.
Em Veneza, um concerto de um grupo de música de câmara tocando « As quatro estações » de Vivaldi dentro de uma igreja é uma garantia de que a viagem já valeu a pena. Um jantar no restaurante do Hotel Monaco & Grand Canal é um programa romântico e chique. A evitar os passeios de gôndola tão caros a americanos e japoneses.
Na Bienal de Veneza deste ano havia muitas obras, muitos artistas mas raros os que realmente diziam algo de novo. Entre eles, o suíço Thomas Hirschhorn, com sua instalação Crystal of Resistance, que tem essa pretensão. 
« Com essa obra quero criar uma forma que permita pensar algo que não existe, algo novo, inesperado. Com essa forma quero criar uma verdade que resiste aos fatos, às opiniões, aos comentários », escreveu na apresentação de sua obra.
A instalação dele ocupava um espaço muito grande, caótico. Tem o mérito de não deixar o espectador indiferente. Provoca, incomoda. Será isso o novo ?

… e a Bienal de Lyon

Lyon, na França, organizou este ano a estupenda, soberba 11a Bienal. Com o título « Une terrible beauté est née » (Uma terrível beleza nasceu), dos versos do poeta inglês Yeats, a Bienal de Lyon nos fez viajar em obras de artistas do mundo todo, sob a curadoria de Victoria Noorthoorn, uma argentina que num só sobrenome consegue ter quatro O.
A Bienal de Lyon, louvada em prosa e verso por toda a imprensa francesa, sem nenhuma conotação de chauvinismo pois os artistas franceses brilham pela ausência, pode ser vista até  31 de dezembro.
Na Bienal de Lyon, brilham os brasileiros Cildo Meireles, que ocupa todo um andar do Musée d’Art Contemporain com uma obra incrível (FOTOS) chamada « La Bruja », feita de milhares de metros fios de lã preta. No pavilhão chamado Sucrière, uma sala especial homenageia Arthur Bispo do Rosário com diversas obras e é a única sala onde não se pode fazer fotos. Os poemas de Augusto de Campos (FOTO) estão salpicados em diversas paredes da Sucrière. A brasileira Daniela Thomas também está presente na Bienal com a mise en scène de uma obra de Beckett,   « Breath ».  

Na Bienal de Lyon descobri o trabalho de três grandes artistas : o polonês Robert Kusmiroski com sua obra Stronghold, (FOTO)
o peruano Fernando Bryce, com a crônica de uma memória coletiva, um trabalho extraordinário sobre a vertiginosa passagem do tempo e de fatos que se acumulam em jornais, e a tcheca Eva Kotatkova, que em obras terrivelmente perturbadoras critica a formatação de cérebros pela escola. Grandes descobertas.

Danielle Mitterrand, a eterna indignada 

É a história de uma dama, uma grande dama, que morreu aos 87 anos. Uma dama que sempre detestou o epíteto de « première dame ». O papel de « dame patronesse » não era o seu.
Depois que Stéphane Hessel publicou Indignez-vous, best-seller planetário que vendeu mais de 2 milhões de exemplares somente na França e deu origem ao movimento mundial dos indignados, a resistência e o engajamento ganharam novo adjetivo. « Indignado » é o novo resistente. O adjetivo designa os que resistem à ditadura do mercado que gera desemprego, precariedade e aprofunda as desigualdades entre ricos e pobres.  
Danielle Mitterrand foi indignada a vida toda. Primeiramente, como resistente numa rede da Resistência francesa, arriscando a vida para combater os ocupantes nazistas na França. Na Resistência, aos 17 anos, ela conheceu François Mitterrand, o « capitaine Morland ».  Ambos atuavam com nomes de guerra. Logo depois se casaram e Danielle continuou sendo « a consciência de esquerda » de François Mitterrand, como reconhecem os amigos socialistas.
Danielle Mitterrand sempre teve vida própria e nunca foi uma sombra do marido. Ao contrário. Quando ele era presidente (de 1981-1995) criou dificuldades para o Quai d’Orsay por seus engajamentos internacionais em favor dos kurdos, da libertação do Tibet, do Front Polisario no Marrocos, do movimento do comandante Marcos, no México. Chegou a escapar de um atentado no Kurdistão que matou diversos de seus colaboradores. Foi uma indignada de todas as lutas contra a opressão e pela liberdade.
A última causa de Danielle Mitterrand foi a luta pelo direito de todo ser humano ter acesso à água potável. Para isso, enfrentou interesses de multinacionais poderosas que querem transformar a água em um produto como outro qualquer. Em 1986, Danielle Mitterrand criou a Fundação France-Libertés que atua no mundo inteiro, inclusive no Brasil, em defesa de quase um bilhão de pessoas que não têm acesso à água potável. Ela esteve presente em todos os encontros do Forum Social Mundial para defender o direito de todo ser humano a esse bem que ela queria ver inscrito como um direito fundamental de todo ser humano. A indignada Danielle participou da criação da cadeira de direitos humanos da UNB, juntamente com o senador Cristovam Buarque. Este ano ela se encontrou em Paris com o chefe Raoni para apoiá-lo na luta contra a barragem de Belo Monte.
A vida pessoal de François Mitterrand e Danielle foi a de um casal que se amou e se respeitou sempre. Na década de 60, firmaram um compromisso : cada um teria vida privada independente mas o casal se manteria unido. Esse era o pacto que tinham quando o ex-ministro e deputado Mitterrand foi eleito presidente da República em 1981. Danielle tinha um companheiro, um professor de educação física, ele teve diversas relações. De uma delas, nasceu Mazarine, que o presidente reconheceu. Danielle participou da cerimônia do enterro de Mitterrand com seus dois filhos, tendo Mazarine entre os dois irmãos. Anne Pingeot, companheira de Mitterrand e mãe da jovem Mazarine estava na segunda fila, discretamente vestida de preto. As cenas do enterro mostraram aos franceses a dignidade e a classe de Danielle que abraçou Mazarine diante das câmeras do mundo todo.
Danielle foi enterrada onde nasceu, em Cluny, cidade medieval conhecida por sua Abadia monumental de extraordinária beleza. Mazarine, filha de François Mitterrand com Anne Pingeot, foi a Cluny para a cerimônia do enterro da viúva de seu pai. E foi emocionada que lançou uma rosa vermelha no túmulo de Danielle, eterna combatente, que viveu 87 anos indignada com as desigualdades e engajada nas lutas pelos direitos humanos.

DSK e a teoria do complô
Todos os que acompanham de perto na imprensa francesa o que se chama « l’affaire DSK » pensavam que com as revelações do caso do hotel Carlton de Lille em que o nome do ex-diretor do FMI aparece como consumidor de uma rede de prostituição, tínhamos chegado ao fim das revelações bombásticas. Mas neste fim de semana, o Le Monde revela que um jornal americano levanta a tese de um possível complô contra o ex-candidato às eleições primárias socialistas. Seu telefone celular Blackberry teria sido grampeado e, mistério, desapareceu sem nunca ter sido encontrado. A tese do complô pode estar sendo montada pelos advogados de defesa com a cumplicidade de um jornalista de investigação para desacreditar de vez a causa de Naffissatou Dialo, que prossegue uma ação civil contra DSK na Justiça americana.
Na França, a Justiça continua a investigar a rede de prostituição de Lille e os SMS de DSK confirmando com amigos festas com prostitutas em diversas cidades, inclusive Paris e Washington.  
Quem fala e compreende bem francês e quer entender como Dominique Strauss-Kahn foi parar na história sórdida de uma rede de prostituição de luxo de Lille pode abrir o site e ver um infográfico sonoro que explica tudo :

« Cézanne e Paris » e « A aventura dos Stein » : um gênio de volta à cidade que o consagrou
Leneide Duarte-Plon, de Paris (publicado na revista Carta Capital)

 « Cézanne é o pai de todos nós », afirmava Picasso, que sabia o que dizia. O catalão era um admirador incondicional do artista que deixou sua Aix-en-Provence natal para se instalar em Paris em 1861, aos 22 anos. A frase é também atribuída a Matisse pelo escritor e colecionador Leo Stein, o que prova que ambos reconheciam em Paul Cézanne um precursor e um mestre.
Naquela segunda metade do século XIX, mais que hoje, quem tinha pretensão de se tornar artista precisava frequentar seus pares, respirar o ar da capital. O jovem Cézanne trabalhava no banco do pai e morria de tédio. Para ser  pintor era preciso ir para Paris, umbigo do mundo, onde Émile Zola, colega de Cézanne no ginásio de Aix, já se instalara.
Amigo, colecionador e incentivador do artista, o escritor foi retratado em diversos quadros, dois dos quais dois estão na exposição « Cézanne et Paris »,  mostra excepcional recém-inaugurada no Musée du Luxembourg, que pode ser vista até 26 de fevereiro. São 79 obras, 77 de Cézanne, uma de Armand Guillaumin e uma de Pierre Bonnard. Entre as obras de Cézanne expostas, todas foram pintadas em suas diferentes temporadas parisienses e estão espalhadas por museus e coleções particulares do mundo inteiro. Duas delas, « Paul Alexis lendo para Emile Zola » e « O negro Cipião », vieram do MASP de São Paulo.
Em Paris, onde passou a metade de sua vida artística, Cézanne frequentou a Académie Suisse, de Charles Suisse, onde posavam modelos vivos masculinos e femininos. Mas além do atelier com os modelos, o pintor precisava da proximidade do Louvre, onde ia com frequência se impregnar da beleza e da técnica dos grandes mestres. No templo da arte parisiense, Cézanne desenhava em seus carnets cópias de Delacroix, Poussin, Rembrandt. Ele se inspira no movimento e na cor de Rubens, Véronèse, Ticiano e Signorelli.  « O Louvre é o livro onde aprendemos a ler » escreveu um ano antes de sua morte, em 1906. A única obra que Cézanne conservou toda a vida foi uma aquarela de Delacroix, que considerava  « o grande mestre ».  
No entanto, nenhum ícone da capital foi imortalizado por Cézanne em suas diversas temporadas parisienses, que ele alternava com viagens pela região de Aix-en-Provence, onde pintou soberbas paisagens da montanha Sainte Victoire. Não pintou Notre Dame, não se interessou senão em poucos quadros por uma rua de Montmartre ou pelos tetos de Paris. « Cézanne nunca se tornou um parisiense. Ele não construiu laços afetivos com a cidade que lhe é indispensável mas estrangeira. Ele nunca fez um retrato emblemático da cidade, ao contrário de outros artistas de sua geração », escreve a curadora da exposição Maryline Assante di Panzillo.
Mas o artista se interessava pela região em torno de Paris, que retratou magnificamente : Fontainebleau, as margens do Sena, do rio Oise ou do rio Marne. Com o amigo e pintor impressionista Pissarro, ele se instala mais de um ano em Auvers-sur-Oise. Depois, acompanha o pintor e amigo Armand Guillaumin a Issy-les-Moulineaux e adota a técnica divisionista de seus colegas que serão chamados de « impressionistas ». « Quando passa um ano sozinho em Melun, perto de Paris, em 1879-1880 e pinta « Le Pont de Maincy » (A ponte de Maincy), Cézanne encontra seu caminho. Ele fará do impressionismo, que depois abandona, uma arte sólida e durável », ressalta a curadora.  
Na exposição, pode-se admirar um quadro de Guillaumin ao lado da cópia feita por Cézanne. O primeiro pintou as margens do Sena em  « Le Quai de Bercy ». Cézanne refaz a mesma cena com um tratamento « impressionista » no quadro « La Seine à Bercy ». Um deleite para os admiradores do artista. A curadora analisa : « Cézanne não copia, ele toma emprestado ao amigo um motivo e o interpreta à maneira « construtivista » que está elaborando ».
Quando, em 1895, Cézanne faz sua primeira exposição individual, na galeria de Ambroise Vollard, já era um pintor conhecido e respeitado por seus pares, mas o artista não deixa Aix-en-Provence para vir a Paris. No mesmo ano, é o marchand Vollard quem faz a viagem ao sul para visitar Cézanne. Em 1894, Monet organizara uma recepção em homenagem a Cézanne, em Giverny, na presença de Clemenceau, Rodin e do crítico Gustave Geffroy. Em 1898 e 1899, Cézanne realiza duas novas exposições na galeria de Ambroise Vollard.
Mas até alcançar a glória de ter uma sala inteira do Salon d’Automne dedicada à sua obra, em 1904, o inspirador de Picasso e de Matisse teve quadros recusados em oito Salões parisienses, de 1865 a 1876. Cézanne estava em boa companhia : Manet foi recusado em 1866 e, em 1867, além das duas telas de Cézanne recusadas, o júri recusou outras de Guillemet, de Sisley, de Bazille e de Renoir. Apesar de ser no Salão de Outono e no Salão dos Independentes que os novos artistas podiam mostrar obras modernas, o academicismo imperava no establishment e as obras de Picasso, Cézanne, Matisse, Monet, Degas e Gauguin ainda causavam escândalo.  Daí a importância do Salon des Refusés, criado para mostrar obras de vanguarda recusadas.
Nessa Paris do início do século XX, os irmãos Stein, Leo, Gertrude e Michael, além da mulher deste, Sarah, vindos de São Francisco, descobrem em 1903 uma efervecência cultural e artística que vão viver, incentivar e divulgar. A exposição « L’aventure des Stein : Matisse, Cézanne, Picasso… », que pode ser vista até 16 de janeiro de 2012 no Grand Palais, conta a fabulosa história da coleção de arte de quatro americanos ricos, que se instalam em Paris onde se tornam colecionadores e incentivadores de artistas desconhecidos como Picasso e Matisse, que estavam inventando a arte moderna. Como Gertrude explica a Hemingway _ que frequentou open houses que ela promovia na Rue de Fleurus, onde artistas, escritores e colecionadores passavam para ver a coleção, falar de arte e encontrar a fina flor da vanguarda parisiense  _ comprar quadros era para ela e seus irmãos uma prioridade que vinha antes de tudo.
Os estudiosos e apreciadores de Cézanne têm a oportunidade extraordinária de ver nas duas mostras mais de oitenta quadros do artista, pertencentes a museus do mundo todo e a coleções particulares: são 77 obras na exposição do Musée du Luxembourg e outras 9 que fizeram parte da fantástica coleção Stein, na mostra do Grand Palais, que reúne 248 pinturas, esculturas, desenhos, litografias, impressos e fotografias. Um dos textos da exposição informa que a descoberta de Cézanne por Leo Stein, que veio para Paris para se tornar artista, foi uma « revelação » que questionou «  tudo o que ele pensava saber sobre a pintura ». Seu irmão Michael e sua mulher Sarah se tornam amigos de Matisse, de quem adquirem grande número de quadros. Graças ao casal, a obra do artista é exposta nos Estados Unidos.

Iniciada por Leo, Gertrude frequenta os salões de arte parisienses e descobre Cézanne. Como Picasso, de quem se torna amiga, colecionadora e incentivadora, Gertrude tem verdadeira veneração pelo mestre de Aix-en-Provence de quem adquire « Portrait de Madame Cézanne à l’éventail » (Retrato de Madame Cézanne com leque). Ela conta que foi admirando esse quadro que escreveu  « Three lives ». Gertrude dizia que queria escrever como Cézanne e Picasso pintavam. Para isso, ela tentava subverter a sintaxe, como Picasso subverteu a pintura e, inspirando-se de Cézanne, criou o cubismo.
Depois de ver as duas exposições, ler tudo o que curadores e críticos escreveram sobre os fabulosos colecionadores que foram os Stein, sobre os artistas que frequentavam os salões de Gertrude, Leo, Michael e Sarah, sobre a fabulosa aventura existencial daqueles americanos cultos e refinados, sofisticados e loucos na Paris do início do século XX, um programa urgente se impõe : rever « Midnight in Paris », reler « Paris é uma festa » e ler a obra de Gertrude Stein.

Sobre o conceito de rosto do filho de Deus 

Leneide Duarte-Plon, de Paris (Publicado na revista Carta Capital)
Do fundo do palco, o enorme retrato de Cristo do artista italiano Antonello da Messina, do século XV, fita os espectadores nos olhos. Em cena, o esfincter incontinente de um homem velho vem perturbar a saída do filho para o trabalho. O rosto de Cristo é onipresente durante os 50 minutos de duração da peça do dramaturgo italiano Romeo Castellucci, 51 anos, « Sul concetto di volto nel figlio di Dio » (Sobre o conceito do rosto do filho de Deus). O espetáculo causa polêmica na França, desde julho, quando foi apresentada no Festival de Teatro de Avignon, onde suscitou reações indignadas da parte de grupos integristas católicos, que tentaram impedir algumas apresentações.
Em Paris, onde esteve em cartaz de 20 de outubro a 6 de novembro, a peça, toda falada em italiano sem legendas, se transformou num acontecimento cultural em si, pela controvérsia que despertou, comparável à que suscitou, em 1966, a peça « Paravents », de Jean Genet, vítima dos grupos de extrema direita que viam nela uma ofensa à França e a seu exército.
O Théâtre de la Ville, em Paris, passou a ser protegido todas as noites por um impressionante esquema de proteção policial, com blindados de tropas de choque formando um cordão de segurança em todo o quarteirão para impedir a entrada dos grupos de integristas que gritavam slogans contra a « cristianofobia » da peça. Para entrar, os espectadores tinham de passar por um esquema de controle de bolsas e apalpação do corpo digno de um aeroporto moderno. Dentro da sala de espetáculo, havia dezenas de policiais em roupas civis, prontos para dominar espectadores exaltados, que tentaram interromper algumas representações do espetáculo.
Na verdade, a peça, uma profunda reflexão filosófico-teológica sobre a condição humana, desorienta o espectador do início ao fim. Hipnotizados pelo olhar do Cristo de Antonello da Messina, vemos em cena um homem idoso que se desfaz em uma diarreia incessante, inoportuna para seu filho, jovem executivo que se prepara para ir trabalhar, deixando o pai sozinho em casa. A peça dura apenas uma hora e tem poucos diálogos entre os dois personagens : o filho que se apressa em limpar o pai incontinente e este, que não para de se desculpar pelo transtorno. O filho é atencioso e se apieda sinceramente do estado de miséria física em que vê o pai, dependente e enfraquecido.
Em longa entrevista ao Le Monde, Castelucci disse que os integristas protestavam sem terem visto a peça, que pode ser analisada como « um canto de amor ao Cristo ». De fato, é assim que a vêem alguns espectadores. A frase em ingles, « You are my shepherd », que aparece no final da representação no fundo do palco onde o retrato do Cristo se encontrava (ele é rasgado e destruído) torna o espetáculo uma obra aberta pois a palavra « not » depois do verbo se ilumina e se apaga intermitentemente. Essa frase é uma variante do primeiro versículo do Salmo 23, atribuído ao rei Davi, “O Senhor é o meu pastor”.
Castellucci é um erudito leitor da Bíblia, apesar de se dizer ateu. Ele conta que procurou atingir a metafísica e o espiritual a partir de uma cena hiperrealista em que discute Deus em sua dimensão total, onde o sublime do olhar de Cristo coexiste com a miséria da condição humana em sua expressão mais dramática, na cena que se desenrola no palco. « A partir dessa situação hiperrealista, o espetáculo se torna pouco a pouco uma metáfora da perda de substância, da perda de si, como a condição do Cristo que aceitou se esvaziar de sua substância divina para integrar a condição humana até o fim, inclusive nos nossos excrementos ».  
Segundo o diretor, depois da primeira representação da peça, o ator que representa o pai saiu de cena e chorou durante duas horas. Provavelmente, sendo idoso, se projetou no destino de seu personagem. « Mostrar o rosto do filho de Deus é mostrar o rosto do Homem, Ecce Homo, visto no momento de fragilidade que precede a Paixão. Ele nos precede no sofrimento em geral e no sofrimento da carne, em particular”, diz Castellucci.
Diante da tentativa abortada dos integristas católicos de impedir na Justiça as apresentações em Paris, formou-se um « Comitê de apoio à liberdade de representação do espetáculo de Romeo Castellucci » que publicou em página inteira de vários jornais um texto de defesa da liberdade de expressão, assinado pela fina flor dos intelectuais parisienses.
A peça de Romeo Castellucci começou sua carreira em Essen, na Alemanha, no Festival Theatre des Welt, 2010, o mais importante festival de teatro do país. Antes de estrear em Paris, onde foi vista por 8100 pessoas em duas semanas, "Sobre o conceito do rosto do filho de Deus" tinha sido apresentada com sucesso e sob protestos de católicos integristas no Festival de Teatro de Avignon, na França, em julho deste ano.
Antes da França, a peça já fizera uma carreira de sucesso na Alemanha, Bélgica, Noruega, Inglaterra, Espanha, Rússia, Holanda, Grécia, Suíça, Itália e Polônia. Em nenhum desses países houve qualquer tentativa de impedir a representação como aconteceu em Paris e em Avignon, uma prova de que os católicos integristas franceses são muito mais integristas que os da Itália e mesmo da Espanha. Não é de admirar no país que produziu o reacionaríssimo Monsenhor Lefebvre, que se opôs ao concílio Vaticano II e foi excomungado por Roma.
No final da temporada parisiense, dia 6 de novembro, a peça prosseguiu sua carreira em Munique, no Spielart Festival, dias 24 e 25 de novembro, no Münchner Kammerspiele ; em Villeneuve d'Asq,  29 et 30 de novembro ; em Milão, será vista de 24 a 28 de janeiro de 2012 ; em Antuérpia, de 1 a 5 de fevereiro de 2012. Em março, a peça volta à Itália e será apresentada em Casalecchio dias 17 e 18 de março.
Não há previsão de apresentações no Brasil.