sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Cesare Battisti

Por tudo que eu já tinha lido na imprensa francesa sobre o caso Battisti, nos últimos anos, tinha formado uma opinião: era um ex-guerrilheiro contra quem havia acusações não provadas e corria risco de vida se voltasse para a Itália, onde fora condenado à prisão perpétua (à revelia). A “doutrina Mitterrand” _ um compromisso verbal do ex-presidente, feito em 1985, previa que os ex-militantes de extrema esquerda que participaram de ações armadas na Itália (considerados terroristas) encontrariam asilo na França se renunciassem à luta armada _ foi ameaçada e Battisti fugiu para o Brasil.
Lendo na semana passada no Le Monde uma entrevista da escritora francesa Fred Vargas, uma das principais defensoras de Battisti, reforcei essa opinião. Ela disse, entre outras coisas: “Toda democracia pode conhecer derivas em momentos decisivos de sua história. Foi o caso da Justiça italiana durante os anos de chumbo, com mais de 4 mil processos contra a extrema-esquerda. Nenhum historiador sério pode dizer que esses processos foram todos regulares. Nenhum historiador pode negar a existência de torturas: no primeiro processo em que Battisti figurava, foram declarados treze casos de tortura. E nenhum desses torturados pronunciou o nome de Battisti”.
Segundo Fred Vargas, que foi ao Brasil defender o ex-guerrilheiro, Battisti que foi membro do grupo armado PAC (Proletários Armados pelo Comunismo) teve um primeiro processo na Itália, “onde nunca foi acusado dos quatro homicídios cometidos por seu grupo”.
Fred Vargas diz que nunca defendeu a luta armada mas defende Battisti porque seu processo foi irregular do início ao fim. Ela dá todos os detalhes dos vícios do processo.
Fred Vargas informa que o Conselho de Estado francês e a Corte europeia foram informados em 2005 da irregularidade dos mandados contra Battisti, o que tornava a extradição dele legalmente impossível. Mas essas cortes preferiram ignorar os fatos e conceder a extradição “baseadas em mandados irregulares”. A Justiça brasileira, segundo Vargas, teria feito um trabalho sério e declarado o processo viciado.
“Battisti é um exemplo dos desvios da justiça italiana naquela época: torturas – entre elas o suplício medieval que injeta água salgada no estômago – falsos mandados, advogados presos e militantes arrependidos sob pressão... O Brasil interrompeu essa lógica, que queria esquecer Battisti na prisão, com objetividade, sabedoria e coragem”.
Augusto Boal em seu belo discurso no Forum Social Mundial em Belém comentou a reação italiana à decisão da Justiça brasileira:
“O colonialismo italiano ofende a nossa soberania, ele tenta interferir nas decisões da nossa Justiça, como no caso da concessão de asilo a Cesare Battisti. Existe uma lei brasileira que proíbe a extradição de pessoas condenadas em seus países à pena de morte ou à prisão perpétua. É este o caso, é esta a lei! O ministro Tarso Genro apenas cumpriu a lei - a lei brasileira. O presidente Lula foi claro explicando aos italianos as sólidas bases da nossa decisão, mas parece que eles não entenderam, nem disso são capazes. Por quê?
A Itália, que foi o berço do fascismo e deveria ser também a sua sepultura, mostra agora que a ideologia colonialista ainda está viva e pretende anular decisões soberanas do Brasil, invadindo o nosso Judiciário e querendo nos ensinar a diplomacia da obediência e da submissão. Temos que repudiar essa ofensa e libertar o prisioneiro! »

Bethânia

Maria Bethânia cantou na Salle Pleyel.
Era terça-feira de carnaval mas nem se percebia.
Em Paris, carnaval é uma coisa distante, de cidades como Veneza, Rio e Dunquerque. Além de Nice, que também festeja a data.
A sala estava cheia e Bethânia, iluminada, como sempre. A voz e a presença mais bonita da música brasileira.
Chorei quando ela cantou “Cálice”.
Acabara de ler o livro de Carlos Eugênio Paz, um ex-guerrilheiro carioca, sobrevivente dos nossos anos de chumbo e autor do excelente “Viagem à luta armada-memórias da guerrilha”.
Chorei por todos os nossos guerrilheiros, jovens e idealistas, mortos na tortura ou em execuções sumárias.
Nosso cálice "de vinho tinto de sangue”.

Yves e Pierre

Os jornais do mundo inteiro fizeram matérias sobre o que se chamou “a venda do século”, o leilão da coleção Yves Saint Laurent-Pierre Bergé. O leilão organizado pela Christie’s no Grand Palais, onde os quadros e objetos ficaram exibidos por três dias, reproduzindo o ambiente em que Yves Saint Laurent viveu, foi um sucesso extraordinário graças à qualidade das peças da coleção mas também ao talento de comunicação de Pierre Bergé. O milionário é um mecenas de esquerda que ajudou a financiar a campanha de Ségolène Royal e um militante da causa gay que financia a fundo perdido a revista Têtu.
No fim da semana passada mais de 30 mil pessoas fizeram filas intermináveis para ver quadros, móveis, esculturas de mármore, bronzes e madeira que alcançaram preço recorde de 373 milhões de euros no leilão.
Pierre Bergé é o responsável pelo sucesso financeiro da marca YSL. Sem o sólido Bergé como administrador e businessman, o frágil e genial Yves não teria criado a marca mais emblemática da moda francesa do fim do século XX. Foram 50 anos de cumplicidade. Os dois se completavam na criação e na administração da marca YSL. Viviam em casas separadas desde 1976, depois de 18 anos de vida em comum, mas se falavam todos os dias. Yves era um angustiado. Bergé era seu fio-terra. Ele fala de Yves com grande ternura, um artista excepcional, de uma fragilidade psicológica conhecida de muitos. O grande estilista era fóbico, não gostava de viajar, não saía muito e vivia cercado de arte em seu apartamento parisiense e no palácio de Marrakesh, onde os dois costumavam receber, quando jovens, o jet set internacional.
Aos 78 anos, Pierre Bergé se desfaz da coleção de toda a vida do casal, doa algumas peças ao Louvre e guarda três objetos: o retrato de Yves pintado por Andy Warhol, um baixo relevo de Luiz XIV jovem e um pássaro africano em madeira, a primeira peça comprada pelos dois, em 1960.
A renda do leilão vai para a Fundação Pierre Bergé, para financiar a pesquisa médica, sobretudo contra a Aids.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Luta de classes na metrópole e além-mar

No país do carnaval os blocos saem às ruas e o povo samba.
Em Paris só se fala na crise.
Sarkozy convocou ontem rede nacional de TV para anunciar medidas (paliativas) para conter o vulcão social que se anuncia.
No dia 29 de janeiro houve uma greve geral com passeatas contra as diferentes reformas que o governo quer implantar (sobretudo na educação e na saúde), que levaram dois milhões de pessoas às ruas das principais cidades da França. Foi considerado o primeiro teste social de Sarkozy.
Ontem o presidente recebeu os patrões e os sindicatos e no fim do dia anunciou medidas sociais. Para os patrões, ele já tinha suprimido a “taxe professionnelle”, um imposto que pesa no custo das empresas. Com a supressão, o governo quer tentar manter as empresas francesas e estrangeiras em solo francês, preservando milhares de empregos que se evaporam todos os dias. Há anos, elas estão partindo para se instalar onde a mão de obra é mais barata. Ontem, Sarkozy anunciou medidas que não satisfazem a nenhum dos grandes sindicatos de trabalhadores. O governo se negou a aumentar o salário mínimo como pediam os sindicatos.
Agora mesmo, acaba de passar pelo Boulevard Raspail uma enorme passeata de professores e pesquisadores do ensino superior para protestar contra a reforma das universidades.
No próximo dia 19 de março haverá mais uma greve geral, outro dia nacional de protestos contra as reformas dos hospitais, das escolas, das universidades. Continua a queda de braços entre trabalhadores de um lado, governo e patrões do outro.
Em Guadalupe e Martinica, Départements d’Outre Mer (DOM), os trabalhadores em greve pedem aumento de salário e preços mais baratos para os artigos de primeira necessidade. A greve geral já dura um mês com paralisação total de serviços, indústria e comércio. Ontem, em Guadalupe cada vez mais mobilizada, um sindicalista foi morto e vários carros foram incendiados.
O bloco dos trabalhadores continuará a desfilar em protesto contra os efeitos nefastos da crise que só traz para eles desemprego e (mais) privação.
Estes blocos que desfilam sem samba enredo e sem batucada são a versão século XXI da luta de classes, que o neoliberalismo tentou transformar em coisa superada, do passado.


Novo partido anticapitalista (NPA)


Esse é o nome provisório do novo partido do carteiro Olivier Besancenot, que já foi candidato à presidência da França pela Liga Comunista Revolucionária (LCR), em 2002 e em 2007, e foi apontado por uma pesquisa recente como o melhor candidato da esquerda para enfrentar Sarkozy, superando a atual dirigente do Partido Socialista, Martine Aubry.
Besancenot acaba de fundar o Novo partido anticapitalista (NPA), que nasce das cinzas da LCR, de orientação trotskista. Na pesquisa feita com mil pessoas, Besancenot obteve 23% dos votos como melhor candidato para derrotar Sarkozy em 2012, seguido da socialista Martine Aubry, com 13%. Ségolène Royal, também do Partido Socialista, e François Bayrou, do centrista MoDEM, ficaram com ¬6% cada um.
Quanto às alianças de partidos de esquerda para enfrentar a direita nas eleições européias deste ano e nas eleições regionais de 2010, 22% dos eleitores ouvidos pela pesquisa pensam que o Partido Socialista deveria se aliar aos outros partidos de esquerda, inclusive o NPA.
Besancenot, um jovem carismático e um orador articulado, teve 4,25% dos votos na eleição presidencial de 2002, a fatídica, que levou Le Pen ao segundo turno, contra Chirac, deixando Lionel Jospin fora da disputa. O resultado de Besancenot em 2007 foi mais do dobro da percentagem obtiva pelo Partido Comunista francês, que não para de minguar.
O trotskismo se moderniza e conquista novos adeptos, cansados das concessões dos partidos da esquerda social-democrata.

Religião : barbárie ou civilização?

A revista Foreign Policy colocou-o em quinto lugar numa lista dos 100 intelectuais mais influentes do planeta.
Ele é categórico: as religiões são a pior invenção do homem.
Estrela da revista Vanity Fair, Christopher Hitchens é um jornalista inglês, naturalizado americano, que escreveu um livro de combate publicado há quase dois anos nos Estados Unidos, e traduzido agora em francês : “Deus não é grande: como a religião envenena tudo”.
Quando se vê a intolerância da maioria das religiões e a manipulação que, em nome de Deus, religiosos de todas as origens podem exercer sobre os povos, em todos os pontos do planeta, em todas as épocas da história do homem sobre a terra, devemos nos perguntar se a religião pesa mais na balança do lado da barbárie ou da civilização.
Ontem li no Le Monde que uma região do Paquistão trocou a promessa de paz pela instauração da chariá, a lei islâmica, num acordo com chefes talibãs do oeste do país, no vale de Swat. Mulheres lapidadas, meninas proibidas de frequentarem a escola, casamentos forçados são o lote que vem no pacote dessa paz negociada contra a chariá.
E o que dizer dos papas torturando e matando “hereges” durante a Inquisição, em nome de Deus? E do judaísmo que levanta a bandeira do “grande Israel”, para anexar terras ocupadas por palestinos, mas, na realidade, pertencentes aos judeus pois “herdadas” diretamente de Deus pelos ancestrais dos israelenses ?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Sarcosina

Pesquisadores americanos descobriram que a presença na urina de uma substância chamada sarcosina pode ajudar a diagnosticar formas agressivas de câncer da próstata. A descoberta da importância da sarcosina na detecção desse tipo de câncer foi publicada esta semana pela revista científica “Nature”.
Os níveis de sarcosina eram elevados em 79% das amostras de câncer da próstata com metástase e em 42% dos cânceres em estágio inicial. Nos casos de pacientes sem câncer, a sarcosina não foi detectada.
Na França, a sarcosina ainda não foi detectada nem estudada.
Mas a sarkozite, uma doença que ameaça os hospitais, as escolas e as universidades públicas, já está sendo combatida com greves e passeatas por todo o país.


Centenários


Uma reportagem informa que os centenários franceses serão 150 mil em 2050. No Japão, o campeão mundial de longevidade, na mesma época, eles serão perto de um milhão.
Na França, homens e mulheres (muito mais mulheres que homens) de mais de 100 anos eram em torno de cem em 1900 e chegavam a vinte mil em 2008. Segundo os cientistas, a metade das meninas nascidas no ano 2000 atingirá a idade de cem anos.
Muda o perfil da população e mudará necessariamente a vida econômica dos países com uma grande população de idosos. Haja empregos e jovens para trabalharem e garantirem a aposentadoria dos que viverão tanto tempo !

Antissemitismo, a intolerável chantagem

Esse é o título de um livro que traduzi para o português, do francês, em 2004, para a editora Anima. O sub-título do livro é “Israel-Palestina, um “affaire” francês?” Todos os autores dos textos são judeus franceses, exceto Judith Butler, a filósofa americana, e Michel Warxchawski, o sociólogo militante israelense. No livro, nove intelectuais (Etienne Balibar, Rony Brauman entre outros) denunciam a campanha feita pelo governo israelense de denunciar como antissemitismo qualquer crítica ao governo e à política de Israel e qualquer tomada de posição pró-Palestina.
Será que hoje eu também teria de evitar falar do Oriente Médio para não ser acusada de antissemita? Porque é essa a acusação implícita na pergunta de um leitor do meu blog, psicanalista judeu brasileiro, que me escreveu perguntando :
Leneide: SE OS JUDEUS INEXISTÍSSIMOS (sic), E NÃO FÔSSEMOS O ÚNICO POVO FILHO-DA-PUTA, QUAL SERIA SEU ASSUNTO?
Respondi a ele: “Na sua opinião, defender a Justiça e aderir a uma causa mais que justa (a do Estado palestino) é ser contra os judeus? Criticar a ideologia nazista entre 1933 e 1945 era ser contra o povo alemão?
Você deve ter ouvido falar de Avrham Burg, ex-presidente da Knesset que escreveu o livro "Vaincre Hitler" (que tenho e li). Ele teve de mudar o nome do livro pois queria intitulá-lo "Hitler a vaincu". O livro é um grito de desespero. Burg desistiu de Israel e veio morar em Paris.
Defender Israel hoje é um equívoco. Estou do lado de pessoas como Michel Warshawski (o filho do rabino Meir Warschawski, de quem falei outro dia num texto) cujos livros li e cujos textos leio toda semana em Paris. Ele tem um site de informação alternativa que vale a pena ler para ter outras informações que não a propaganda de Estado (Alternative Information Center).
Estou do mesmo lado de outros judeus anti-colonialistas que defendem a Justiça e a equidade sem espírito clânico. Como Ilan Pappe, que denunciou a limpeza étnica realizada a partir de 1948 por Israel no seu livro “Le nettoyage éthnique de la Palestine” (Ed. Fayard, 2008).
Para não ferir o seu sionismo, tirei-o do meu mailing”. Leneide

Mas como, felizmente, nem tudo é intolerância e espírito de clã, retranscrevo o e-mail de uma psicanalista (também de origem judaica) que me escreveu a propósito das minhas notas postadas recentemente: “Por falta de tempo ou de delicadeza, nunca te escrevo para dizer como são bons seus "bilhetes de Paris". Como o de hoje está excepcional, tomei um minuto de tempo e de vergonha na cara para te cumprimentar. Chapeau! »
É sempre bom saber que há pessoas que não se deixam contaminar pela propaganda oficial nem pelo racismo de Estado que permite a defesa aberta da limpeza étnica feita por esse partido fascista chamado “Israel nossa casa”.
Para terminar, transcrevo uma frase de um texto de Saramago chamado “Das pedras de Davi aos tanques de Golias” : “Israel quer que nos sintamos culpados, todos nós, direta ou indiretamente, pelos horrores do Holocausto, Israel quer que renunciemos ao mais elementar juízo crítico e nos transformemos em dócil eco da sua vontade, Israel quer que reconheçamos de jure o que para eles já é um exercício de fato: a impunidade absoluta. Do ponto de vista dos judeus, Israel não poderá nunca ser submetido a julgamento, uma vez que foi torturado e queimado em Auschwitz”.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Puisque nous sommes nés

É política e é arte o cinema de Jean-Pierre Duret e Andrea Santana, um casal de documentaristas (ele francês, ela brasileira) que criou uma linguagem própria ao contar histórias a partir dos diálogos e das imagens da vida real de seus personagens, colhidos por uma câmera discreta e respeitosa, no cotidiano de alguns dos mais pobres nordestinos.
“Puisque nous sommes nés” se passa em São Caetano, em Pernambuco, e é o terceiro filme que os cineastas fizeram no nordeste brasileiro. O documentário estreou na quarta-feira, 4 de fevereiro, em seis cinemas parisienses e diversos cinemas de toda a França, com grande cobertura na imprensa graças ao patrocínio de um padrinho de peso, o ator Jamel Debbouze, que resolveu co-produzir o filme ao descobri-lo já em fase de montagem. Até o telejornal mais visto do país falou do documentário esta semana.
Os críticos do “Le Monde” e do “Libération” não pouparam elogios ao filme que em 1h30 através de dois meninos pernambucanos, Nego e Cocada, nos mostra um microcosmo da miséria que é brasileira mas é também universal. Duret e Santana revelam a força que pode ter o documentário sem texto e sem a intenção de induzir o espectador nos caminhos de uma tese. Os personagens conversam entre eles enquanto a câmera os segue, mostrando o ambiente de miséria, não desprovida de dignidade, dos marginalizados que se recusam, como os dois adolescentes Nego e Cocada, a se tornarem “marginais” no sentido policial do termo.
Como nos dois documentários anteriores “Le rêve de São Paulo” (2004) e “Romances de terre et d’eau” (2002), as imagens são de tal forma fortes e eloqüentes que valem mais que mil discursos políticos de denúncia da exclusão.
Duret explica que seu filme conta uma história universal de dois meninos que procuram um lugar num mundo de adultos e sabem que onde nasceram não existe futuro. “O surpreendente e emocionante em Nego e Cocada é a energia que eles gastam para escapar ao seus destinos”, resume o cineasta.
Imperdível.

Je veux voir

Catherine Deneuve é ela mesma, a atriz feita de inteligência e sensibilidade, sempre bela, no documentário “Je veux voir”, de Joana Hadjithomas e Khalil Joreige. Deneuve emprestou seu nome e sua presença, generosamente, a um filme que mostra o Líbano devastado pelas bombas israelenses contra o Hezbollah, em 2006. E no qual ela se desloca como espectadora de cenas de pós-guerra.
O filme começa com a atriz dizendo que aceita o convite dos cineastas de ir ver o resultado da guerra. A destruição é mostrada pela câmera enquanto a atriz percorre estradas num carro com o ator libanês Rabih Mroué: aldeias destruídas e abandonadas pelo êxodo de populações, arames farpados separando a fronteira do sul do Líbano do norte Israel. O pós-guerra é mostrado em imagens de destruição enquanto vemos os olhos de Deneuve descobrir, ao mesmo tempo que os cineastas, um país devastado. A atriz quase não fala. Ela olha. Ela quer ver.
“Eu sabia pouca coisa, apenas que íamos ao Sul até a fronteira. Quando eu digo “bom dia” a Rabih no filme pela primeira vez era realmente a primeira vez que nos víamos. O que acontece no carro e durante a viagem não estava escrito”, contou Deneuve.
Evitando a narração, os cineastas optam pela sobriedade e pelo silêncio.
Um documentário feito de imagens fortes de um país recém- saído da guerra e de uma presença como a de Deneuve só pode resultar num filme excelente.

Picasso 24h

O Grand Palais inaugurou um horário novo na exposição “Picasso et les maîtres” que foi vista por 750 mil pessoas.
Neste último fim de semana, o museu ficou aberto 48 horas seguidas. Nem as temperaturas abaixo de zero desanimaram os visitantes que fizeram filas enormes num frio siberiano. Como a carteira de jornalista me dá direito de não fazer fila (além de não pagar) voltei ao Grand Palais no sábado depois do teatro, desta vez com meu marido que ainda não vira a exposição. Saímos do museu depois de meia noite e a fila não parava de crescer. Na saída das boates, Picasso foi o programa dos jovens que não queriam se arriscar a perder uma das maiores exposições dos últimos anos.
Inaugurada no ano passado, a exposição reuniu 210 obras de Picasso além de quadros de Manet, Velasquez, Goya, Rembrandt, Zubarán, El Grecco e Ingres entre outros mestres do genial espanhol.
Na minha primeira ida à exposição Picasso em dezembro dei de cara com Fernando Henrique Cardoso, que seguia um casal de amigos. Ele entrava e eu saía. Nenhum dos fãs de Picasso sabia que por ali passava o “príncipe dos sociólogos brasileiros”, responsável pela venda de empresas nacionais no carnaval das privatizações.
Única pessoa a saber quem era aquele personagem anônimo, além de minha filha que me chamou a atenção, tive vontade de tomar um alka-seltzer para me curar da azia que tomou conta de mim.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Greve geral

Sarkozy constatou esta semana que a França é um país difícil de governar. Quase dois anos depois da posse, o presidente lembrou que os franceses são um povo regicida : protesta, manifesta e, depois de derrubar a Bastilha, corta a cabeça do rei. Ele deve estar com as barbas de molho.
Escrevo os bilhetes enquanto acompanho pelo rádio e pela TV o movimento de greve geral que parou hoje (quinta) Paris e dezenas de cidades francesas para dizer “basta” ao governo. Sem trem, sem metrô, sem escolas, sem universidades e os principais serviços públicos funcionando no mínimo estipulado por lei em caso de greve (service minimum) Paris viveu um dia atípico.
Professores, pesquisadores, médicos e enfermeiros, estudantes, jornalistas e todos os franceses que vêm no programa de reformas de Sarkozy uma ameaça ao serviço público em geral e ao emprego e poder aquisitivo foram às ruas dizer que as reformas estão piorando a vida de todos e que o povo quer manter o sistema francês de educação e de saúde, um dos melhores e mais democráticos do mundo. Os líderes sindicais e os políticos da oposição se juntaram à multidão que em Paris desfilou da Bastilha até Opéra.
Os policiais, que normalmente são mobilizados apenas para proteger os bens públicos e privados na passagem das passeatas, hoje desceram às ruas para se juntar aos manifestantes. Eles gritavam slogans como “Du fric pour les flics, du blé pour les poulets”. As duas frases querem dizer a mesma coisa : « Grana para os flics” (policiais na gíria). “Blé” é outra palavra de gíria para dinheiro e “poulet” é também policial na gíria. Eles defendem, entre outras coisas, revalorização dos salários e manutenção da aposentadoria depois de 37,7 anos de cotização. Além disso, os policiais protestavam contra a supressão de 10 mil vagas.
Os flics que normalmente olham tranquilamente os manifestantes passar, super-protegidos por coletes à prova de bala e todo o arsenal moderno anti-rebelião, como no sábado passado na passeata pró-Palestina, dessa vez se juntaram aos descontentes.
Algo começa a mudar na Sarlolândia.

Tirem o nome do meu avô de Yad Vashem

Esse é o título do artigo que o Le Monde publicou no jornal de ontem. O escritor Jean-Moïse Braitberg escreveu uma carta aberta ao presidente de Israel em que pede que o nome de seu avô, morto na câmara de gaz de Treblinka, seja retirado do memorial às vítimas do holocausto, em Israel. Traduzo alguns trechos: “Eu lhe peço para atender ao meu pedido, senhor presidente, porque o que aconteceu em Gaza e de uma maneira geral o que acontece ao povo árabe da Palestina há sessenta anos desqualifica a meus olhos Israel como o centro de memória do mal feito aos judeus e à humanidade inteira."... “Aprendi que era preciso que esses crimes cometidos (pelos nazistas) não recomeçassem, que nunca mais um homem por causa de sua etnia ou religião fosse levado a desprezar os outros, a oprimi-lo nos direitos mais elementares que são uma vida digna e segura.”... “Ora, senhor presidente, observo que apesar de dezenas de resoluções tomadas pela comunidade internacional, apesar da evidência gritante da injustiça feita ao povo palestino desde 1948, apesar da esperança de Oslo e apesar do reconhecimento do direito dos judeus israelenses a viverem na paz e na segurança, diversas vezes reafirmadas pela Autoridade Palestina, as únicas respostas dos governos sucessivos de seu país foram a violência, o sangue, o enclausuramento, os controles em check-points, a colonização e as espoliações.” ... “O senhor dirige um país que pretende não somente representar a totalidade dos judeus mas também a memória dos que foram vítimas do nazismo. E é isto que me diz respeito e me parece insuportável. Conservando no memorial de Yad Vashem, no coração do Estado judaico, o nome dos meus próximos, seu Estado retém prisioneira minha memória familiar por trás de arames farpados do sionismo fazendo-a refém de uma pretensa autoridade moral que comete a cada dia essa abominação que é a negação da justiça. Assim, por favor, retire o nome do meu avô do santuário dedicado à crueldade feita aos judeus para que ele não justifique a que é feita aos palestinos”.
Jean-Moïse Braitberg entrou para a minha lista dos homens justos.

Filho do rabino e militante pela paz

Conheço e acompanho o trabalho de Michel Warschawski há alguns anos. Ele é filho do grande rabino de Strasburgo, na França, Meir Warschawski, falecido recentemente. Seu pai fez parte da resistência ao ocupante alemão durante a segunda guerra mundial.
Enviado a Israel para fazer estudos talmúdicos, Michel se deparou com a realidade cruel da ocupação por Israel dos territórios palestinos. “Fazer parte dos ocupantes, numa posição que me colocava acima do outro, isso contradizia toda minha educação. Vivi essa situação como um atentado à minha integridade. Toda minha infância ouvi os relatos da ocupação alemã. Esse conceito representava para mim a quitessência do mal absoluto: a repressão, o racismo, as humilhações, o perigo permanente”.
Warschawski criou em 1984 o Alternative Information Center (Centre d’information alternative) que reúne vários movimentos pacifistas israelenses e organizações palestinas. Foi preso em Israel por distribuir textos relativos à organização palestina Frente Popular de Libertação da Palestina, de Georges Habache.
O último livro de Warschawski “Programar o desastre-a política israelense em ação” publicado no ano passado em Paris (La Fabrique-Editions) traça um retrato sem retoques do estado de guerra permanente do Oriente Médio e desmonta um a um os argumentos falaciosos repetidos exaustivamente pela propaganda oficial de Israel no mundo inteiro. Segundo Warschawski, a “guerra preventiva permanente” pregada pelos neo-conservadores que dominaram o governo dos Estados Unidos durante oito anos só levou ao desastre.
Warschawski desfaz mitos : “Contrariamente a uma imagem largamente difundida, o Hamas não é um grupo de fanáticos (seria um estereótipo racista?) mas uma organização política moderada, tanto em política externa quanto na política interna. As numerosas cidades dirigidas pelo Hamas são modelos de gestão eficaz e sem corrupção, comparadas com as que o Fatah dirigiu”.
Mas Israel e os americanos estigmatizaram o Hamas como grupo terrorista, mesmo depois que o partido islâmico submeteu-se ao jogo democrático e ganhou as eleições na faixa de Gaza, acompanhadas por observadores internacionais que constataram a normalidade do processo.
Em seu último artigo no jornal Siné Hebdo, Michel Warschawski escreveu que os pacifistas que saíram às ruas em Israel para exigir o fim do massacre em Gaza e o julgamento de Israel por crimes de guerra diante de uma corte internacional nunca se sentiram tão ameaçados e inseguros.

A “única democracia do Oriente Médio”: um apartheid modelo

Outro dia num encontro sobre Israel-Palestina ouvi o deputado europeu Daniel Cohn-Bendit repetir a frase que faz parte da propaganda oficial: “Israel é a única democracia do Oriente Médio”. Contando isso a uma socióloga e historiadora francesa de origem judaica, autora de mais de uma dezena de ensaios e romances, Régine Robin, observei que uma organização de defesa de direitos humanos israelense denunciou em Paris as leis discriminatórias que fazem dos árabes israelenses cidadãos de segunda classe, sem os mesmos direitos dos judeus. A historiadora observou com fina ironia: “Esse é um conceito singular de democracia com apartheid”.
Quando Régine Robin visitou Israel pela segunda vez foi a um mercado árabe de uma cidade ocupada. Ela conta que viu no olhar de um velho árabe o medo e a humilhação que só vira durante a ocupação alemã em Paris. Na época, ainda criança, Régine foi obrigada a usar a estrela amarela dos judeus.
Mudam os tempos, mudam os carrascos, mudam as vítimas.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Israel-Palestina, metonímia do mundo

Recém-chegado de Israel-Palestina, o filósofo Alain Badiou usou esta semana uma hora de seu seminário na École Normale Supérieure para analisar o Oriente Médio. Ele visitou, entre outras cidades, Jerusalém, Ramallah, Tel-Aviv e Naplouse. O seminário de Badiou, aberto ao público, é freqüentado por mais de 300 pessoas, na Normale Sup da Rue d’Ulm.
Badiou deixou a alegoria da caverna para a segunda metade de sua palestra e na primeira hora trocou Platão por uma aula de filosofia política e do papel do Estado tal como é encarnado por Israel e pela ausência dele do lado palestino. A guerra que acabamos de ver nos jornais e na TV não era exatamente uma guerra, segundo a análise de Badiou. “Foi algo comparável à Comuna de Paris ou ao gueto de Varsóvia: era a tomada de uma cidade por um exército moderno”.
Numa região como a Cisjordânia onde todo trajeto é problemático, pode-se levar uma hora para ir de um lugar a outro que fica a 200 metros, devido aos inúmeros check-points. Para o filósofo, Israel-Palestina é uma metonímia de todos os problemas do mundo, um microcosmo onde se apresenta a totalidade dos problemas do planeta. “A tese dos dois Estados é sem futuro. Quanto mais houver separação, mais haverá violência”.
Pelo interesse com que Badiou analisa o Oriente Médio, não deve tardar um livro explicando a metonímia que Israel e Palestina encarnam.

Daniel Cohn-Bendit em Paris: “Libertem Bargouti”

Na segunda-feira, dia 19, poucas horas depois da trégua entre Israel e o Hamas, realizava-se em Paris, no Théâtre de la Porte Saint-Martin, uma reunião pública convocada dias antes através de anúncios nos jornais. O encontro continha um apelo urgente no título: “Israel-Palestine - Halte aux tueries! Faisons vraiment le choix de la paix” (Parem a matança ! Façamos realmente a escolha da paz). Quem organizou o debate foi a revista semanal “Marianne”. Num país que começa a se transformar em sarkolândia, “Marianne” se tornou uma leitura obrigatória pela vigilância crítica e impertinência em relação ao poder, num panorama midiático largamente cooptado pelo sarkozismo.
O que me levou à reunião foi a presença entre os oradores do deputado europeu Daniel Cohn-Bendit (um ícone de Maio de 1968) e do escritor palestino Elias Sanbar, representante de seu povo na Unesco, além do representante do movimento “Paz Agora”, vindo de Israel, Yariv Oppenheimer.
Cohn-Bendit começou com uma declaração identitária, que ele diz evitar sempre. Se disse judeu mas afirmou que nunca foi nem sionista nem anti-sionista. Ele se considera a-sionista e fez a opção de viver na diáspora, isto é, de não emigrar para o Estado de Israel. “Se Israel se retirar da Cisjordânia e o Estado palestino for criado estarei lá para defender Israel e defender a Palestina”, disse o ex-enfant terrible de Maio de 68.
“É preciso libertar Marouan Barghouti”, lançou Cohn-Bendit. “A Palestina democrática precisa ser criada, é preciso que seja dada aos palestinos a possibilidade de construir a democracia sem os integristas do Hamas”.
Para quem não sabe, o palestino Barghouti está preso em Israel desde 2002, quando foi capturado e condenado em 2004 a 40 anos de prisão por um tribunal civil por “assassinatos e tentativas de assassinatos em atos terroristas”. Graças à repercusão internacional do processo, Barghouti teve direito a ser julgado pela justiça civil, ao contrário dos outros palestinos resistentes, julgados em tribunais militares israelenses.
Nascido em Haifa em 1947, Elias Sanbar tinha um ano quando sua família foi expulsa da Palestina depois da criação do Estado de Israel. Viveu no Líbano e hoje mora em Paris onde criou a “Revista de estudos palestinos”. Sanbar informou que a ONG israelense Bet’Selem, de defesa dos direitos humanos, recorreu à Procuradoria Geral de Israel para denunciar que “Israel cometeu crimes de guerra nessa invasão de Gaza”. ***
“A investida contra alvos civis é condenável, não importa quem seja o agressor nem o alvo”, disse Sanbar.
Não é bem essa a opinião do grande rabino da França, Gilles Bernheim. Em plena guerra, ele declarou ao jornal "Libération": "A única preocupação do exército israelense é preservar, com amor e coragem, a idéia de humanidade e de liberdade para todos os homens" (sic).

Justiça e Paz

“A paz é fruto da Justiça”.
Como uma profissão de fé, a frase está escrita no cartão de visitas do prêmio Nobel da Paz de 1980, Adolfo Pérez Esquivel, que encontrei recentemente em Paris, num colóquio sobre a tortura na Argentina. Esquivel é o fundador da “Fundación Servicio Paz Y Justicia” e um militante da paz.
Fala-se muito de paz quando se faz a guerra. Depois que os tanques de Israel se retiraram de Gaza, voltou-se a falar de paz, de negociações de paz, de um Estado Palestino. Faz 60 anos que a comunidade internacional, Israel e os representantes dos palestinos debatem a criação do Estado palestino. Por que ele nunca saiu do papel?
Agora que os tanques deixaram Gaza, diversos organismos internacionais vão iniciar procedimentos jurídicos para provar a tese de crimes de guerra cometidos por Israel. Esta é a nova fase de uma guerra diferente, de palavras e argumentos nem sempre isentos, na Justiça.
A ONG israelense de defesa dos direitos humanos Bet’Selem é uma das organizações mais ativas na denúncia de violação aos direitos humanos dos palestinos. Israel, como a quase totalidade dos países árabes não assinou o tratado que criava a Corte Penal Internacional, que passou a vigorar em julho de 2002. Essa corte é a primeira instância judiciária permanente que julga os crimes mais graves cometidos durante conflitos armados – crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio.
“O que faz a paz naufragar é o sentimento dos palestinos de que a Justiça não funciona para eles”, diz o escritor e poeta palestino Elias Sanbar.

*** As convenções de Genebra de 1949 e seus protocolos adicionais de 1977 codificam as regras do direito nos conflitos armados. Segundo o estatuto da Corte penal internacional, o crime de guerra que é uma violação dessas regras, se caracteriza entre outras coisas por ataques deliberados:
• Contra a população civil em geral ou contra civis que não tomam parte direta nas hostilidades
• Contra bens civis que não são objetivos militares sabendo que esses ataques causarão eventualmente perdas de vidas humanas na população civil, ferimentos em civis ou danos em bens de caráter civil, ou ainda danos excessivos, duráveis e graves ao meio ambiente, que seriam excessivos em relação ao conjunto da vantagem militar concreta e direta esperada

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Israel fez limpeza étnica

Ilan Pappe faz parte de um grupo de novos historiadores israelenses que nadam contra a corrente da historiografia oficial. Por desmontar uma série de mitos, Ilan Pappe se tornou persona non grata em Israel e teve de deixar seu país para fugir às hostilidades de que se tornou vítima por suas críticas à ideologia sionista. Hoje Ilan Pappe é professor na Inglaterra.
O último livro do historiador saiu em 2008 na França e o título já desmente o mito fundador do Estado de Israel: o de que os palestinos deixaram voluntariamente suas aldeias com a chegada dos judeus da Europa. No livro “Le nettoyage ethnique de la Palestine” (A limpeza étnica da Palestina, editora Fayard, 2008) Pappe escreve que antes, durante e depois de 1948, os judeus executaram um plano deliberado e sistemático de expulsão de palestinos, cujo objetivo confesso era “purificar” etnicamente o território onde nascia o Estado de Israel. Sua obra detalha dia-a-dia como, desde que foi anunciada a divisão do território em um Estado palestino e um Estado judaico, os dirigentes do futuro Estado judaico passaram à concretização do sonho sionista: criar um Estado exclusivamente judaico, livre da maior parte dos habitantes palestinos.
O historiador prova com documentos de arquivos e testemunhos de sobreviventes que o que a história oficial conta não passa de reconstrução mítica da verdadeira história: entre 1947 e 1949, mais de 800 mil palestinos foram expulsos de suas cidades e aldeias pelos sionistas, sob o olhar cúmplice dos britânicos e a incompetência das Nações Unidas. Esses milhares de palestinos, expulsos do território que se tornou Israel, vivem hoje em campos de refugiados e o Estado palestino previsto pela resolução 181 da ONU, a mesma que criava Israel, nunca foi criado.
O plano D (Daleth em hebraico) foi executado como uma planificação estratégica visando a criar um Estado exclusivamente judeu. Concebido em 10 de março de 1948, esse plano foi dirigido por David Ben Gurion e “selou o destino dos palestinos nos territórios que os dirigentes sionistas tinham decidido que se tornaria o futuro Estado judaico”, escreve Pappe. Ele conta uma reunião de trabalho decisiva quando o plano D foi definido, na qual foram sistematizados os ataques militares a todas as aldeias da Palestina, inclusive as que tinham comunicado aos sionistas que viveriam sob a soberania do futuro Estado de Israel. Isso aconteceu em vilarejos e cidades como Safed, onde populações árabes e judias tinham vivido em paz até a chegada dos sionistas na Palestina. “O que houve foi uma limpeza étnica”, escreve Pappe que dá numerosos detalhes inéditos sobre a violência exercida pelo exército judaico, pelo Haganah e por milícias de extrema-direita chamadas Irgoun e Stern.
Depois das guerras na ex-Iugoslávia, a limpeza étnica é crime que o direito internacional define hoje como “crime contra a humanidade”, constata o historiador, para quem a limpeza étnica prossegue na Palestina até hoje. Diante da ameaça demográfica que os palestinos representam aos olhos dos sionistas, o muro e a desocupação de Gaza foram pensados como medidas para garantir que o número de palestinos no território de Israel vai permanecer limitado.

Palestinos: a Cruz Vermelha sai de sua neutralidade

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR em francês) divulgou um comunicado (ver no site : www.cicr.org ) em que revela que foram encontradas quatro crianças com vida numa casa bombardeada pelos israelenses no bairro de Zeitoun, em Gaza. As crianças sobreviveram quatro dias ao lado de mães mortas e estavam tão fracas que não podiam se levantar pois permaneceram na casa desde o bombardeio no dia 3 de janeiro. O CICR e a Crescente Vermelho palestino somente obtiveram permissão das forças armadas israelenses para prestar socorro no dia 7 de janeiro. Na mesma casa, foram encontrados mais 12 pessoas mortas.
Em outro local, soldados israelenses proibiram que Cruz Vermelha e o Crescente Vermelho permanecessem numa outra casa para socorrer 15 sobreviventes, mas as equipes de socorro se recusaram a abandonar os feridos e os três mortos encontrados na casa. Além de não prestar socorro aos civis feridos, os militares israelenses tentam impedir que eles sejam socorridos. “Esse incidente é chocante”, declarou Pierre Wettach, chefe da delegação da Cruz Vermelha para Israel e territórios palestinos ocupados. “Os militares israelenses deviam estar a par da situação, mas não socorreram os feridos e nem deixaram que a Cruz Vermelha ou o Crescente Vermelho pudessem prestar ajuda”.
Em outros casos, as autoridades israelenses não confirmaram ao CICR a autorização solicitada para agir. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha acha que nesses casos o exército israelense não respeitou sua obrigação de prestar socorro aos feridos e evacuá-los, como prevê o direito internacional humanitário. O CICR protestou contra a demora para a permissão da entrada dos serviços de socorro.